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Amor

Poemas neste tema

Roberto Pontes

Roberto Pontes

A Que Saiu do Cântico dos Cânticos

A que sempre chega
Traz a fala morna e mansa
Sabe a prática lasciva do desejo.

Em seu corpo trigueiro vem o sol.
Está e não está na incerteza,
Mas tem do mormaço, sol a pino,
A magia da terra iridescente.

A que sempre chega
É o amor, o mito, vindo e partindo,
Aprisco e dor, mas feliz contentamento.

E são os ombros, são as ancas,
As virilhas, as nádegas sedosas,
Os pequeninos seios, o sexo mordente,
Os tesouros que só eu pude achar.

A que sempre chega
Escapou de um versículo do Cântico dos Cânticos
Enquanto Salomão se ocupava demais
Com a pastorinha Sulamita.

E até hoje ele a procura, desesperado,
Naquelas linhas.
Mas em vão. É muito tarde. Está comigo.

( In: jornal Diário do Povo. Teresina-PI, 27 abr. 1991)

702
Roberto Pontes

Roberto Pontes

O Tempo dos Amantes

Aos amantes tudo é permitido
pois dos seus atos nascem nobres rosas
e dos seus olhos brotam melodias
enquanto estrelas lá no céu passeiam.

O tempo dos amantes não se conta
pelos relógios exatos, impassíveis.
O seu registro é o ritmo de abraços
que o leve sopro do tremor embala.

Felizes são aqueles que, amantes,
dão-se de todo aos ritos do seu jogo
e amparam suas mágoas e desejos
na reciprocidade sacra dos seus ventres.

( In: revista Almenara. Londrina-PR, 1986 )

1 899
Roberto Pontes

Roberto Pontes

Quando Tua Pele

Quando tua pele de pêssego e veludo
entre tantos e lânguidos abraços
faz vibrar seus acordes de campina,
os pássaros estacam em seus vôos,
as folhas do limão se reverdecem,
as gotas se evaporam no espaço.
Suponho que no mapa dos amores
sempre que os nossos encontros acontecem
um novo marco acresce o número de beijos.
Sempre que o amor nos une no mistério
as horas são extrínsecas ao tempo,
não há manhã, nem tarde ou noite,
porque ignoramos ampulhetas e relógios.
Quando amamos feito dois duendes
o nosso amanhã é tão indiferente,
o que passou parece tão distante,
e o nosso agora tão definitivo
que faz lembrar nossa primeira lua.

( In: jornal Folha da Manhã. Teresina-PI, 1983 )

760
Roberto Pontes

Roberto Pontes

Epitáfio

Aqui jaz o amor um dia dito
só de beijos e flores viveria.
E não morreu por falta de sustento,
ardor e sonho, pois estes vivem sempre
ao jugo seco da crua existência.
Deixou de haver o sopro simples,
o desejo de ser o conivente,
o comparsa do outro na paixão
que a vida faz ruir devagarinho.
Quem esta morte de bom grado aceita
quer deixar escrito na memória,
na verdade indestrutível de um poema,
o seu perdão, o seu adeus,
o seu soturno desamparo ausente.

1 214
Paulo Augusto Rodrigues

Paulo Augusto Rodrigues

Orvalho

Os cabelos estão molhados
Escorrendo gotas,
Que deslizam, suavemente,
Como lágrimas.
Deixando límpidas marcas,
Na passagem,
Sobre a pele de mel.

Todo o corpo encharcado
Colando o desêjo,
No úmido trocar de carícias errantes,
Ao olhar penetrante,
Que disparam
Seus olhos macios.

A face revela a vontade.
Sua imagem reduz a paisagem
Ao contorno montanhoso do corpo.
Ao relêvo exato
De uma paixão constatada,
Sobre as gotas,
Que depois desta chuva,
Restou sobre a relva orvalhada.

890
Ribeiro Couto

Ribeiro Couto

Anjo de Outrora

O anjo de outrora, adormecido na minha alma,
Acordou esta noite e espiou nos meus olhos:
A lágrima caída ainda há pouco era dele.

Foi ele que a esqueceu à porta dos meus olhos,
Com o discreto pudor com que à porta da igreja
Deixamos cair a esmola na mão de um pobre.

1 098
Paulo Augusto Rodrigues

Paulo Augusto Rodrigues

Chave

Existe um lugar.
Além...

Muito além do alcance da visão,
Muito aquém de qualquer percepção.
Oculto,
Difuso as especulações.

Sob sombras fulgurantes,
Ruço úmido,
Impenetrante...
Esconde,
Os vultos das paixões.

A sede,
O desejo,
As vontades,
As hesitações.

A fagulha da explosão,
Guardada,
Fechada.

As portas da ternura,
Mantêm-se seguras,
Bloqueando.

Os vários ódios dos dilemas,
Insultando.

Sobre a mesa posta,
Com doçuras e carinhos,
Expõem-se gloriosa
A chave,

Do caminho.

866
Paulo Augusto Rodrigues

Paulo Augusto Rodrigues

Bicho

Hoje vive preso, trancado,
Atrás das cidades, inofensivo.
Existe apenas para lembrar-nos
Que um dia aquilo fomos nós.

A memória é como um zoológico
Isolando do mundo todo tipo de sentimentos animais
Que ainda não extinguimos.

Porém, o ritmo monótono e rápido da vida
Metralha, por aí, tudo que encontra
Matando espécies inteiras.

Resta o mêdo.
Que nunca durma o zelador.
Pois se assim for
Não existirá nenhuma lembrança real,
Viva.

Restará somente,
Fotos coloridas em livros desbotados
Mostrando a alma deste sentimento.
Desenhos a mão, esboços,
Num esforço de quem não sabe desenhar,
Num papel como este.

É essa a esperança,
Só depois de tudo acabado
Poderemos reconstruir.

Quando sofrer,
Rebusque a memória,
Numa jaula pequena, com a placa apagada,
Existe um bicho,
O mais indefeso.
Lá estava escrito...

Amor.

823
Rodrigues Lobo

Rodrigues Lobo

de A Primavera

já nasce o belo dia,Princípio do verão formoso e brando,Que com nova alegriaEstão denunciando As aves namoradasDos floridos raminhos penduradas.já abre a bela aurora,Com nova luz, as portas do oriente;E mostra a linda Flora O prado mais contente Vestido de boninas Aljofrado de gotas cristalinas. Já o sol mais formoso Está ferindo as águas prateadas;E zéfiro queixosoOra as mostra encrespadas À vista dos penedos, Ora sobre elas move os arvoredos.De reluzente areiaSe mostra mais formosa a rica praia,Cuja riba se arreiaDo álamo e da faia,Do freixo e do salgueiro,Do olmo, da aveleira, e do loureiro.já com rumor profundoNão soa o Lis nos montes seus vizinhos;Antes no claro fundoMostra os alvos seixinhos,E os peixes que nas veiasDeixam, tremendo, a sombra nas areias.já sem nuvens medonhasSe mostra o céu vestido de outras cores,já se ouvem as sanfonhasE flauta dos pastores Que vão guiando o gado Pela fragosa serra, e pelo prado.Já nas largas campinas,E nas verdes descidas dos outeiros,Ao som das sanfoninas,Cantam os ovelheiros,Enquanto os gados pascemAs mimosas ervinhas que renascem.Sobre a tenra verdura Agora os cabritinhos vão saltando,E sobre a fonte puraPassa a noite cantandoO rouxinol suaveCom saudoso acento agudo e grave.Diana mais formosa,Sem ventos, sobre as águas aparece, E faz que a noite irosa Tão clara resplandece À vista das estrelas,Que se envergonha o sol à vista delas.Tudo nesta mudança,Qual em sua esperança,Também de novo cobra novo estado;E qual em seu cuidadoAcha contentamento;Qual melhora na vida o pensamento.

1 463
Rita de Cássia

Rita de Cássia

Pessoa

São tantas as minhas pessoas,
Tão diversa a minha face...
Conhece meus disfarces?
São quaisquer coisas boas;
É, talvez, o que devasse
Assim como um rio sem canoas...

São tantos os meus versos,
E tão falsa a minha imagem...
Compreende a minha mensagem?
Entendo, através dos meus nexos,
Os caminhos sem passagem;
Eram, talvez, possessos...

Sou fingidora e lástima
Aos leitores que percebem:
Cada verso é uma máscara ...

487
Ricardo Madeira

Ricardo Madeira

O Mosteiro Abandonado

Murmúrios no vento...
Na mais alta montanha: mosteiro abandonado,
Perdido no tempo...

Neve (algodão?)
Cobre bela a paisagem (apenas imagem?)
Sob sol de Verão...

E ela chora, naquela janela aberta,
Aguardando, etérea, a altura certa:
Um só instante,
Tão distante...

Mas, um dia, o dia chegará,
Hora a hora, por essa hora esperará...

Um dia...
Talvez um dia...
E o vento trará nos braços alegria...

890
Ricardo Moraes Ferreira

Ricardo Moraes Ferreira

Soneto e Saudade

Jogai as flores com ternura
Sobre o jazigo de nosso passado
Amei-te com a inocente loucura
Daqueles que morrem sem ter pecado

Corri os verdes campos da esperança
Sob os olhos atentos do destino
De inocente - sorri quando criança
E de pirraça - fugi como um menino

Na fuga audaz passaram-se os anos
E a vida me volta num breve lampejo
Lamúrias cruéis de velhos enganos

Loucura fugaz de um novo desejo
Eu olho prá trás - cadê nossos planos?
As flores, o campo ; só tu que não vejo!

861
Ricardo Madeira

Ricardo Madeira

As Vozes da Noite

O Sol não nasce para os que amam,
A Lua, negra, não os pode consolar,
Uma a uma, apagam-se as estrelas,
Até não ficar nada para os iluminar.

Enterrados, numa sepultura sem nome,
Para sempre aprisionados no seu caixão,
Sentindo na língua o sabor dos vermes,
Os sonhos agora pregos no seu coração.

Espectros, vagueiam ainda sem destino,
Para sempre movidos pela perpétua dor,
Tentando libertar-se do que já perderam,
Sabendo que não há vida depois do amor.

"Morte..."
Desejo morto, a causa do seu sinistro pranto,
Direito negado aos seres do mais puro branco.

"Morte..."
Acariciando o silêncio, por um breve momento,
Um suspiro arrancado à pálida noite pelo vento.

867
Ricardo Madeira

Ricardo Madeira

Sempre

Falta de ar,
Perda de visão:
Sintomas da morte,
Arautos da Escuridão.

Sinos que tocam,
Prisioneiro de um caixão,
Mas... Então?!...
Porque ainda bate o meu coração?

And it kept pulsing beneath the Earth,
A crimson jewel underneath six feet of dirt,
Forever waiting an impossible rebirth...

875
Ricardo Madeira

Ricardo Madeira

Frio e Só

(COMO SEMPRE)

A criança alegre e divertida
Deixou de acreditar no Pai Natal,
As prendas na sua longa lista não foram recebidas,
E o fiel cão jaz espalmado na estrada.

O espelho mostra algo de errado,
O adolescente espreme da cara a borbulha,
Mas nada muda.
O reflexo não mente, falta algo na sua vida,
Certifica-se que ainda o tem entre as pernas
E deixa a barba crescer...
Não resulta...

Homem sem amigos,
Achados e perdidos,
Gastando tudo o que pode
(Não necessariamente por ordem alfabética)
Em bebida e mulheres.

O velho ainda não sabe o que é a vida,
Chora sobre cabelo caído
Enquanto coça os genitais
(Agora, lamentavelmente, só com função urinária),
Desejando...

A morte...
Autópsia, médicos
Procuram estupefactos no peito frio cadáver
Um músculo há muito atrofiado,
Que nunca bateu...

O nome na sepultura
Por nenhum dos nove filhos bastardos lembrado,
Deixado abandonado para apodrecer
Frio e só...
Como sempre...

816
Ricardo Moraes Ferreira

Ricardo Moraes Ferreira

Soneto em Sonho

Vivia um sonho em terras distantesUm
bosque viçoso que douro se enchia
Um céu de esmeralda espelhava o semblante
Da deusa Diana que em plumas dormia

Passeavas desfilando galhardias
Seduzindo a natureza esplendorosa
E a lua que outrora então dormia
Se oferece - nua, branca, indecorosa.

Raios brancos tosam nuvens espaçadas
Conduzindo à nau estrelas naufragadas
Qual um tolo te adoro e não reparo

Seus olhares que por mim tão distraídos
Belas flores em jardins imaginários,
Verdes olhos - firmamento esquecidos.

910
Reginaldo Leal

Reginaldo Leal

A Morte, pois me mostraram a vida

trago a morte não como farsa
mas farta, ufana.

Zela pelo meu segredo
distraída, necessária, apressada
indivisível, única,
derradeira como eu.

persegue não a mim
mas aos meus passos
pois sequer me espera.

não me cansa
doura-me juventude
soma o sol, meu sol
minha estrada inteira
deseja o meu amor
questiona o meu desejo
sorri com o meu erro.

corre a morte
em busca de mais uma aventura
me ama, me trai
pois tem a mim
seu próximo ato
seu amo, seu guerreiro
que atravessa a fantasia
que sorri de medo
e falta.

trago a morte, inteira
infinita como meu âmago
incontestável e indesejável
que não pernoita
apenas espreme o ego
inconfundível como eu mesmo
apagado, vivo e morto.

trago a morte
não por essência ou desespero
mas porque o tempo me conta
e não me exclui,
porque não me esconde a náusea
nem me põe o rancho da maldade.

a morte quer apenas
fluir meu contentamento
acender a estrada, via láctea.

a morte nunca me deixará sozinho
como se eu fosse a vida inteira
reservado, preparado para a sorte.

a morte não me dará vida
mas me esconderá

dos transeuntes, dos descaminhos
e não me postará por inveja
em quase todos que me vêem.

757
Renata Trocoli

Renata Trocoli

Teu Amor

Teu Amor

Como uma luz aquecida e suave
Senti teu amor chegando para me presentear.
Teus olhos transmitem carinho.
Tua boca me fala de mansinho
tudo que eu sempre quis escutar.
Tuas mãos me tocam com ternura,
meu rosto, meus cabelos, minhas mãos.
Teu doce beijo acaricia meus lábios
com teus olhos fixos aos meus.
Esse amor é novo e puro.
Chegou devagar, me conquistou com ternura.
Tu me envolves com teus abraços
apertados e amorosos.
E me enche de medo de perder-te ainda mais uma vez.
Perder teus carinhos,
teus olhares,
tua boca,
tuas palavras
e teu amor ...
Amor este que me renova a alma,
e me dá esperanças de viver alegre
e sonhando sempre com tua doce presença.
A vida nem sempre atende nossos pedidos
de amor e felicidade.
Mas peço com todo coração que ela me abençoe
com tua presença a meu lado sempre.
Me dando carinho e um amor tão puro
e doce que sentimentos juntos dentro de nossos corações.
Este amor vem de longe,
vem do alto e é benção dos céus.
É perfeito e verdadeiro,
é sentimento que não se sente por qualquer um,
que não brinca com o coração
mas que envolve a alma e o corpo
como brisa suave e morna que sopra do mar.

896
Rosani Abou Adal

Rosani Abou Adal

Passáro-Concorde

Trilhar caminhos e sentir teu cheiro
nas plantas, florestas, flores,
campos e no ar.
Voar o céu como um pássaro-concorde
e encontrar-te, passageiro
de minhas asas perdidas.
Navegar mares e oceanos
e avistar-te, comandante
deste barco sem
bússola.

846
Antero de Quental

Antero de Quental

Beatrice

Nem visao, nem real: amor! amor somente!...
Pois quem sabe o que diz esta palavra - amor - ?
Quando deixa cair no peito esta semente,
Diz o que ha-de brotar, acaso, o Deus-Senhor

Somente amor... Somente?! e pouco esta palavra? Duas silabas
so - em pouco um mundo esta -
Loucos! mas, quando o amor se expande, e cresce, e lavra,
Bem como incendio a arder, tao pouco inda sera?

Gota, que alaga o mundo! atomo, e apos, colosso!
Mas este nada ou mundo, a mim quem mo aqui pos!
Foi Deus! de Deus me vem... e a Deus medir nao posso:
E imenso o que vem dele... os nadas somos nos.

E o nada, que me abriu no peito e, feito imenso,
O encheu, bem como um vaso, abrindo, encheu a flor,
Ha-de alagar teu peito e ser do templo incenso...
Mulher! has-de escutar, que eu vou falar damor!

Falar damor?!... se ele e como uma essencia,
Que nos perfuma, sem se ver de donde...
Se ele e como o sorriso da inocencia,
Que inda se ignora e, pra sorrir, se esconde...

Se e o sonho das noites vaporoso,
Que anda no ar, sem que possamos ve-lo...
Se e a concha no oceano caprichoso,
Se e das ondas do mar ligeiro velo...

Se e suspiro, que oculto se descerra,
Se escuta, mas se ignora de que banda...
Se e estrela, que manda a luz a terra,
Sem se ver de que paramos a manda...

Se e sonho, que sonhamos acordado...
Suspiro, que soltamos sem senti-lo...
Sopro que vai dum lado a outro lado...
Sopro ou sonho, quem pode repeti-lo?

Falar do amor... do amor! o sempre-mudo!
Se e segredo entre dois, como dize-lo,
Sem divulga-lo, sem que o ouca tudo?
Se e misterio encoberto, como ve-lo?...

3 436
Antero de Quental

Antero de Quental

Intimidade

Quando, sorrindo, vais passando, e toda
Essa gente te mira cobicosa,
Es bela - e se te nao comparo a rosa,
E que a rosa, bem ves, passou de moda...

Anda-me as vezes a cabeca a roda,
Atras de ti tambem, flor caprichosa!
Nem pode haver, na multidao ruidosa,
Coisa mais linda, mais absurda e doida.

Mas e na intimidade e no segredo,
Quando tu coras e sorris a medo,
Que me apraz ver-te e que te adoro, flor!

E nao te quero nunca tanto (ouve isto)
Como quando por ti, por mim, por Cristo, Juras
- mentindo - que me tens amor...

2 434
Raniere Rodrigues dos Santos

Raniere Rodrigues dos Santos

Onde Estás?

Eu te amo,
Não sei se te amo.
Eu te desejo,
Não sei se te desejo.
Eu te conheço,
Não sei se te conheço.
Apenas sei que em algum momento
Estiveste perto de mim.

Isso demonstra o prcsente
E este talvez inexistente
Demonstra lembranças,
O passado, por sua vez, compensou,
Compensou meu coração inesquecivelmente.
Saudade, esta está
A te procurar
E vê que não há como encontrar
A não ser desencadear
E peregrinar
A procura
De onde estás.

797
Rosani Abou Adal

Rosani Abou Adal

Carência na Noite

Procurei-te por todos os cantos e bares.
Nas mesas vazias, nem sinal de tua sombra.
No céu, a estrela solitária.
O silêncio das ruas, a minha inquietude.
Do outro lado da calçada
ninguém me acompanha os passos.
Uma gata mia no cio,
abraça muros e portões
com unhas afiadas.
Os olhos verdes brilham
para encontrar aconchego
na próxima esquina, debaixo de um automóvel,
num casarão de luzes apagadas.
Brilham tanto que parecem
gerar sete gatinhos em cinco minutos.
Com passos lentos, caminho
seguindo teus rastros,
tuas marcas felinas invisíveis.
A calçada sem pegadas.
Em casa, um ombro amigo,
a coberta fria me aquece e me acolhe.
Sem vestes, abraço a espuma e durmo.

932
Reynaldo Valinho Alvarez

Reynaldo Valinho Alvarez

Canto Em Si

1
Não busco outro caminho, cedo a calma
A angústia de lavrar no mesmo chão.

A pétrea consistência deste solo
Não dissolve meu ânimo, enlouquece
O que dentro de mim mais alto grita.

Nesta lavoura, a mão é o instrumento
Com que se abrir a terra e pene trá-la
Para entregar-lhe o amor de um a semente
Exposta ao tempo, a fungos e carunchos.

No arado não se pense, o chão se fecha
Ao fio agudo e firme, assim a enxada
Também se parte contra o solo duro
E apenas resta a ponta de meus dedos
Para feri-lo, amá-lo e fecundá-lo.

A par o som arranca ao rijo solo
E nada mais, que à concha, em cada mão,
Feita de pele, carne, nervo e sangue,
Cabe a tarefa e sol de revolvê-lo,
Suada, escalavrada, enegrecida,
Porto em que a terra é nau posta em abrigo.

A estas leiras, labrego, me transporto
A cada madrugada e delas volto
Para comer, se existe, a cada noite,
O pão que elas não deram por ser bruto
O chão e fraca a mão que dele trata,
Mas que insiste em cuidá-lo, porque o grão
E causa, muito mais que conseqüência...

2
Cansei de andar em busca do destino
E tranqüilo retraço meu caminho.

Para curar melancolias fundas,
Há sempre mais um hausto que permite
Viver um pouco mais, se é isto vida.

Ouço ainda o ruído das batalhas
Terminadas. Vencidas ou perdidas,
Foram batalhas de uma guerra santa
Em que ao nascer acaso me alistassem.

Assim posso dar fé que a morte obscura
De quantos vão ficando no caminho,
Bem mais do que parece, ofusca o brilho
Das falsas aparências de vitória
Dos que falam mais alto e se confundem.

Confundem-se os que gritam, confundindo
Os que ouvem e não sabem que os caídos
Dizem mais no silêncio em que caíram,
Dizem mais e mais fundo, enquanto a voz
Oprimida e apagada fere o nervo
Exposto a golpes sempre repetidos.

Retraço no que posso meu caminho
Aberto pela quilha entre os sargaços
Imensos deste mar, ora parado,
Ora coberto de ondas pelo vento
Que sopra não de um ponto, mas de vários,
Para provar a força, não do braço,
Mas do ânimo que imprime rumo ao barco.

1 019