Vida
Poemas neste tema
Francisco Mallmann
V
esse é um exercício de morte
e vida esse é um exercício de
nascimento dentro e fora
do encerramento um
exercício de furar o tempo
esse é um exercício
de imaginar-me sem o
desgaste de ter que
me explicar porque eu
fernando na verdade
como já sabes sou essa
crueza tanto de perto
como de longe
e vida esse é um exercício de
nascimento dentro e fora
do encerramento um
exercício de furar o tempo
esse é um exercício
de imaginar-me sem o
desgaste de ter que
me explicar porque eu
fernando na verdade
como já sabes sou essa
crueza tanto de perto
como de longe
709
Odysséas Elýtis
O tempo é a sombra célere dos pássaros
Meus olhos escancarados em meio às suas imagens
Por sobre o verde ditoso das folhas
As borboletas vivem grandes peripécias
Entrementes a inocência
Despe sua última mentira
Doce doce peripécia
A Vida.
Por sobre o verde ditoso das folhas
As borboletas vivem grandes peripécias
Entrementes a inocência
Despe sua última mentira
Doce doce peripécia
A Vida.
831
Natasha Tinet
Não tem geometria
Não tem geometria que explique
o gosto das cinco horas da manhã
a tragédia das amoras
a geologia de uma íris
a fúria dos grânulos de areia
contra os teus pés.
o gosto das cinco horas da manhã
a tragédia das amoras
a geologia de uma íris
a fúria dos grânulos de areia
contra os teus pés.
636
Ruy Belo
Turismo
Eu vi morrer um homem e caminho
Vários motivos de morte e uma
agenda mas
almoço
Há mesas e cadeiras e passeios e
sabe-me
a café
Mistério de maresia ou de ningué
Ruy Belo | "Obra Poética de Ruy Belo" - Vol. 1, pág. 124 | Editorial Presença Lda., 1984
Vários motivos de morte e uma
agenda mas
almoço
Há mesas e cadeiras e passeios e
sabe-me
a café
Mistério de maresia ou de ningué
Ruy Belo | "Obra Poética de Ruy Belo" - Vol. 1, pág. 124 | Editorial Presença Lda., 1984
1 012
Ruy Belo
Percurso diário
Eu vou por este sol além
e ele é quotidiano até ao fim
como se até hoje ninguém
tivesse no sol e fora do sol também
morrido a morte por mim
Ruy Belo | "Obra Poética de Ruy Belo" - Vol. 1, pág. 50 | Editorial Presença Lda., 1984
e ele é quotidiano até ao fim
como se até hoje ninguém
tivesse no sol e fora do sol também
morrido a morte por mim
Ruy Belo | "Obra Poética de Ruy Belo" - Vol. 1, pág. 50 | Editorial Presença Lda., 1984
1 464
Ruy Belo
Cerimonial
Eu vou colhendo com unção os dias
conforme tu os confias
à minha mão:
leves vestes que enfio
quando me despe o coração.
Ruy Belo | "Obra Poética de Ruy Belo" - Vol. 1, pág. 36 | Editorial Presença Lda., 1984
conforme tu os confias
à minha mão:
leves vestes que enfio
quando me despe o coração.
Ruy Belo | "Obra Poética de Ruy Belo" - Vol. 1, pág. 36 | Editorial Presença Lda., 1984
1 271
Sophia de Mello Breyner Andresen
Paráfrase
«Antes ser na terra escravo de um escravo
Do que ser no outro mundo rei de todas as sombras»
Homero, Odisseia
Antes ser sob a terra abolição e cinza
Do que ser neste mundo rei de todas as sombras
Do que ser no outro mundo rei de todas as sombras»
Homero, Odisseia
Antes ser sob a terra abolição e cinza
Do que ser neste mundo rei de todas as sombras
2 573
Sophia de Mello Breyner Andresen
Meio da Vida
Porque as manhãs são rápidas e o seu sol quebrado
Porque o meio-dia
Em seu despido fulgor rodeia a terra
A casa compõe uma por uma as suas sombras
A casa prepara a tarde
Frutos e canções se multiplicam
Nua e aguda
A doçura da vida
Porque o meio-dia
Em seu despido fulgor rodeia a terra
A casa compõe uma por uma as suas sombras
A casa prepara a tarde
Frutos e canções se multiplicam
Nua e aguda
A doçura da vida
2 351
Sophia de Mello Breyner Andresen
Goyesca
Um infinito ardor
Quase triste os veste,
Semelhante ao sabor
Que tem à noite o vento leste.
Bailam na doçura amarga
Da tarde brilhante e densa
E cada gesto que se alarga
Tem a morte em si suspensa.
Quase triste os veste,
Semelhante ao sabor
Que tem à noite o vento leste.
Bailam na doçura amarga
Da tarde brilhante e densa
E cada gesto que se alarga
Tem a morte em si suspensa.
1 808
Bruno Kampel
Dizer
Dizer
Sem Palavras
Amar
sem vírgulas
Sofrer
sem sintaxe
Viver
sem Parêntese
Sublinhando
o gesto
Acentuando
o tempo.
Conjugando
o resto.
Sem Palavras
Amar
sem vírgulas
Sofrer
sem sintaxe
Viver
sem Parêntese
Sublinhando
o gesto
Acentuando
o tempo.
Conjugando
o resto.
807
Fernando Pessoa
Ó curva do horizonte, quem te passa,
Ó curva do horizonte, quem te passa,
Passa da vista, não de ser ou estar.
Não chameis à alma, que da vida esvoaça,
Morta. Dizei: Sumiu-se além no mar.
Ó mar, sê símbolo da vida toda —
Incerto, o mesmo e mais que o nosso ver!
Finda a viagem da morte e a terra à roda,
Voltou a alma e a nau a aparecer.
Passa da vista, não de ser ou estar.
Não chameis à alma, que da vida esvoaça,
Morta. Dizei: Sumiu-se além no mar.
Ó mar, sê símbolo da vida toda —
Incerto, o mesmo e mais que o nosso ver!
Finda a viagem da morte e a terra à roda,
Voltou a alma e a nau a aparecer.
1 329
Fernando Pessoa
Aqui, sem outro Apolo do que Apolo,
Aqui, sem outro Apolo do que Apolo,
Sem um suspiro abandonemos Cristo
E a febre de buscarmos
Um deus dos dualismos.
E longe da cristã sensualidade
Que a casta calma da beleza antiga
Nos restitua o antigo
Sentimento da vida.
Sem um suspiro abandonemos Cristo
E a febre de buscarmos
Um deus dos dualismos.
E longe da cristã sensualidade
Que a casta calma da beleza antiga
Nos restitua o antigo
Sentimento da vida.
1 399
Fernando Pessoa
Não combati: ninguém mo mereceu.
Não combati: ninguém mo mereceu.
A natureza e depois a arte, amei.
As mãos à chama que me a vida deu
Aqueci. Ela cessa. Cessarei.
A natureza e depois a arte, amei.
As mãos à chama que me a vida deu
Aqueci. Ela cessa. Cessarei.
1 298
Fernando Pessoa
TO A MORALIST
Thou dost say that too soon we grow old,
That all pleasure of earth is but air;
Ay, but tell me, oh moralist cold,
Besides pleasure what pleasure is there?
That all pleasure of earth is but air;
Ay, but tell me, oh moralist cold,
Besides pleasure what pleasure is there?
1 381
Fernando Pessoa
Não torna atrás a negregada prole
Não torna atrás a negregada prole
Regular de Saturno,
Nem magnos deuses implorados volvem
Quem foi à luz que vemos.
Moramos, hóspedes na vida, e usamos
Um tempo do discurso,
Um breve amor, um sorriso breve, e um dia
Saudoso de todos.
Regular de Saturno,
Nem magnos deuses implorados volvem
Quem foi à luz que vemos.
Moramos, hóspedes na vida, e usamos
Um tempo do discurso,
Um breve amor, um sorriso breve, e um dia
Saudoso de todos.
1 059
Fernando Pessoa
A vida é um hospital
A vida é um hospital
Onde quase tudo falta.
Por isso ninguém se cura
E morrer é que é ter alta.
Onde quase tudo falta.
Por isso ninguém se cura
E morrer é que é ter alta.
2 481
Fernando Pessoa
De uma só vez recolhe
De uma só vez recolhe
Quantas flores puderes.
Não dura mais que até à morte o dia.
Colhe de que recordes.
A vida é pouco e cerca-a
A sombra e o sem remédio.
Não temos regras que compreendamos,
Súbditos sem governo.
Goza este dia como
Se a Vida fosse nele.
Homens nem deuses fadam, nem destinam
Senão o que ignoramos.
Quantas flores puderes.
Não dura mais que até à morte o dia.
Colhe de que recordes.
A vida é pouco e cerca-a
A sombra e o sem remédio.
Não temos regras que compreendamos,
Súbditos sem governo.
Goza este dia como
Se a Vida fosse nele.
Homens nem deuses fadam, nem destinam
Senão o que ignoramos.
1 627
Fernando Pessoa
Se hás-de ser o que choras
Se hás-de ser o que choras
Ter que ser, não o chores.
Se toda a mole imensa
Do mundo ser-te-á noite,
Aproveita este breve
Dia, e sem choro ou cura
Goza-o, contente por viveres
O pouco que te é dado.
Ter que ser, não o chores.
Se toda a mole imensa
Do mundo ser-te-á noite,
Aproveita este breve
Dia, e sem choro ou cura
Goza-o, contente por viveres
O pouco que te é dado.
1 289
Fernando Pessoa
Doce é o fruto à vista, e à boca amaro,
Doce é o fruto à vista, e à boca amaro,
Breve é a vida ao tempo e longa à alma.
A arte, com que todos,
— Ora sem saber virando os copos,
Ora, enchendo-os, consiste em nos ousarmos,
Chegada a morte, despi-la.
Breve é a vida ao tempo e longa à alma.
A arte, com que todos,
— Ora sem saber virando os copos,
Ora, enchendo-os, consiste em nos ousarmos,
Chegada a morte, despi-la.
1 328
Fernando Pessoa
Deram-me um cravo vermelho
Deram-me um cravo vermelho
Para eu ver como é a vida.
Mas esqueci-me do cravo
Pela hora da saída.
Para eu ver como é a vida.
Mas esqueci-me do cravo
Pela hora da saída.
1 741
Fernando Pessoa
Cantos, risos e flores alumiem
Cantos, risos e flores alumiem
Nosso mortal destino,
Para o ermo ocultar fundo, nocturno
De nosso pensamento,
Curvado, já em vida, sob a ideia
Do plutónico gozo,
Cônscio já da lívida esperança
Do caos redivivo.
Nosso mortal destino,
Para o ermo ocultar fundo, nocturno
De nosso pensamento,
Curvado, já em vida, sob a ideia
Do plutónico gozo,
Cônscio já da lívida esperança
Do caos redivivo.
1 442
Fernando Pessoa
Nem vã esperança vem, não anos vão,
Nem vã esperança vem, não anos vão,
Desesperança, Lídia, nos governa
A consumanda vida.
Só espera ou desespera quem conhece
Que há que esperar. Nós, no labento curso
Do ser, só ignoramos.
Breves no triste gozo desfolhamos
Rosas. Mais breves que nós fingem legar
A comparada vida.
Desesperança, Lídia, nos governa
A consumanda vida.
Só espera ou desespera quem conhece
Que há que esperar. Nós, no labento curso
Do ser, só ignoramos.
Breves no triste gozo desfolhamos
Rosas. Mais breves que nós fingem legar
A comparada vida.
1 385
Fernando Pessoa
Amo o que vejo porque deixarei
Amo o que vejo porque deixarei
Qualquer dia de o ver.
Amo-o também porque é.
No plácido intervalo em que me sinto,
Do amar, mais que ser,
Amo o haver tudo e a mim.
Melhor me não dariam, se voltassem,
Os primitivos deuses,
Que também, nada sabem.
Qualquer dia de o ver.
Amo-o também porque é.
No plácido intervalo em que me sinto,
Do amar, mais que ser,
Amo o haver tudo e a mim.
Melhor me não dariam, se voltassem,
Os primitivos deuses,
Que também, nada sabem.
1 692
Fernando Pessoa
Deixaste cair no chão
Deixaste cair no chão
O embrulho das queijadas.
Ris-te disso — e porque não?
A vida é feita de nadas.
O embrulho das queijadas.
Ris-te disso — e porque não?
A vida é feita de nadas.
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