Silêncio

Poemas neste tema

Eduardo Martins

Eduardo Martins

Haicai

Solidão

Noite. Às horas mortas
o vento perpassa lento
pelas ermas portas.

Noturno

Na sala de estudo
um grilo preto de trilo
metálico, agudo.

982
Edércio Fanasca

Edércio Fanasca

Haicai

Espreitando o orvalho
entre corolas e cálices
uma aranha tece.

Na paz do cerrado
a cigarra estridula
quebrando o silêncio.

869
Donizete Galvão

Donizete Galvão

Silêncio

De pedra ser.

Da pedra ter

o duro desejo de durar.

Passem as legiões

com seus ossos expostos.

Chorem os velhos

com casacos de naftalina.

A nave branca chega ao porto

e tinge de vinho o azul do mar.

O maciço de rocha,

de costas para a cidade

sete vezes destruída,

celebra o silêncio.

A pedra cala

o que nela dói.

1 171
Geraldo Carneiro

Geraldo Carneiro

neoplatônica

a boca é o lugar onde se engendra
o silêncio e se proferem sentenças
de morte e colhem blasfêmias
e serpenteiam sortilégios
e se enfunam as flores da fala
até forjar a ficção de outra boca
de onde se extrai a idéia do beijo

982
Carlos Nóbrega

Carlos Nóbrega

O Passado

Tudo vive a cair
lentamente
Lentamente
indo ao chão
como um som
vem caindo
em busca de repouso
- lentamente
à sua cova de silêncio

981
Antonio Roberval Miketen

Antonio Roberval Miketen

Noche

Un viento ondula
hojas inmensas
en los más profundo
de mi silencio.

Una onda inunda
mi consciente
que se ahonda
en el agua intensa.

Memorias brillan
de una estrella
jamás descrita.

Brama, aquí dentro,
el eterno grito
de la tierra en tinieblas.

585
Luís Miguel Nava

Luís Miguel Nava

Sem outro intuito

Atirávamos pedras

à água para o silêncio vir à tona.

O mundo, que os sentidos tonificam,

surgia-nos então todo enterrado

na nossa própria carne, envolto

por vezes em ferozes transparências

que as pedras acirravam

sem outro intuito além do de extraírem

às águas o silêncio que as unia.

1 697
Jorge Melícias

Jorge Melícias

O homem está dobrado sobre a mesa,

as palmas das mãos presas ao tampo,

a morte na nuca.

Em redor as mulheres delimitam a casa,

são os pulsos da casa,

e há um silêncio como um pedra rasgada.

Mas hão-de apagar-se as mulheres

primeiro que o fogo.

de A Luz nos Pulmões(2000)

809
Carlos Eduardo Bandeira de Mello Gomes

Carlos Eduardo Bandeira de Mello Gomes

O Silêncio

O silêncio
morre na boca azul da lua
"temos todo o tempo do mundo"
só não tenho tempo de viver
mas vivo, claro verbo profundo
"parece cocaína mas é só tristeza"
o silêncio
nasce no ventre branco do lírio
passa o colírio
e uma gota de orvalho do teu incêndio

816
Alonso Álvares Lopes

Alonso Álvares Lopes

Haicai

Silêncio.
O passeio das nuvens
E mais nenhum pio

A noite sorri.
Lua crescente
Nos olhos do guri

1 050
Carlos Nogueira Fino

Carlos Nogueira Fino

indicação do lugar

chegamos a uma página em branco atravessada por
um súbito silêncio uníssono
o rio é uma dobra do olhar onde sempre estivemos em surdina

é o exacto lugar
indiciador dos músculos

quem ousa escancarar as portas à cidade

939
Carlos Nogueira Fino

Carlos Nogueira Fino

mesmo que o silêncio

mesmo que o silêncio seja este zumbido
que suporta o ruído das páginas
já muito antes no coração as folhas
tombavam na corrente sem dizerem nada
e sobre a sua morte aconteciam as árvores
futuras

vendo-as cair os pássaros aprendiam
o voo
antes das asas

790
Fernando Pessoa

Fernando Pessoa

Quando já nada nos resta

Quando já nada nos resta
É que o mudo sol é bom.
O silêncio da floresta
É de muitos sons sem som.

Basta a brisa pra sorriso.
Entardecer é quem esquece.
Dá nas folhas o impreciso,
E mais que o ramo estremece.

Ter tido sperança fala
Como quem conta a cantar.
Quando a floresta se cala
Fica a floresta a falar.


09/08/1932
4 358
Fernando Pessoa

Fernando Pessoa

Vai lá longe, na floresta,

Vai lá longe, na floresta,
Um som de sons a passar,
Como de gnomos em festa
Que não consegue durar...

É um som vago e distinto.
Parece que entre o arvoredo
Quando seu rumor é extinto
Nasce outro som em segredo.

Ilusão ou circunstância?
Nada? Quanto atesta, e o que há
Num som, é só distância
Ou o que nunca haverá.


01/02/1934
4 435
Fernando Pessoa

Fernando Pessoa

L’HOMME

L'HOMME

Não: toda a palavra é a mais. Sossega!
Deixa, da tua voz, só o silêncio anterior!
Como um mar vago a uma praia deserta, chega
Ao meu coração a dor.

Que dor? Não sei. Quem sabe saber o que sente?
Nem um gesto. Sobreviva apenas ao que tem que morrer
O luar e a hora e o vago perfume indolente
E as palavras por dizer.


12/06/1918
4 437
Fernando Pessoa

Fernando Pessoa

Aguardo, equânime, o que não conheço —

Aguardo, equânime, o que não conheço –
Meu futuro e o de tudo.
No fim tudo será silêncio, salvo
Onde o mar banhar nada.


13/12/1933
2 222
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