Serenidade e Paz Interior
Poemas neste tema
Sophia de Mello Breyner Andresen
Os Dias de Verão
Os dias de verão vastos como um reino
Cintilantes de areia e maré lisa
Os quartos apuram seu fresco de penumbra
Irmão do lírio e da concha é nosso corpo
Tempo é de repouso e festa
O instante é completo como um fruto
Irmão do universo é nosso corpo
O destino torna-se próximo e legível
Enquanto no terraço fitamos o alto enigma familiar dos astros
Que em sua imóvel mobilidade nos conduzem
Como se em tudo aflorasse eternidade
Justa é a forma do nosso corpo
Cintilantes de areia e maré lisa
Os quartos apuram seu fresco de penumbra
Irmão do lírio e da concha é nosso corpo
Tempo é de repouso e festa
O instante é completo como um fruto
Irmão do universo é nosso corpo
O destino torna-se próximo e legível
Enquanto no terraço fitamos o alto enigma familiar dos astros
Que em sua imóvel mobilidade nos conduzem
Como se em tudo aflorasse eternidade
Justa é a forma do nosso corpo
3 195
Sophia de Mello Breyner Andresen
O Primeiro Homem
Era como uma árvore da terra nascida
Confundindo com o ardor da terra a sua vida,
E no vasto cantar das marés cheias
Continuava o bater das suas veias.
Criados à medida dos elementos
A alma e os sentimentos
Em si não eram tormentos
Mas graves, grandes, vagos,
Lagos
Reflectindo o mundo,
E o eco sem fundo
Da ascensão da terra nos espaços
Eram os impulsos do seu peito
Florindo num ritmo perfeito
Nos gestos dos seus braços.
Confundindo com o ardor da terra a sua vida,
E no vasto cantar das marés cheias
Continuava o bater das suas veias.
Criados à medida dos elementos
A alma e os sentimentos
Em si não eram tormentos
Mas graves, grandes, vagos,
Lagos
Reflectindo o mundo,
E o eco sem fundo
Da ascensão da terra nos espaços
Eram os impulsos do seu peito
Florindo num ritmo perfeito
Nos gestos dos seus braços.
3 047
Sophia de Mello Breyner Andresen
Devagar No Jardim a Noite Poisa
Devagar no jardim a noite poisa
E o bailado dos seus passos
Liberta a minha alma dos seus laços,
Como se de novo fosse criada cada coisa.
E o bailado dos seus passos
Liberta a minha alma dos seus laços,
Como se de novo fosse criada cada coisa.
1 867
Sophia de Mello Breyner Andresen
Na Cidade da Realidade Encontrada E Amada
Na cidade da realidade encontrada e amada
Caminhei com a brisa pelas ruas
Havia muros brancos e janelas pintadas
As madressilvas floriam e brilhavam
Os limoeiros de folhas polidas
Caiu uma folha de nespereira sobre o tanque
E o tempo veio ao meu encontro confundindo
Os meus gestos e os teus nos seus
Eram mil e mil noites uma após outra surgindo
E o meu rosto flutuava entre a manhã e a tarde
E as esquinas ergueram as suas sombras azuis
Ao longo de um silêncio de árabe
E do Abril dos campos veio um perfume inteiro de searas
E quando abri a porta as estrelas surgiram
*
Na cidade da realidade encontrada e amada
O sol dá lentamente a volta às praças e aos quartos
Para varrer o chão e preparar a noite
Que é redonda azul e atenta
E a porta da cidade é feita de dois barcos
Oh quem dirá o verde o azul e o fresco
O hálito da água e o perfume do vento
Vê-se a manhã criar uma por uma cada coisa
Vê-se quebrar a onda da noite transparente.
Caminhei com a brisa pelas ruas
Havia muros brancos e janelas pintadas
As madressilvas floriam e brilhavam
Os limoeiros de folhas polidas
Caiu uma folha de nespereira sobre o tanque
E o tempo veio ao meu encontro confundindo
Os meus gestos e os teus nos seus
Eram mil e mil noites uma após outra surgindo
E o meu rosto flutuava entre a manhã e a tarde
E as esquinas ergueram as suas sombras azuis
Ao longo de um silêncio de árabe
E do Abril dos campos veio um perfume inteiro de searas
E quando abri a porta as estrelas surgiram
*
Na cidade da realidade encontrada e amada
O sol dá lentamente a volta às praças e aos quartos
Para varrer o chão e preparar a noite
Que é redonda azul e atenta
E a porta da cidade é feita de dois barcos
Oh quem dirá o verde o azul e o fresco
O hálito da água e o perfume do vento
Vê-se a manhã criar uma por uma cada coisa
Vê-se quebrar a onda da noite transparente.
2 051
Sophia de Mello Breyner Andresen
Poema
Cumpridos os deveres compridos deixaram
De assediar minhas horas
Doce a liberdade retoma em si minha leveza antiga
De assediar minhas horas
Doce a liberdade retoma em si minha leveza antiga
1 887
Sophia de Mello Breyner Andresen
Vela
Em redor da luz
A casa sai da sombra
Intensamente atenta
Levemente espantada
Em redor da luz
A casa se concentra
Numa espera densa
E quase silabada
Em redor da chama
Que a menor brisa doma
E que um suspiro apaga
A casa fica muda
Enquanto a noite antiga
Imensa e exterior
Tece seus prodígios
E ordena seus milénios
De espaço e de silêncio
De treva e de esplendor
A casa sai da sombra
Intensamente atenta
Levemente espantada
Em redor da luz
A casa se concentra
Numa espera densa
E quase silabada
Em redor da chama
Que a menor brisa doma
E que um suspiro apaga
A casa fica muda
Enquanto a noite antiga
Imensa e exterior
Tece seus prodígios
E ordena seus milénios
De espaço e de silêncio
De treva e de esplendor
3 187
Fernando Pessoa
Um verso repete
Um verso repete
Uma brisa fresca,
O verão nas ervas,
E vazio sofre ao sol
O átrio abandonado.
Ou, no inverno, ao longe
Os cimos de neve,
À lareira toadas
Dos contos herdados,
E um verso a dizê-lo.
Os deuses concedem
Poucos mais prazeres
Que estes, que são nada.
Mas também concedem
Não querermos outros.
Uma brisa fresca,
O verão nas ervas,
E vazio sofre ao sol
O átrio abandonado.
Ou, no inverno, ao longe
Os cimos de neve,
À lareira toadas
Dos contos herdados,
E um verso a dizê-lo.
Os deuses concedem
Poucos mais prazeres
Que estes, que são nada.
Mas também concedem
Não querermos outros.
1 487
Fernando Pessoa
Se há uma nuvem que pass
Se há uma nuvem que passa
Passa uma sombra também.
Ninguém diz que é desgraça
Não ter o que se não tem.
Passa uma sombra também.
Ninguém diz que é desgraça
Não ter o que se não tem.
1 318
Fernando Pessoa
Leve vem a onda leve
Leve vem a onda leve
Que se estende a adormecer,
Breve vem a onda breve
Que nos ensina a esquecer.
Que se estende a adormecer,
Breve vem a onda breve
Que nos ensina a esquecer.
1 617
Fernando Pessoa
Para quê complicar inutilmente,
Para quê complicar inutilmente,
Pensando, o que impensado existe? Nascem
Ervas sem razão dada —
Para elas olhos, não razões, tenhamos.
Como através de um rio as contemplemos.
Pensando, o que impensado existe? Nascem
Ervas sem razão dada —
Para elas olhos, não razões, tenhamos.
Como através de um rio as contemplemos.
1 413
Fernando Pessoa
My soul is like a painted boat
My soul is like a painted boat
That like a sleeping swan doth float
Upon the silver waves of thy sweet
singing.
That like a sleeping swan doth float
Upon the silver waves of thy sweet
singing.
1 190
Fernando Pessoa
Flores amo, não busco. Se aparecem
Flores amo, não busco. Se aparecem
Me agrado ledo, que há em buscar prazeres
O desprazer da busca.
A vida seja como o sol, que é dado,
Nem arranquemos flores, que, arrancadas
Não são nossas, mas mortas.
Me agrado ledo, que há em buscar prazeres
O desprazer da busca.
A vida seja como o sol, que é dado,
Nem arranquemos flores, que, arrancadas
Não são nossas, mas mortas.
1 256
Fernando Pessoa
53 - THE END
God knows. Lie we to sleep
Contentedly somehow,
Smiling that we did weep,
As at an overthrow
Of kingdoms the stars, deep
In silence, smile nor know.
God knows. And an He knew not
And were not, what of it?
No matter that we do not
Our life with living fit.
Glad to have sleep and tears,
Lullaby to our fears!
Contentedly somehow,
Smiling that we did weep,
As at an overthrow
Of kingdoms the stars, deep
In silence, smile nor know.
God knows. And an He knew not
And were not, what of it?
No matter that we do not
Our life with living fit.
Glad to have sleep and tears,
Lullaby to our fears!
1 528
Fernando Pessoa
Houve um momento entre nós
Houve um momento entre nós
Em que a gente não falou.
Juntos, estávamos sós.
Que bom é assim estar só!
Em que a gente não falou.
Juntos, estávamos sós.
Que bom é assim estar só!
1 387
Fernando Pessoa
Afastai-vos de mim, outrora horror
Afastai-vos de mim, outrora horror
De mim pensado, e um grato sono pesa
Já sobre o que me sinto. Como quando
A fadiga, em princípio de dormirmos,
Se torna um prazer vago e um começo
Do sono em que a percamos, assim pouco
A pouco um múrmuro cessar da mente
Me inebria de sombras e me esquece
De mim, e me anoitece lentamente.
De mim pensado, e um grato sono pesa
Já sobre o que me sinto. Como quando
A fadiga, em princípio de dormirmos,
Se torna um prazer vago e um começo
Do sono em que a percamos, assim pouco
A pouco um múrmuro cessar da mente
Me inebria de sombras e me esquece
De mim, e me anoitece lentamente.
1 216
Fernando Pessoa
Olho os campos, Neera, [2]
Olho os campos, Neera,
Verdes campos, e sinto
Que um dia virá a hora
Em que não mais os olhe.
Tranquilo, apenas gozo,
Como brincando, o orgulho
Da serena tristeza
Filha da clara visão.
Verdes campos, e sinto
Que um dia virá a hora
Em que não mais os olhe.
Tranquilo, apenas gozo,
Como brincando, o orgulho
Da serena tristeza
Filha da clara visão.
1 329
Fernando Pessoa
Eu queria ter o tempo e o sossego suficientes
Eu queria ter o tempo e o sossego suficientes
Para não pensar em coisa nenhuma,
Para nem me sentir viver,
Para só saber de mim nos olhos dos outros, reflectido.
Para não pensar em coisa nenhuma,
Para nem me sentir viver,
Para só saber de mim nos olhos dos outros, reflectido.
1 234
Fernando Pessoa
Àquele que, constante, nada espera
Àquele que, constante, nada espera
Não pode negar Jove; nem para ele
Murcham as frágeis flores
Que nunca esperou ver.
Consiste a força do ânimo em não tê-la
Para os alacres fins da fantasia,
Mas em saber conter-se
Nos limites d (...)
Não pode negar Jove; nem para ele
Murcham as frágeis flores
Que nunca esperou ver.
Consiste a força do ânimo em não tê-la
Para os alacres fins da fantasia,
Mas em saber conter-se
Nos limites d (...)
1 202
Fernando Pessoa
Vou dormir, dormir, dormir,
Nirvana
Vou dormir, dormir, dormir,
Vou dormir sem despertar,
Mas não dormir sem sentir
Que estou dormindo a sonhar.
Não insciência e só treva
Mas também estrelas a abrir
Olhos cujo olhar me enleva,
Que estou sonhando a dormir.
Constelada inexistência
Em que subsiste de meu
Só uma abstracta insciência
Una com estrelas e céu.
Vou dormir, dormir, dormir,
Vou dormir sem despertar,
Mas não dormir sem sentir
Que estou dormindo a sonhar.
Não insciência e só treva
Mas também estrelas a abrir
Olhos cujo olhar me enleva,
Que estou sonhando a dormir.
Constelada inexistência
Em que subsiste de meu
Só uma abstracta insciência
Una com estrelas e céu.
1 828
Fernando Pessoa
Me concedam os deuses lá do alto
Me concedam os deuses lá do alto
Da sua calma que não custa ou serve
Ter uma vida tal qual eles
Se fossem homens a teriam...
Dominando desejos e esperanças
Não para ser comprado pelas ínguas
A maldizer da (...)…
Da sua calma que não custa ou serve
Ter uma vida tal qual eles
Se fossem homens a teriam...
Dominando desejos e esperanças
Não para ser comprado pelas ínguas
A maldizer da (...)…
1 320
Fernando Pessoa
Grinalda ou coroa
Grinalda ou coroa
É só peso posto
Na fronte antes limpa.
Grinalda de rosas,
Coroa de louros,
A fronte transtornam.
Que o vento nos possa
Mexer nos cabelos,
Refrescar a fronte!
Que a fronte despida
Possa reclinar-se,
Serena, onde durma.
Cloé! Não conheço
Melhor alegria
Que esta fronte lisa.
É só peso posto
Na fronte antes limpa.
Grinalda de rosas,
Coroa de louros,
A fronte transtornam.
Que o vento nos possa
Mexer nos cabelos,
Refrescar a fronte!
Que a fronte despida
Possa reclinar-se,
Serena, onde durma.
Cloé! Não conheço
Melhor alegria
Que esta fronte lisa.
1 942
Fernando Pessoa
Estou doente. Meus pensamentos começam a estar confusos,
Estou doente. Meus pensamentos começam a estar confusos,
Mas o meu corpo, tocando nas coisas, entra nelas.
Sinto-me parte das coisas com o tacto
E urna grande libertação começa a fazer-se em mim,
Uma grande alegria solene como a de um acto heróico
Pondo a vis no gesto sóbrio e escondido.
Mas o meu corpo, tocando nas coisas, entra nelas.
Sinto-me parte das coisas com o tacto
E urna grande libertação começa a fazer-se em mim,
Uma grande alegria solene como a de um acto heróico
Pondo a vis no gesto sóbrio e escondido.
1 594
Fernando Pessoa
Já estou tranquilo. Já não espero nada.
Já estou tranquilo. Já não espero nada.
Já sobre meu vazio coração
Desceu a inconsciência abençoada
De nem querer uma ilusão.
Já sobre meu vazio coração
Desceu a inconsciência abençoada
De nem querer uma ilusão.
1 655
Fernando Pessoa
Vale a pena ser discreto?
Vale a pena ser discreto?
Não sei bem se vale a pena.
O melhor é estar quieto
E ter a cara serena.
Não sei bem se vale a pena.
O melhor é estar quieto
E ter a cara serena.
3 978
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