Criatividade e Inspiração

Poemas neste tema

António Ramos Rosa

António Ramos Rosa

No Peito da Página

No peito da página

o pulsar das pálpebras nas palavras

uma nova terra

na mão nova
998
António Ramos Rosa

António Ramos Rosa

84. a Incerteza E a Certeza Dessa Escrita

84
A incerteza e a certeza dessa escrita
não filha de um futuro
na folha     chamamento
dilacerante e no entanto mudo.

E que incerta insistência, fogo vago
sobre casas desertas, sobre quartos
de insectos
quanta inércia quantas pálpebras

caídas     e a sombra
de um só corpo se existisse
a dúvida criando este suporte.
946
António Ramos Rosa

António Ramos Rosa

Uma Falha Entre

Uma falha entre

duas pedras

a folhagem entre     as pálpebras acesas

a moeda de fogo        música de dedos sóbrios

o caminho     mas

sem caminho:     círculo de lâmpadas

o texto     o texto único        raiz

do pulso

lápis de sombra

raiz do lápis na montanha
931
António Ramos Rosa

António Ramos Rosa

75. a Pedra, o Corpo E a Escrita

75
A pedra, o corpo e a escrita
das árvores: cinza cinza que arde
quando o fogo da escrita arde sobre

o mineral negro, a ponta escura escreve
talvez uma laranja lancinante
talvez a simples mesa do pão branco.

Seja qual for o fim não há o fim
da aventura dessa pedra escrita
nesse escrever da pedra cinza negra.
1 168
António Ramos Rosa

António Ramos Rosa

53. Lâmina — Dirá, E Escrita

53
Lâmina — dirá, e escrita
da rapariga incerta em certa escrita
da mão suave suspensa sobre
um vazio límpido.

E qual seja a forma
e o aspecto da figura escrita
será o fruto carnal de uma impureza
igual ao corpo livre não escrito.

E qual e qual a folha
a abrir a folha
do corpo — lâmina suspensa
e todavia dita da figura incerta.
985
António Ramos Rosa

António Ramos Rosa

52. Neste Jardim Ou Espaço Do

52
Neste jardim ou espaço do
que
por abrir se abre e só assim
se
sabe o que de novo se abre.

Campo branco sem caminho ou mão
território do incerto pulso
da destruição incriada mas amante
do chão do amanhã de agora.

Que alguém procure o incerto
com os aspectos
do arbusto ardente
no novo espírito do incêndio dos aspectos.
1 054
António Ramos Rosa

António Ramos Rosa

50. o Claro Rumor Do

50
O claro rumor do
anúncio de altitude a forma
do fragmento (de)

Que a mão repercutindo
a mão e a mão de
novo ilumine o espaço deste espaço.

Que terra em terra da palavra
fragmente o frio o bloco
branco
e a forma seja a mão da forma.
912
António Ramos Rosa

António Ramos Rosa

51. Pedaço Inteiro do Frio Verde

51
Pedaço inteiro do frio verde
e mão do gelo iluminado
quebre
a unidade de pedra ou harmonia.

Beleza brusca no azul opaco
negação do acaso negando o acaso
por uma coisa graciosa
corça perdida no bosque das palavras.

No preciso atalho mas tão simples
como a clareza do pulso
quebrando a pedra do nome o nome-pedra.
950
António Ramos Rosa

António Ramos Rosa

15. Animado o Poeta Desce

15
Animado o poeta desce
a horizontal escada
para o encontro da lâmpada animal.

Desce até à terra humedecida
buscando a pobreza de uma lâmpada
roxa
sobre uma perna soberba ali perdida.

Desce
até que desce na pobreza
da face de folhagem negra
aranha negra sobre aquela perna
do corpo glorioso.
1 055
António Ramos Rosa

António Ramos Rosa

10. Rosto Enraizado Na Palavra

10
Rosto enraizado na palavra
neste espaço de nula vocação
mas quase o grito gritando o grito.

Nesta folha neste instante de jardim
sobre este banco ou esta pedra
ó terra no silêncio da folhagem!

Isto que foi, seria no não-não ser
ou aqui
neste jardim do não impuro
ó pobreza da água desta mão!
1 078
António Ramos Rosa

António Ramos Rosa

12. Por Ela, o Qual: Por Ela

12
Por ela, o qual: por ela
a iluminada lâmina cortando
o papel sobre a figura impura.

Nó límpido no desnudar da face
não exemplo na erva do seu ventre
no extremo lá da extrema árvore
no ribeiro gracioso ou na torrente.

Por ele: ali: por ela
cortado o papel cortada a sombra
fica o recorte da figura dele.
1 021
António Ramos Rosa

António Ramos Rosa

8. E Boca Ou Acidente de Palavra

8
E boca ou acidente de palavra
aspecto de estrutura
ou ideia de rosa ou de cavalo.

Nome do seio sob
a renda de areia ou
arbusto de ser inanimado
na luz harmoniosa.

Animal ou palavra animal
e árvore ou ideia seio de água
única da sede inicial.
1 022
António Ramos Rosa

António Ramos Rosa

18. Esculpida Pelas Duas Mãos Amigas

18
Esculpida pelas duas mãos amigas
dividida pela sombra ferida
pela aranha de palavra cúmplice.

Palavra e lâmpada do nome
perdido quando
a terra era sem fome
amêndoa esculpida pela lucidez dos olhos.

Nome do não que iniciou o sim
sob o arbusto esculpido
na estrutura do ser antes da forma aberta.
944
António Ramos Rosa

António Ramos Rosa

Não É o Meu Amigo Ou Semelhante,

Não é o meu amigo ou semelhante,
não é mais que um projecto, uma passagem.
Ele marca-me com a sua ausência
e todavia
ele é a evidência do processo.

Se o encontrasse, não, não o encontraria.
E ele diz-me bom-dia agora mesmo.
Por ironia? Não. Porque se escreve
sob
o obscuro impulso
que o transforma
nas palavras mesmas com que o vejo.
465
António Ramos Rosa

António Ramos Rosa

O Personagem É Uma Travessia Intensa

O personagem é uma travessia intensa.
Mas imperscrutável
o seu rosto,
não secreto mas aberto e vago.

A cor dos olhos, por exemplo?
Castanhos, azuis?
Só depende
de uma arbitrária palavra.

Quem o decide agora diz são verdes.

E ei-los visíveis,
ei-los transparentes.
983
António Ramos Rosa

António Ramos Rosa

O Personagem Não Existe Sem Paisagem

O personagem não existe sem paisagem.
O personagem é imponderável.

Uma conjectura, uma pergunta:
Sem um guarda-chuva e sem um rosto.

E todavia, como não
vê-lo?
Mais do que um vulto
a figura se desenha entre as palavras.

Talvez respire e ouse
e o Tempo o Espaço o configurem.
Talvez empunhe enfim o guarda-chuva.
994
António Ramos Rosa

António Ramos Rosa

Ponto — Traço

Um ponto negro — um traço
na planície branca
e uma pergunta no silêncio
resolve-se na luz
de uma outra folha inatingível
nudez de evidência ou
de um equilíbrio súbito suspenso
de um contorno novo
uma prosa branca
o desvio de um sulco
ou haste
perpendicular à lentidão do curso
o nome que ascende e principia o fluxo
que não cessa aqui
974
António Ramos Rosa

António Ramos Rosa

O Momento De

Talvez seja o momento de.
Mesmo sem esperança. E ele escreve:
nenhum impulso para ti
neste espaço deserto.

Ele perscruta entre as pedras e as sombras.
Nada vê. Ignora. Olha.
Que traços são estes,
qual a origem destas palavras nulas?

Ele escreve. O seu desejo é o desejo
de tornar habitável o deserto.
1 111
António Ramos Rosa

António Ramos Rosa

No Imediato Descobrir do Ar

No imediato descobrir do ar
como uma estaca vibrante
com a brancura como único suporte
de uma palavra que seja ainda o ar
antes do depois ainda já
num bloco que sabe o não saber de estar
num avanço na folha do silêncio
para estar
como uma estaca vibrando
no ar
962
António Ramos Rosa

António Ramos Rosa

Duas Palavras

Alta
alta e branca
quase a extinguir-se,
um triunfo do ar.

Distancia-se
na distância
donde nasce.

Nasce
nesta página —
alta e branca.
Duas palavras
bastam
para te ver.
1 020
António Ramos Rosa

António Ramos Rosa

Hausto

No terreno nu, pobre papel,
arranco este hausto
sobre as mãos.

Pelo rosto me abandono ao ar.
As ervas flutuam.
O bafo do mar sobre o carvão.
Para acender a terra fatigada

abro este sulco
sobre o ar
nas minhas mãos.
1 055
Nuno Júdice

Nuno Júdice

Filosofia

Construo o pensamento aos pedaços: cada
ideia que ponho em cima da mesa é uma parte do
que penso; e, ao ver como cada fragmento se
torna um todo, volto a parti-lo, para evitar
conclusões.


Nuno Júdice | "A pura inscrição do amor", pág. 42 | Publicações Dom Quixote, 1ª. edição. Jan. 2018
1 485
Sophia de Mello Breyner Andresen

Sophia de Mello Breyner Andresen

Dedicatória da Segunda Edição do «Cristo Cigano» a João Cabral de Melo Neto

I

João Cabral de Melo Neto
Essa história me contou
Venho agora recontá-la
Tentando representar
Não apenas o contado
E sua grande estranheza
Mas tentando ver melhor
A peculiar disciplina
De rente e justa agudeza
Que a arte deste poeta
Verdadeira mestra ensina
II

Pois é poeta que traz
À tona o que era latente
Poeta que desoculta
A voz do poema imanente

Nunca erra a direcção
De sua exacta insistência
Não diz senão o que quer
Não se inebria em fluência

Mas sua arte não é só
Olhar certo e oficina
E nele como em Cesário
Algo às vezes se alucina

Pois há nessa tão exacta
Fidelidade à imanência
Secretas luas ferozes
Quebrando sóis de evidência
1 699
Sophia de Mello Breyner Andresen

Sophia de Mello Breyner Andresen

Para Arpad Szenes

Assim a luz ao madrugar liberta
E una se multiplica
Para inventar o espanto o alvoroço a festa
Do reino revelado

Oásis e palmar — distância justa
Atenta invenção do que foi dado
O pintor pinta no tempo respirado
Reconhece o mundo como um rosto amado

Pinta as longas extensões as longas lisas linhas
O caminhar comprido da terra e suas crinas

Pinta o quadro dentro do qual o quadro
Se tece malha a malha como em tear a teia
O outro quadro do quadro convocador convocado
Pinta o bicho egípcio os dedos da palmeira

Assim a luz ao madrugar liberta
A ternura funda nossa aliança com as coisas
Eis o mito solar a fina mão do trigo o bicho grego

O amor que move o sol e os outros astros
— Como o Dante Alighieri disse
Move e situa o quarto o dia o quadro
1 244