Amor
Poemas neste tema
Artur de Azevedo
Desengano
A pensionista pálida que gosta
(Fundada pretensão!) que a digam bela,
E do colégio, à tarde, na janela,
Para dar-me um sorriso se recosta;
Que me escreve nas férias, de Bemposta,
Aonde vai visitar a parentela,
Pedindo-me que não me esqueça dela
E dando-me uns beijinhos..., pela posta;
Essa ninfa gentil dos olhos pretos,
Essa beleza de anjo... oh, sorte varia;
Vergonha eterna para os meus bisnetos!
Com um pançudo burguês, uma alimária
Que não a sabe amar, nem faz sonetos,
Vai casar-se amanhã na Candelária.
1873
In: AZEVEDO, Artur. Sonetos e peças líricas. Pref. Julio de Freitas J. Rio de Janeiro: Garnier, s.d
(Fundada pretensão!) que a digam bela,
E do colégio, à tarde, na janela,
Para dar-me um sorriso se recosta;
Que me escreve nas férias, de Bemposta,
Aonde vai visitar a parentela,
Pedindo-me que não me esqueça dela
E dando-me uns beijinhos..., pela posta;
Essa ninfa gentil dos olhos pretos,
Essa beleza de anjo... oh, sorte varia;
Vergonha eterna para os meus bisnetos!
Com um pançudo burguês, uma alimária
Que não a sabe amar, nem faz sonetos,
Vai casar-se amanhã na Candelária.
1873
In: AZEVEDO, Artur. Sonetos e peças líricas. Pref. Julio de Freitas J. Rio de Janeiro: Garnier, s.d
2 133
Ulisses Tavares
Refazendo
para Léia Cardenuto
a ausência do soco
reforça o punho,
a falta do chicote
atiça o domador,
a despensa vazia
aguça a língua,
a supressão da palavra
aviva o discurso,
a imprevisão do certo
devolve o inexorável,
a abstração do corpo
prepara o repartir,
a descoloração da rosa
reintegra a paisagem,
a andança no charco
redescobre a terra firme,
a pororoca do medo
desperta a coragem,
a recusa da garrafa
retorna o vinho,
a cortada do caule
reforça a raiz,
a supressão do canto
reinventa o verso,
a despedida do vôo
refaz o arremesso,
a solidão aberta
reescreve o amor.
In: TAVARES, Ulisses. Pega gente. 2.ed. São Paulo: Núcleo Pindaíba Edições e Debates, 1978. p.45. (Colecão PF)
NOTA: No livro PULSO (1995), os versos "a falta do chicote/atiça o domador", foram alterados para "a falta de caça/atiça o tigre"; o verso "a cortada do caule" foi alterado para "o corte do caule
a ausência do soco
reforça o punho,
a falta do chicote
atiça o domador,
a despensa vazia
aguça a língua,
a supressão da palavra
aviva o discurso,
a imprevisão do certo
devolve o inexorável,
a abstração do corpo
prepara o repartir,
a descoloração da rosa
reintegra a paisagem,
a andança no charco
redescobre a terra firme,
a pororoca do medo
desperta a coragem,
a recusa da garrafa
retorna o vinho,
a cortada do caule
reforça a raiz,
a supressão do canto
reinventa o verso,
a despedida do vôo
refaz o arremesso,
a solidão aberta
reescreve o amor.
In: TAVARES, Ulisses. Pega gente. 2.ed. São Paulo: Núcleo Pindaíba Edições e Debates, 1978. p.45. (Colecão PF)
NOTA: No livro PULSO (1995), os versos "a falta do chicote/atiça o domador", foram alterados para "a falta de caça/atiça o tigre"; o verso "a cortada do caule" foi alterado para "o corte do caule
1 880
Leila Mícollis
De Volta Para o Presente
(Parte única - soneto indivisível...)
Hipólita, Antíope ou simples colona,
temíveis perigos, feliz, desafio,
mostrando a potência do meu poderio,
dos campos, senhora, dos píncaros, dona,
pois sou tua eterna e soberba Amazona,
com arco e com flecha, inclusive no cio,
num louco galope, em fatal desvario,
por ínvios caminhos que surgem à tona...
Aquiles, Teseu, o que queres que sejas,
em mim acharás o que tanto desejas:
um misto de gozo, ternura e esplendor,
por ser a Amazona das tuas florestas,
libertas, profundas, reais, manifestas,
sem fim cavalgando os sertões deste amor.
In: MÍCCOLIS, Leila. Só se for a dois. Co-aut. Urhacy Faustino. São Paulo: Edicon, 1990. p.2
Hipólita, Antíope ou simples colona,
temíveis perigos, feliz, desafio,
mostrando a potência do meu poderio,
dos campos, senhora, dos píncaros, dona,
pois sou tua eterna e soberba Amazona,
com arco e com flecha, inclusive no cio,
num louco galope, em fatal desvario,
por ínvios caminhos que surgem à tona...
Aquiles, Teseu, o que queres que sejas,
em mim acharás o que tanto desejas:
um misto de gozo, ternura e esplendor,
por ser a Amazona das tuas florestas,
libertas, profundas, reais, manifestas,
sem fim cavalgando os sertões deste amor.
In: MÍCCOLIS, Leila. Só se for a dois. Co-aut. Urhacy Faustino. São Paulo: Edicon, 1990. p.2
835
Alceu de Freitas Wamosy
Diverso Amor
Não quero o teu amor! O teu amor parece
Que feito deve ser de magnólias e luares!
Amor espiritual, casto como uma prece,
De uma pureza ideal de alvas toalhas de altares!
E o meu amor, mulher, é um amor que estremece
De desejos fatais, vagos, crepusculares...
Amor, ânsia de posse! Amor que vibra e cresce,
Ardente como o fogo e fundo como os mares!
Tu virás para mim, deslumbrada e inocente,
Com teu beijo primeiro a fremir castamente!
Nos teus lábios de flor, virgens de todo mal...
E há de fugir, ó luz, de ambas as nossas bocas
Palpitantes, febris, desvairadas e loucas,
Um arrulho de pomba e um uivo de chacal...
Publicado no livro Na terra virgem: poemas (1914).
In: FILIPOUSKI, Ana Mariza. Alceu Wamosy. Porto Alegre: IEL, 1989. p.49-50. (Letras rio-grandenses
Que feito deve ser de magnólias e luares!
Amor espiritual, casto como uma prece,
De uma pureza ideal de alvas toalhas de altares!
E o meu amor, mulher, é um amor que estremece
De desejos fatais, vagos, crepusculares...
Amor, ânsia de posse! Amor que vibra e cresce,
Ardente como o fogo e fundo como os mares!
Tu virás para mim, deslumbrada e inocente,
Com teu beijo primeiro a fremir castamente!
Nos teus lábios de flor, virgens de todo mal...
E há de fugir, ó luz, de ambas as nossas bocas
Palpitantes, febris, desvairadas e loucas,
Um arrulho de pomba e um uivo de chacal...
Publicado no livro Na terra virgem: poemas (1914).
In: FILIPOUSKI, Ana Mariza. Alceu Wamosy. Porto Alegre: IEL, 1989. p.49-50. (Letras rio-grandenses
1 302
Rubens Rodrigues Torres Filho
Desenvolturas
Nós nos queremos bem: ah que derrama,
que hemorragia de sentimentos!
Irmãos! que almas transparentes temos!
O chão nos foge sob os pés, tão leve.
Podemos nos olhar pelos avessos
que é tudo luz. O bem que nos queremos
nos santifica até aos intestinos.
Que vísceras de vidro! Que evidência!
Meu pênis se eletriza — é um travessão! Um hífen!
Um traço-de-união entre duas almas
tão juntas, tão aninhadinhas
uma na outra que dá gosto e enlevos.
Nos sabemos de cor, rosto e relevos.
Tudo nos dança: umas fosforescências
embevecidas lambem nossos beiços
e um simples esplendor nos satisfaz!
In: TORRES FILHO, Rubens Rodrigues. O vôo circunflexo: poesia. 2.ed. São Paulo: Brasiliense, 1987. p.1
que hemorragia de sentimentos!
Irmãos! que almas transparentes temos!
O chão nos foge sob os pés, tão leve.
Podemos nos olhar pelos avessos
que é tudo luz. O bem que nos queremos
nos santifica até aos intestinos.
Que vísceras de vidro! Que evidência!
Meu pênis se eletriza — é um travessão! Um hífen!
Um traço-de-união entre duas almas
tão juntas, tão aninhadinhas
uma na outra que dá gosto e enlevos.
Nos sabemos de cor, rosto e relevos.
Tudo nos dança: umas fosforescências
embevecidas lambem nossos beiços
e um simples esplendor nos satisfaz!
In: TORRES FILHO, Rubens Rodrigues. O vôo circunflexo: poesia. 2.ed. São Paulo: Brasiliense, 1987. p.1
1 228
Frederico Barbosa
Av Brasil, SP, 1987
flor de farol
colhida às pressas
entre o tédio maquinal da marcha lenta
sinal
de diferença
em meio à indiferença metálica
desses corpos impessoais
na agonia
da imobilidade densa
semáforo
signo insano
ensaio de abalo sísmico
lente de aumento
no amor e na impaciência
In: BARBOSA, Frederico. Rarefato. São Paulo: Iluminuras, 1990. Poema integrante da série 2 - Geografias
colhida às pressas
entre o tédio maquinal da marcha lenta
sinal
de diferença
em meio à indiferença metálica
desses corpos impessoais
na agonia
da imobilidade densa
semáforo
signo insano
ensaio de abalo sísmico
lente de aumento
no amor e na impaciência
In: BARBOSA, Frederico. Rarefato. São Paulo: Iluminuras, 1990. Poema integrante da série 2 - Geografias
1 128
Odylo Costa Filho
Janelas no Mar
— No meio do mar, há janelas sobre janelas.
— A rede.
Adivinhação africana
Há sobre o mar janelas e janelas:
são redes, são cantigas e são velas.
Panos-da-costa vão se desdobrando
no mistério das águas flutuando.
A floresta é vencida pela areia
mas o mar só se curva à lua cheia.
Anda comigo, amada. O amor humano
pode descer ao fundo chão do oceano.
E ressurgir das águas e sobre elas
caminhar bem mais leve do que as velas.
O céu morreu nas mãos donas do espaço.
Resta a Terra. Tão só! Dá-me teu braço.
Vem comigo. O mar se abre à nossa dor
e os peixes pasmarão com o nosso amor.
E no silêncio móvel copiarão
nossos gestos contidos de paixão.
Luanda, 1967
Poema integrante da série Arca da Aliança.
In: COSTA, FILHO, Odylo. Cantiga incompleta. Pref. Heráclio Salles. Rio de Janeiro: J. Olympio, 1971
— A rede.
Adivinhação africana
Há sobre o mar janelas e janelas:
são redes, são cantigas e são velas.
Panos-da-costa vão se desdobrando
no mistério das águas flutuando.
A floresta é vencida pela areia
mas o mar só se curva à lua cheia.
Anda comigo, amada. O amor humano
pode descer ao fundo chão do oceano.
E ressurgir das águas e sobre elas
caminhar bem mais leve do que as velas.
O céu morreu nas mãos donas do espaço.
Resta a Terra. Tão só! Dá-me teu braço.
Vem comigo. O mar se abre à nossa dor
e os peixes pasmarão com o nosso amor.
E no silêncio móvel copiarão
nossos gestos contidos de paixão.
Luanda, 1967
Poema integrante da série Arca da Aliança.
In: COSTA, FILHO, Odylo. Cantiga incompleta. Pref. Heráclio Salles. Rio de Janeiro: J. Olympio, 1971
1 228
Leila Mícollis
Feitos um para o Outro
"Ele fala de cianureto
e ela sonha com formicida
vão viver sob o mesmo teto
até que alguém decida"
(Chico Buarque de Hollanda)
Você quebra a mobília
eu desconto na filha...
E entre talhos e cortes
praticamos o esporte
de apostar, a vintém,
quem, dos dois, mata quem...
In: MÍCCOLIS, Leila. O bom filho a casa torra. Seleção de textos Urhacy Faustino. São Paulo: Edicon; Rio de Janeiro: Blocos, 1992. p.1
e ela sonha com formicida
vão viver sob o mesmo teto
até que alguém decida"
(Chico Buarque de Hollanda)
Você quebra a mobília
eu desconto na filha...
E entre talhos e cortes
praticamos o esporte
de apostar, a vintém,
quem, dos dois, mata quem...
In: MÍCCOLIS, Leila. O bom filho a casa torra. Seleção de textos Urhacy Faustino. São Paulo: Edicon; Rio de Janeiro: Blocos, 1992. p.1
757
Leila Mícollis
Pena de Morte
Eram bastantes bons
aqueles tempos de ódio,
em que planejávamos nossos assassinatos,
pelo simples prazer de nos vingarmos:
eu te via com os dedos na tomada,
tu me vias sufocada pelo gás.
Tempos em que sorrias ao atravessar a rua,
e eu achava graça em ser atropelada;
tempos em que queríamos fazer um filho
para espancarmos juntos,
nos dias de ócio;
em que eu te servia de escarradeira,
em vez de cozinheira e passadeira.
Depois, veio o Amor,
que é como um lenço em que se assoa,
ou mãe que chicoteia e nos perdoa.
Hoje afago-te as corcovas
e lustro-te as botas novas.
In: MÍCCOLIS, Leila. O bom filho a casa torra. Seleção de textos Urhacy Faustino. São Paulo: Edicon; Rio de Janeiro: Blocos, 1992. p.1
aqueles tempos de ódio,
em que planejávamos nossos assassinatos,
pelo simples prazer de nos vingarmos:
eu te via com os dedos na tomada,
tu me vias sufocada pelo gás.
Tempos em que sorrias ao atravessar a rua,
e eu achava graça em ser atropelada;
tempos em que queríamos fazer um filho
para espancarmos juntos,
nos dias de ócio;
em que eu te servia de escarradeira,
em vez de cozinheira e passadeira.
Depois, veio o Amor,
que é como um lenço em que se assoa,
ou mãe que chicoteia e nos perdoa.
Hoje afago-te as corcovas
e lustro-te as botas novas.
In: MÍCCOLIS, Leila. O bom filho a casa torra. Seleção de textos Urhacy Faustino. São Paulo: Edicon; Rio de Janeiro: Blocos, 1992. p.1
939
Cacaso
Há uma Gota de Sangue no Cartão Postal
eu sou manhoso eu sou brasileiro
finjo que vou mas não vou minha janela é
a moldura do luar do sertão
a verde mata nos olhos verdes da mulata
sou brasileiro e manhoso por isso dentro
da noite e de meu quarto fico cismando na beira de um rio
na imensa solidão de latidos e araras
lívido
de medo e de amor
In: CACASO. Beijo na boca e outros poemas. São Paulo: Brasiliense, 1985. p.84.
NOTA: Referências ao livro HÁ UMA GOTA DE SANGUE EM CADA POEMA, de Mário de Andrade; às canções "Luar do Sertão", de Catullo da PaixãoCearense e "Tropicália", de Caetano Veloso; à "Canção do Exílio", do livro PRIMEIROS CANTOS (1846), de Gonçalves Dias e ao poema "Amor e Medo", do livro AS PRIMAVERAS (1859), de Casimiro de Abre
finjo que vou mas não vou minha janela é
a moldura do luar do sertão
a verde mata nos olhos verdes da mulata
sou brasileiro e manhoso por isso dentro
da noite e de meu quarto fico cismando na beira de um rio
na imensa solidão de latidos e araras
lívido
de medo e de amor
In: CACASO. Beijo na boca e outros poemas. São Paulo: Brasiliense, 1985. p.84.
NOTA: Referências ao livro HÁ UMA GOTA DE SANGUE EM CADA POEMA, de Mário de Andrade; às canções "Luar do Sertão", de Catullo da PaixãoCearense e "Tropicália", de Caetano Veloso; à "Canção do Exílio", do livro PRIMEIROS CANTOS (1846), de Gonçalves Dias e ao poema "Amor e Medo", do livro AS PRIMAVERAS (1859), de Casimiro de Abre
7 218
Neide Archanjo
A gota
A gota
se desloca do rio de gotas
e antes de mergulhar
ávida
na minha mão
recolhe um momento
de diamante ou de cristal.
Poema integrante da série Fragmentos.
In: ARCHANJO, Neide. Escavações. Pref. Carlos Felipe Moisés. Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 1980. (Poiesis)
se desloca do rio de gotas
e antes de mergulhar
ávida
na minha mão
recolhe um momento
de diamante ou de cristal.
Poema integrante da série Fragmentos.
In: ARCHANJO, Neide. Escavações. Pref. Carlos Felipe Moisés. Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 1980. (Poiesis)
1 078
Odylo Costa Filho
Dois Sonetos para Guimarães Rosa
1. SONETO DE DIADORIM
Quem pára, quando nasce a madrugada,
para pensar que a noite já vem vindo?
O amor é coisa sempre inesperada,
brota do vivo chão, grita dormindo.
Cheiro de bois, distante cavalgada,
buritizal no sol, mato bulindo,
Riobaldo carrega, em mão fechada,
mel e morte, ar do Cão, luz do Benvindo.
Sertão é seu: veredas e brejões,
couros, águas, sossegos, chapadões...
Mas a má sina esbarra a travessia.
E hoje só Diadorim voga nos campos,
campeando estrelas, anjos, pirilampos,
pertença da Senhora da Abadia.
2. SONETO DE ACEITAÇÃO
"A fortes braços de anjos sojigado."
GUIMARÃES ROSA
A fortes braços de anjos sojigado
andei por terras que nem mesmo eu sei,
em duras sortes fui crucificado,
provei dos mares a mais crua lei.
Mas não quis me quedar enfeitiçado
e na rede em que um dia me deitei
"Eu sou feliz" estava bem gravado
em sinal do destino que aceitei.
Juntei destroços do meu ser antigo,
e na piedade do maior tormento
regrudaste pedaço por pedaço.
A saliva do amor secou no vento
e contra o mal da morte meu abrigo
foi a sombra serena do teu braço.
In: COSTA, FILHO, Odylo. Tempo de Lisboa e outros poemas. Pref. Manuel Bandeira. Lisboa: Livr. Morais, 1966. (Círculo de poesia, 32)
Quem pára, quando nasce a madrugada,
para pensar que a noite já vem vindo?
O amor é coisa sempre inesperada,
brota do vivo chão, grita dormindo.
Cheiro de bois, distante cavalgada,
buritizal no sol, mato bulindo,
Riobaldo carrega, em mão fechada,
mel e morte, ar do Cão, luz do Benvindo.
Sertão é seu: veredas e brejões,
couros, águas, sossegos, chapadões...
Mas a má sina esbarra a travessia.
E hoje só Diadorim voga nos campos,
campeando estrelas, anjos, pirilampos,
pertença da Senhora da Abadia.
2. SONETO DE ACEITAÇÃO
"A fortes braços de anjos sojigado."
GUIMARÃES ROSA
A fortes braços de anjos sojigado
andei por terras que nem mesmo eu sei,
em duras sortes fui crucificado,
provei dos mares a mais crua lei.
Mas não quis me quedar enfeitiçado
e na rede em que um dia me deitei
"Eu sou feliz" estava bem gravado
em sinal do destino que aceitei.
Juntei destroços do meu ser antigo,
e na piedade do maior tormento
regrudaste pedaço por pedaço.
A saliva do amor secou no vento
e contra o mal da morte meu abrigo
foi a sombra serena do teu braço.
In: COSTA, FILHO, Odylo. Tempo de Lisboa e outros poemas. Pref. Manuel Bandeira. Lisboa: Livr. Morais, 1966. (Círculo de poesia, 32)
1 462
Leila Mícollis
Em Órbita
(Para o show de Tereza Tinoco)
Com você
quero todas as intimidades
de um amor escandalosamente carnudo,
sobretudo imperfeito,
que seja capaz de fazer
eles morderem a boca de despeito
e nós lambermos os beiços de prazer.
Com você
quero um amor que não precisem devassar
porque é claro e transparente;
daí ameaçar a tanta gente
pesada,
que não sabe flutuar
nem libertar-se da seriedade.
Com você
quero um amor tão à vontade
que muito mais leve que o ar
possa desafiar a lei da gravidade...
In: MÍCCOLIS, Leila. SACIEDADE dos poetas vivos. Org. Urhacy Faustino e Leila Míccolis. São Paulo: Edicon, 1991. v.1, p.4
Com você
quero todas as intimidades
de um amor escandalosamente carnudo,
sobretudo imperfeito,
que seja capaz de fazer
eles morderem a boca de despeito
e nós lambermos os beiços de prazer.
Com você
quero um amor que não precisem devassar
porque é claro e transparente;
daí ameaçar a tanta gente
pesada,
que não sabe flutuar
nem libertar-se da seriedade.
Com você
quero um amor tão à vontade
que muito mais leve que o ar
possa desafiar a lei da gravidade...
In: MÍCCOLIS, Leila. SACIEDADE dos poetas vivos. Org. Urhacy Faustino e Leila Míccolis. São Paulo: Edicon, 1991. v.1, p.4
1 917
Neide Archanjo
A minha cidade é
A minha cidade é
sagrada
dura
casta.
Digo pouco.
Ela devora todas as falas.
A gente que aqui mora
vai se matar em cinco minutos
cercada de falos brancos
lentos cavalos
duplos edifícios.
Nas ruas o asfalto friíssimo
e a fundação dos esgostos.
Nas casas
os comedores
os roedores
os suicidas
os assassinos
os vampiros
todos absolutamente bons.
Aqui se morre de amor.
O mar é vazio
— abismo no vale —
e os rios soltos pelo interior.
Ai, a mágoa desta cidade
não se conta.
Por que escurecer o coração?
(...)
O halterofilista da praça da Sé
o bancário da rua XV
o moço do bilhar
a menina do som de cristal
o móvel corretor de imóveis
o vendedor de bilhetes
o vendedor de automóveis
— margem rio peixe água entulho flor —
e o artista
— homem coletivo —
têm o privilégio:
suportam te olhar sem filtros.
Com eles eu componho
a tua aura
— encantamento além da superfície —
e te assumo agudíssima canção
na garganta estreita
do meu grito.
Sei que meus juízos minhas ações
meus atos
comprometem a tua sacralidade áspera
a tua dureza espessa
a tua castidade casta.
Mas a cada hora gasta
— queda cegueira dor —
sonho a minha conversão exausta.
Saulo, Saulo, por que me persegues?
In: ARCHANJO, Neide. Poesia na praça. São Paulo: I.L.A. Palma, 1970
sagrada
dura
casta.
Digo pouco.
Ela devora todas as falas.
A gente que aqui mora
vai se matar em cinco minutos
cercada de falos brancos
lentos cavalos
duplos edifícios.
Nas ruas o asfalto friíssimo
e a fundação dos esgostos.
Nas casas
os comedores
os roedores
os suicidas
os assassinos
os vampiros
todos absolutamente bons.
Aqui se morre de amor.
O mar é vazio
— abismo no vale —
e os rios soltos pelo interior.
Ai, a mágoa desta cidade
não se conta.
Por que escurecer o coração?
(...)
O halterofilista da praça da Sé
o bancário da rua XV
o moço do bilhar
a menina do som de cristal
o móvel corretor de imóveis
o vendedor de bilhetes
o vendedor de automóveis
— margem rio peixe água entulho flor —
e o artista
— homem coletivo —
têm o privilégio:
suportam te olhar sem filtros.
Com eles eu componho
a tua aura
— encantamento além da superfície —
e te assumo agudíssima canção
na garganta estreita
do meu grito.
Sei que meus juízos minhas ações
meus atos
comprometem a tua sacralidade áspera
a tua dureza espessa
a tua castidade casta.
Mas a cada hora gasta
— queda cegueira dor —
sonho a minha conversão exausta.
Saulo, Saulo, por que me persegues?
In: ARCHANJO, Neide. Poesia na praça. São Paulo: I.L.A. Palma, 1970
857
Leila Mícollis
A Seco
Tem coisas que a gente só diz de porre,
se não o outro corre;
mas passada a bebedeira,
a gente acha que fez besteira,
não devia ter falado,
que se expôs adoidado,
à toa e foi tolice.
Finge-se então que se esquece o que disse,
culpa-se a carência, a demência, a embriaguez,
responsáveis por tamanha estupidez.
E é aceitando este estranho cabedal
que quando se volta ao "estado normal",
cada vez mais sós, na defensiva,
corroídos morremos de cirrose afetiva.
In: MÍCCOLIS, Leila. O bom filho a casa torra. Seleção de textos Urhacy Faustino. São Paulo: Edicon; Rio de Janeiro: Blocos, 1992. p.2
se não o outro corre;
mas passada a bebedeira,
a gente acha que fez besteira,
não devia ter falado,
que se expôs adoidado,
à toa e foi tolice.
Finge-se então que se esquece o que disse,
culpa-se a carência, a demência, a embriaguez,
responsáveis por tamanha estupidez.
E é aceitando este estranho cabedal
que quando se volta ao "estado normal",
cada vez mais sós, na defensiva,
corroídos morremos de cirrose afetiva.
In: MÍCCOLIS, Leila. O bom filho a casa torra. Seleção de textos Urhacy Faustino. São Paulo: Edicon; Rio de Janeiro: Blocos, 1992. p.2
1 144
Neide Archanjo
Veio negra
(...)
Veio negra
lindíssima
como um lírio de Ofir
e habitou a tenda que armei
entre silêncios
do ócio mais ardente
alegria luminosa de carícias
coisas perfumadas trazidas de viagens
feitas por terra
e por mar.
Deitou seu corpo ao lado do meu.
Abrigou-se.
À nossa volta tudo foi
farto doce e santo
o verde o roxo o branco
mais uma ternura
que sabia ser volúpia
e quis ser encanto.
(Sentada
nua.
Um lenço cobre o bandó
desce pelas encostas
longas líbias escuras.
No chão os seus arreios
nos joelhos minha cabeça que descansa.
É tarde
um sol pequeno brota na janela:
meu poema e seus contornos
entre seus dedos
como os seus adornos.
Na voz uma canção nagô
falando de coisas estranhas
que devem ser de amor.
Em seu corpo esplêndido
suor e gozo
beijoim e hortelã
um silêncio roxo resplandece.
Reina Nanã.)
(...)
Poema integrante da série Sítio III.
In: ARCHANJO, Neide. Escavações. Pref. Carlos Felipe Moisés. Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 1980. (Poiesis)
Veio negra
lindíssima
como um lírio de Ofir
e habitou a tenda que armei
entre silêncios
do ócio mais ardente
alegria luminosa de carícias
coisas perfumadas trazidas de viagens
feitas por terra
e por mar.
Deitou seu corpo ao lado do meu.
Abrigou-se.
À nossa volta tudo foi
farto doce e santo
o verde o roxo o branco
mais uma ternura
que sabia ser volúpia
e quis ser encanto.
(Sentada
nua.
Um lenço cobre o bandó
desce pelas encostas
longas líbias escuras.
No chão os seus arreios
nos joelhos minha cabeça que descansa.
É tarde
um sol pequeno brota na janela:
meu poema e seus contornos
entre seus dedos
como os seus adornos.
Na voz uma canção nagô
falando de coisas estranhas
que devem ser de amor.
Em seu corpo esplêndido
suor e gozo
beijoim e hortelã
um silêncio roxo resplandece.
Reina Nanã.)
(...)
Poema integrante da série Sítio III.
In: ARCHANJO, Neide. Escavações. Pref. Carlos Felipe Moisés. Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 1980. (Poiesis)
1 008
Frederico Barbosa
A Reconstituição de um Poema, 1986
Traços de tinta no papel cortado:
pedaços de uma mesma declaração
reiterada a cada palavra vaga,
mesmo a mais errônea e emocionada.
Esse seu soneto (ainda mais um)
minha mão insegura, tola e tonta,
pronta a tramar sua própria destruição,
em momento algum logrou rasgar
Pois mesmo cega faca e inconstante,
sendo incapaz de se saber feliz,
confiar na felicidade que há,
sabe e sente que ser é diferente,
nesse mundo de triste imperfeição,
quando se ama de forma tão exata.
In: BARBOSA, Frederico. Rarefato. São Paulo: Iluminuras, 1990. Poema integrante da série 4 - Aos Mesmos Sentimentos
pedaços de uma mesma declaração
reiterada a cada palavra vaga,
mesmo a mais errônea e emocionada.
Esse seu soneto (ainda mais um)
minha mão insegura, tola e tonta,
pronta a tramar sua própria destruição,
em momento algum logrou rasgar
Pois mesmo cega faca e inconstante,
sendo incapaz de se saber feliz,
confiar na felicidade que há,
sabe e sente que ser é diferente,
nesse mundo de triste imperfeição,
quando se ama de forma tão exata.
In: BARBOSA, Frederico. Rarefato. São Paulo: Iluminuras, 1990. Poema integrante da série 4 - Aos Mesmos Sentimentos
1 094
Alberto da Costa e Silva
Outro Adeus
Sob o teto e a ferrugem
do mercado, em Fortaleza,
ele tocava a rabeca
e era cego. Tocava
com a cabeça inclinada,
esta mesma que vejo
na fieira de músicos
sobre a porta da igreja
larga e ocre de Sória,
os mesmos pés descalços
e chagados na pedra,
e a voz que me chega,
baixa, rouca, irritante,
toda sujo e pobreza.
Como dizer a outrem
o que está no meu sangue?
Que levei ao curral
os corcéis de Patroclo
e deitei minha nuca
sobre um colo de espinhos?
Mas, em Medinaceli,
Alberca e entardeceres,
senti o mesmo cheiro
de palha, urina e pêlo
de um jumento suado
sob o sol de Sobral
e o rancor da saudade
e a saudade sonhada.
Por que reparo tanto
em cada coisa, atento
ao poro, ao grão, ao risco,
ao veio, à sombra e ao brilho?
Para me amanhecer.
E não ter, à distância
de outro chão e outra luz,
esta carne. Contemplo
o cego e o céu do tempo:
um odor de farelo
repousa a servidão
deste corpo em que perco
o que em nós há de encontro
entre o ausente e o eterno.
In: SILVA, Alberto da Costa e. As linhas da mão. Pref. Antônio Carlos Villaça. Rio de Janeiro: Difel; Brasília: INL, 1978. Poema integrante da série As Linhas da Mão.
do mercado, em Fortaleza,
ele tocava a rabeca
e era cego. Tocava
com a cabeça inclinada,
esta mesma que vejo
na fieira de músicos
sobre a porta da igreja
larga e ocre de Sória,
os mesmos pés descalços
e chagados na pedra,
e a voz que me chega,
baixa, rouca, irritante,
toda sujo e pobreza.
Como dizer a outrem
o que está no meu sangue?
Que levei ao curral
os corcéis de Patroclo
e deitei minha nuca
sobre um colo de espinhos?
Mas, em Medinaceli,
Alberca e entardeceres,
senti o mesmo cheiro
de palha, urina e pêlo
de um jumento suado
sob o sol de Sobral
e o rancor da saudade
e a saudade sonhada.
Por que reparo tanto
em cada coisa, atento
ao poro, ao grão, ao risco,
ao veio, à sombra e ao brilho?
Para me amanhecer.
E não ter, à distância
de outro chão e outra luz,
esta carne. Contemplo
o cego e o céu do tempo:
um odor de farelo
repousa a servidão
deste corpo em que perco
o que em nós há de encontro
entre o ausente e o eterno.
In: SILVA, Alberto da Costa e. As linhas da mão. Pref. Antônio Carlos Villaça. Rio de Janeiro: Difel; Brasília: INL, 1978. Poema integrante da série As Linhas da Mão.
1 407
Antônio Barreto
A Sombra
Estou atrasado, lá vou eu correndo
e a sombra atrás...
Pé-pra-que-te-quero, a língua de fora
e a sombra atrás...
Vou achar um pé-de-ventania
para escapar dessa mania
de fugir da sombra todo dia
e noite
como um bicho-papão...
Pé-de-anjo, pé-de-pato e pano,
pé-de-chinelo sem pé-de-meia,
perambulando,
pererecando
por aí...
Estou adiantado, lá vou eu pensando
e a sombra atrás...
Olho no relógio, está atrasado,
e a sombra atrás...
(...)
Mas tem uma coisa
a mais pra contar:
essa grande safada
que vive acordada
é o meu avesso!
Se tento pegá-la,
até mesmo no sonho,
me desconheço:
ela me fantasia.
Se tento guardá-la
no travesseiro
ela me dá um beijo:
— Já é meio-dia!
In: BARRETO, Antônio: Brincadeiras de anjo. Il. May Shuravel. São Paulo: FTD, 1987. p.10-13. (Falas poéticas
e a sombra atrás...
Pé-pra-que-te-quero, a língua de fora
e a sombra atrás...
Vou achar um pé-de-ventania
para escapar dessa mania
de fugir da sombra todo dia
e noite
como um bicho-papão...
Pé-de-anjo, pé-de-pato e pano,
pé-de-chinelo sem pé-de-meia,
perambulando,
pererecando
por aí...
Estou adiantado, lá vou eu pensando
e a sombra atrás...
Olho no relógio, está atrasado,
e a sombra atrás...
(...)
Mas tem uma coisa
a mais pra contar:
essa grande safada
que vive acordada
é o meu avesso!
Se tento pegá-la,
até mesmo no sonho,
me desconheço:
ela me fantasia.
Se tento guardá-la
no travesseiro
ela me dá um beijo:
— Já é meio-dia!
In: BARRETO, Antônio: Brincadeiras de anjo. Il. May Shuravel. São Paulo: FTD, 1987. p.10-13. (Falas poéticas
2 032
Vicente de Carvalho
Spleen
Fora, na vasta noute, um vento de procela
Erra, aos saltos, uivando, em rajadas e em fúria;
E num rumor de choro, uma voz de lamúria,
Ouço a chuva a escorrer nos vidros da janela.
No desconforto do meu quarto de estudante,
Velo. Sinto-me como insulado da vida.
Eu imagino a morte assim, aborrecida
Solidão numa sombra infinita e constante...
Tu, que és forte, rebrame em fúria, natureza!
Eu, caído num fundo abismo de tristeza,
Invejo-te a expansão livre do temporal;
E, no tédio feroz que me assalta e me toma,
Sinto ansiarem-me n'alma instintos de chacal...
E compreendo Nero incendiando Roma.
Publicado no livro Ardentias (1885).
In: CARVALHO, Vicente de. Versos da mocidade. Porto: Chardron, 191
Erra, aos saltos, uivando, em rajadas e em fúria;
E num rumor de choro, uma voz de lamúria,
Ouço a chuva a escorrer nos vidros da janela.
No desconforto do meu quarto de estudante,
Velo. Sinto-me como insulado da vida.
Eu imagino a morte assim, aborrecida
Solidão numa sombra infinita e constante...
Tu, que és forte, rebrame em fúria, natureza!
Eu, caído num fundo abismo de tristeza,
Invejo-te a expansão livre do temporal;
E, no tédio feroz que me assalta e me toma,
Sinto ansiarem-me n'alma instintos de chacal...
E compreendo Nero incendiando Roma.
Publicado no livro Ardentias (1885).
In: CARVALHO, Vicente de. Versos da mocidade. Porto: Chardron, 191
1 722
Eunice Arruda
Outra Dúvida
Não sei se é
amor
ou
minha vida que pede
socorro
In: ARRUDA, Eunice. Invenções do desespero. São Paulo: Ed. da autora, 1973
amor
ou
minha vida que pede
socorro
In: ARRUDA, Eunice. Invenções do desespero. São Paulo: Ed. da autora, 1973
908
Vicente de Carvalho
Marinha
I
Eis o tempo feliz das pescarias — quando
Maio aponta a sorrir pela boca das flores.
Derramam-se na praia as gaivotas em bando...
Alerta, pescadores!
Crepusculeja ainda a aurora, mas quem pesca
Deve esperar o dia entre as ondas — enquanto
Sopra enfunando a vela a matutina fresca
E o sol não queima tanto.
Mulheres, fazei fogo! Ao alcance do braço,
Mesmo à porta do rancho a maré pôs a lenha.
Aprontai o café! Vibra já pelo espaço
A buzina roufenha.
Peixe na costa! O aviso erra de frágua em frágua,
Chama de rancho em rancho os pescadores. Eia!
As canoas estão ainda fora d'água
Encalhadas na areia:
Prestes, descei-as! Ide apanhar às estacas
A rede. Ide-a colhendo às pressas; colocai-a
Na canoa. Descendo agora nas ressacas,
Isso, fora da praia!
E é remar, é remar para o largo... As crianças
E as mulheres, em terra, esperam aguentando
O cabo que por sobre o azul das ondas mansas
A rede vai largando...
Publicado no livro Relicário: versos (1888).
In: CARVALHO, Vicente de. Versos da mocidade. Porto: Chardron, 191
Eis o tempo feliz das pescarias — quando
Maio aponta a sorrir pela boca das flores.
Derramam-se na praia as gaivotas em bando...
Alerta, pescadores!
Crepusculeja ainda a aurora, mas quem pesca
Deve esperar o dia entre as ondas — enquanto
Sopra enfunando a vela a matutina fresca
E o sol não queima tanto.
Mulheres, fazei fogo! Ao alcance do braço,
Mesmo à porta do rancho a maré pôs a lenha.
Aprontai o café! Vibra já pelo espaço
A buzina roufenha.
Peixe na costa! O aviso erra de frágua em frágua,
Chama de rancho em rancho os pescadores. Eia!
As canoas estão ainda fora d'água
Encalhadas na areia:
Prestes, descei-as! Ide apanhar às estacas
A rede. Ide-a colhendo às pressas; colocai-a
Na canoa. Descendo agora nas ressacas,
Isso, fora da praia!
E é remar, é remar para o largo... As crianças
E as mulheres, em terra, esperam aguentando
O cabo que por sobre o azul das ondas mansas
A rede vai largando...
Publicado no livro Relicário: versos (1888).
In: CARVALHO, Vicente de. Versos da mocidade. Porto: Chardron, 191
1 445
Tomás Antônio Gonzaga
Lira V
Eu não sou, minha Nise, pegureiro,
que viva de guardar alheio gado;
nem sou pastor grosseiro,
dos frios gelos e do Sol queimado,
que veste as pardas lãs do seu cordeiro.
Graças, ó Nise bela,
graças à minha Estrela!
A Cresso não igualo no tesouro;
mas deu-me a sorte com que honrado viva.
Não cinjo coroa d'ouro;
mas Povos mando, e na testa altiva
verdeja a Coroa do Sagrado Louro.
Graças, ó Nise bela,
graças à minha Estrela!
Maldito seja aquele, que só trata
de contar, escondido, a vil riqueza,
que, cego, se arrebata
em buscar nos Avós a vã nobreza,
com que aos mais homens, seus iguais, abata.
Graças, ó Nise bela,
graças à minha Estrela!
As fortunas, que em torno de mim vejo,
por falsos bens, que enganam, não reputo;
mas antes mais desejo:
não para me voltar soberbo em bruto,
por ver-me grande, quando a mão te beijo.
Graças, ó Nise bela,
graças à minha Estrela!
Pela Ninfa, que jaz vertida em Louro,
o grande Deus Apolo não delira?
Jove, mudado em Touro
e já mudado em velha não suspira?
Seguir aos Deuses nunca foi desdouro.
Graças, ó Nise bela,
graças à minha Estrela!
Pretendam Anibais honrar a História,
e cinjam com a mão, de sangue cheia,
os louros da vitória;
eu revolvo os teus dons na minha idéia:
só dons que vêm do céu são minha glória
Graças, ó Nise bela,
graças à minha Estrela!
Publicado no livro Marília de Dirceu: Terceira Parte (1812).
In: GONZAGA, Tomás Antônio. Obras completas. Ed. crít. M. Rodrigues Lapa. São Paulo: Ed. Nacional, 1942. (Livros do Brasil, 5
que viva de guardar alheio gado;
nem sou pastor grosseiro,
dos frios gelos e do Sol queimado,
que veste as pardas lãs do seu cordeiro.
Graças, ó Nise bela,
graças à minha Estrela!
A Cresso não igualo no tesouro;
mas deu-me a sorte com que honrado viva.
Não cinjo coroa d'ouro;
mas Povos mando, e na testa altiva
verdeja a Coroa do Sagrado Louro.
Graças, ó Nise bela,
graças à minha Estrela!
Maldito seja aquele, que só trata
de contar, escondido, a vil riqueza,
que, cego, se arrebata
em buscar nos Avós a vã nobreza,
com que aos mais homens, seus iguais, abata.
Graças, ó Nise bela,
graças à minha Estrela!
As fortunas, que em torno de mim vejo,
por falsos bens, que enganam, não reputo;
mas antes mais desejo:
não para me voltar soberbo em bruto,
por ver-me grande, quando a mão te beijo.
Graças, ó Nise bela,
graças à minha Estrela!
Pela Ninfa, que jaz vertida em Louro,
o grande Deus Apolo não delira?
Jove, mudado em Touro
e já mudado em velha não suspira?
Seguir aos Deuses nunca foi desdouro.
Graças, ó Nise bela,
graças à minha Estrela!
Pretendam Anibais honrar a História,
e cinjam com a mão, de sangue cheia,
os louros da vitória;
eu revolvo os teus dons na minha idéia:
só dons que vêm do céu são minha glória
Graças, ó Nise bela,
graças à minha Estrela!
Publicado no livro Marília de Dirceu: Terceira Parte (1812).
In: GONZAGA, Tomás Antônio. Obras completas. Ed. crít. M. Rodrigues Lapa. São Paulo: Ed. Nacional, 1942. (Livros do Brasil, 5
3 722
Sousa Caldas
Ode II [Oh! quanto és bela
Oh! quanto és bela
Vermelha rosa,
Tu me retratas
Nise formosa.
Lindo botão
Vejo a teu lado,
Qual junto a Vênus
O Filho alado.
Ele de Nise
Me pinta a cor,
E o seu amável
Terno pudor.
Verdes espinhos,
Para defesa,
Te pôs em torno
A Natureza.
Tal a Razão,
Sempre adorável,
De Nise cerca
O peito afável:
Nele se enlaça,
Bem como a hera,
E seus desejos
Rege severa.
Quando no meigo
Seio de Flora
o orvalho atrais
Da roxa Aurora,
Sobre as mais flores
Beleza ostentas:
Delas o cetro
Ter representas.
Ah! quantas vezes
Da espécie humana
Julguei ser Nise
A Soberana.
Tão gentil rosto
Jamais a Terra
Viu; nele a força
D'Amor se encerra.
Ó Flor mimosa,
Quero colher-te,
E no meu peito
Sempre trazer-te.
Mas ah! depressa
Tu murcharás,
E imagens tristes
Me lembrarás.
Já de horror sinto
Torvar-se o spr'ito,
E o coração
Bater-me aflito.
A minha Nise
Também da Morte
Há de sentir
O duro Corte!
Fazei-a, ó Céus,
Ou menos bela,
Ou nunca a Morte
Possa vencê-la!
Poema integrante da série Odes Anacreônticas.
In: CALDAS, Sousa. Obras poéticas: poesias sacras e profanas. Org. e notas Francisco de Borja Garção-Stockler. Paris: Of. de P.N. Rougeron, 1821. v.
Vermelha rosa,
Tu me retratas
Nise formosa.
Lindo botão
Vejo a teu lado,
Qual junto a Vênus
O Filho alado.
Ele de Nise
Me pinta a cor,
E o seu amável
Terno pudor.
Verdes espinhos,
Para defesa,
Te pôs em torno
A Natureza.
Tal a Razão,
Sempre adorável,
De Nise cerca
O peito afável:
Nele se enlaça,
Bem como a hera,
E seus desejos
Rege severa.
Quando no meigo
Seio de Flora
o orvalho atrais
Da roxa Aurora,
Sobre as mais flores
Beleza ostentas:
Delas o cetro
Ter representas.
Ah! quantas vezes
Da espécie humana
Julguei ser Nise
A Soberana.
Tão gentil rosto
Jamais a Terra
Viu; nele a força
D'Amor se encerra.
Ó Flor mimosa,
Quero colher-te,
E no meu peito
Sempre trazer-te.
Mas ah! depressa
Tu murcharás,
E imagens tristes
Me lembrarás.
Já de horror sinto
Torvar-se o spr'ito,
E o coração
Bater-me aflito.
A minha Nise
Também da Morte
Há de sentir
O duro Corte!
Fazei-a, ó Céus,
Ou menos bela,
Ou nunca a Morte
Possa vencê-la!
Poema integrante da série Odes Anacreônticas.
In: CALDAS, Sousa. Obras poéticas: poesias sacras e profanas. Org. e notas Francisco de Borja Garção-Stockler. Paris: Of. de P.N. Rougeron, 1821. v.
1 007
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