Vida
Poemas neste tema
Adélia Prado
A Discípula
Bendita a espécie extinta,
a que voltou ao repouso em sua origem
e não peregrina mais,
benditos todos que no cativeiro
por ânsia de eternidade multiplicam-se,
bendito o modo como tudo é feito.
Ancestrais, luxuoso nome
para quem apenas errou antes de nós!
Benditos,
bendita a hora da tarde
em que uma serva repousa
descansada de dor e de consolo.
a que voltou ao repouso em sua origem
e não peregrina mais,
benditos todos que no cativeiro
por ânsia de eternidade multiplicam-se,
bendito o modo como tudo é feito.
Ancestrais, luxuoso nome
para quem apenas errou antes de nós!
Benditos,
bendita a hora da tarde
em que uma serva repousa
descansada de dor e de consolo.
1 137
Adélia Prado
Mulher Ao Cair da Tarde
Ó Deus,
não me castigue se falo
minha vida foi tão bonita!
Somos humanos,
nossos verbos têm tempos,
não são como o Vosso,
eterno.
não me castigue se falo
minha vida foi tão bonita!
Somos humanos,
nossos verbos têm tempos,
não são como o Vosso,
eterno.
1 463
Adélia Prado
Ovos da Páscoa
O ovo não cabe em si, túrgido de promessa,
a natureza morta palpitante.
Branco tão frágil guarda um sol ocluso,
o que vai viver, espera.
a natureza morta palpitante.
Branco tão frágil guarda um sol ocluso,
o que vai viver, espera.
1 387
Carlos Drummond de Andrade
Qualquer
Qualquer tempo é tempo.
A hora mesma da morte
é hora de nascer.
Nenhum tempo é tempo
bastante para a ciência
de ver, rever.
Tempo, contratempo
anulam-se, mas o sonho
resta, de viver.
A hora mesma da morte
é hora de nascer.
Nenhum tempo é tempo
bastante para a ciência
de ver, rever.
Tempo, contratempo
anulam-se, mas o sonho
resta, de viver.
1 160
Carlos Drummond de Andrade
Unidade
As plantas sofrem como nós sofremos.
Por que não sofreriam,
se esta é a chave da unidade do mundo?
A flor sofre, tocada
por mão inconsciente.
Há uma queixa abafada
em sua docilidade.
A pedra é sofrimento
paralítico, eterno.
Não temos nós, animais,
sequer o privilégio de sofrer.
Por que não sofreriam,
se esta é a chave da unidade do mundo?
A flor sofre, tocada
por mão inconsciente.
Há uma queixa abafada
em sua docilidade.
A pedra é sofrimento
paralítico, eterno.
Não temos nós, animais,
sequer o privilégio de sofrer.
886
Carlos Drummond de Andrade
Lembrete
Se procurar bem, você acaba encontrando
não a explicação (duvidosa) da vida,
mas a poesia (inexplicável) da vida.
não a explicação (duvidosa) da vida,
mas a poesia (inexplicável) da vida.
3 139
Carlos Drummond de Andrade
Inscrição Tumular
O instante de corola o instante de vida
o instante de sentimento o instante de conclusão
o instante de memória
e muitos outros instantes sem razão e sem verso.
o instante de sentimento o instante de conclusão
o instante de memória
e muitos outros instantes sem razão e sem verso.
1 124
Carlos Drummond de Andrade
Por Quê?
Por que nascemos para amar, se vamos morrer?
Por que morrer, se amamos?
Por que falta sentido
ao sentido de viver, amar, morrer?
Por que morrer, se amamos?
Por que falta sentido
ao sentido de viver, amar, morrer?
1 691
António Ramos Rosa
Enquanto Estamos Vivos
Enquanto estamos vivos
procuramos saber e, mais do que saber,
o sabor que dilata espesso e fúlgido
e que queima como uma axila ou como um púbis
e é nostalgia, paixão, ignorância,
vazio vibrante
e a delícia sem máscaras em que o ar resplandece.
procuramos saber e, mais do que saber,
o sabor que dilata espesso e fúlgido
e que queima como uma axila ou como um púbis
e é nostalgia, paixão, ignorância,
vazio vibrante
e a delícia sem máscaras em que o ar resplandece.
907
António Ramos Rosa
Nasceu Para Ser Centelha
Nasceu para ser centelha
e a sua dança fugaz
é um volume altíssimo
em que se enrola o vento
em que se ganha o dia.
e a sua dança fugaz
é um volume altíssimo
em que se enrola o vento
em que se ganha o dia.
1 045
António Ramos Rosa
Pronunciar a Terra
Pronunciar a terra
com as suas estridências.
Rodar com o novo sangue e a sua ignorância.
com as suas estridências.
Rodar com o novo sangue e a sua ignorância.
981
António Ramos Rosa
Mediadora do Opaco
Para o mínimo olhar a terra negativa,
os poços infantis,
lanças, palmas, dentes,
concavidades, placas, declives.
Não já a flor nem a folha soberana
mas os impulsos negros, a incoerência viva
do informulado: algo entre
vermes e excrementos explode
no opaco. Onde as palavras
circulares, concêntricas
se apagam.
os poços infantis,
lanças, palmas, dentes,
concavidades, placas, declives.
Não já a flor nem a folha soberana
mas os impulsos negros, a incoerência viva
do informulado: algo entre
vermes e excrementos explode
no opaco. Onde as palavras
circulares, concêntricas
se apagam.
973
António Ramos Rosa
Na Nudez do Labirinto
Na nudez do labirinto
ouvimos
o simples estar aqui.
ouvimos
o simples estar aqui.
1 081
António Ramos Rosa
Mais Que Superfície a Urdidura
Mais que superfície a urdidura
que se levanta e cai
e é cinza e sol no seu múltiplo limite.
que se levanta e cai
e é cinza e sol no seu múltiplo limite.
484
António Ramos Rosa
É Um Rumor Apagado Talvez
É um rumor apagado talvez
a esquiva expansão de um corpo.
Viver seguindo este impulso ténue
através do esquecimento.
a esquiva expansão de um corpo.
Viver seguindo este impulso ténue
através do esquecimento.
552
António Ramos Rosa
Ao Sabor do Mundo, Na Deriva
Ao sabor do mundo, na deriva
que conduz aos confins do advir
o que inicia em suaves surpresas
até que o silêncio seja um puro acorde
de estar no sustentáculo ilimitado.
que conduz aos confins do advir
o que inicia em suaves surpresas
até que o silêncio seja um puro acorde
de estar no sustentáculo ilimitado.
883
António Ramos Rosa
Interrompendo o Vazio
Interrompendo o vazio
busca os seus limites
negros
Divide-se no sol
cintila ou não no espaço
busca a nudez que é ele próprio
uma dança quase
e estes resíduos
em que se reproduz e se desfaz
busca os seus limites
negros
Divide-se no sol
cintila ou não no espaço
busca a nudez que é ele próprio
uma dança quase
e estes resíduos
em que se reproduz e se desfaz
914
António Ramos Rosa
Caminho Sem Saída…
Caminho sem saída porque é a incessante saída e a perda, o inesperado intervalo que se abre a outro intervalo que se abre, a sucessiva vida simultânea de uma parede de água, página respirada pela boca na árvore ou na mão da terra.
1 135
António Ramos Rosa
Adormecendo, Procura Como Que
Adormecendo, procura como que
uma folha perdida, branca.
Como se a vida fosse lisa
respira um sono à beira de água.
Acordá-lo seria destruí-lo.
Agora ele é o bafo da folhagem,
uma pedra sem arestas e sem nome,
um campo de murmúrios,
um começo infinito.
uma folha perdida, branca.
Como se a vida fosse lisa
respira um sono à beira de água.
Acordá-lo seria destruí-lo.
Agora ele é o bafo da folhagem,
uma pedra sem arestas e sem nome,
um campo de murmúrios,
um começo infinito.
882
António Ramos Rosa
O Objecto
Nascer com ele,
ponte a descer,
à água e ao pó.
Vivo, imóvel.
Nascer com ele,
sede e gomo,
sabê-lo, sumo,
olhar sem nome.
Nascer com ele,
soprá-lo, pluma,
chama de ar.
Nascer com ele,
envolto e nu,
o corpo elástico
— salto e silêncio.
Renovo o sopro
de árido vento:
áspide, gume,
vácuo de amor.
ponte a descer,
à água e ao pó.
Vivo, imóvel.
Nascer com ele,
sede e gomo,
sabê-lo, sumo,
olhar sem nome.
Nascer com ele,
soprá-lo, pluma,
chama de ar.
Nascer com ele,
envolto e nu,
o corpo elástico
— salto e silêncio.
Renovo o sopro
de árido vento:
áspide, gume,
vácuo de amor.
966
António Ramos Rosa
A Polpa do Sabor
A polpa fresca, lâmina rápida que se crispa e salta viva.
E o dia baço, longo, ao fim do corpo: uma parede morta.
A cada passo, a pequena crista límpida, braço que flui
através das árvores, quase ao longo do céu.
Punho breve, inundado, que escreve o sabor nos dentes
do muro já surdo e frio na noite.
E o dia baço, longo, ao fim do corpo: uma parede morta.
A cada passo, a pequena crista límpida, braço que flui
através das árvores, quase ao longo do céu.
Punho breve, inundado, que escreve o sabor nos dentes
do muro já surdo e frio na noite.
949
António Ramos Rosa
A Última Oportunidade É Sempre
A última oportunidade é sempre
esta
corre
só um pouco mais e o sol e o sangue
invadirá a árvore
a seiva empapará tua língua
eia! um homem
sem nada para a morte
esta
corre
só um pouco mais e o sol e o sangue
invadirá a árvore
a seiva empapará tua língua
eia! um homem
sem nada para a morte
925
António Ramos Rosa
Um Outro Sol, Um Outro Pão
Em vão acumulo. Em vão se acumula.
Abri-me ao sol e disse: Eis o sol
todos os dias
e cheguei a sentir o sol das veias.
Árvore! gritaste.
Nunca se te abriu o pão da mesa
um pão limpo
uns olhos de mulher de água tranquila?
Abri-me ao sol e disse: Eis o sol
todos os dias
e cheguei a sentir o sol das veias.
Árvore! gritaste.
Nunca se te abriu o pão da mesa
um pão limpo
uns olhos de mulher de água tranquila?
695
António Ramos Rosa
Em Qualquer Parte Um Homem
Em qualquer parte um homem
discretamente morre
Ergueu uma flor
Levantou uma cidade
Enquanto o sol perdura
ou uma nuvem passa
surge uma nova imagem
Em qualquer parte um homem
abre o seu punho e ri
discretamente morre
Ergueu uma flor
Levantou uma cidade
Enquanto o sol perdura
ou uma nuvem passa
surge uma nova imagem
Em qualquer parte um homem
abre o seu punho e ri
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