Destino e Superação

Poemas neste tema

Fernando Pessoa

Fernando Pessoa

Mas o hóspede inconvidado

Mas o hóspede inconvidado
Que mora no meu destino,
Que não sei como é chegado,
Nem de que honras é digno.

Constrange meu ser de casa
A adaptações de disfarce.

(...)


07/04/1929
4 478
Fernando Pessoa

Fernando Pessoa

Os deuses, não os reis, são os tiranos.

Os deuses, não os reis, são os tiranos.
É a lei do Fado a única que oprime.
Pobre criança de maduros anos,
Que pensas que há revolta que redime!
Enquanto pese, e sempre pesará,
Sobre o homem a serva condição
De súbdito do Fado.


27/05/1922
4 272
Fernando Pessoa

Fernando Pessoa

XI - Temo, Lídia, o destino. Nada é certo.

Temo, Lídia, o destino. Nada é certo.
Em qualquer hora pode suceder-nos
O que nos tudo mude.
Fora do conhecido é estranho o passo
Que próprio damos. Graves numes guardam
As lindas do que é uso.
Não somos deuses; cegos, receemos,
E a parca dada vida anteponhamos
À novidade, abismo.


(Athena, nº 1, Outubro de 1924)
2 223
Fernando Pessoa

Fernando Pessoa

Negue-me tudo a sorte, menos vê-la,

Negue-me tudo a sorte, menos vê-la,
Que eu, 'stóico sem dureza,
Na sentença gravada do Destino
Quero gozar as letras.


21/11/1928
2 596
Fernando Pessoa

Fernando Pessoa

Nem da erva humilde se o Destino esquece.

Nem da erva humilde se o Destino esquece.
Saiba a lei o que vive.
De sua natureza murcham rosas
E prazeres se acabam.
Quem nos conhece, amigo, tais quais fomos?
Nem nós os conhecemos.


20/11/1928
1 554
Fernando Pessoa

Fernando Pessoa

Sob a leve tutela

Sob a leve tutela
De deuses descuidosos,
Quero gastar as concedidas horas
Desta fadada vida.

Nada podendo contra
O ser que me fizeram,
Desejo ao menos que me haja o Fado
Dado a paz por destino.

Da verdade não quero
Mais que a vida; que os deuses
Dão vida e não verdade, nem talvez
Saibam qual a verdade.
2 067
Fernando Pessoa

Fernando Pessoa

No mundo, só comigo, me deixaram

No mundo, só comigo, me deixaram
Os deuses que dispõem.
Não posso contra eles: o que deram
Aceito sem mais nada.
Assim o trigo baixa ao vento, e, quando
O vento cessa, ergue-se.


19/11/1930
2 023
Fernando Pessoa

Fernando Pessoa

Flores que colho, ou deixo,

Flores que colho, ou deixo,
Vosso destino é o mesmo.

Via que sigo, chegas
Não sei aonde eu chego.

Nada somos que valha,
Somo-lo mais que em vão.


02/09/1923
2 795
Fernando Pessoa

Fernando Pessoa

Dia após dia a mesma vida é a mesma.

Dia após dia a mesma vida é a mesma.
O que decorre, Lídia,
No que nós somos como em que não somos
Igualmente decorre.
Colhido, o fruto deperece; e cai
Nunca sendo colhido.
Igual é o fado, quer o procuremos,
Quer o 'speremos. Sorte
Hoje, Destino sempre, e nesta ou nessa
Forma alheio e invencível.


02/09/1923
1 982
Fernando Pessoa

Fernando Pessoa

No lugar dos palácios desertos e em ruínas

No lugar dos palácios desertos e em ruínas
À beira do mar,
Leiamos, sorrindo, os segredos das sinas
De quem sabe amar.

Qualquer que ele seja, o destino daqueles
Que o amor levou
Para a sombra, ou na luz se fez a sombra deles,
Qualquer fosse o voo.

Por certo eles foram mais reais e felizes.


01/03/1917
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