Árvores florestas e montanhas

Poemas neste tema

Fernando Pessoa

Fernando Pessoa

Se já não torna a eterna primavera

Se já não torna a eterna primavera
        Que em sonhos conheci,
O que é que o exausto coração espera
        Do que não tem em si?

Se não há mais florir de árvores feitas
        Só de alguém as sonhar,
Que coisas quer o coração perfeitas,
        Quando, e em que lugar?

Não: contentemo-nos com ter a aragem
        Que, porque existe, vem
Passar a mão sobre o alto da folhagem
        E assim nos faz um bem.
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Florbela Espanca

Florbela Espanca

A Voz da Tília

Diz-me a tília a cantar: “Eu sou sincera,
Eu sou isto que vês: o sonho, a graça,
Deu ao meu corpo, o vento, quando passa,
Este ar escultural de bayadera...

E de manhã o sol é uma cratera,
Uma serpente de oiro que me enlaça...
Trago nas mãos as mãos da Primavera...
E é para mim que em noites de desgraça

Toca o vento Mozart, triste e solene,
E à minha alma vibrante, posta a nu,
Diz a chuva sonetos de Verlaine...”

E, ao ver-me triste, a tília murmurou:
“Já fui um dia poeta como tu...
Ainda hás de ser tília como eu sou...”
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Florbela Espanca

Florbela Espanca

À tua porta

À tua porta há um pinheiro manso
De cabeça pendida, a meditar,
Amor! Sou eu, talvez, a contemplar
Os doces sete palmos do descanso.

Sou eu que para ti agito e lanço,
Como um grito, meus ramos pelo ar,
Sou eu que estendo os braços a chamar
Meu sonho que se esvai e não alcanço.

Eu que do sol filtro os ruivos brilhos
Sobre as loiras cabeças dos teus filhos
Quando o meio-dia tomba sobre a serra...

E, à noite, a sua voz dolente e vaga
É o soluço da minha alma em chaga:
Raiz morta de sede sob a terra!
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Florbela Espanca

Florbela Espanca

Vulcões

Tudo é frio e gelado. O gume dum punhal
Não tem a lividez sinistra da montanha
Quando a noite a inunda dum manto sem igual
De neve branca e fria onde o luar se banha

No entanto que fogo, que lavas, a montanha
Oculta no seu seio de lividez fatal
Tudo é quente lá dentro... e que paixão tamanha
A fria neve envolve em seu vestido ideal!

No gelo da indiferença ocultam-se as paixões
Como no gelo frio do cume da montanha
Se oculta a lava quente do seio dos vulcões...

Assim quando eu te falo alegre, friamente,
Sem um tremor de voz, mal sabes tu que estranha
Paixão, palpita e ruge em mim doida e fremente!
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Aimé Césaire

Aimé Césaire

entre outros massacres

entre outros massacres

com todas as forças o sol e a lua se entrechocam
as estrelas caem como testemunhas maduríssimas
e como um carregamento de ratos acinzentados

não tema nada apronta as tuas grossas águas
que tão bem carregam a berma dos espelhos

puseram barro nos meus olhos
e veja eu vejo terrivelmente eu vejo
de todas as montanhas de todas as ilhas
não resta mais nada a não ser alguns tocos ruins
da impenitente saliva do mar

(tradução de Leo Gonçalves)


entre autres massacres

de toutes leurs forces le soleil et la lune s"entrechoquent/les étoiles tombent comme des témoins trop mûrs/et comme une portée de souris grises//ne crains rien apprête tes grosses eaux/qui si bien emportent la berge des miroirs//ils ont mis de la boue sur mes yeux/et vois je vois terriblement je vois/de toutes les montagnes de toutes les îles/il ne reste plus rien que les quelques mauvais chicots/de l"impenitente salive de la mer

do livro "Soleil cou coupé" (1948)



para dizer...

para revitalizar o rugido das fosfenas
o âmago oco dos cometas

para reavivar o verso solar dos sonhos
sua lactância
para ativar o fresco fluxo das seivas a memória dos silicatos

fúria dos povos sumidouro dos deuses seu salto
esperar a palavra seu ouro sua orla
até a ignífera
sua boca

(tradução de Leo Gonçalves)
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Ise no miyasudokoro

Ise no miyasudokoro

Pende dos galhos

Pende dos galhos
de um verde salgueiro
chuva primeva
tal como se fora um
meandro de pérolas.
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Forough Farrokhzad

Forough Farrokhzad

só o som permanece

por que eu deveria deter-me, por quê?
os pássaros partiram em busca
da direção azul.
o horizonte é vertical, vertical
e o movimento uma fonte;
e nos limites da visão
planetas brilhantes giram.
a terra elevando-se alcança a repetição,
e poços de ar
tornam-se túneis de conexão;
e o dia é uma vastidão,
que não cabe na mente estreita
de vermes de jornal.
por que deveria deter-me?
a estrada passa pelos capilares da vida,
a qualidade do ambiente
na nau do útero da lua
matará as células corrompidas.
e no espaço químico após a aurora
há som apenas,
som que atrairá as partículas do tempo.
por que me deter?
o que pode ser um pântano?
o que pode ser um pântano senão campo de fermentação
de insetos corruptos?
cadáveres inchados rabiscam os pensamentos do necrotério,
o impotente esconde
sua falta de virilidade em escuridão,
e o besouro... ah,
se o besouro fala,
por que eu me deteria?
cooperação em letras de chumbo é fútil,
eu não salvarei o pensamento baixo.
sou descendente da casa das árvores.
respirar esse ar velho me deprime.
um pássaro morto aconselhou-me
guardar o voo para a memória.
o âmbito final dos poderes é a união,
unindo-se ao princípio luminar do sol
e derramando-se na compreensão da luz.
é natural que moinhos desmoronem.
por que me deter?
eu aperto contra o peito
os feixes verdes de trigo
e os amamento.
som, som, só som,
o som do desejo límpido
da água em fluir,
o som da queda de luz em estrela
no muro da feminilidade da terra,
o som dos laços do esperma do sentido
e a expansão da mente do amor em partilha.
som, som, som,
apenas som permanece.
na terra de anões,
os critérios de comparação
sempre viajaram a órbita do zero.
por que me deter?
eu obedeço os quatro elementos
e a tarefa de delinear
a constituição do meu coração
não é negócio
para o governo local dos cegos.
o que é o selvagem e longo gemido
dos órgãos sexuais de animais para mim?
o que para mim é o movimento humilde
do verme em seu vácuo carnal?
a ancestralidade que sangra das flores
comprometeu-me com a vida.
você tem familiaridade com o que sangra
da ancestralidade das flores?
(paráfrase de Ricardo Domeneck)
.
.
.
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Miguel Torga

Miguel Torga

Como a gente se perde!

Como a gente se perde! A linguagem que o meu sangue entende — é esta. A comida que o meu estômago deseja — é esta. O chão que os meus pés sabem pisar — é este. E, contudo, eu não sou já daqui. Pareço uma destas árvores que se transplantam, que têm má saúde no país novo, mas que morrem se voltam à terra natal.
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Mário Dionísio

Mário Dionísio

Complicação

As ondas indo, as ondas vindo - as ondas indo e vindo sem
parar um momento.
As horas atrás das horas, por mais iguais sempre outras.
E ter de subir a encosta para a poder descer.
E ter de vencer o vento.
E ter de lutar.
Um obstáculo para cada novo passo depois de cada passo.
As complicações, os atritos para as coisas mais simples.
E o fim sempre longe, mais longe, eternamente longe.

Ah mas antes isso!

Ainda bem que o mar não cessa de ir e vir constantemente.
Ainda bem que tudo é infinitamente difícil.
Ainda bem que temos de escalar montanhas e que elas vão
sendo cada vez mais altas. Ainda bem que o vento nos oferece resistência
e o fim é infinito.

Ainda bem.
Antes isso.
50 000 vezes isso à igualdade fútil da planície.
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Adalgisa Nery

Adalgisa Nery

Estigma

Não receio que partas para longe,
Que faças por fugir, por te livrares
Da força da minha voz
E da compreensão do meu olhar.

Não temo que os mares te levem
No bojo dos transatlânticos
Nem tampouco me amedronta
Que em possantes aviões
No céu e na terra,
Cortes espaços sem conta
Em todos os seres me encontrarás.

Serena ficarei se disseres
Que na certa me olvidarás
No ventre da mata virgem,
Nas areias dos desertos
Ou no amor de outras mulheres que terás.

Não importa.
Nada temo e desejo mesmo que o faças
Para que saibas o quanto estou em teus sentidos
E que a minha forma, o meu espírito
Jamais da tua existência passa.

Se fugires pelos mares
Tu me veras na espuma leve da onda,
Me sentiras no colorido de um peixe
E a minha voz escutaras dentro de uma concha.

Se partires pelos ares,
Certamente na brancura de uma nuvem
Tu sentirás a maciez e a alvura
Das minhas carnes.

Se fores para a floresta
Hás de me ver
Na árvore mais florida e harmoniosa
Atravessando areias cálidas do deserto.
Sei que trocarias o lenitivo de um oásis
Pela certeza de me teres perto.

E nas mulheres que encontrares,
Dos seios o perfume, das nucas a palidez,
Das ancas as curvas
E das peles a cor e a tepidez,
Fica certo, não te evadirás.

Porque desde a tua sombra
Ao teu mais rápido pensamento
Não serás livre de mim
Num um momento.

(Adalgisa Nery)
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António Feijó

António Feijó

Salgueiro

Adoro esta mulher moça e formosa,
Que à janela, a sonhar, vejo esquecida,
Não por ter uma casa sumptuosa
Junto ao Rio Amarelo construída…
- Amo-a porque uma folha melindrosa
Deixou cair nas águas distraída.

Tambem adoro a brisa do Levante
Não por trazer a essência virginal
Do pessegueiro que floriu distante,
No pendor da Montanha Oriental…
- Amo-a porque impeliu a folha errante
Ao meu batel no lago de cristal.

E adoro a folha, não por ter lembrado
A nova primavera que rompeu,
Mas por causa de um nome idolatrado
Que essa jovem mulher n’ela escreveu
Com a doirada agulha do bordado…
E esse nome… era o meu !

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Adalgisa Nery

Adalgisa Nery

Mistério

Há vozes dentro da noite que clamam por mim,
Há vozes nas fontes que gritam meu nome.
Minha alma distende seus ouvidos
E minha memória desce aos abismos escuros
Procurando quem chama.

Há vozes que correm nos ventos clamando por mim.
Há vozes debaixo das pedras que gemem meu nome
E eu olho para as árvores tranqüilas
E para as montanhas impassíveis
Procurando quem chama.

Há vozes na boca das rosas cantando meu nome
E as ondas batem nas praias
Deixando exaustas um grito por mim
E meus olhos caem na lembrança do paraíso
Para saber quem chama.

Há vozes nos corpos sem vida,
Há vozes no meu caminhar,
Há vozes no sono de meus filhos
E meu pensamento como um relâmpago risca
O limite da minha existência...
na ânsia de saber quem grita.

(Adalgisa Nery)
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Costa Andrade

Costa Andrade

Mãe-Terra

Terra vermelha do Lépi és minha mãe

Mãe-Terra que aos filhos dá
mais do que a vida uma razão

Razão de águia
águia transformada
no soba dos espaços
e das espinheiras cruas.

Terra vermelha do Lépi
calma sombra das mangueiras
sobre o chão vermelho
rocha negra do saber de ferro
a água sabe à voz materna

Águia de pedra
embala onde sentaram
régios Mussindas de vento
em gerações de luar
gritando ao vale profundo
aos muxitos
e ás mulembas velhas
a superfície larga do barro
do corpo negro dos filhos

A terra é sempre a mesma
o resto dirão os homens!
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Tomaz Vieira da Cruz

Tomaz Vieira da Cruz

Coqueiro

Ali, na rua do Carmo
um coqueiro ficou abandonado
quando destruiram a casa velha
a que deu sombra.

E onde um par enamorado
teve sonhos de Amor,
nesse pedaço de Luanda antiga
agora modernizada.

E o coqueiro ligado à terra,
tombado na direcção
da Rua da Pedreira,
como filho nos maternos braços
ali ficou.

Talvez para saudar alguém
que muito sofreu e amou...


Mas tudo acaba e o tempo
tudo anda a destruir,
- porque tudo é passageiro,
quando se vive a mentir.

Ó pincelada verde na cidade,
ruina e gótica coluna
de marmore verde...

Morre, coqueiro morre,
Antes que os homens, tão maus,
cometam a crueldade
de te expulsar e matar.

Morre de pura saudade...

E perdoa, mas sofre como um homem,
coqueiro das verdes palmas,
porque tudo, afinal, na vida, é triste
quando se matam almas...
1 958 1
Costa Andrade

Costa Andrade

Contratados

A hora do sol posto
as rolas traçam
desenhos de feitiços sinuosos

caminhos sob a calma das mulembas

e abraços de segredos e silêncios.

...longe...muito longe
um risco brando
acorda os ecos dos quissanjes
vermelho como o fogo das queimadas
com imagens de mucuisses e luar.

Canções que os velhos cantam
murmurando.

e nos homens cansados de lembrar
a distância vai calando mágoas.

renasce em cada braço
a força de um secreto entendimento.
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Olegário Mariano

Olegário Mariano

A Velha Mangueira

No pátio da senzala que a corrida
Do tempo mau de assombrações povoa,
Uma velha mangueira, comovida,
Deita no chão maldito a sombra boa.

Tinir de ferros, música dorida,
Vago maracatu no espaço ecoa...
Ela, presa às raízes, toda a vida,
Seu cativeiro, em flores, abençoa...

Rondam na noite espectros infelizes
Que lhe atiram, dos galhos às raízes,
Em blasfêmias de dor, golpes violentos.

E, quando os ventos rugem nos espaços,
Os seus galhos se torcem como braços
De escravos vergastados pelos ventos.


Publicado no livro Canto da Minha Terra (1930).

In: MARIANO, Olegário. Toda uma vida de poesia: poesias completas, 1911/1955. Rio de Janeiro: J. Olympio, 1957. v.
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Cláudio Manuel da Costa

Cláudio Manuel da Costa

I (Sonetos) [Para cantar de amor tenros cuidados

Para cantar de amor tenros cuidados,
Tomo entre vós, ó montes, o instrumento;
Ouvi pois o meu fúnebre lamento;
Se é, que de compaixão sois animados:

Já vós vistes, que aos ecos magoados
Do trácio Orfeu parava o mesmo vento;
Da lira de Anfião ao doce acento
Se viram os rochedos abalados.

Bem sei, que de outros gênios o Destino,
Para cingir de Apolo a verde rama,
Lhes influiu na lira estro divino;

O canto, pois, que a minha voz derrama,
Porque ao menos o entoa um peregrino,
Se faz digno entre vós também de fama.


Publicado no livro Obras (1768).

In: COSTA, Cláudio Manuel da. Obras. Introd. cronol. e bibliogr. Antônio Soares Amora. Lisboa: Bertrand, 1959. (Obras primas da língua portuguesa
4 895 1
Cláudio Manuel da Costa

Cláudio Manuel da Costa

XLVII (Sonetos) [Que inflexível se mostra, que constante

Que inflexível se mostra, que constante
Se vê este penhasco! já ferido
Do proceloso vento, e já batido
Do mar, que nele quebra a cada instante!

Não vi; nem hei de ver mais semelhante
Retrato dessa ingrata, a que o gemido
Jamais pode fazer, que enternecido
Seu peito atenda às queixas de um amante.

Tal és, ingrata Nise: a rebeldia,
Que vês nesse penhasco, essa dureza
Há de ceder aos golpes algum dia:

Mas que diversa é tua natureza!
Dos contínuos excessos da porfia,
Recobras novo estímulo à fereza.


Publicado no livro Obras (1768).

In: COSTA, Cláudio Manuel da. Obras. Introd. cronol. e bibliogr. Antônio Soares Amora. Lisboa: Bertrand, 1959. (Obras primas da língua portuguesa
4 416 1
Geir Campos

Geir Campos

Caracol

Também dono do mundo és: e, dono,
impões o teu direito de vagar
por ele como um rei que devagar
anda por seus palácios e jardins,
à hora da sesta, quando o gordo sono
dobra ainda mais sobre o peito a cerviz
ao rude camponês e ao bom fidalgo.
Como esse rei, também procuras algo
achável só na terra, de que és filho;
e enquanto assim te perdes na procura
teu rastro marca, com molhado brilho,
as fronteiras do reino que inaugura.


Publicado no livro Arquipélago (1952).

In: CAMPOS, Geir. Tarefa. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira; São Paulo: Massao Ohno; Brasília: INL, 1981. (Poesia sempre, 5
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Marcus Accioly

Marcus Accioly

A Pedra Lavrada

1 - A mão que lavra a pedra
A pedra a mão esgota,
No chão de pedra o grão
De pedra em pedra brota.
A mão sacode o grão
No chão de pedra morta,
De pedra em pedra o grão
Da própria pedra brota.

2 - A mão fecunda a pedra
Nos ossos do seu ventre,
O grão nasce do chão
Da pedra em seu deventre.
A mão conhece o chão
Onde desceu por entre
O grão que vem da pedra
Aberta, do seu ventre.

3 - Se a chuva molha não
O grão na pedra, ovo
No ninho, pedra aberta
Que se fecha de novo.
A mão que sabe o grão
Que falta à mão do povo,
Espera o sol, a ave,
Que choca o grão, o ovo.

4 - O sol, ave-de-fogo,
Não queima o grão que choca,
Porém nascido ao sol
O grão já nasce soca.
Mas, sim ou não, o grão
Da pedra se desloca
Chocado pelo chão
Depois que a mão o choca.

5 - O grão não sabe o chão
Por isso a mão prepara
O grão para viver
Na pedra que escancara.
Se mesmo farto o grão
A safra é sempre avara,
Na pedra, o grão em flor
E fruto se escancara.

(...)


Poema integrante da série A Pedra Lavrada - Canto I

In: ACCIOLY, Marcus. Nordestinados. 2.ed. Rio de Janeiro: Tempo Brasileiro; Brasília: INL, 1978. p.17-18. (Tempoesia, 18)

NOTA: Poema composto de 20 oitava
2 059 1
Joaquim Manuel de Macedo

Joaquim Manuel de Macedo

Canto IV - Nos Túmulos

Como na vida humana uma esperança
Que a luzir e apagar-se nos desvaira
Um estreito carreiro e tortuoso,
Que surge aqui, e ali desaparece
Para surgir e se esconder de novo
Por entre grupos d'árvores frondosas,
Vai sinuoso terminar-se humilde
Da velha ermida aos pés. Em torno dela
Se ufana sobre o monte a natureza.
Vegetação hercúlea arrosta as nuvens,
D'aurífero diadema ipês c'roados,
Quais da floresta reis; sapucaeiras
Em coifas cor do pejo a fronte erguendo,
D'espaço a espaço em turmas soberanas
Ostentam força, e em generoso impulso
Parecem, dilatando os longos braços,
Estrênuos proteger tênues arbustos,
Que ao perto humildes crescem. Pela terra
Vêm rochedos rompendo, como dorsos
De elefantes curvados; negras furnas,
Despenhadeiros turvos lá se afundam,
E além brame a torrente impetuosa,
Que as rochas morde e enfim se precipita
No abismo pavoroso, onde se engolfa
A urrar como um touro embravecido


In: MACEDO, Joaquim Manuel de. A nebulosa: poema. Rio de Janeiro: Garnier, s.d. p.134-135

NOTA: O "Canto IV - Nos Túmulos" é composto de 43 parte
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Lila Ripoll

Lila Ripoll

Floresta

De olhos fechados
mergulho em teu ventre.
Perfumes se encontram
no meu rosto. Braços
apanham meus cabelos.

Braços leves, pesados,
amorosos ou rudes,
Braços de cedro
ou espinheiro,
de parasitas
ou cravos selvagens.

No ar e na boca
um gosto de erva
amanhecida. Um gosto
de coisa lavada.
Um ar de chuva
e terra. Um gosto
de mundo amanhecendo.

Oh, enveredar
por esse mundo livre
e ser uma entre as árvores
que formam o volume
do teu rosto.

Enveredar por esse mundo livre.
Conhecer a geografia
do teu peito. Misturar-me
à conversa das folhas
e adivinhar o casamento
secreto das raízes!


Poema integrante da série Poemas Inéditos.

In: RIPOLL, Lila. Antologia poética. Rio de Janeiro: Leitura; Brasília: INL, 1968
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Álvaro Moreyra

Álvaro Moreyra

A Mangueira e o Sabiá

O sabiá pousou em cima da mangueira e cantou,
cantou uma semana inteira.
Depois foi-se embora, nunca mais voltou.
A mangueira ficou triste mas toda cheia de
mangas.
Mangas doces, tão bonitas, a mangueira nunca
deu.
Deu agora de saudade, porque a mangueira
sofreu.
Quanta mulher sabiá!
E quanto homem mangueira!...


In: MOREYRA, Álvaro. Circo. Rio de Janeiro: Pimenta de Mello, 1929
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Alberto de Oliveira

Alberto de Oliveira

Aspiração

Ser palmeira! existir num píncaro azulado,
Vendo as nuvens mais perto e as estrelas em bando;
Dar ao sopro do mar o seio perfumado,
Ora os leques abrindo, ora os leques fechando;

Só de meu cimo, só de meu trono, os rumores
Do dia ouvir, nascendo o primeiro arrebol,
E no azul dialogar com o espírito das flores,
Que invisível ascende e vai falar ao sol;

Sentir romper do vale e a meus pés, rumorosa,
Dilatar-se e cantar a alma sonora e quente
Das árvores, que em flor abre a manhã cheirosa
Dos rios, onde luz todo o esplendor do Oriente;

E juntando a essa voz o glorioso murmúrio
De minha fronde e abrindo ao largo espaço os véus,
Ir com ela através do horizonte purpúreo
E penetrar nos céus;

Ser palmeira, depois de homem ter sido! est'alma
Que vibra em mim, sentir que novamente vibra,
E eu a espalmo a tremer nas folhas, palma a palma,
E a distendo, a subir num caule, fibra a fibra;

E à noite, enquanto o luar sobre os meus leques treme,
E estranho sentimento, ou pena ou mágoa ou dó,
Tudo tem e, na sombra, ora ou soluça ou geme,
E, como um pavilhão, velo lá em cima eu só;

Que bom dizer então bem alto ao firmamento
O que outrora jamais — homem — dizer não pude,
Da menor sensação ao máximo tormento
Quanto passa através minha existência rude!

E, esfolhando-me ao vento, indômita e selvagem,
Quando aos arrancos vem bufando o temporal,
— Poeta — bramir então à noturna bafagem
Meu canto triunfal!

E isto que aqui não digo então dizer: que te amo,
Mãe natureza! mas de modo tal que o entendas,
Como entendes a voz do pássaro no ramo
E o eco que têm no oceano as borrascas tremendas;

E pedir que, ou no sol, a cuja luz referves,
Ou no verme do chão ou na flor que sorri,
Mais tarde, em qualquer tempo, a minh'alma conserves,
Para que eternamente eu me lembre de ti!

..........................................


Publicado no livro Versos e rimas: primeira parte (1895).

In: Poesias completas. Ed. crít. Marco Aurélio Mello Reis. Rio de Janeiro: Núcleo Ed. da UERJ, 1978. v.1. (Fluminense
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