Natureza
Poemas neste tema
Chico Doido de Caicó
Nunca comi Maria Antonieta Pons
Nunca comi Maria Antonieta Pons
Nunca comi Terezinha Morango
Nunca comi Elizabeth Taylor
Nunca comi Martha Rocha
Nunca comi Kim Novak
Mas comi todas as raparigas do Cai Pedaço
1 025
1
Ise no miyasudokoro
Pende dos galhos
Pende dos galhos
de um verde salgueiro
chuva primeva
tal como se fora um
meandro de pérolas.
772
1
Léopold Sédar Senghor
eu imagino ou sonho de menina
imagino que você está ali
tem o sol
e este pássaro perdido de trinado tão estranho
diríamos uma tarde de verão
clara. sinto que estou ficando tola, tão tola
tenho imenso desejo de me deitar entre o feno,
com manchas de sol sobre a pele nua
asas de borboleta em largas pétalas
e toda espécie de insetos do planeta
ao meu redor
(tradução de Leo Gonçalves)
:
Je m’imagine (Rêve de jeune fille)
Léopold Sédar Senghor
Je m’imagine que tu es là.
Il y a le soleil
Et cet oiseau perdu au chant
Si étrange.
On dirait une après-midi d’été,
Claire. Je me sens devenir sotte, très sotte.
J’ai grand désir ‘être couchée dans les foins,
Avec des taches de soleil sur ma peau nue,
Des ailes de papillons en larges pétales
Et toutes sortes de petites bêtes de la terre
Autour de moi.
1 252
1
Paulo Colina
Corpo a corpo
a vida é uma horda bárbara
de sentimentos
as noites tentam desde o princípio
de tudo
a derrubada de estigmas primários
o cotidiano tem sempre à mão
um repertório de sambas e blues
o papel branco vive me jogando
desafios na cara
ser marginal todavia
só interessa à paixão
bastaria ao poema apenas
a cor da minha pele?
de sentimentos
as noites tentam desde o princípio
de tudo
a derrubada de estigmas primários
o cotidiano tem sempre à mão
um repertório de sambas e blues
o papel branco vive me jogando
desafios na cara
ser marginal todavia
só interessa à paixão
bastaria ao poema apenas
a cor da minha pele?
971
1
Natália Correia
O Espírito
Nada a fazer amor, eu sou do bando
Impermanente das aves friorentas;
E nos galhos dos anos desbotando
Já as folhas me ofuscam macilentas;
E vou com as andorinhas. Até quando?
À vida breve não perguntes: cruentas
Rugas me humilham. Não mais em estilo brando
Ave estroina serei em mãos sedentas.
Pensa-me eterna que o eterno gera
Quem na amada o conjura. Além, mais alto,
Em ileso beiral, aí espera:
Andorinha indemne ao sobressalto
Do tempo, núncia de perene primavera.
Confia. Eu sou romântica. Não falto.
1 437
1
Sebastião Alba
Como se o mar
Quero a morte sem um defeito.
Sem planos brancos.
Sem que pequeninas luzes se apaguem
dentro dos ruídos.
Também a não quero providencial,
com um anjo vingador e secretíssimo
enfim pousado.
Nenhuma mitologia. Nenhuma
fruição poética. Assim: Como se o mar
me aspirasse os ouvidos... etc.
Mas súbita e civil,
com repartições abertas,
comércio, a luz graduada
nas altas paredes
dum bom dia sonoro.
Sem planos brancos.
Sem que pequeninas luzes se apaguem
dentro dos ruídos.
Também a não quero providencial,
com um anjo vingador e secretíssimo
enfim pousado.
Nenhuma mitologia. Nenhuma
fruição poética. Assim: Como se o mar
me aspirasse os ouvidos... etc.
Mas súbita e civil,
com repartições abertas,
comércio, a luz graduada
nas altas paredes
dum bom dia sonoro.
1 143
1
Daniel Faria
Estranho é o sono que não te devolve.
Estranho é o sono que não te devolve.
Como é estrangeiro o sossego
de quem não espera recado.
Essa sombra como é a alma
de quem já só por dentro se ilumina
e surpreende
e por fora é
apenas peso de ser tarde.Como é
amargo não poder guardar-te
em chão mais próximo do coração.
Como é estrangeiro o sossego
de quem não espera recado.
Essa sombra como é a alma
de quem já só por dentro se ilumina
e surpreende
e por fora é
apenas peso de ser tarde.Como é
amargo não poder guardar-te
em chão mais próximo do coração.
1 381
1
Pedro Oom
O Homem Bisado
Alegra-me ser todas as coisas e as sombras que elas projectam
ser a sombra dos teus seios e da tua boca
o criado de smoking branco que te agita os cabelos
para um cocktail estimulante e fresco
a mesa onde passo a ferro o teu corpo
as espádulas as coxas a curva macia dos joelhos
alegra-me ser o contorno da tua nuca e o binário motor dos teus braços
embora mais pequeno do que um corpúsculo celeste
sou os milhões de astros microrganismos estrelas
a rota de todos os navios perdidos
a angústia síntese de todos os suicidas
a forma de todos os animais conhecidos
o desenho rigoroso de toda a flora existente
Ontem em Paris hoje em Lisboa amanhã em Júpiter
caminho para a resolução de todos os problemas
sem a certeza de resolver qualquer deles
como se fosse uma máquina de somar parcelas
quatro vezes quatro oito vezes dez oitenta
sabe-me a vida ao que É
esta progressão assustadora de crocodilos bebendo limonada
Ontem fui a prostituta a quem paguei a noite
hoje serei talvez o inocente violentador frustrado
Sutmil é a cidade par aonde me evado todas as noites à aventura
e «os anéis de Saturno são a força centrífuga-centrípeta que me
agita os braços no espasmo amoroso»
a cabeça em Marte os pés na Terra
vindo «lá do fundo do horizonte lívido»
O comboio está na gare o comboio vai partir
apressemos o passo o momento é solene
somos o automóvel que sobe a avenida
a pulsação acelerada dos maquinismos
taxímetro de uma cidade de província
satélites de um satélite lunar
Tu és o aeroporto eu o avião que parte
e muito mais calmos entre éter e fogo
percorremos os sonhos de planeta em planeta desfolhando o futuro a flor sempre rara
e marcamos nos astros o nosso roteiro DEZ QUILÓMETROS
amanhã tirarei o curso de sonhador espacializado
1 416
1
Sebastião Alba
Ícaro
Da Mafalala estorva-nos
a memória dos gregos
É um anjo negro segredado
e assim goza
de asas sussurrantes
Desce por entre
intervalos do vento
e findo o voo refunde
o modelo de cera
Como qualquer pássaro faz ninho
ele no vestido das mulheres
Sem céu fixo
exala a plumagem
da comum nudez interrompida.
a memória dos gregos
É um anjo negro segredado
e assim goza
de asas sussurrantes
Desce por entre
intervalos do vento
e findo o voo refunde
o modelo de cera
Como qualquer pássaro faz ninho
ele no vestido das mulheres
Sem céu fixo
exala a plumagem
da comum nudez interrompida.
1 221
1
Forough Farrokhzad
só o som permanece
por que eu deveria deter-me, por quê?
os pássaros partiram em busca
da direção azul.
o horizonte é vertical, vertical
e o movimento uma fonte;
e nos limites da visão
planetas brilhantes giram.
a terra elevando-se alcança a repetição,
e poços de ar
tornam-se túneis de conexão;
e o dia é uma vastidão,
que não cabe na mente estreita
de vermes de jornal.
por que deveria deter-me?
a estrada passa pelos capilares da vida,
a qualidade do ambiente
na nau do útero da lua
matará as células corrompidas.
e no espaço químico após a aurora
há som apenas,
som que atrairá as partículas do tempo.
por que me deter?
o que pode ser um pântano?
o que pode ser um pântano senão campo de fermentação
de insetos corruptos?
cadáveres inchados rabiscam os pensamentos do necrotério,
o impotente esconde
sua falta de virilidade em escuridão,
e o besouro... ah,
se o besouro fala,
por que eu me deteria?
cooperação em letras de chumbo é fútil,
eu não salvarei o pensamento baixo.
sou descendente da casa das árvores.
respirar esse ar velho me deprime.
um pássaro morto aconselhou-me
guardar o voo para a memória.
o âmbito final dos poderes é a união,
unindo-se ao princípio luminar do sol
e derramando-se na compreensão da luz.
é natural que moinhos desmoronem.
por que me deter?
eu aperto contra o peito
os feixes verdes de trigo
e os amamento.
som, som, só som,
o som do desejo límpido
da água em fluir,
o som da queda de luz em estrela
no muro da feminilidade da terra,
o som dos laços do esperma do sentido
e a expansão da mente do amor em partilha.
som, som, som,
apenas som permanece.
na terra de anões,
os critérios de comparação
sempre viajaram a órbita do zero.
por que me deter?
eu obedeço os quatro elementos
e a tarefa de delinear
a constituição do meu coração
não é negócio
para o governo local dos cegos.
o que é o selvagem e longo gemido
dos órgãos sexuais de animais para mim?
o que para mim é o movimento humilde
do verme em seu vácuo carnal?
a ancestralidade que sangra das flores
comprometeu-me com a vida.
você tem familiaridade com o que sangra
da ancestralidade das flores?
(paráfrase de Ricardo Domeneck)
.
.
.
1 003
1
Sebastião Alba
A um filho morto
Ontem a comoção foi da espessura dum susto
duma árvore correndo
vertiginosamente para dentro do desastre
E já não choramos. Passamos
sem que o mais acurado apelo
nos decida
Nas camisas
teu monograma desanlaça-se.
Tua mão vê-o nos céus nocturnos
sabe que há uma ígnea
chave algures
Minha tristeza não tem expressão visível
como quando a chuva cessa
sobre a dádiva fugaz do nosso sangue
que hoje embebe a terra
É tal a ordem em nós
que um odor a bafio sai de nossas bocas
e uma teia de aranha interrompe o olhar
que te envolveu em vão.
duma árvore correndo
vertiginosamente para dentro do desastre
E já não choramos. Passamos
sem que o mais acurado apelo
nos decida
Nas camisas
teu monograma desanlaça-se.
Tua mão vê-o nos céus nocturnos
sabe que há uma ígnea
chave algures
Minha tristeza não tem expressão visível
como quando a chuva cessa
sobre a dádiva fugaz do nosso sangue
que hoje embebe a terra
É tal a ordem em nós
que um odor a bafio sai de nossas bocas
e uma teia de aranha interrompe o olhar
que te envolveu em vão.
1 103
1
Emily Dickinson
695
Como se o Mar se apartasse
E mostrasse um Mar além –
E este – um outro – e os Três
Apenas fossem a suspeita –
De um suceder de Mares –
Não tocados por nenhuma Praia –
Eles mesmos sendo a Orla de Mares a vir –
Eis aí – a Eternidade –
1 369
1
Maura Lopes Cançado
Meus sapatos amarelos
Meus sapatos amarelos
um passo adiante na minha solidão.
Eu os vi mil vezes através de lágrimas,
na sua ingenuidade gasta, resignada,
Ó, meus sapatos - amarelo-girassol.
(28/10/1959)
1 126
1
Adão Ventura
Zumbi
Eu-Zumbi
Rei de Palmares
tenho terreiros e tambores
e danço a dança do Sol.
Eu-Zumbi enfrento o vento
que ainda tarda
dessas cartas de alforria.
Eu-Zumbi jogo por terra
a caneta de ouro
de todas as Leis-Áureas.
Eu-Zumbi
Rei de Palmares
Tenho terreiros
e tambores
e danço a dança do Sol.
.
.
.
Rei de Palmares
tenho terreiros e tambores
e danço a dança do Sol.
Eu-Zumbi enfrento o vento
que ainda tarda
dessas cartas de alforria.
Eu-Zumbi jogo por terra
a caneta de ouro
de todas as Leis-Áureas.
Eu-Zumbi
Rei de Palmares
Tenho terreiros
e tambores
e danço a dança do Sol.
.
.
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1 808
1
Raimbaut de Vaqueiras
Altas ondas que vêm por sobre o mar,
Altas ondas que vêm por sobre o mar,
que o vento faz mover, ir e voltar,
de meu amigo, o que podes contar?
Atravessou? Não o vejo retornar!
.............E ai Deus, este amor!
.........Ora traz-me alegria, ora causa-me dor!
Ai, tu que cá de lá chegas, ar doce,
lá d’onde dorme meu amigo à noite,
traz o cheiro doce do seu sopro hoje!
Abre-me a boca: paixão tal nunca houve.
.............E ai Deus, este amor!
.........Ora traz-me alegria, ora causa-me dor!
Dor de amar alguém de um país estranho,
vê tornar-se choro o riso e seus ganhos.
Do amor nunca esperei golpe tamanho,
pois que seus desejos sempre acompanho.
.............E ai Deus, este amor!
.........Ora traz-me alegria, ora causa-me dor!
Uma das características deste poema, que tentei ao máximo reproduzir na tradução, é a incrível profusão de monossílabos. Desse modo, tanta coisa é dita em tão poucas sílabas que a versão numa língua como o português se enche de problemas. Seu refrão, como se vê, é bastante simples: rima "amor" (amor) com "dor" (dolor). Representa fielmente, portanto, o caráter popular e ligeiro do gênero, traços tão distantes da costumeira riqueza e estranheza rímica das canções provençais e, particularmente, do próprio Raimbaut de Vaqueiras. Aquilo que a distingue (bem como ocorre com as canções galego-portuguesas) é a capacidade surpreendente de síntese realizada por meio da condensação de as suas intenções semânticas e sonoras: mesmo as interjeições, os oy! e ai!, transformam-se, monossílabos puramente vocálicos que são, em símbolos carregados de sentido e sentimento.
Acredito, portanto, que desestabilizar os esquemas genéricos é uma das formas mais eficazes de encontrar-se sozinho, embora preparado, diante de uma composição trovadoresca. Mas que os limites não sejam ignorados: entre "Altas undas que venez suz la mar" e "Ondas do mar de Vigo" ou "Ai ondas que eu vin veer", obras famosas do galego Martim Codax, há uma inevitável ligação. São todas marinhas nas quais o sujeito poético indaga às ondas por notícias do amigo que vai longe. Quanto às distâncias, o leitor atento logo as perceberá: Codax compõe por meio de reiterações e paralelismos impecáveis e constantes enquanto que todos os versos Raimbaut de Vaqueiras são, de certa forma, inéditos no contexto da composição (afora, obviamente, o refrão).
Outra peculiaridade da cantiga de Raimbaut de Vaqueiras é o fato de, na última estrofe, o sujeito poético referir-se ao amado como "vassal" — algo que a cartilha do trovadorismo galego-português não prevê porque estipula que essa personagem feminina nunca é de origem nobre, o que impossibilita as referências a um relacionamento que inspire esse jogo, típico das cantigas de amor, onde há um "vassalo" e uma "senhor". Apenas mais uma fuga de um esquema. Num contato real com os trovadores, portanto, toda atividade será de discernimento e de crítica. Nada mais contrário à estéril e passiva apreciação histórica que se faz de ouvidos inutilizados por circunstância e de olhos fechados por preguiça.
620
1
Lúcio Cardoso
Amanhecer
A noite está dentro de mim,
girando no meu sangue.
Sinto latejar na minha boca
as pupilas cegas da lua.
Sinto as estrelas, como dedos
movendo a solidão em que caminho.
Logo o perfume da poesia
sobe aos meus olhos trêmulos, cerrados,
ouço a música das coisas que acordam
sôbre o corpo negro da terra
e a voz do vento distante
e a voz das palmeiras abertas em raios
e a voz dos rios viajantes.
E a noite está dentro de mim.
Como um pássaro,
meu sonho ergue as asas no coração da sombra.
Ouço a musica das fiôres que tombam,
o tropel das nuvens que passam
e a minha voz que se eleva
como uma prece na planície solitária.
Então sinto a noite fugindo de mim,
sinto a noite fugindo dos homens
e o sol que avança na garupa do mar
e as nuvens curvas que enchem o céu
como grandes corcéis de fogo côr-de-rosa
desaparecendo sugados pela treva.
1 618
1
Voltaire
Acredito no Deus que criou
Acredito no Deus que criou os homens, e não no Deus que os homens criaram.
4 321
1
Sigmund Freud
Seriamos muito melhores se não
Seriamos muito melhores se não quiséssemos ser tão bons.
3 495
1
Friedrich Nietzsche
Quanto mais nos elevamos, menores
Quanto mais nos elevamos, menores parecemos aos olhos daqueles que não sabem voar
4 028
1
Ruy Belo
Poema quotidiano
É tão depressa noite neste bairro
Nenhum outro porém senhor administrador
goza de tão eficiente serviço de sol
Ainda não há muito ele parecia
domiciliado e residente ao fim da rua
O senhor não calcula todo o dia
que festa de luz proporcionou a todos
Nunca vi e já tenho os meus anos
lavar a gente as mãos no sol como hoje
Donas de casa vieram encher de sol
cântaros alguidares e mais vasos domésticos
Nunca em tantos pés
assim humildemente brilhou
Orientou diz-se até os olhos das crianças
para a escola e pôs reflexos novos
nas míseras vidraças lá do fundo
Há quem diga que o sol foi longe demais
Algum dos pobres desta freguesia
apanhou-o na faca misturou-o no pão
Chegaram a tratá-lo por vizinho
Por este andar... Foi uma autêntica loucura
O astro-rei tornado acessível a todos
ele que ninguém habitualmente saudava
Sempre o mesmo indiferente
espectáculo de luz sobre os nossos cuidados
Íamos vínhamos entrávamos não víamos
aquela persistência rubra. Ousaria
alguém deixar um só daqueles raios
atravessar-lhe a vida iluminar-lhe as penas?
Mas hoje o sol
morreu como qualquer de nós
Ficou tão triste a gente destes sítios
Nunca foi tão depressa noite neste bairro
Nenhum outro porém senhor administrador
goza de tão eficiente serviço de sol
Ainda não há muito ele parecia
domiciliado e residente ao fim da rua
O senhor não calcula todo o dia
que festa de luz proporcionou a todos
Nunca vi e já tenho os meus anos
lavar a gente as mãos no sol como hoje
Donas de casa vieram encher de sol
cântaros alguidares e mais vasos domésticos
Nunca em tantos pés
assim humildemente brilhou
Orientou diz-se até os olhos das crianças
para a escola e pôs reflexos novos
nas míseras vidraças lá do fundo
Há quem diga que o sol foi longe demais
Algum dos pobres desta freguesia
apanhou-o na faca misturou-o no pão
Chegaram a tratá-lo por vizinho
Por este andar... Foi uma autêntica loucura
O astro-rei tornado acessível a todos
ele que ninguém habitualmente saudava
Sempre o mesmo indiferente
espectáculo de luz sobre os nossos cuidados
Íamos vínhamos entrávamos não víamos
aquela persistência rubra. Ousaria
alguém deixar um só daqueles raios
atravessar-lhe a vida iluminar-lhe as penas?
Mas hoje o sol
morreu como qualquer de nós
Ficou tão triste a gente destes sítios
Nunca foi tão depressa noite neste bairro
4 825
1
Mário Dionísio
Complicação
As ondas indo, as ondas vindo - as ondas indo e vindo sem
parar um momento.
As horas atrás das horas, por mais iguais sempre outras.
E ter de subir a encosta para a poder descer.
E ter de vencer o vento.
E ter de lutar.
Um obstáculo para cada novo passo depois de cada passo.
As complicações, os atritos para as coisas mais simples.
E o fim sempre longe, mais longe, eternamente longe.
Ah mas antes isso!
Ainda bem que o mar não cessa de ir e vir constantemente.
Ainda bem que tudo é infinitamente difícil.
Ainda bem que temos de escalar montanhas e que elas vão
sendo cada vez mais altas. Ainda bem que o vento nos oferece resistência
e o fim é infinito.
Ainda bem.
Antes isso.
50 000 vezes isso à igualdade fútil da planície.
parar um momento.
As horas atrás das horas, por mais iguais sempre outras.
E ter de subir a encosta para a poder descer.
E ter de vencer o vento.
E ter de lutar.
Um obstáculo para cada novo passo depois de cada passo.
As complicações, os atritos para as coisas mais simples.
E o fim sempre longe, mais longe, eternamente longe.
Ah mas antes isso!
Ainda bem que o mar não cessa de ir e vir constantemente.
Ainda bem que tudo é infinitamente difícil.
Ainda bem que temos de escalar montanhas e que elas vão
sendo cada vez mais altas. Ainda bem que o vento nos oferece resistência
e o fim é infinito.
Ainda bem.
Antes isso.
50 000 vezes isso à igualdade fútil da planície.
2 695
1
Adalgisa Nery
A Espera
Amado... Por que tardas tanto?
As primeiras sombras se avizinham
E as estrelas iniciam a noite.
Vem...
Pois a esperança que se acolheu em meu coração
Vai deixá-lo como um ninho abandonado nos penhascos.
Vem...Amado..
Desce a tua boca sobre a minha boca.
Para a tua alma levar a minha alma
Pesada de sofrimento!
Vem...
Para que, beijando a minha boca
Eu receba a sensação de uma janela aberta.
Amado meu...
Por que tardas tanto?
Vem...
E serás como um ramo de rosas brancas
Pousando no túmulo da minha vida...
Vem amado meu...
Por que tardas tanto?
(Adalgisa Nery)
As primeiras sombras se avizinham
E as estrelas iniciam a noite.
Vem...
Pois a esperança que se acolheu em meu coração
Vai deixá-lo como um ninho abandonado nos penhascos.
Vem...Amado..
Desce a tua boca sobre a minha boca.
Para a tua alma levar a minha alma
Pesada de sofrimento!
Vem...
Para que, beijando a minha boca
Eu receba a sensação de uma janela aberta.
Amado meu...
Por que tardas tanto?
Vem...
E serás como um ramo de rosas brancas
Pousando no túmulo da minha vida...
Vem amado meu...
Por que tardas tanto?
(Adalgisa Nery)
2 028
1
Edgar Allan Poe
Um sonho num sonho
Este beijo em tua fronte deponho!
Vou partir. E bem pode, quem parte,
francamente aqui vir confessar-te
que bastante razão tinhas, quando
comparaste meus dias a um sonho.
Se a esperança se vai, esvoaçando,
que me importa se é noite ou se é dia...
ente real ou visão fugidia?
De maneira qualquer fugiria.
O que vejo, o que sou e suponho
não é mais do que um sonho num sonho.
Fico em meio ao clamor, que se alteia
de uma praia, que a vaga tortura.
Minha mão grãos de areia segura
com bem força, que é de ouro essa areia.
São tão poucos! Mas, fogem-me, pelos
dedos, para a profunda água escura.
Os meus olhos se inundam de pranto.
Oh! meu Deus! E não posso retê-los,
se os aperto na mão, tanto e tanto?
Ah! meu Deus! E não posso salvar
um ao menos da fúria do mar?
O que vejo, o que sou e suponho
será apenas um sonho num sonho?
Vou partir. E bem pode, quem parte,
francamente aqui vir confessar-te
que bastante razão tinhas, quando
comparaste meus dias a um sonho.
Se a esperança se vai, esvoaçando,
que me importa se é noite ou se é dia...
ente real ou visão fugidia?
De maneira qualquer fugiria.
O que vejo, o que sou e suponho
não é mais do que um sonho num sonho.
Fico em meio ao clamor, que se alteia
de uma praia, que a vaga tortura.
Minha mão grãos de areia segura
com bem força, que é de ouro essa areia.
São tão poucos! Mas, fogem-me, pelos
dedos, para a profunda água escura.
Os meus olhos se inundam de pranto.
Oh! meu Deus! E não posso retê-los,
se os aperto na mão, tanto e tanto?
Ah! meu Deus! E não posso salvar
um ao menos da fúria do mar?
O que vejo, o que sou e suponho
será apenas um sonho num sonho?
2 259
1
António José Forte
Poema
Alguma coisa onde tu parada
fosses depois das lágrimas uma ilha,
e eu chegasse para dizer-te adeus
de repente na curva duma estrada
alguma coisa onde a tua mão
escrevesse cartas para chover
e eu partisse a fumar
e o fumo fosse para se ler
alguma coisa onde tu ao norte
beijasses nos olhos os navios
e eu rasgasse o teu retrato
para vê-lo passar na direcção dos rios
alguma coisa onde tu corresses
numa rua com portas para o mar
e eu morresse
para ouvir-te sonhar
António José Forte
Uma Faca nos Dentes
Prefácio de Herberto Helder
Parceria A.M. Pereira
Livraria Editora, Lda.
2 903
1
Português
English
Español