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Poemas neste tema

Edimilson de Almeida Pereira

Edimilson de Almeida Pereira

Retratos de Família - 7 - Intina, Juventina Paula

Segredo não se conta, ê.
Uma pedra cai na água
um ramo molha o cabelo.
No rosário dormem meninos
com os olhos de Zambi.

No silêncio mora, auê.
A coroa de Nossa Senhora
é maior.
No rosário dormem meninos
com os olhos de Zambi.

Sá Rainha Conga
gira no escuro

O segredo, ê.
Sá Rainha Conga não conta
quantos meninos dormem.
No rosário de Nossa Senhora
moram os olhos de Zambi.


Publicado no livro Árvore dos arturos & Outros poemas (1988). Poema integrante da série Árvore dos Arturos.

In: PEREIRA, Edimilson de Almeida. Corpo vivido: reunião poética. Juiz de Fora: Ed. D'Lira; Belo Horizonte: Mazza Ed., 1992. p.13
1 147
Raimundo Correia

Raimundo Correia

O Vinho de Hebe

Quando do Olimpo nos festins surgia
Hebe risonha, os deuses majestosos
Os copos estendiam-lhe, ruidosos,
E ela, passando, os copos lhes enchia...

A Mocidade, assim, na rubra orgia
Da vida, alegre e pródiga de gozos,
Passa por nós, e nós também, sequiosos,
Nossa taça estendemos-lhe, vazia...

E o vinho do prazer em nossa taça
Verte-nos ela, verte-nos e passa...
Passa, e não torna atrás o seu caminho.

Nós chamamo-la em vão; em nossos lábios
Restam apenas tímidos ressábios,
Como recordações daquele vinho.


In: CORREIA, Raimundo. Poesias completas. Org. pref. e notas Múcio Leão. São Paulo: Ed. Nacional, 1948. v.1, p.4
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Edimilson de Almeida Pereira

Edimilson de Almeida Pereira

39 [as experiências que um monitor de

as experiências que um monitor de
literatura apreende são outras que
um tintureiro jamais desejará são
experiências como as de um girassol
e uma cantora protegida da morte
mas são as experiências muito comuns
de passar a limpo um pensamento

o passar no tempo com pensamento


In: PEREIRA, Edimilson de Almeida. Ô Lapassi & Outros ritmos de ouvido. Belo Horizonte: Ed. da UFMG, 1990. p.51. (Coleção Prêmio de Literatura UFMG
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Péricles Eugênio da Silva Ramos

Péricles Eugênio da Silva Ramos

Prenúncio

1

Passa o vento,
as folhas tremem:
a sombra se inquieta.

2

Do topo dos ipês
cai a sombra:
rendada, sonhadora, espiritual.

O sol, os ipês, a sombra;
o tempo, o homem, sua sombra:
breve passagem pela terra,
e a grande sombra,
constelar, definitiva, irmã das pedras.


In: RAMOS, Péricles Eugênio da Silva. A noite da memória. São Paulo: Art Ed., 1988
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Marcelo Gama

Marcelo Gama

Bucólico

Para o Paulino de Azurenha

Zagala, guardadora de esquivanças,
que pascem noutros montes, noutros ares,
guia na direção destes lugares,
o teu rebanho de ovelhinhas mansas.

Brancas ovelhas, minhas esperanças,
— rebanho que a tanger por entre algares,
tenho feito com zelos e pesares,
o mais viçoso destas vizinhanças, —

ao som da agreste avena e dos sincerros,
alcantilados e frolidos serros
galgai, transpondo vales e barrancas,

e à zagala e a seu gado, em sítio estranho,
ajuntai-vos, formando um só rebanho,
ovelhas mansas, ovelhinhas brancas.


Poema integrante da série Sonetos de Amor.

In: GAMA, Marcelo. Via Sacra e outros poemas. Posfácio de Álvaro Moreyra. Rio de Janeiro: Ed. da Sociedade Felippe d'Oliveira, 1944. p.5
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Dante Milano

Dante Milano

Ao Tempo

Tempo, vais para trás ou para diante?
O passado carrega a minha vida
Para trás e eu de mim fiquei distante,
Ou existir é uma contínua ida
E eu me persigo nunca me alcançando?
A hora da despedida é a da partida

A um tempo aproximando e distanciando...
Sem saber de onde vens e aonde irás,
Andando andando andando andando andando

Tempo, vais para diante ou para trás?


Publicado no livro Poesias (1948). Poema integrante da série Sonetos e Fragmentos.

In: MILANO, Dante. Poesias. Pref. Ivan Junqueira. Petrópolis: Ed. Firmo, 1994. p.41. (Pedra mágica, 1
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Edimilson de Almeida Pereira

Edimilson de Almeida Pereira

Míticos

O tempo é nossa matéria.
Os livros, em sua quietude,
nos preservam.
Trazemos risos sem autores
e sabedorias ocultas.

Continuamos, olhos ardentes,
quando até o tempo descuidou-se.


Publicado no livro Corpo imprevisto & Margem dos nomes (1989). Poema integrante da série Margem dos Nomes.

In: PEREIRA, Edimilson de Almeida. Corpo vivido: reunião poética. Juiz de Fora: Ed. D'Lira; Belo Horizonte: Mazza Ed., 1992. p.88

NOTA: Referência aos versos [O tempo é a minha matéria, o tempo presente, os homens presentes,/ a vida presente.], do poema "Mãos Dadas", do livro SENTIMENTO DO MUNDO (1940), e ao poema "Procura da Poesia", do livro A ROSA DO POVO, de Carlos Drummond de Andrad
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Paulo Setúbal

Paulo Setúbal

A Vila

Lembro-me bem dessa vilota rude,
Onde eu me fui, sem gosto e sem saúde,
Buscar um poiso para os meus cansaços.
Que terra triste! Triste e sertaneja:
A escola, a hospedaria, a antiga igreja,
E a capelinha do Senhor dos Passos...

Na esquina, em frente à Câmara, o barbeiro,
Logo depois, num colossal letreiro,
A "Loja Popular" do velho Lopes.
E é bem no largo da Matriz que fica
A sempiterna, a clássica botica,
Com seus reclames de óleos e xaropes...

Ah! Foi aí, nesse ermo de tristeza,
Nessa terreola fúnebre e burguesa,
Tão sem encantos, tão descolorida,
Que eu fui viver, com lágrimas e flores,
No mais cruel amor dos meus amores,
A página melhor da minha vida!


Publicado no livro Alma Cabocla (1920). Poema integrante da série Floco de Espuma.

In: SETÚBAL, Paulo. Alma cabocla: poesias. 8. ed. São Paulo: Saraiva, 196
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Ilka Brunhilde Laurito

Ilka Brunhilde Laurito

Ciranda dos Meninos da Cidade Grande

Senhora Dona Sancha
coberta de ouro e prata
que anjos são esses
que andam rodeando
pelas ruas da cidade
dia e noite noite e dia
padre-nosso! ave-maria!?...

É o anjo-fujão-de-casa
que veio de circo em circo
andando no trem de carga
ou no aéreo porta-mala.

É o anjo-luz-dos-sapatos
(vai graxa negra, patrão?)
ajoelhado aos pés do homem
que é quem lhe deve perdão.

É o anjo-da-guarda-dos-carros
pastor de ovelhas de lata
assobiando na flauta
da sua garganta asmática.

É o anjo-do-amendoim
(nem um pouco afrodisíaco)
fugindo ao rapa do fisco,
ao seu medo e à sua anemia.

(...)

É o anjo-torto-e-raquítico
apodrecendo faminto
e amamentando na esquina
com leite de mãe menina.

É o anjo-dos-restaurantes
catando as migalhas das mesas
onde os problemas do mundo
naufragam em mar de cerveja.

É o anjo-da-rosa-noturna
vendendo aos noivos que riem
o aroma sem cor de seu mundo
e a murcha flor de sua vida.

É o anjo-carregador
chupando a laranja podre
que cai do excessivo cesto
da despesa das patroas.

(...)

É o anjo-rei-dos-mendigos,
filho de mãe postiça
orfão de pai foragido
adotivo do Juizado.

É o anjo-do-sexo-triste
herdeiro da tara e sífilis
no seu promíscuo exercício
nos quatro cantos das ruas.

É o anjo-das-negras-nuvens
que saem da boca do vício
puxando o sonho proibido
do ópio que o faz mais livre.

É o anjo-assaltante-franzino,
o corpo atrás do revólver,
matando o ódio do amor
em cada tiro assassino.

Senhora Dona Sancha
dê seu ouro dê sua prata
que estes anjos não são anjos
são os filhos da cidade
— nossos filhos, mãe de asfalto —
rodeando dia e noite noite e dia
sem pai nosso! e sem maria.

1975

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Poema integrante da série Inéditos, 1971/1977.

In: LAURITO, Ilka Brunhilde. Sal do lírico: antologia poética. São Paulo: Quíron, 1978. p.36-38. (Sélesis, 13
1 423
Cassiano Ricardo

Cassiano Ricardo

Morte em Câmara de Gás

1

Tão certa a morte
que inútil marcar-lhe
uma hora exata.
Gosto da lei em ser
exata
não
apenas certa.

Nenhuma razão
pra tanto amor
ao relógio, ao
necrológio.
A data é que lhe põe
(felina) uma gota
de fel em cada
minuto.
E o mata com uma
lentidão de faca.

A justiça, olhos
fechados como os
da noite.
A câmara de gás
talvez
menos vil
se à noite.

Na cela em que o
condenado
dorme
sem data
olhos fechados
como os da justiça.

2

Ao carr'asco
se evitaria
o asco
do seu nome.


In: RICARDO, Cassiano. Os sobreviventes: acompanhados de um poema circunstancial e de uma tradução. Pref. Eduardo Portella. Rio de Janeiro: J. Olympio, 1971. p.67-68. Poema integrante da série Xilogravuras
2 312
Olga Savary

Olga Savary

Sextilha Camoniana

Daqui dou o viver já por vivido.
Quero estar quieta, sozinha agora,
igual a uma cobra de cabeça chata,
ficar sentada sobre os meus joelhos
como alguém coagulado em outra margem.
Daqui dou o viver já por vivido.

Rio, 1973


In: SAVARY, Olga. Sumidouro. Pref. Nelly Novaes Coelho. Il. Aldemir Martins. São Paulo: Massao Ohno: J. Farkas, 1977
1 815
Tite de Lemos

Tite de Lemos

XXIII [Toda vida é rascunho impermanente

Toda vida é rascunho impermanente
manuscrito com tinta azul lavável.
Não divise futuros, não invente
eternidades nem se torne escrava

de horizontes perdidos e apagados.
Somos mortais, por isso celebramos
casuais centelhas de imortalidade.
Por mais que dure e se transvie em ramos,

uma árvore tem a sua hora.
Se a chuva a curva, sofre mas não chora,
senão, dizem, até se alegra e gosta

sem se dar ao trabalho de sorrir.
Deus, amor, lhe dê olhos de menina
que a paisagem de hoje descortinem.


In: LEMOS, Tite de. Caderno de sonetos. Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 1988
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Carlos Nejar

Carlos Nejar

Considerações sobre a Morte e seus Hábitos

I Visitante insólita


A morte e seu consumo.
A morte e seu apuro.
O repuxo que ela traz, o soldo.

Desde antanho
concebemos seu vulto.
Desde antanho
a projetamos
no muro do que somos.

Limpa nos parece:
arroio, lebre.

O recuo não cabe
quando, adrede,
se cala.
Eis o aviso prévio.

Para que serve então
nossa vigília,
a escola, o calendário?

Que argumento a demove
do faro,
de unha aguçada,
do presságio?

Desde antanho
o aviso que ela dá
é de hora certa,
sem rádio, telefone
ou rezas.

O aviso é sem aviso,
recibo
de contas a pagar,
atavios, conceitos.
Está onde está.

E todos mudam de lotação
ou velocípede.
Todos mudam de cômodos.
O aluguel de nível.
Todos mudam de emprego.
Só a morte,
desde antanho,
não mudou,
não se converteu
ao rebanho.


Publicado no livro Ordenações (1969). Poema integrante da série Ordenação Primavera: Regate.

In: NEJAR, Carlos. Obra poética I. Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 1980. p.241-242. (Poiesis)

NOTA: Poema composto de 5 partes: II. Disciplina; III. Da roupa final; IV. Do hábito; V. Sepultament
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Henriqueta Lisboa

Henriqueta Lisboa

Depois da Opção

Um reposteiro o mais espesso
caia sobre a tragédia dos Andes.
Os que a viveram não falem.
A língua que provou a carne
de seus irmãos emudeça
da mais humana miséria
para não se desnaturar
em sem remédio
depois da opção

Em estátuas de pedra
se transformem os seres
que amargaram a ponto
de negação a si mesmo
imprensados
entre o vulcão de sangue
e a geleira: fantasmas
caminhando brancas nódoas
negras hóstias em travo
depois da opção.

A dor de quem viu palpou
compreendeu e perdoou
o que a si próprio não
se perdoaria é covardia.
Heróica é a dor dos que sofrem
não pela fome ou sede ou frio
ou cegueira que sofreram

mas pela crua memória
do jamais deglutido
nos desvãos ruminando
entre a alma e os ossos
depois da opção.


Publicado no livro Miradouro e Outros Poemas (1976). Poema integrante da série Miradouro, 1968/1974.

In: LISBOA, Henriqueta. Obras completas I: poesia geral, 1929/1983. Pref. Fábio Lucas. São Paulo: Duas Cidades, 198
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Renata Pallottini

Renata Pallottini

O Pai

(Para o Edgar)

O Pai, por que só trabalha?
Era melhor pai em casa,
pai no jardim vendo rosa,
pai consertando o telhado,
mas o Pai trabalha fora.
Era melhor pai passeando,
no parque correndo junto,
pai ensinando lição,
pai vendo televisão.

Mas o Pai trabalha fora
pra sustentar os meninos.
— Pai, por que você não canta?
— E eu lá sou passarinho?


In: PALLOTTINI, Renata. Café com leite. São Paulo: Quinteto, 1988. p.1
2 979
Luís Guimarães Júnior

Luís Guimarães Júnior

Paulo e Virgínia

Fomos um dia alegres, estouvados,
Ao clarão matinal do sol nascente,
Colher as flores do vergel ridente
E as primeiras amoras dos cercados.

Venturosos, risonhos, namorados,
Cada qual mais feliz e mais contente,
Esquecemos a terra inteiramente:
Doidos de amor, de gozo embriagados.

Seus cabelos — enquanto ela corria,
Voavam, loiros como a luz, dispersos!
Eu a chamava e ela me fugia.

Por fim voltamos — em prazer imersos:
E das venturas todas desse dia...
Resta a saudade que inspirou meus versos.


Poema integrante da série Primeira Parte.

In: GUIMARÃES JÚNIOR, Luiz. Sonetos e rimas: lírica. 3.ed. Pref. Fialho d'Almeida. Lisboa: Liv. Clássica Ed. de A. M. Teixeira, 191
1 847
Henriqueta Lisboa

Henriqueta Lisboa

Séquito

Seguir o rei
por toda parte
antes que a coroa
lhe caia


Publicado no livro Reverberações (1976).

In: LISBOA, Henriqueta. Obras completas I: poesia geral, 1929/1983. Pref. Fábio Lucas. São Paulo: Duas Cidades, 198
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Henriqueta Lisboa

Henriqueta Lisboa

A Face Lívida [De súbito cessou a vida

.De súbito cessou a vida.
Foram simples palavras breves.
Tudo continuou como estava.

O mesmo teto, o mesmo vento,
o mesmo espaço, os mesmos gestos,
Porém como que eternizados.

Unção, calor, surpresa, risos
tudo eram chapas fotográficas
há muito tempo reveladas.

Todas as cousas tinham sido
e se mantinham sem reserva
numa sucessão automática.

Passos caminhavam no assoalho,
talheres batiam nos dentes,
janelas se abriam, fechavam.

Vinham noites e vinham luas,
madrugadas com sino e chuva.
Sapatos iam na enxurrada.

Meninas chegavam gritando.
Nasciam flores de esmeralda
no asfalto! mas sem esperança.

Jornais prometiam com zelo
em grandes tópicos vermelhos
o fim de uma guerra. Guerra?...

Os que não sabiam falavam.
Quem não sentia tinha o pranto.
(O pranto era ainda o recurso
de velhas cousas coniventes.)

Nem o menor sinal de vida.
Tão-só no fundo espelho a face
lívida, a face lívida.


Publicado no livro A Face Lívida: poesia, 1941/1945 (1945).

In: LISBOA, Henriqueta. Obras completas I: poesia geral, 1929/1983. Pref. Fábio Lucas. São Paulo: Duas Cidades, 198
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Thiago de Mello

Thiago de Mello

Solilóquio ao Pé do Berço

Cruzaste
a porta do tempo.
Sem resplendores (chegaste)
de sol ferindo o levante,
fulges-me aos olhos — cristal
entre sonho e a relembrança
do que não sou, do que fui.

(...)

Perante a paz de teu sono.
dentro de mim se desfralda
um jeito novo de amar.
Meus vícios e desvirtudes
cabisbaixos se recolhem
ao mais secreto de mim,
para depois regressarem
humildemente velados
sob as roupagens do amor,
como flores falecidas
que por milagre recobram
suas pétalas mais brancas.

(...)

Teu pranto, de claro timbre,
com suavidades de canto,
leva-me à lágrima, arranca
de céu estéril, orvalho
que, de tão puro, dissolve
os seixos de antigas penas:
de sobre a magoada areia
que entre pesares palmilho,
teu suave pranto me leva
a ignotos ermos caminhos
onde, foscos, se derramam
palores de nove luas.

Em troca, nada te dou.
Meu filho, és retardatário:
o que talvez fora puro
— límpida pérola intacta
no coração escondida —
era frágil, se quebrou.
A porção a mim legada
de substância que permite
mudar de pouso as montanhas,
ouvir o canto das pedras
e caminhar sobre as águas,
era pouca, se acabou.

Pelas esquinas do mundo,
os mistérios já te espreitam
com suas múltiplas faces:
as sombras da solidão
já se insinuam, de manso,
rumo aos campos de teu ser.
Ah que pobre amor paterno!
Pobre de mim, andarilho
cego e sujo, desprovido
dos mais frágeis artifícios
que te afastem dos tormentos
a que nasce condenado
um homem — ser cuja glória
se resume nos covardes
passeios pela floresta
enquanto o Lobo não vem.

Sem mão que possa guiar-te
(mal-aventurada mão!)
em futuros desamparos,
sem boca que te anuncie
o tempo dos malefícios,
uma ventura me resta:
és meu filho — dou-te a bênção.

(...)

E porque nada possuo
digno de oferta a quem chega
de mãos vazias ao mundo,
é que te fiz, sob disfarce
de conversa, este inaudível
solilóquio ao pé do berço.

Imagem - 00850001


Poema integrante da série Romance do Primogênito, 1952.

In: MELLO, Thiago de. Vento geral, 1951/1981: doze livros de poemas. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira, 1984
3 871
Henriqueta Lisboa

Henriqueta Lisboa

Calendário

Calada floração
fictícia
caindo da árvore
dos dias


Publicado no livro Reverberações (1976).

In: LISBOA, Henriqueta. Obras completas I: poesia geral, 1929/1983. Pref. Fábio Lucas. São Paulo: Duas Cidades, 198
1 928
Henriqueta Lisboa

Henriqueta Lisboa

Do Supérfluo

Também as cousas participam
de nossa vida. Um livro. Uma rosa.
Um trecho musical que nos devolve
a horas inaugurais. O crepúsculo
acaso visto num país
que não sendo da terra
evoca apenas a lembrança
de outra lembrança mais longínqua.
O esboço tão-somente de um gesto
de ferina intenção. A graça
de um retalho de lua
a pervagar num reposteiro
A mesa sobre a qual me debruço
cada dia mais temerosa
de meus próprios dizeres.
Tais cousas de íntimo domínio
talvez sejam supérfluas.
No entanto
que tenho a ver contigo
se não leste o livro que li
não viste a rosa que plantei
nem contemplaste o pôr-do-sol
à hora em que o amor se foi?
Que tens a ver comigo
se dentro em ti não prevalecem
as cousas — todavia supérfluas —
do meu intransferível patrimônio?


Publicado no livro Pousada do Ser (1982).

In: LISBOA, Henriqueta. Obras completas I: poesia geral, 1929/1983. Pref. Fábio Lucas. São Paulo: Duas Cidades, 198
2 381
Sebastião Uchoa Leite

Sebastião Uchoa Leite

Depois de Borges Filológico

Amarelo amarillo amariello
yellow
As flores amarelas
Os amores amarelos
Os sorrisos amarelos
As desculpas amarelas
Inveja
Ciúmes
Melancolia
Bílis
O pó das coisas
Que amarelecem com o tempo:
Papéis
Folhas
Líquidos
Humores
O próprio pó do tempo.

1984


Poema integrante da série Cortes/Toques, 1983-1988.

In: LEITE, Sebastião Uchoa. Obra em dobras, 1960/1988. São Paulo: Duas Cidades, 1988. (Claro enigma)
1 071
Carlos Nejar

Carlos Nejar

Canto Oitavo: Libertação do Cavaleiro

IV

O vento com seu cavalo
rompe a epiderme do susto,
retesando os duros músculos
avança com o sol ao meio.

Rasga o relincho no valo
e vai seguindo o roteiro,
maduro de campos claros
e horizontes escuros.

A tarde segue o cavalo
e o casco do sol percute,
bigorna de rubro talo
com seu ferreiro de rumos.

Bate as esporas no malho,
as crinas e as asas duplas,
acesas e resolutas,
desdobram sombra e cavalo.

Qual o vento e o cavaleiro?
Rio de oliveiras se fende,
penetrando o desamparo
das andorinhas no pêlo.

Qual o vento e o cavaleiro?
Batem esporas na tarde
e a tarde maçã suspensa,
fica tremendo na haste.

Sobe a garupa da ponte,
o vento e seu cavaleiro,
rangem esporas no ventre
e o sol irrompe no centro.


Publicado no livro O campeador e o vento (1966).

In: NEJAR, Carlos. Obra poética I. Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 1980. p.182-183. (Poiesis)

NOTA: Poema composto de 5 parte
1 120
Ribeiro Couto

Ribeiro Couto

Fado de Maria Serrana

Se a memória não me engana,
Pediste-me um fado triste:
Triste Maria Serrana,
Por que tal fado pediste?

Na serra, a fonte e as ovelhas
Eram só os teus cuidados;
Tinhas as faces vermelhas,
Hoje tens lábios pintados.

Hoje de rica tens fama
E toda a cidade é tua;
Tens um homem que te chama
Ao canto de cada rua.

Mas ai! pudesses de novo
Tornar à serra, Maria!
Se não te perdoasse o povo,
A serra te perdoaria.

Lá te espera o mesmo monte,
E a casa junto ao caminho,
E a água da mesma fonte
Que diz teu nome baixinho.

Secos teus olhos de mágoa,
Se não tivessem mais pranto,
Choraria aquela água
Que já por ti chorou tanto.


Publicado no livro Entre Mar e Rio: poesia (1952). Poema integrante da série Guitarra e Violão.

In: COUTO, Ribeiro. Poesias reunidas. Rio de Janeiro: J. Olympio, 1960. p.42
1 049