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Poemas neste tema

Sérgio Milliet

Sérgio Milliet

Expressionismo

Ônibus bêbedos tropeçam nas calçadas
Clichy-Odéon
O Sena sujo acaricia as pontes cansadas
Oito horas e ainda não é noite
Os barcos enfileirados
escorregam lesmamente
Atravancamentos
Assovios do pliceman a cavalo
Posso atravessar
A Torre Eiffel tem tanta pena do obelisco!
O boi e o sapo fábula moderna
Sexo conquistador
O mundo abre os joelhos
Meu Pantheon tão negro no meio
das casas debruçadas e curiosas
As janelas são olhos que se acendem um depois do outro
e daqui há duas horas
verei a Cidade-Luz!

Blaise Cendrars - Jean Cocteau - Vildrac - Appollinaire

Quartier Latin tão querido dos vagabundos
Lentamente subo para Montmartre
como alguém que volta para casa
com muito spleen

Pigalle cabarés
Morand não escreveu a noite de Montmartre
Lapin Agile
Casas baixas
Nostalgia do meu sol
Bonés
O coração da manhã falava em crimes bizarros
Mas eu não temo roubos
Debruçado sobre um balcão duvidoso
bebes conhaque
Meus amigos querem crônicas!
Hotel Meublé
Maryland
E um pouco do meu país
alastra-se pela prisão pequena...


Publicado no livro Poemas Análogos (1927). Poema integrante da série Poemas Análogos.

In: MILLIET, Sérgio. Poesias. Porto Alegre: Livr. do Globo, 1946. p.51-52. (Autores brasileiros, 19
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Sérgio Milliet

Sérgio Milliet

Boxe

Para Oswaldo de Andrade


Glórias do ring
Descarga elétrica
diz o vizinho que o swimg fulminou
Carpentier! Carpentier! Carpentier!
E o campeão sorri ao lado do Ursus estendido
Eis Siki desafiante no tablado
e o hino nacional das ovações.
Músculos aços braços sem cansaços
O século vibra todo
na elegância desse xeque-mate
Fora o xadrez e os bilhares de ventres prudentes
as folhas mortas e os decadentes
Renascimento das Espartas sadias
para brilhos nunca dantes inventados
E temos o direito de parodiar Camões
porque somos os clássicos do futuro
ou no mínimo o futuro dos clássicos
(Boa piada!)


Publicado no livro Poemas Análogos (1927). Poema integrante da série Poemas Análogos.

In: MILLIET, Sérgio. Poesias. Porto Alegre: Livr. do Globo, 1946. p.44. (Autores brasileiros, 19
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Alphonsus de Guimaraens Filho

Alphonsus de Guimaraens Filho

Rota do Desconhecido

Quando eu seguir na rota do desconhecido
a minha voz ficará cantando na tua memória
e tua alma sentirá a presença
do meu sonho em teu sonho,
do meu riso de perdão à miséria do mundo.
Então, Amada, canta!
A noite se embalará com as canções marinhas
subindo, diretas, do teu coração.
Tua alma será, então uma praia branca,
onde cantarão os pescadores tristes:
os teus sonhos de amor abraçados ao desânimo...
Eu irei longe... Minha memória errará nas estrelas
e minha alma será o vento que acarinha plantas,
que acarinha flores sonolentas.

Eu irei longe, eu irei tão longe,
que meu coração vencerá distâncias
para ouvir tuas canções praieiras,
amada, grande Amada,
e minha alma será o céu pontilhado de estrelas
que há de fazer adormecer tua saudade!


Publicado no livro Lume de estrelas: poemas (1940).

In: GUIMARAENS FILHO, Alphonsus de. Poemas reunidos, 1935/1960. Rio de Janeiro: J. Olympio, 1960. p. 27-2
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da Costa e Silva

da Costa e Silva

Saudade

Saudade! és a ressonância
De uma cantiga sentida,
Que, embalando a nossa infância,
Nos segue por toda a vida!


Publicado no livro Pandora (1919).

In: SILVA, Da Costa e. Poesias completas. Org. Alberto da Costa e Silva. 3.ed. rev. e anot. Rio de Janeiro: Nova Fronteira; Brasília: INL, 1985. p.22
2 323
Ronald de Carvalho

Ronald de Carvalho

Écloga Tropical

Entre a chuva de ouro das carambolas
e o veludo polido das jabuticabas,
sobre o gramado morno,
onde voam borboletas e besouros,
sobre o gramado lustroso
onde pulam gafanhotos de asas verdes e vermelhas,

Salta uma ronda de crianças!
O ar é todo perfume,
perfume tépido de ervas, raízes e folhagens.

O ar cheira a mel de abelhas...

E há nos olhos castanhos das crianças
a doçura e o travor das resinas selvagens,
e há nas suas vozes agudas e dissonantes
um áureo rumor de flautas, de trilos, de zumbidos
e de águas buliçosas...


Publicado no livro Epigramas Irônicos e Sentimentais (1922).

In: CARVALHO, Ronald de. O espelho de Ariel e poemas escolhidos. Pref. Antônio Carlos Villaça. Rio de Janeiro: Nova Aguilar; Brasília: INL, 1976. p.167. (Manancial, 44
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da Costa e Silva

da Costa e Silva

As Horas

As Horas cismam no ar parado:
— Passado.

As Horas bailam no ar fremente:
— Presente.

As Horas sonham no ar obscuro:
— Futuro.


Publicado no livro Verônica (1927). Poema integrante da série Imagens da Vida e do Sonho.

In: SILVA, Da Costa e. Poesias completas. Org. Alberto da Costa e Silva. 3.ed. rev. e anot. Rio de Janeiro: Nova Fronteira; Brasília: INL, 1985. p.24
1 831
Leila Mícollis

Leila Mícollis

Segredo (Série Infantil)

Os carros atropelam minha bola.
A empregada reclama do encerado.
Mamãe esconde sempre meus esqueites,
pois se eu caio
dou despesa e atrapalho
Os adultos
— cá pra nós —
só dão trabalho.

Ao Eloy


In: MÍCCOLIS, Leila. Em perfeito mau estado. Rio de Janeiro: Achiamé, 1987. p.6
1 279
Nelson Ascher

Nelson Ascher

Onde Há Fumaça

"dan steigt ihr als Rauch in die Luft"
(Paul Celan)

Fumaça alguma implica
memória, já que as coisas
se perdem na fumaça
que, assim, tampouco pode

tornar-se um monumento,
pois sendo transitória
nem mesmo homenageia
a transitoriedade.

Fumaça enquanto tinta,
embora branca (um branco
mais palidez de horror
que alvura de inocência),

serve talvez à escrita;
porém, não há destreza
que inscreva na fumaça,
como na pedra, um nome.

Quando a fumaça, quase
vegetativa, irrompe e,
traindo o genealógico,
assume aspecto arbóreo,

não cabe perguntar
acerca (onde há fumaça,
há cinzas) das raízes
mais fundas da fumaça.


In: ASCHER, Nelson. O sonho da razão. Rio de Janeiro: Editora 34, 1993
1 010
Armando Freitas Filho

Armando Freitas Filho

Vou gota a gota

Vou gota a gota
aos poucos
mas apesar de todo cálculo
e de tanta cautela
acabo não me poupando
pois estou sempre na ponta
do trampolim
e o tempo aí já não cuida
de segurar nada — não sabe —
conter-se nem contar
o que de fato aconteceu:
se foi vôo, queda ou mergulho.



In: FREITAS FILHO, Armando. 3x4, 1981/1983. Pref. Flora Sussekind. Posfácio Silviano Santiago. Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 1985. (Poesia brasileira). Poema integrante da série Durante
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Leila Mícollis

Leila Mícollis

Crescimento (Ciclo Infantil)

Hoje faço oito anos
e aproveito pra ser terrível,
enquanto posso matar pássaros
ou afogar gatinhos.
Depois vão proibir minhas maldades
e me restringir
aos filmes de guerra.


In: MÍCCOLIS, Leila. O bom filho a casa torra. Seleção de textos Urhacy Faustino. São Paulo: Edicon; Rio de Janeiro: Blocos, 1992. p.2
814
Eunice Arruda

Eunice Arruda

Sentença

Convém nos
iniciarmos
cedo
As coisas são demoradas

E não é bom
colher os frutos
quando a boca não
conseguir mais
saboreá-los


In: ARRUDA, Eunice. Invenções do desespero. São Paulo: Ed. da autora, 1973
921
Alberto da Costa e Silva

Alberto da Costa e Silva

Outro Adeus

Sob o teto e a ferrugem
do mercado, em Fortaleza,
ele tocava a rabeca
e era cego. Tocava

com a cabeça inclinada,
esta mesma que vejo
na fieira de músicos
sobre a porta da igreja

larga e ocre de Sória,
os mesmos pés descalços
e chagados na pedra,

e a voz que me chega,
baixa, rouca, irritante,
toda sujo e pobreza.

Como dizer a outrem
o que está no meu sangue?
Que levei ao curral
os corcéis de Patroclo
e deitei minha nuca
sobre um colo de espinhos?

Mas, em Medinaceli,
Alberca e entardeceres,
senti o mesmo cheiro
de palha, urina e pêlo
de um jumento suado
sob o sol de Sobral
e o rancor da saudade
e a saudade sonhada.

Por que reparo tanto
em cada coisa, atento
ao poro, ao grão, ao risco,
ao veio, à sombra e ao brilho?

Para me amanhecer.
E não ter, à distância
de outro chão e outra luz,
esta carne. Contemplo

o cego e o céu do tempo:
um odor de farelo
repousa a servidão

deste corpo em que perco
o que em nós há de encontro
entre o ausente e o eterno.



In: SILVA, Alberto da Costa e. As linhas da mão. Pref. Antônio Carlos Villaça. Rio de Janeiro: Difel; Brasília: INL, 1978. Poema integrante da série As Linhas da Mão.
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Antônio Barreto

Antônio Barreto

A Sombra

Estou atrasado, lá vou eu correndo
e a sombra atrás...
Pé-pra-que-te-quero, a língua de fora
e a sombra atrás...

Vou achar um pé-de-ventania
para escapar dessa mania
de fugir da sombra todo dia
e noite
como um bicho-papão...

Pé-de-anjo, pé-de-pato e pano,
pé-de-chinelo sem pé-de-meia,
perambulando,
pererecando
por aí...

Estou adiantado, lá vou eu pensando
e a sombra atrás...
Olho no relógio, está atrasado,
e a sombra atrás...

(...)

Mas tem uma coisa
a mais pra contar:
essa grande safada
que vive acordada
é o meu avesso!

Se tento pegá-la,
até mesmo no sonho,
me desconheço:
ela me fantasia.

Se tento guardá-la
no travesseiro
ela me dá um beijo:
— Já é meio-dia!


In: BARRETO, Antônio: Brincadeiras de anjo. Il. May Shuravel. São Paulo: FTD, 1987. p.10-13. (Falas poéticas
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Tomás Antônio Gonzaga

Tomás Antônio Gonzaga

Lira III

Tu não verás, Marília, cem cativos
tirarem o cascalho e a rica terra,
ou dos cercos dos rios caudalosos,
ou da minada serra.

Não verás separar ao hábil negro
do pesado esmeril a grossa areia,
e já brilharem os granetes de oiro
no fundo da bateia.

Não verás derrubar os virgens matos,
queimar as capoeiras inda novas,
servir de adubo à terra a fértil cinza,
lançar os grãos nas covas.

Não verás enrolar negros pacotes
das secas folhas do cheiroso fumo;
nem espremer entre as dentadas rodas
da doce cana o sumo.

Verás em cima da espaçosa mesa
altos volumes de enredados feitos;
ver-me-ás folhear os grandes livros,
e decidir os pleitos.

Enquanto revolver os meus consultos,
tu me farás gostosa companhia,
lendo os fastos da sábia, mestra História,
e os cantos da poesia.

Lerás em alta voz, a imagem bela;
eu, vendo que lhe dás o justo apreço,
gostoso tornarei a ler de novo
o cansado processo.

Se encontrares louvada uma beleza,
Marília, não lhe invejes a ventura,
que tens quem leve à mais remota idade
a tua formosura.


Publicado no livro Marília de Dirceu: Terceira Parte (1812).

In: GONZAGA, Tomás Antônio. Obras completas. Ed. crít. M. Rodrigues Lapa. São Paulo: Ed. Nacional, 1942. (Livros do Brasil, 5
4 345
Gregório de Matos

Gregório de Matos

Descreve com Mais Individuação

Senhora Dona Bahia,
nobre, e opulenta cidade,
madrasta dos Naturais,
e dos estrangeiros madre.
Dizei-me por vida vossa,
em que fundais o ditame
de exaltar, os que aí vêm,
e abater, os que ali nascem?
(...)
Vem um Clérigo idiota,
desmaiado com um jalde,
os vícios com seu bioco,
com seu rebuço as maldades:
Mais Santo do que Mafoma
na crença dos seus Árabes,
Letrado como um Matulo,
e velhaco como um Frade:
Ontem simples Sacerdote,
hoje uma grã dignidade,
ontem salvage notório,
hoje encoberto ignorante.
Ao tal Beato fingido
é força, que o povo aclame,
e os do governo se obriguem,
pois edifica a cidade.
Chovem uns, e chovem outros
com ofícios, e lugares,
e o beato tudo apanha
por sua muita humildade.
Cresce em dinheiro, e respeito,
vai remetendo as fundagens,
compra toda a sua terra,
com que fica homem grande,
e eis aqui a personagem.
(...)
Chega um destes, toma amo,
que as capelas dos Magnates
são rendas, que Deus criou
para estes Orate frates.
Fazem-lhe certo ordenado,
que é dinheiro na verdade,
que o Papa reserva sempre
das ceias, e dos jantares.
Não se gasta, antes se embolsa,
porque o Reverendo Padre
é do Santo Nicomedes
meritíssimo confrade;
e eis aqui a personagem.
Vêem isto os Filhos da terra,
e entre tanta iniquidade
são tais, que nem inda tomam
licença para queixar-se.
Sempre vêem, e sempre falam,
até que Deus lhes depare,
quem lhes faça de justiça
esta sátira à cidade,
Tão queimada, e destruída
te vejas, torpe cidade,
como Sodoma, e Gomorra
duas cidades infames.
(...)


In: MATOS, Gregório de. Obra poética. Org. James Amado. Prep. e notas Emanuel Araújo. Apres. Jorge Amado. 3.ed. Rio de Janeiro: Record, 1992.

NOTA: Bioco: manto ou capuz usado sobre a cabeça e parte do rosto para afetar modéstia, virtude; Mafoma: Maomé
2 545
Eudoro Augusto

Eudoro Augusto

78 [a uva da luxúria depois de seca

a uva da luxúria depois de seca
dá uma passa deliciosa

dizem


In: AUGUSTO, Eudoro. Cabeças: 88 poemas. Rio de Janeiro: s.n., 1981. (Capricho)
871
Moacyr Felix

Moacyr Felix

Porque

A Márcia e Jorge Vanderley


Porque a poesia nunca está na soma
e sim no tempo que é maior que o tempo
da vida medida entre doze números,
o poeta está solto por dentro dos relógios
e movimenta ponteiros que ninguém vê e onde
o incomensurável brinca
com os raios de sol ou as finas gotas de chuva
sobre o passar das árvores e dos animais e dos homens.

O poeta está livre por dentro dos relógios
e o seu coração ali bate e bate e bate
lado a lado com todas as engrenagens do mundo.
O mistério, no entanto, é o jardineiro do seu sangue
exilado entre palavras que nunca foram proferidas.

Porque a poesia nunca está na soma
o poema tem um tempo próprio e voa
nas raízes do canto em que se asila
o silêncio ou a mais funda esperança
do primeiro homem que sonhou
pendurar uma estrela-d'alva nos roteiros
da infinita sombra em que as horas decidem
nascimento e morte no tempo do homem.

Porque a poesia nunca está na soma
o poeta está livre por dentro dos relógios.
Assim como o morto em suas memórias.


Publicado no livro Em Nome da Vida (1981).

In: FÉLIX, Moacyr. Antologia poética. Rio de Janeiro: J. Olympio, 1993. p.5
1 220
Max Martins

Max Martins

Túmulo de Carmencita, 1985

Este não é o túmulo, é o poema. Aquele
outrora erguido à sombra, ao sono
de teu nome-carmen, Carmencita
Arévolo
de Vilacis, tua árvore
tua raiz, teu ventre ponderoso
pátria

(a que descubro minha
versão de não traído, não
assenhoreado)
canto
chão
jazigo
terra

que ainda aqui agora amo: abro

Tua palavra-caixa atro-vazia, muda
desistidamente muda
Soledad

Belém, fevereiro 85


Publicado no livro 60/35 (1986).

In: MARTINS, Max. Não para consolar: poemas reunidos, 1952/1992. Pref. Benedito Nunes. São Paulo: CEJUP, 1992. p.77. (Verso & reverso, 2
1 548
Emílio de Menezes

Emílio de Menezes

Germinal

Passou. A vida é assim: é o temporal que chega,
Ruge, esbraveja e passa, ecoando, serra a serra,
No furioso raivar da indômita refrega
Que as montanhas abala e os troncos desenterra.

Mas o pranto, afinal, que essa cólera encerra
Tomba: é a chuva que cai e que a planície rega;
E a cada gota, ali, cada gérmen se apega
Fecundando, a minar, toda a alagada terra.

Também o coração do convulsivo aperto
Da dor e das paixões, das angústias supremas,
Sente-se livre, após, a um grande choro aberto.

Alma! já que não é mister que ansiosa gemas,
Alma! fecunda enfim nas lágrimas que verto,
Possas tu germinar e florescer em Poemas!


Publicado no livro Poemas da morte (1901).

In: MENEZES, Emílio de. Obra reunida: Poemas da Morte, Poesias, Últimas Rimas, Mortalhas, Esparsos e Inéditos. Org. Cassiana Lacerda Carollo. Rio de Janeiro: J. Olympio; Curitiba: Secretaria da Cultura e do Esporte do Estado, 198
1 564
Machado de Assis

Machado de Assis

Musa Consolatrix

Que a mão do tempo e o hálito dos homens
Murchem a flor das ilusões da vida,
Musa consoladora,
É no teu seio amigo e sossegado
Que o poeta respira o suave sono.

Não há, não há contigo,
Nem dor aguda, nem sombrios ermos;
Da tua voz os namorados cantos
Enchem, povoam tudo
De íntima paz, de vida e de conforto.

Ante esta voz que as dores adormece,
E muda o agudo espinho em flor cheirosa,
Que vales tu, desilusão dos homens?
Tu que podes, ó tempo?
A alma triste do poeta sobrenada
À enchente das angústias,
E, afrontando o rugido da tormenta,
Passa cantando, alcíone divina.
Musa consoladora,
Quando da minha fronte de mancebo
A última ilusão cair, bem como
Folha amarela e seca
Que ao chão atira a viração do outono,
Ah! no teu seio amigo
Acolhe-me, — e haverá minha alma aflita,
Em vez de algumas ilusões que teve,
A paz, o último bem, último e puro!


Publicado no livro Crisálida: poesias (1864).

In: ASSIS, Machado de. Obra completa. Org. Afrânio Coutinho. Rio de Janeiro: Nova Aguilar, 1994. v.3, p.19. (Biblioteca luso-brasileira. Série brasileira
1 488
Edimilson de Almeida Pereira

Edimilson de Almeida Pereira

Tear

O amor é farto.
Nas terrinas foge sob
olhos que cercam
(encarcerados).
o amor vige,
ao resto, embornal.
A sobra tem pegadas
do amor: por isso sobra
no campo.
Amor se debruça
no vão das costelas.
E após, se configura
em renda, texto,
memória.


In: PEREIRA, Edimilson de Almeida. Corpo vivido: reunião poética. Juiz de Fora: Ed. D'Lira; Belo Horizonte: Mazza Ed., 1992. p.64. Poema integrante da série Hipocampo
1 336
Emílio de Menezes

Emílio de Menezes

Trapo

Esta que outrora o linho da cambraia
Na pompa da ostentosa lençaria,
— Folhos e rendas que à secreta alfaia
Ornavam com capricho e bizarria —

Era camisa — e que hoje a nostalgia
Sofre do tempo em que entre a pele e a saia
O perfumado corpo lhe cingia, —
Era ao possuí-la, a última atalaia.

Trapo que encerras o ebriante aroma
Do seu colo moreno, poma a poma,
Ora em tiras te vejo desprezado.

E mais te quero, e mais te achego ao peito
Trapo divino! símbolo perfeito
De um coração por Ela espedaçado.


Publicado no livro Poesias (1909). Poema integrante da série Versos Antigos.

In: MENEZES, Emílio de. Obra reunida: Poemas da Morte, Poesias, Últimas Rimas, Mortalhas, Esparsos e Inéditos. Org. Cassiana Lacerda Carollo. Rio de Janeiro: J. Olympio; Curitiba: Secretaria da Cultura e do Esporte do Estado, 198
1 342
Sousa Caldas

Sousa Caldas

Soneto VII - Aos Anos de uma Menina

Não creias, gentil Márcia, na pintura,
Com que malignos Gênios figuraram
O veloz Tempo, quando a mão lhe armaram
Da cruenta, implacável, foice dura.

Inimigo fatal da formosura,
Com fantásticas cores, o pintaram;
E nem ser ele, ao menos acenaram,
Quem desenvolve as graças da figura.

Qual cerrado botão de fresca rosa,
Que o ligeiro volver de um novo dia
Abre, e transforma em flor a mais mimosa:

Tal, a infantil beleza, inerte e fria,
De ano em ano se torna mais formosa,
E novo brilho, novas graças cria.


Publicado no livro Obras Poéticas: Poesias Sacras e Profanas (1821).

In: HOLANDA, Sérgio Buarque de. Antologia dos poetas brasileiros da Fase Colonial. São Paulo: Perspectiva, 1979. p.401. (Textos, 2)

NOTA: Texto corrigido conforme a 1.ed. das OBRAS POÉTICAS, 182
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Sousa Caldas

Sousa Caldas

Soneto I [Oito anos apenas eu contava

Oito anos apenas eu contava,
Quando a fúria do mar, abandonando
A vida, em frágil lenho e demandando
Novos climas, da Pátria me ausentava.

Desde então à tristeza começava
O tenro peito a ir acostumando;
E mais tirana sorte adivinhando
Em lágrimas o Pai, e a Mãe deixava.

Entre ferros, pobreza, enfermidade
Eu vejo, ó Céus! que dor! que iníqua sorte!
O começo da mais risonha idade.

A velhice cruel, (ó dura Morte!)
Que faz temer tão triste mocidade,
Para poupar-me, descarrega o corte.


Publicado no livro Obras Poéticas: Poesias Sacras e Profanas (1821).

In: VARNHAGEN, F.A. Florilégio da poesia brasileira. Rio de Janeiro: Academia Brasileira de Letras, 1987. t.2, p.124. (Coleção Afrânio Peixoto, 5)

NOTA: Texto corrigido conforme a 1.ed. das OBRAS POÉTICAS, 182
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