Emoções
Poemas neste tema
Fernando Pessoa
Se te queres despedir
Se te queres despedir
Não te despidas de mim,
Que eu não posso consentir
Que tu me trates assim.
Não te despidas de mim,
Que eu não posso consentir
Que tu me trates assim.
1 106
Fernando Pessoa
Dá-me as mãos por brincadeira
Dá-me as mãos por brincadeira
Na dança que não dançamos,
Porque isso é uma maneira
De dizer o que pensamos.
Dá-me as mãos e sorri alto,
A vigiar o que rio,
Bem sabes que assim já falto
A pensar coisas a fio.
Não quero largar as mãos
Assim dadas por brinquedo.
Deixa-as ficar: há irmãos
Que brincam assim a medo.
Não largues, ou faz demora
A arrastar, a demorar,
As mãos pelas minhas fora,
E já deixando de olhar.
Que segredos num contacto!
Que coisas diz quem não fala!
Que boa vista a do tacto
Quando a vista desiguala!
Deixa os dedos, deixa os dedos,
Deixa-os ainda dizer
Aqueles dos teus segredos
Que não podes prometer!
Deixa-me os dedos e a vida!
Os outros dançam no chão,
E eu tenho a alma esquecida
Dentro do teu coração.
Todo o teu corpo está dado
Nas tuas mãos que retenho.
Mais vale ter enganado
Do que ter porque não tenho.
Na dança que não dançamos,
Porque isso é uma maneira
De dizer o que pensamos.
Dá-me as mãos e sorri alto,
A vigiar o que rio,
Bem sabes que assim já falto
A pensar coisas a fio.
Não quero largar as mãos
Assim dadas por brinquedo.
Deixa-as ficar: há irmãos
Que brincam assim a medo.
Não largues, ou faz demora
A arrastar, a demorar,
As mãos pelas minhas fora,
E já deixando de olhar.
Que segredos num contacto!
Que coisas diz quem não fala!
Que boa vista a do tacto
Quando a vista desiguala!
Deixa os dedos, deixa os dedos,
Deixa-os ainda dizer
Aqueles dos teus segredos
Que não podes prometer!
Deixa-me os dedos e a vida!
Os outros dançam no chão,
E eu tenho a alma esquecida
Dentro do teu coração.
Todo o teu corpo está dado
Nas tuas mãos que retenho.
Mais vale ter enganado
Do que ter porque não tenho.
1 498
Fernando Pessoa
What death doth take for wife is
What Death doth take for wife is
What life has of good and of fair;
The pain of passing's knife is
Not the less that it is everywhere;
All goes, all flows, all life is
But the wreck of its own self for e'er.
Yet hope we that this going
A semblance and lie can but be;
That the river that is flowing
Will find, how far be it, a sea;
That beyond our frail knowing
A deeper life eternally
Keeps all that seems to wither
All that seems to go wits to-day,
And that in a way to bother [?]
Our subtlest thoughts to dismay
Form and matter together
Live e'er in a timeless Alway.
What life has of good and of fair;
The pain of passing's knife is
Not the less that it is everywhere;
All goes, all flows, all life is
But the wreck of its own self for e'er.
Yet hope we that this going
A semblance and lie can but be;
That the river that is flowing
Will find, how far be it, a sea;
That beyond our frail knowing
A deeper life eternally
Keeps all that seems to wither
All that seems to go wits to-day,
And that in a way to bother [?]
Our subtlest thoughts to dismay
Form and matter together
Live e'er in a timeless Alway.
1 379
Fernando Pessoa
A quem a Natureza não fez belo
A quem a Natureza não fez belo
Com seu corpo lhe disse: Tu não ames!
A fealdade é o destinado selo
Com que uma alma é votada à solidão.
Com seu corpo lhe disse: Tu não ames!
A fealdade é o destinado selo
Com que uma alma é votada à solidão.
1 352
Fernando Pessoa
Meu coração, mistério batido pelas lonas dos ventos...
Meu coração, mistério batido pelas lonas dos ventos...
Bandeira a estralejar desfraldadamente ao alto,
Árvore misturada, curvada, sacudida pelo vendaval,
Agitada como uma espuma verde pegada a si mesma,
(...)
Para sempre condenada à raiz de não se poder exprimir!
Queria gritar alto com uma voz que dissesse!
Queria levar ao menos a um outro coração a consciência do meu!
Queria ser lá fora...
Mas o que Sou? O trapo que foi bandeira,
As folhas varridas para o canto que foram ramos,
As palavras socialmente desentendidas, até por quem as aprecia,
Eu que quis fora a minha alma inteira,
E ficou só a chapéu do mendigo debaixo do automóvel,
Estragado estragado,
E o riso dos rápidos Soou para trás na estrada dos felizes...
Bandeira a estralejar desfraldadamente ao alto,
Árvore misturada, curvada, sacudida pelo vendaval,
Agitada como uma espuma verde pegada a si mesma,
(...)
Para sempre condenada à raiz de não se poder exprimir!
Queria gritar alto com uma voz que dissesse!
Queria levar ao menos a um outro coração a consciência do meu!
Queria ser lá fora...
Mas o que Sou? O trapo que foi bandeira,
As folhas varridas para o canto que foram ramos,
As palavras socialmente desentendidas, até por quem as aprecia,
Eu que quis fora a minha alma inteira,
E ficou só a chapéu do mendigo debaixo do automóvel,
Estragado estragado,
E o riso dos rápidos Soou para trás na estrada dos felizes...
1 114
Fernando Pessoa
Há entre mim e a humanidade um golfo,
Há entre mim e a humanidade um golfo,
E esse golfo está dentro do meu ser.
Quer solitário, quer com outros, eu
Estou sempre só, nem a mim mesmo faço
A companhia de sentir. Navego,
Desabitada nau no mar da vida,
Mais só que a solidão. Sou um estranho
Ao que em mim pensa. Sou de qualquer modo
Dois, para que, quando passageira
Alegria do esforço de pensar (
A única alegria que me resta (
Me (...), eu tenha a consciência dela
Como vazia, como o prazer todo.
E esse golfo está dentro do meu ser.
Quer solitário, quer com outros, eu
Estou sempre só, nem a mim mesmo faço
A companhia de sentir. Navego,
Desabitada nau no mar da vida,
Mais só que a solidão. Sou um estranho
Ao que em mim pensa. Sou de qualquer modo
Dois, para que, quando passageira
Alegria do esforço de pensar (
A única alegria que me resta (
Me (...), eu tenha a consciência dela
Como vazia, como o prazer todo.
1 239
Fernando Pessoa
O FUTURO
O FUTURO
Sei que me espera qualquer coisa
Mas não sei que coisa me espera.
Como um quarto escuro
Que eu temo quando creio que nada temo
Mas só o temo, por ele, temo em vão.
Não é uma presença; é um frio e um medo.
O mistério da morte a mim o liga.
Ao [...] fim do meu poema.
Sei que me espera qualquer coisa
Mas não sei que coisa me espera.
Como um quarto escuro
Que eu temo quando creio que nada temo
Mas só o temo, por ele, temo em vão.
Não é uma presença; é um frio e um medo.
O mistério da morte a mim o liga.
Ao [...] fim do meu poema.
3 362
Fernando Pessoa
Que fútil toda essa tristeza
Que fútil toda essa tristeza
Que uns vagos versos vácuos dão,
Num modo de nem sim nem não,
A quente e abstracta singeleza
De se sentir o coração!
Que uns vagos versos vácuos dão,
Num modo de nem sim nem não,
A quente e abstracta singeleza
De se sentir o coração!
896
Fernando Pessoa
Eu cantarei,
I
Eu cantarei,
Quando a manhã abrir as portas do meu esforço,
Eu cantarei,
Quando o alto-dia me fizer fechar os olhos,
Eu cantarei,
Quando o crepúsculo limar as arestas,
Eu cantarei,
Quando a noite entrar como a Imperatriz vencida
Eu cantarei a Tua Glória e o meu desígnio.
Eu cantarei
E nas estradas ladeadas por abetos,
Nas áleas dos jardins emaranhados,
Nas esquinas das ruas, nos pátios
Das casas-de-guarda,
A Tua Vitória entrará como um som de clarim
E o meu Desígnio espera-la-á sem segundo pensamento.
II
Perto da minha porta
Onde brincam as crianças dos outros,
Rompe um canto infantil, disciplinado e cómodo,
E eu sou a quinta criança ali, se houver só quatro,
E ninguém me abandonar embora eu não esteja lá
Canto também, dormindo transparente e calado.
Eu cantarei,
Quando a manhã abrir as portas do meu esforço,
Eu cantarei,
Quando o alto-dia me fizer fechar os olhos,
Eu cantarei,
Quando o crepúsculo limar as arestas,
Eu cantarei,
Quando a noite entrar como a Imperatriz vencida
Eu cantarei a Tua Glória e o meu desígnio.
Eu cantarei
E nas estradas ladeadas por abetos,
Nas áleas dos jardins emaranhados,
Nas esquinas das ruas, nos pátios
Das casas-de-guarda,
A Tua Vitória entrará como um som de clarim
E o meu Desígnio espera-la-á sem segundo pensamento.
II
Perto da minha porta
Onde brincam as crianças dos outros,
Rompe um canto infantil, disciplinado e cómodo,
E eu sou a quinta criança ali, se houver só quatro,
E ninguém me abandonar embora eu não esteja lá
Canto também, dormindo transparente e calado.
944
Fernando Pessoa
Horror! Não sei ser inconsciente
Horror! Não sei ser inconsciente
E tenho para tudo, do que é bom
À inconsciência, o pensamento aberto,
Tornando-o impossível.
O amor causa-me horror é abandono,
Intimidade, mostrar (...) do ser
E eu tenho do alto orgulho a timidez
E sinto horror a abrir o ser a alguém,
A confiar n'alguém. Horror eu sinto
A que prescrute alguém, ou levemente
Ou não, quaisquer recantos do meu ser.
Abandonar-me em braços nus e belos
(Inda que deles o amor viesse)
No conceber de tudo me horroriza;
Seria violar meu ser profundo,
Aproximar-me muito doutros homens;
Uma nudez qualquer — espírito ou corpo (
Confrange-me: acostumei-me cedo
Aos despimentos do meu ser,
A fixar olhos púdicos, conscientes
Demais. Pensar em dizer «amo-te»
E «amo-te» só — só isto me angustia...
Pensar que ao rir (e mesmo que o não seja)
Exponho uma íntima parte de mim,
Para poder amar eu precisava
Esquecer que sou Fausto o pensador.
Eu queria era dormir, dormi, dormir,
Longo dormir, meio sentindo em sono,
E dormir sempre, sem consciência ter
Do tempo, só do sono sonolento
E da vacuidade do meu ser;
Dormir sem vir a morte, nem sonhar
Mas dormir só dormir, sempre dormir.
Que hoje já de dormir desaprendi.
Cansado de pensar, a pensar fico,
E as noites longas, longas, longas, longas,
E o pálido raiar de inda doutro dia...
Inda outro dia que trará ainda
Uma outra noite e essa mais dias, mais...
Insone sentir isto, e o deslizar
Suave e horroroso do tempo.
Cai então sobre mim todo o horror claro
E nítido e visível do mistério,
E eu tal fico em abalo e em comoção
Que durmo — sim que durmo de pesar-me
Tudo de mais p'ra mais poder sentir.
Então durmo... e antes eu não dormisse
Porque desordenadas incoerências
Mas não visões, só abstracções terríveis
(...)
E tenho para tudo, do que é bom
À inconsciência, o pensamento aberto,
Tornando-o impossível.
O amor causa-me horror é abandono,
Intimidade, mostrar (...) do ser
E eu tenho do alto orgulho a timidez
E sinto horror a abrir o ser a alguém,
A confiar n'alguém. Horror eu sinto
A que prescrute alguém, ou levemente
Ou não, quaisquer recantos do meu ser.
Abandonar-me em braços nus e belos
(Inda que deles o amor viesse)
No conceber de tudo me horroriza;
Seria violar meu ser profundo,
Aproximar-me muito doutros homens;
Uma nudez qualquer — espírito ou corpo (
Confrange-me: acostumei-me cedo
Aos despimentos do meu ser,
A fixar olhos púdicos, conscientes
Demais. Pensar em dizer «amo-te»
E «amo-te» só — só isto me angustia...
Pensar que ao rir (e mesmo que o não seja)
Exponho uma íntima parte de mim,
Para poder amar eu precisava
Esquecer que sou Fausto o pensador.
Eu queria era dormir, dormi, dormir,
Longo dormir, meio sentindo em sono,
E dormir sempre, sem consciência ter
Do tempo, só do sono sonolento
E da vacuidade do meu ser;
Dormir sem vir a morte, nem sonhar
Mas dormir só dormir, sempre dormir.
Que hoje já de dormir desaprendi.
Cansado de pensar, a pensar fico,
E as noites longas, longas, longas, longas,
E o pálido raiar de inda doutro dia...
Inda outro dia que trará ainda
Uma outra noite e essa mais dias, mais...
Insone sentir isto, e o deslizar
Suave e horroroso do tempo.
Cai então sobre mim todo o horror claro
E nítido e visível do mistério,
E eu tal fico em abalo e em comoção
Que durmo — sim que durmo de pesar-me
Tudo de mais p'ra mais poder sentir.
Então durmo... e antes eu não dormisse
Porque desordenadas incoerências
Mas não visões, só abstracções terríveis
(...)
1 356
Fernando Pessoa
Filho das trevas,
Filho das trevas,
Não fites a luz
Ai de ti, se te elevas,
Tu apenas te elevas
Aos braços de uma cruz.
Filho das trevas!
Filho da noite,
A manhã não se afoite
Nunca, nunca se afoite.
Toda a esperança é vã,
Filho da noite!
Não fites a luz
Ai de ti, se te elevas,
Tu apenas te elevas
Aos braços de uma cruz.
Filho das trevas!
Filho da noite,
A manhã não se afoite
Nunca, nunca se afoite.
Toda a esperança é vã,
Filho da noite!
1 473
Fernando Pessoa
Não é o horror à morte porque raie
Não é o horror à morte porque raie
Nela o mistério em mim, nem venha nela
Ou o acabar-me, ou o continuar-me,
Que em qualquer cousa horrenda de diversa,
Para um pávido outro-eu me transmigrando,
Me anule para um Mais que me apavora.
Não. Não é na minha alma que os sineiros
Rebatem medos pelo que hei-de ser
É a minha carne que em minha alma grita
Horror à morte, carnalmente o grita,
Grita-o sem consciência e sem propósito,
Grita-o sem outro modo do que o medo,
Um pavor corporado, um pavor frio
Como uma névoa, um pavor de todo eu
Subindo à tona intelectual de mim.
Não temo a morte como qualquer cousa
Que eu veja ou ouça, mas como quem teme
Quando não sabe o que é que teme, e teme.
Nela o mistério em mim, nem venha nela
Ou o acabar-me, ou o continuar-me,
Que em qualquer cousa horrenda de diversa,
Para um pávido outro-eu me transmigrando,
Me anule para um Mais que me apavora.
Não. Não é na minha alma que os sineiros
Rebatem medos pelo que hei-de ser
É a minha carne que em minha alma grita
Horror à morte, carnalmente o grita,
Grita-o sem consciência e sem propósito,
Grita-o sem outro modo do que o medo,
Um pavor corporado, um pavor frio
Como uma névoa, um pavor de todo eu
Subindo à tona intelectual de mim.
Não temo a morte como qualquer cousa
Que eu veja ou ouça, mas como quem teme
Quando não sabe o que é que teme, e teme.
1 374
Fernando Pessoa
Tivesse eu mil parentes ou cercado
Tivesse eu mil parentes ou cercado
Fosse de amigos, camaradas mil,
Eu estaria tão só como hoje estou.
Fosse de amigos, camaradas mil,
Eu estaria tão só como hoje estou.
1 385
Fernando Pessoa
Montanhas, solidões, objectos todos,
Montanhas, solidões, objectos todos,
Ainda que assim eu tenha de morrer,
Revelai-me a vossa alma, isso que faz
Que se me gele a mente ao perceber
Que realmente existis e em verdade,
Que sois facto, existência, cousas, ser.
Quantos o sentem, quantos, ao ouvir-me
«Estou aqui» compreenderão
Íntima e inteiramente, ouvindo n'alma
A alma da minha voz?
A expressão
Fez-se para o vulgar, para o banal.
A poesia torce-a e dilacera-a;
Mas isto que eu em vão impor-lhe quero
Transcende-lhe o poder e a sugestão.
Metáfora nem símbolo o exprime;
Desespero ao ouvir-me assim dizer
Isso que n'alma tenho. Sinto-o, sinto-o
E só falando não me compreendo.
No mais simples dos factos é que existe
O horror maior: nisto: que há existência.
Sentir isto, eis o horror que não tem nome!
Mas senti-lo a sentir, intimamente,
Não com anseios ou suspiros d'alma,
Mas com pavor supremo, com gelado
Inerte horror de desesperação.
Ainda que assim eu tenha de morrer,
Revelai-me a vossa alma, isso que faz
Que se me gele a mente ao perceber
Que realmente existis e em verdade,
Que sois facto, existência, cousas, ser.
Quantos o sentem, quantos, ao ouvir-me
«Estou aqui» compreenderão
Íntima e inteiramente, ouvindo n'alma
A alma da minha voz?
A expressão
Fez-se para o vulgar, para o banal.
A poesia torce-a e dilacera-a;
Mas isto que eu em vão impor-lhe quero
Transcende-lhe o poder e a sugestão.
Metáfora nem símbolo o exprime;
Desespero ao ouvir-me assim dizer
Isso que n'alma tenho. Sinto-o, sinto-o
E só falando não me compreendo.
No mais simples dos factos é que existe
O horror maior: nisto: que há existência.
Sentir isto, eis o horror que não tem nome!
Mas senti-lo a sentir, intimamente,
Não com anseios ou suspiros d'alma,
Mas com pavor supremo, com gelado
Inerte horror de desesperação.
1 264
Fernando Pessoa
MEN OF SCIENCE
To toil through time and hate and to consume
Far more than life in Error's hard defeat,
Seeking e'er for the true, for the complete,
Careless of faith and misery and doom
Is there a nobler task, while life doth fleet,
Than this, to strive to make light amid gloom,
And with hands bleeding to part and make room
In life for weaker and more unsure feet?
The void o'th' world must with an arch be spanned,
The ways of Nature must be read aright
That there may be a wise and friendly hand
To make this dark world better and more bright.
Oh, with what joy and love I understand
These master-souls that ache for truth and light.
Far more than life in Error's hard defeat,
Seeking e'er for the true, for the complete,
Careless of faith and misery and doom
Is there a nobler task, while life doth fleet,
Than this, to strive to make light amid gloom,
And with hands bleeding to part and make room
In life for weaker and more unsure feet?
The void o'th' world must with an arch be spanned,
The ways of Nature must be read aright
That there may be a wise and friendly hand
To make this dark world better and more bright.
Oh, with what joy and love I understand
These master-souls that ache for truth and light.
1 421
Fernando Pessoa
E assim estou, pensando mais que todos,
E assim estou, pensando mais que todos,
Braços cruzados (...) além da fé,
E raciocínio, e assim sem alegria
Nem dúvida, além delas, da tristeza
De quem aqui chegou, tornado apenas.
Não tenho, não, já dúvida ou alegria
Mas nem regresso mais a essa dúvida
Nem a essa alegria regressara,
Se possível me fosse; tenho o orgulho
De ter chegado aqui onde ninguém
Nem nas asas do doido pensamento
Nem nas asas da louca fantasia
Chegou. E aqui me quedo consolado
Nesta perene desolação.
Braços cruzados (...) além da fé,
E raciocínio, e assim sem alegria
Nem dúvida, além delas, da tristeza
De quem aqui chegou, tornado apenas.
Não tenho, não, já dúvida ou alegria
Mas nem regresso mais a essa dúvida
Nem a essa alegria regressara,
Se possível me fosse; tenho o orgulho
De ter chegado aqui onde ninguém
Nem nas asas do doido pensamento
Nem nas asas da louca fantasia
Chegou. E aqui me quedo consolado
Nesta perene desolação.
1 157
Fernando Pessoa
Ah, que extraordinário,
Ah, que extraordinário,
Nos grandes momentos do sossego da tristeza,
Como quando alguém morre, e estamos em casa dele e todos estão quietos
O rodar de um carro na rua, ou o canto de um galo nos quintais...
Que longe da vida!
É outro mundo.
Viramo-nos para a janela, e o sol brilha lá fora
Vasto sossego plácido da natureza sem interrupções!
Nos grandes momentos do sossego da tristeza,
Como quando alguém morre, e estamos em casa dele e todos estão quietos
O rodar de um carro na rua, ou o canto de um galo nos quintais...
Que longe da vida!
É outro mundo.
Viramo-nos para a janela, e o sol brilha lá fora
Vasto sossego plácido da natureza sem interrupções!
2 089
Fernando Pessoa
REQUIESCAT
For thee, the veil of the temple is rent
And the holy of holies laid bare...
Hath mystery thy being spent
With tragic muteness eloquent;
Or with the horror living there
Is thy dead spirit blent?
Whate'er contains now thy vision's scope,
Howe'er it be, thou canst not be mad
At shadows dread for which we grope,
And at thy heart together did fade
The pleasure that doth make us sad
And the pain that makes us hope.
And the holy of holies laid bare...
Hath mystery thy being spent
With tragic muteness eloquent;
Or with the horror living there
Is thy dead spirit blent?
Whate'er contains now thy vision's scope,
Howe'er it be, thou canst not be mad
At shadows dread for which we grope,
And at thy heart together did fade
The pleasure that doth make us sad
And the pain that makes us hope.
1 251
Fernando Pessoa
De vez em quando surge-me nos lábios
De vez em quando surge-me nos lábios
Uma canção de amor e, instintivo,
Nela choro unia amada morta. Sim.
É a noiva eterna morta de um eu
Que não soube amar.
Ah que feliz
Seria se eu pudesse aniquilar
O pensamento, a comoção — o que eu
Mais odeio e mais prezo — e m'envolver
Numa vida vazia e trabalhosa,
Com amores, ternura! Beberia
A alegria do regalo de existir
Sem perguntar onde era a sua origem
Nem onde tinha fim. Felicidade
Fez-se para quem a não pode sentir.
Completo e apreensível horror
Do mistério que eis volta ao pensamento!
Hoje se morre alguém que estimo — se eu
Estou ainda algo em mim absorto
No que é mais do que eu — se morre alguém
Que amo — admitamo-lo — já não choro,
Não sinto dor: gela-me apenas, muda,
A presença da morte que triplica
O sentimento do mistério em mim.
Uma canção de amor e, instintivo,
Nela choro unia amada morta. Sim.
É a noiva eterna morta de um eu
Que não soube amar.
Ah que feliz
Seria se eu pudesse aniquilar
O pensamento, a comoção — o que eu
Mais odeio e mais prezo — e m'envolver
Numa vida vazia e trabalhosa,
Com amores, ternura! Beberia
A alegria do regalo de existir
Sem perguntar onde era a sua origem
Nem onde tinha fim. Felicidade
Fez-se para quem a não pode sentir.
Completo e apreensível horror
Do mistério que eis volta ao pensamento!
Hoje se morre alguém que estimo — se eu
Estou ainda algo em mim absorto
No que é mais do que eu — se morre alguém
Que amo — admitamo-lo — já não choro,
Não sinto dor: gela-me apenas, muda,
A presença da morte que triplica
O sentimento do mistério em mim.
1 389
Fernando Pessoa
Chove muito, chove excessivamente...
Chove muito, chove excessivamente...
Chove e de vez em quando faz um vento frio...
Estou triste, muito triste, corno se o dia fosse eu.
Num dia no meu futuro em que chova assim também
E eu, à janela de repente me lembre do dia de hoje,
Pensarei eu «ah nesse tempo eu era mais feliz»
Ou pensarei «ah, que tempo triste foi aquele»!
Ah, meu Deus, eu que pensarei deste dia nesse dia
E o que serei, de que forma; o que me será o passado que é hoje só presente?...
O ar está mais desagasalhado, mais frio, mais triste
E há uma grande dúvida de chumbo no meu coração...
Chove e de vez em quando faz um vento frio...
Estou triste, muito triste, corno se o dia fosse eu.
Num dia no meu futuro em que chova assim também
E eu, à janela de repente me lembre do dia de hoje,
Pensarei eu «ah nesse tempo eu era mais feliz»
Ou pensarei «ah, que tempo triste foi aquele»!
Ah, meu Deus, eu que pensarei deste dia nesse dia
E o que serei, de que forma; o que me será o passado que é hoje só presente?...
O ar está mais desagasalhado, mais frio, mais triste
E há uma grande dúvida de chumbo no meu coração...
1 432
Fernando Pessoa
FAUSTO: Reza por mim Maria
FAUSTO:
Reza por mim Maria
MARIA:
(Rezo por ti? Sim rezarei. Mas o que tens?)
FAUSTO:
Reza por mim e diz a Deus (...)
Reza por mim, Maria, e eu sentirei
Uma calma d'amor sobre o meu ser,
Como o luar sobre um lago estagnado,
A fazê-lo um milagre de beleza.
Reza por mim e diz: Oh Deus, meu Deus,
Fazei-o inda feliz esse a quem amo
(Se é que me amas...).
MARIA:
Inda duvidas, meu amor?
FAUSTO:
Dize: Fazei feliz esse a quem amo
E que, qual condenado pela vida,
Arrasta a grilheta da dor,
Cujos olhos não choram por não ter
Na alma já lágrimas p'ra chorar,
Que, tendo erguido o seu pensar ao cume
Do humano pensar... Não, não importa,
Não digas nada, reza e que a tua alma,
Compadecendo-se de mim encontre
Os termos, as palavras que na prece
Murmurará... Choras? Fiz-te chorar?
MARIA:
Sim... Não... Eu choro apenas de te ver
Triste e (...) sem que eu compreenda
Tua tristeza, meu amor. Vem ela
De alguma dor — oh dize-me, partilha
Comigo a tua dor que eu te darei
O meu carinho, porque te amo tanto...
FAUSTO:
Tu amas-me, tu amas-me, Maria?
MARIA:
Ah, tu duvidas? Meu amor, duvidas?
Temes talvez que o meu acanhamento,
Que vem d'amor, eu não sei como, seja
Indiferença... Não... ah não o creias!
Eu não tenho a viveza, nem a ardência
Que algumas têm, tremo de mim mesma
Do meu amor, mas eu não sei por quê...
Mas amo-te... Se te amo, porque hás-de
Tu duvidar de mim?
Ah, se palavras
Podem levar a alma nelas, Fausto,
Se o amor, este amor como eu sinto,
Pode dizer-se sem o duvidar
Se o que eu sinto em minha alma quando te vejo
Quando sinto o teu passo, quando penso
Em ti, amor, em ti, se olhares, beijos
Podem mostrar o amor, todo o amor —
Crê que as minhas palavras, os meus beijos,
O meu olhar têm esse amor.
Se eu não posso
Gritar:amor, amor, ardentemente
E desmedidamente, e a voz em fogo,
É que em mim mesmo, nasce-me um pudor
De o dizer muito alto (mas não creias
Que é por amar-te pouco, que só é
De amar-te muito e amar-te como te amo)
Se isto não faço, não duvides, não...
Eu não sei dizer mais; não aprendi
Como o amor fala não, não aprendi,
Porque o amor não fala, não pode
Dizer-se todo, senão não seria
Amor, ao menos este amor que eu sinto.
Não sei, não sei dizer-te... Não duvides!
Eu pareço talvez fria aos teus olhos;
Não duvides que eu sofra muito, muito
Por duvidares
E eu amo-te... Meu Deus, como eu te amo!
FAUSTO (aparte):
Como eu sinto de ouvi-la e de sentir
(Sentir pelo meu pensamento) quanto
É aquele amor e como ele é amor,
Minha alma fria, meu coração frio!
Aquilo é amor... Eu, pois, nunca amarei...
Que ela fala e eu compreendo (se compreendo!
Quanto ela ama, como ela fala amor).
Nada sinto em mim que nasça, surja
E vá de encontro ao seu amor. Não posso
Fazer erguer em mim um sentimento
Que dê as mãos àquele. E, de o não poder,
Eu mais frio me sinto, mais pesado
N'alma, na minha desconsolação.
Como me sinto falso, falso a mim mesmo,
Falso à existência, falso à vida, ao amor!
(alto)
Perdoa, amor
(aparte)
Amor! Como me amarga
De vazia em meu ser esta palavra!
Como de isso assim ser me encolerizo!
(alto)
Perdoa, meu amor!
Cedo aprendi a duvidar de tudo
Por duvidar de mim, sem o querer,
Sem razão de o querer ou de o pensar
Durante em honras, amor, felicidade...
Em tudo... Mas eu creio em ti, Maria,
Eu creio em ti... Como és bela! Não, não chores,
Quero falar ternura e não o sei;
Tenho a alma fria — oh raiva! é impossível.
Reza por mim Maria
MARIA:
(Rezo por ti? Sim rezarei. Mas o que tens?)
FAUSTO:
Reza por mim e diz a Deus (...)
Reza por mim, Maria, e eu sentirei
Uma calma d'amor sobre o meu ser,
Como o luar sobre um lago estagnado,
A fazê-lo um milagre de beleza.
Reza por mim e diz: Oh Deus, meu Deus,
Fazei-o inda feliz esse a quem amo
(Se é que me amas...).
MARIA:
Inda duvidas, meu amor?
FAUSTO:
Dize: Fazei feliz esse a quem amo
E que, qual condenado pela vida,
Arrasta a grilheta da dor,
Cujos olhos não choram por não ter
Na alma já lágrimas p'ra chorar,
Que, tendo erguido o seu pensar ao cume
Do humano pensar... Não, não importa,
Não digas nada, reza e que a tua alma,
Compadecendo-se de mim encontre
Os termos, as palavras que na prece
Murmurará... Choras? Fiz-te chorar?
MARIA:
Sim... Não... Eu choro apenas de te ver
Triste e (...) sem que eu compreenda
Tua tristeza, meu amor. Vem ela
De alguma dor — oh dize-me, partilha
Comigo a tua dor que eu te darei
O meu carinho, porque te amo tanto...
FAUSTO:
Tu amas-me, tu amas-me, Maria?
MARIA:
Ah, tu duvidas? Meu amor, duvidas?
Temes talvez que o meu acanhamento,
Que vem d'amor, eu não sei como, seja
Indiferença... Não... ah não o creias!
Eu não tenho a viveza, nem a ardência
Que algumas têm, tremo de mim mesma
Do meu amor, mas eu não sei por quê...
Mas amo-te... Se te amo, porque hás-de
Tu duvidar de mim?
Ah, se palavras
Podem levar a alma nelas, Fausto,
Se o amor, este amor como eu sinto,
Pode dizer-se sem o duvidar
Se o que eu sinto em minha alma quando te vejo
Quando sinto o teu passo, quando penso
Em ti, amor, em ti, se olhares, beijos
Podem mostrar o amor, todo o amor —
Crê que as minhas palavras, os meus beijos,
O meu olhar têm esse amor.
Se eu não posso
Gritar:amor, amor, ardentemente
E desmedidamente, e a voz em fogo,
É que em mim mesmo, nasce-me um pudor
De o dizer muito alto (mas não creias
Que é por amar-te pouco, que só é
De amar-te muito e amar-te como te amo)
Se isto não faço, não duvides, não...
Eu não sei dizer mais; não aprendi
Como o amor fala não, não aprendi,
Porque o amor não fala, não pode
Dizer-se todo, senão não seria
Amor, ao menos este amor que eu sinto.
Não sei, não sei dizer-te... Não duvides!
Eu pareço talvez fria aos teus olhos;
Não duvides que eu sofra muito, muito
Por duvidares
E eu amo-te... Meu Deus, como eu te amo!
FAUSTO (aparte):
Como eu sinto de ouvi-la e de sentir
(Sentir pelo meu pensamento) quanto
É aquele amor e como ele é amor,
Minha alma fria, meu coração frio!
Aquilo é amor... Eu, pois, nunca amarei...
Que ela fala e eu compreendo (se compreendo!
Quanto ela ama, como ela fala amor).
Nada sinto em mim que nasça, surja
E vá de encontro ao seu amor. Não posso
Fazer erguer em mim um sentimento
Que dê as mãos àquele. E, de o não poder,
Eu mais frio me sinto, mais pesado
N'alma, na minha desconsolação.
Como me sinto falso, falso a mim mesmo,
Falso à existência, falso à vida, ao amor!
(alto)
Perdoa, amor
(aparte)
Amor! Como me amarga
De vazia em meu ser esta palavra!
Como de isso assim ser me encolerizo!
(alto)
Perdoa, meu amor!
Cedo aprendi a duvidar de tudo
Por duvidar de mim, sem o querer,
Sem razão de o querer ou de o pensar
Durante em honras, amor, felicidade...
Em tudo... Mas eu creio em ti, Maria,
Eu creio em ti... Como és bela! Não, não chores,
Quero falar ternura e não o sei;
Tenho a alma fria — oh raiva! é impossível.
1 365
Fernando Pessoa
Tudo se funde no movimento
Tudo se funde no movimento
(...)
E cada arbusto fitado
Nem é o terceiro que está a seguir.
A bondade da chama nocturna em casas distantes,
Os lares dos outros meras estrelas humanas na noite
A indefinida felicidade para nós de ver outros a distância.
(...)
E cada arbusto fitado
Nem é o terceiro que está a seguir.
A bondade da chama nocturna em casas distantes,
Os lares dos outros meras estrelas humanas na noite
A indefinida felicidade para nós de ver outros a distância.
1 388
Fernando Pessoa
Meu coração, bandeira içada
Meu coração, bandeira içada
Em festas onde não há ninguém...
Meu coração, barco atado à margem
Esperando o dono cadáver amarelado entre os juncais...
Meu coração a mulher do forçado,
A estalajadeira dos mortos da noite,
Aguarda à porta, com um sorriso maligno
Todo o sistema do universo,
Concluso a podridão e a esfinges...
Meu coração algema partida.
Em festas onde não há ninguém...
Meu coração, barco atado à margem
Esperando o dono cadáver amarelado entre os juncais...
Meu coração a mulher do forçado,
A estalajadeira dos mortos da noite,
Aguarda à porta, com um sorriso maligno
Todo o sistema do universo,
Concluso a podridão e a esfinges...
Meu coração algema partida.
1 305
Fernando Pessoa
Penso em ti no silêncio da noite, quando tudo é nada,
Penso em ti no silêncio da noite, quando tudo é nada,
E os ruídos que há no silêncio são o próprio silêncio,
Então, sozinho de mim, passageiro parado
De uma viagem em Deus, inutilmente penso em ti.
Todo o passado, em que foste um momento eterno
E como este silêncio de tudo.
Todo o perdido, em que foste o que mais perdi,
É como estes ruídos,
Todo o inútil, em que foste o que não houvera de ser
É como o nada por ser neste silêncio nocturno.
Tenho visto morrer, ou ouvido que morrem,
Quantos amei ou conheci,
Tenho visto não saber mais nada deles de tantos que foram
Comigo, e pouco importa se foi um homem ou uma conversa;
Ou um [...] assustado e mudo,
E o mundo hoje para mim é um cemitério de noite
Branco e negro de campas e [...] e de luar alheio
E é neste sossego absurdo de mim e de tudo que penso em ti.
E os ruídos que há no silêncio são o próprio silêncio,
Então, sozinho de mim, passageiro parado
De uma viagem em Deus, inutilmente penso em ti.
Todo o passado, em que foste um momento eterno
E como este silêncio de tudo.
Todo o perdido, em que foste o que mais perdi,
É como estes ruídos,
Todo o inútil, em que foste o que não houvera de ser
É como o nada por ser neste silêncio nocturno.
Tenho visto morrer, ou ouvido que morrem,
Quantos amei ou conheci,
Tenho visto não saber mais nada deles de tantos que foram
Comigo, e pouco importa se foi um homem ou uma conversa;
Ou um [...] assustado e mudo,
E o mundo hoje para mim é um cemitério de noite
Branco e negro de campas e [...] e de luar alheio
E é neste sossego absurdo de mim e de tudo que penso em ti.
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