Vida

Poemas neste tema

Stela do Patrocínio

Stela do Patrocínio

Eu não queria me formar

Eu não queria me formar
Não queria nascer
Não queria formar forma humana
Carne humana e matéria humana
Não queria saber de viver
Não queria saber da vida

Eu não tive querer
Nem vontade para essas coisas
E até hoje eu não tenho querer
nem vontade para essas coisas
668
José Saramago

José Saramago

Medusas

Tentaculada e branca, morta já,
A medusa apodrece,
Veio na onda maior que se espraiou.
Na areia, onde ficou,
A gelatinosa massa fosforesce.

O orgasmo funde dois corpos ali perto,
E do comum suor,
Do brilho fosco que da pele lhes irradia,
A noite faz, recria,
Medusa viva, renovado amor.
1 020
José Saramago

José Saramago

Não Das Águas do Mar

Não das águas do mar, mas destas outras,
Dos lentos remoinhos, onde as folhas
Desprendidas e mortas se balouçam;
Do irisado gás gorgolejante,
Que o respirar do lodo vai soltando,
É que a vida dos homens se formou
De sombra e de mistério amalgamada.

Na vastidão do mar nasceram deuses:
Somos frutos da lama, a água turvada.
1 156
José Saramago

José Saramago

Meias-Solas

Bem sei que as meias-solas que deitei
Nas botas aprazadas não resistem
À calçada do tempo que discorro.

Talvez parado as botas me durassem,
Mas quieto quem pode, mesmo vendo
Que é desta caminhada que me morro.
1 093
José Saramago

José Saramago

Epitáfio Para Luís de Camões

Que sabemos de ti, se só deixaste versos,
Que lembrança ficou no mundo que tiveste?
Do nascer ao morrer ganhaste os dias todos?
Ou perderam-te a vida os versos que fizeste?
1 418
José Saramago

José Saramago

Pois o Tempo Não Pára

Pois o tempo não pára, nem importa
Que vividos os dias aproximem
O copo de água amarga colocado
Onde a sede da vida se exaspera.

Não contemos os dias que passaram:
Hoje foi que nascemos. Só agora
A vida começou, e, longe ainda,
Pode a morte cansar à nossa espera.
1 487
José Saramago

José Saramago

Programa

No esforço do nascer está o final,
Na raiva de crescer se continua,
Na prova de viver azeda o sal,
Na cava do amor sua e tressua.
Remédio, só morrendo: bom sinal.
1 050
José Saramago

José Saramago

Hora

Vou no caminho esparso, à luz difusa
Do longo amanhecer: o sol não falta
Ao encontro marcado no silêncio
Da noite que se afasta.
A certeza do sol, a madrugada,
O meu corpo de terra, descoberto
Nesta rosa doirada que da morte
Traz a vida tão perto.
1 205
José Saramago

José Saramago

Arte de Amar

Metidos nesta pele que nos refuta,
Dois somos, o mesmo que inimigos.
Grande coisa, afinal, é o suor
(Assim já o diziam os antigos):
Sem ele, a vida não seria luta,
Nem o amor amor.
1 071
Vinicius de Moraes

Vinicius de Moraes

Poética

De manhã escureço
De dia tardo
De tarde anoiteço
De noite ardo.

A oeste a morte
Contra quem vivo
Do sul cativo
O este é meu norte.

Outros que contem
Passo por passo:
Eu morro ontem

Nasço amanhã
Ando onde há espaço:
— Meu tempo é quando.

Nova York, 1950
1 255
Vinicius de Moraes

Vinicius de Moraes

A Pera

Como de cera
E por acaso
Fria no vaso
A entardecer

A pera é um pomo
Em holocausto
À vida, como
Um seio exausto

Entre bananas
Supervenientes
E maçãs lhanas

Rubras, contentes
A pobre pera:
Quem manda ser a?

Los Angeles, 1947
1 253
Vinicius de Moraes

Vinicius de Moraes

Paisagem

Subi a alta colina
Para encontrar a tarde
Entre os rios cativos
A sombra sepultava o silêncio.

Assim entrei no pensamento
Da morte minha amiga
Ao pé da grande montanha
Do outro lado do poente.

Como tudo nesse momento
Me pareceu plácido e sem memória
Foi quando de repente uma menina
De vermelho surgiu no vale correndo, correndo…
1 499
Vinicius de Moraes

Vinicius de Moraes

A Morte

A morte vem de longe
Do fundo dos céus
Vem para os meus olhos
Virá para os teus
Desce das estrelas
Das brancas estrelas
As loucas estrelas
Trânsfugas de Deus
Chega impressentida
Nunca inesperada
Ela que é na vida
A grande esperada!
A desesperada
Do amor fratricida
Dos homens, ai! dos homens
Que matam a morte
Por medo da vida.
1 688
Martha Medeiros

Martha Medeiros

o sentido da vida

o sentido da vida
é o que a gente sente


por um filho
que é a cara da gente


por um trabalho
que ocupa a mente


por um amor
que nos deixa doente


pena que isso não baste
por mais que se tente
1 282
Martha Medeiros

Martha Medeiros

homens roubam

homens roubam
filhos matam
seios incham
corpos caem
rugas surgem
frases cortam
padres pecam
primos partem
bichos morrem
fetos nascem
tias mentem
ruas tremem
lutas cessam
céus abrigam
braços lutam
luas minguam
virgens casam
casas fecham
fechos abrem
956
Martha Medeiros

Martha Medeiros

parto do princípio

parto do princípio
que todo parto é natural
nascer de cócoras, na água ou com fórceps
é nascimento igual
cirurgia computadorizada
ou dar à luz entre índios
todos no fim são bem-vindos
morrer é que não é normal
1 062
Martha Medeiros

Martha Medeiros

pudesse eu viver tudo o que imagino

pudesse eu viver tudo o que imagino
nem sete vidas me dariam tanto fôlego
1 084
Martha Medeiros

Martha Medeiros

strip-tease

strip-tease
compreender que a gente nasce
e morre e nasce
e morre
e nasce
todo dia


strip-tease
todo dia a gente nasce
pra noite


strip-tease
toda noite
ainda é o mesmo dia
1 506
Martha Medeiros

Martha Medeiros

o caminho é este

o caminho é este
tem pedra, tem sol
tem bandido, mocinho
tem você amando
tem você sozinho
é só escolher
ou vai, ou fica.



fui.

1 058
Sophia de Mello Breyner Andresen

Sophia de Mello Breyner Andresen

Ode À Maneira de Horácio

Feliz aquela que efabulou o romance
Depois de o ter vivido
A que lavrou a terra e construiu a casa
Mas fiel ao canto estridente das sereias
Amou a errância o caçador e a caçada
E sob o fulgor da noite constelada
À beira da tenda partilhou o vinho e a vida
1 071
Sophia de Mello Breyner Andresen

Sophia de Mello Breyner Andresen

Ii. Escuta, Lídia, Como Os Dias Correm

Escuta, Lídia, como os dias correm
Fingidamente imóveis,
E à sombra de folhagens e palavras
Os deuses transparecem
Como para beber o sangue oculto
Que nos tornou atentos.
1 118
Sophia de Mello Breyner Andresen

Sophia de Mello Breyner Andresen

Iii. Busca

Pelos campos fora
Caminhava sempre
Como se buscasse
Uma presença ausente.
«Onde estás tu morte?
Não te posso ver:
Neste dia de Maio
Com rosas e trigo
É como se tu não
Vivesses comigo.
A ti me enviaram
És tu meu destino
Mas diante da vida
Eu não te imagino
A ti me enviaram
E sei que me esperas
Mas só oiço a verde
Voz das Primaveras
Onde a tua imagem
Onde o teu retrato
Na manhã tão limpa?
Onde a tua imagem
Onde o teu retrato
Nas tardes serenas
Nos frutos redondos
Nas crianças puras
Nas mulheres criando
Com seus gestos vida?
Onde a tua imagem
Ou o teu retrato
Nas coisas que eu amo?
Onde a tua voz
Ou a tua presença
Na voz deste dia?
Aqui onde habito
Há o sol a pique
O mar descoberto
A noite redonda
O instante infinito.
É verdade que passas
Pela cidade às vezes
Nos caixões de chumbo:
Mas viro o meu rosto
Pois não te compreendo
És um pesadelo
Uma coisa inventada
Que o vento desmente
Com suas mãos frescas
E a luz logo apaga.
Onde a tua imagem
Ou o teu retrato
Nas coisas que eu vejo?
É verdade que passas
Pela cidade às vezes
Com teu vestido roxo
Entre velas e incenso:
Mas eu te renego e o vento te nega
Com suas mãos frescas
E eu não te pertenço.
Meu corpo é do sol
Minh’alma é da terra.
Onde está teu rosto
Ou a raiz de ti
Onde procurar-te?
E como te amarei
Tanto que em meus dedos
Tua imagem floresça
E entre as minhas mãos
O teu rosto apareça?»
2 104
Florbela Espanca

Florbela Espanca

Há de ser luz do sol em tardes quentes

Há de ser luz do sol em tardes quentes,
Nos olhos de água clara há de trazer
As fúlgidas pupilas das videntes!

<Há de ser seiva no botão repleto
Voz no murmúrio do pequeno insecto,
Vento que enfuna as velas sobre os mastros!...

<Há de ser Outro e Outro num momento!
Força viva, brutal, em movimento,
Astro arrastando catadupas de astros!
571
Adélia Prado

Adélia Prado

Jó Consolado

Desperta, corpo cansado;
louva com tua boca a cicatriz perfeita,
o fígado autolimpante,
a excelsa vida.
Louva com tua língua de argila,
coisa miserável e eterna,
louva, sangue impuro e arrogante,
sabes que te amo; louva, portanto.
A sorte que te espera
paga toda vergonha,
toda dor de ser homem.
1 151