Silêncio

Poemas neste tema

Sophia de Mello Breyner Andresen

Sophia de Mello Breyner Andresen

Eis Que o Mundo de Ti Cai Abolido

Eis que o mundo de ti cai abolido
E tu ficas sozinho e muito longe
Com dois búzios do mar sobre os ouvidos
Ouvindo, só para ti, uma canção.

Assim as flores de dentro para fora
Se queimam sob o halo dos perfumes
E voltam para nós os olhos cegos
Estrangeiras a tudo no sabor
Duma substância angélica e terrível.
1 768
Sophia de Mello Breyner Andresen

Sophia de Mello Breyner Andresen

Atelier do Escultor do Meu Tempo

Uma nudez geométrica
Implanta nos espaços sucessivos
O vazio propício à aparição dos fantasmas

É aqui que as estátuas mostram
A necessidade sem discurso dos seus gestos

Exiladas da vida e da cidade
Exiladas do tempo
Elas convocam
O fragmento a mutilação os destroços

O peixe que navega sem perturbar o silêncio
1 848
Sophia de Mello Breyner Andresen

Sophia de Mello Breyner Andresen

Escrita do Poema

A mão traça no branco das paredes
A negrura das letras
Há um silêncio grave
A mesa brilha docemente o seu polido

De certa forma
Fico alheia
2 185
Sophia de Mello Breyner Andresen

Sophia de Mello Breyner Andresen

Persona

Mitológica personagem — parece
Um falcão do Egipto
Sob seu lógico discurso permanece
Intacto o não dito

Mas algo de falcão nele se inscreve
Hieróglifo indecifrável
E o deus que ele foi ou nele esteve
Desarticula seu olhar instável
1 652
Sophia de Mello Breyner Andresen

Sophia de Mello Breyner Andresen

Ouve

Ouve:
Como tudo é tranquilo e dorme liso;
Claras as paredes, o chão brilha,
E pintados no vidro da janela
O céu, um campo verde, duas árvores.
Fecha os olhos e dorme no mais fundo
De tudo quanto nunca floresceu.

Não toques nada, não olhes, não te lembres
Qualquer passo
Faz estalar as mobílias aquecidas
Por tantos dias de sol inúteis e compridos

Não te lembres, nem esperes.
Não estás no interior dum fruto:
Aqui o tempo e o sol nada amadurecem.
1 993
Sophia de Mello Breyner Andresen

Sophia de Mello Breyner Andresen

Os Espelhos

Os espelhos acendem o seu brilho todo o dia
Nunca são baços
E mesmo sob a pálpebra da treva
Sua lisa pupila cintila e fita
Como a pupila do gato
Eles nos reflectem. Nunca nos decoram

Porém é só na penumbra da hora tardia
Quando a imobilidade se instaura no centro do silêncio
Que à tona dos espelhos aflora
A luz que os habita e nos apaga:
Luz arrancada
Ao interior de um fogo frio e vítreo
3 201
Sophia de Mello Breyner Andresen

Sophia de Mello Breyner Andresen

Painéis do Infante

Príncipes do silêncio ó taciturnos
Por quem chamava nos longínquos céus nocturnos
A verdade das estrelas nunca vistas.

A vossa face é a face dos elementos,
Solitária como o mar e como os montes
Vinda do fundo de tudo como as fontes
Dura e pura como os ventos.
1 738
Sophia de Mello Breyner Andresen

Sophia de Mello Breyner Andresen

A Flauta

No canto do quarto a sombra tocou sua pequena flauta
Foi então que me lembrei de cisternas e medusas
E do brilho mortal da praia nua
Estava o anel da noite solenemente posto no meu dedo
E a navegação do silêncio continuou sua viagem antiquíssima
2 278
Sophia de Mello Breyner Andresen

Sophia de Mello Breyner Andresen

Poema de Geometria E de Silêncio

Poema de geometria e de silêncio
Ângulos agudos e lisos
Entre duas linhas vive o branco.
1 908
Sophia de Mello Breyner Andresen

Sophia de Mello Breyner Andresen

Vela

Em redor da luz
A casa sai da sombra
Intensamente atenta
Levemente espantada

Em redor da luz
A casa se concentra
Numa espera densa
E quase silabada

Em redor da chama
Que a menor brisa doma
E que um suspiro apaga
A casa fica muda

Enquanto a noite antiga
Imensa e exterior
Tece seus prodígios
E ordena seus milénios
De espaço e de silêncio
De treva e de esplendor
3 187
Fernando Pessoa

Fernando Pessoa

Por muito que pense e pense

Por muito que pense e pense
No que nunca me disseste,
Teu silêncio não convence.
Faltaste quando vieste.
1 315
Fernando Pessoa

Fernando Pessoa

Deixaste cair a liga

Deixaste cair a liga
Porque não estava apertada...
Por muito que a gente diga
A gente nunca diz nada.
1 481
Fernando Pessoa

Fernando Pessoa

Se eu te pudesse dizer

Se eu te pudesse dizer
O que nunca te direi,
Tu terias que entender
Aquilo que nem eu sei.
2 459
Fernando Pessoa

Fernando Pessoa

Houve um momento entre nós

Houve um momento entre nós
Em que a gente não falou.
Juntos, estávamos sós.
Que bom é assim estar só!
1 387
Fernando Pessoa

Fernando Pessoa

A estrada inteiramente insubjectiva

A estrada inteiramente insubjectiva
Branca, branca, sem pensamento algum
1 415
Fernando Pessoa

Fernando Pessoa

Desejava querer fugir de mim.

ali. ali. ali
e...e...e...
        Palavras, não sois nada!
O que é Deus?
                        Uma palavra,
Pouco mais que um som.
                                           E um som?
                                                             Nada.
1 442
Fernando Pessoa

Fernando Pessoa

Há verdades que se dizem

Há verdades que se dizem
E outras que ninguém dirá.
Tenho uma coisa a dizer-te
Mas não sei onde ela está.
803
Fernando Pessoa

Fernando Pessoa

Não sei em que coisa pensas

Não sei em que coisa pensas
Quando coses sossegada...
Talvez naquelas ofensas
Que fazes sem dizer nada.
1 377
Fernando Pessoa

Fernando Pessoa

Caiu no chão o novelo

Caiu no chão o novelo
E foi-se desenrolando.
Passas a mão no cabelo.
Não sei em que estás pensando.
1 777
Fernando Pessoa

Fernando Pessoa

Quando há música, parece

Quando há música, parece
Que dormes, e assim te calas,
Mas se a música falece
Acordo, e não me falas.
1 471
Fernando Pessoa

Fernando Pessoa

Ah, que extraordinário,

Ah, que extraordinário,
Nos grandes momentos do sossego da tristeza,
Como quando alguém morre, e estamos em casa dele e todos estão quietos
O rodar de um carro na rua, ou o canto de um galo nos quintais...
Que longe da vida!
É outro mundo.
Viramo-nos para a janela, e o sol brilha lá fora
Vasto sossego plácido da natureza sem interrupções!
2 096
Fernando Pessoa

Fernando Pessoa

Nunca dizes se gostaste

Nunca dizes se gostaste
Daquilo que te calei.
Sei bem que o adivinhaste.
O que pensaste não sei.
1 399
Orides Fontela

Orides Fontela

Clima

Neste lugar marcado: campo onde
uma árvore única
se alteia


e o alongado
gesto
absorvendo
todo o silêncio - ascende e
imobiliza-se


(som antes da voz
pré-vivo
ou além da voz
e vida)


neste lugar marcado: campo
imoto
segredo cio cisma
o ser
celebra-se


- mudo eucalipto
elástico
e elíptico.


do livro Alba (1983)
1 641
Nizâr Qabbânî

Nizâr Qabbânî

a fala das mãos dela

um pouco de silêncio,
impetuosa,
que a mais bela fala
é a fala das tuas mãos
sobre a mesa
(tradução de André Simões)
502