Desejo

Poemas neste tema

Sophia de Mello Breyner Andresen

Sophia de Mello Breyner Andresen

Corpo

Corpo serenamente construído
Para uma vida que depois se perde
Em fúria e em desencontro vivido
Contra a pureza inteira dos teus ombros.

Pudesse eu reter-te no espelho
Ausente e mudo a todo outro convívio
Reter o claro nó dos teus joelhos
Que vão rasgando o vidro dos espelhos.

Pudesse eu reter-te nessas tardes
Que desenhavam a linha dos teus flancos
Rodeados pelo ar agradecido.

Corpo brilhante de nudez intensa
Por sucessivas ondas construído
Em colunas assente como um templo.
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Sophia de Mello Breyner Andresen

Sophia de Mello Breyner Andresen

É Por Ti Que Se Enfeita E Se Consome

É por ti que se enfeita e se consome,
Desgrenhada e florida, a Primavera.
É por ti que a noite chama e espera.

És tu quem anuncia o poente nas estradas.
E o vento torcendo as árvores desfolhadas
Canta e grita que tu vais chegar.
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Sophia de Mello Breyner Andresen

Sophia de Mello Breyner Andresen

Mãos

Côncavas de ter
Longas de desejo
Frescas de abandono
Consumidas de espanto
Inquietas de tocar e não prender.
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Raquel Nobre Guerra

Raquel Nobre Guerra

Trapézio

subir por aquele rapaz acima
e chamar deus à vontade
de subir
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Nuno Júdice

Nuno Júdice

Romã

Tirei os bagos, um a um,
de dentro da romã. Juntei-os
no prato do poema, e construí com eles
a tua imagem para que
a pudesse morder como se ama,
até ouvir o teu riso perguntar-me: «Que
fazes?», enquanto libertavas
os seios de dentro
da camisa, para que a luz os mordesse
como se morde a romã.
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Fernando Pessoa

Fernando Pessoa

Olhos de veludo falso

Olhos de veludo falso
E que fitam a entender,
Vós sois o meu cadafalso
A que subo com prazer.
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Fernando Pessoa

Fernando Pessoa

O amor que eu tenho não me deixa estar

O amor que eu tenho não me deixa estar
Pronto, quieto, firme num lugar
Há sempre um pensamento que me enleva
E um desejo comigo que me leva
Longe de mim, a quem eu amo e quero.
Inda de noite, quando durmo, espero
A manhã em que torne a vê-la e amá-la.
……
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Aires Teles

Aires Teles

Meu amor tanto vos quero

Meu amor tanto vos quero,
que deseja o coração
mil cousas contra a razão.
Porque, se vos não quisesse,
como poderia ter
desejo que me viesse
do que nunca pode ser?
Mas conquanto desespero,
e em mim tanta afeição,
que deseja o coração
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Chico Doido de Caicó

Chico Doido de Caicó

Nunca comi Maria Antonieta Pons

Nunca comi Maria Antonieta Pons
Nunca comi Terezinha Morango
Nunca comi Elizabeth Taylor
Nunca comi Martha Rocha
Nunca comi Kim Novak
Mas comi todas as raparigas do Cai Pedaço
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Vasco Graça Moura

Vasco Graça Moura

No obscuro desejo

no obscuro desejo, 
no incerto silêncio, 
nos vagares repetidos, 
na súbita canção 

que nasce como a sombra 
do dia agonizante, 
quando empalidece 
o exterior das coisas, 

e quando não se sabe 
se por dentro adormecem 
ou vacilam, e quando 
se prefere não chegar 

a sabê-lo, a não ser, 
pressentindo-as, ainda 
um momento, na aresta 
indizível do lusco-fusco. 
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Ana Paula Ribeiro Tavares

Ana Paula Ribeiro Tavares

Quantas coisas do amor

Quantas coisas do amor
P"ra ti guardei
Coisas simples como estar à espera
Manter o pão quente
Deixar o vinho abrir-se
Em mil sabores
Guardei-me das tentações
das sombras do desejo
das vozes
dos segredos

seria muito pedir-te
que me veles o sono
só mais uma vez.

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Arlindo Barbeitos

Arlindo Barbeitos

Em teus dentes

Em teus dentes
o sol
é diamante de fantasia
a lua
caco-de-garrafa
e
a mentira
verdade vagabunda
errando de cágado
em torno da lagoa dos olhos da noite
na treva aveludada
de tua pele
os dedos curiosos
são estrelas de marfim
à busca
de um dia caprichoso
despontando de miragem
por detrás das corcundas de elefantes adormecidos
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Neide Archanjo

Neide Archanjo

Toca minha pele assim

Toca minha pele assim:
as costas com beijos lentos
a nuca com lábios roxos
as coxas com mãos noturnas.

Nada é mais suave
que teu cabelo solto
aberto como asa
sobre meu corpo.


Poema integrante da série Canto IV: Ilhas Idílicas.

In: ARCHANJO, Neide. As marinhas. Apres. Sônia Régis. Rio de Janeiro: Salamandra, 1984
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Affonso Ávila

Affonso Ávila

Por Carmen Miranda

balangandãs
brinco de ouro e uma
bolota assim gozo os três

bês de carmen e
bambo na cama decodifico afinal o que é que a
baiana tem


Publicado no livro Masturbações (1980).

In: ÁVILA, Affonso. O visto e o imaginado. Ilustrações de Maria do Carmo Secco. São Paulo: Perspectiva: Edusp, 1990. p. 139. (Signos, 12
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Alice Ruiz

Alice Ruiz

lá ia eu

lá ia eu
toda exposta
àquele olhar
de garfo e faca
vendo
a mesa posta
minhas postas em fatias
ouvindo dos convivas
piadas macarrônicas


Publicado no livro Navalhanaliga (1980).

In: RUIZ, Alice. Pelos pelos. São Paulo: Brasiliense, 1984. (Cantadas literárias, 24
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Ana Luísa Amaral

Ana Luísa Amaral

Navegações Doentes

Tenho os sintomas todos:
navegam-me fluídos
e o devaneio em barcos de desejo

os sons de trovoada
mesmo tapando ouvidos:
esclerótica paixão que não domino

tenho os sintomas todos
e assim me reconheço
acamada, incurável: na parede do fundo
navegantes os barcos

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Joaquim Pessoa

Joaquim Pessoa

Não vou pôr-te flores de laranjeira no cabelo

Não vou pôr-te flores de laranjeira no cabelo
nem fazer explodir a madrugada nos teus olhos.

Eu quero apenas amar-te lentamente
como se todo o tempo fosse nosso
como se todo o tempo fosse pouco
como se nem sequer houvesse tempo.

Soltar os teus seios.
Despir as tuas ancas.
Apunhalar de amor o teu ventre.
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Angela Santos

Angela Santos

O Beijo

aberta,

entreaberta
um risco só que seja,
a boca,
desenhando desejo

lábios, língua
sopro, saliva…..

vermelha
túrgida
húmida
a tua na minha
boca
desagua.

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Amparo Jimenez

Amparo Jimenez

Ilusión

Marina

(A Rosamaría)

Tu lengua,
pececillo inquieto en mi rostro.
Tu boca,
ostra que juega con mis labios.
Tu piel,
arena ardiente sobre mi cuerpo todo.
Tu voz,
canto de sirena que me llama y espera.
Mi piel y mi alma responden
pero tú, sirena mía,
te esfumas con el sol
al bajar la marea.

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Giselle del Pino

Giselle del Pino

Definitivamente

II

Âncora
dos meus delírios
Lábios que me calam quando
Vou dormir.
Ainda ontem não sonhava tuas mãos.
E agora?
Definitivamente infinita,
Atordoada pela vontade de ser tua,
Reescrevo o que foi quase verdadeiro.
Palavras, frases
Que guardei secreta,
Mas revelando imediata,
Meu definitivo amor.

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Lya Luft

Lya Luft

Guardei-me para Ti

Guardei-me
para ti como um segredo
Que eu mesma não desvendei:
Há notas nesta guitarra que não toquei,
Há praias na minha ilha que nem andei.

É preciso que me tomes, além do riso e do olhar,
Naquilo que não conheço e adivinhei;
É preciso que me ensines a canção do que serei
E me cries com teu gesto
Que nem sonhei.
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Reinaldo Ferreira

Reinaldo Ferreira

Café de cais

Café de cais,
Onde se juntam,
Anónimos de iguais,
Os ratos dos porões,
Babel de todos os calões,
Rio de fumo e de incontido cio,
Sexuado rio
Que busca, único mar,
Mulheres de pernoitar,
Unge-te a nojo, não Anfritite,
Fina ficção marinha,
Mas nauseabundo
E tutelar,
O vulto familiar
Da Virgem Vício
Nossa Senhora do Baixo Mundo.

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Herberto Sales

Herberto Sales

Bruma Rubra

Na bruma rubra
busco teu corpo,
na fome da indermida nudez de tuas formas,
que em seus túmidos relevos
são meu repasto e minha bilha.

Na bruma rubra,
buscando teu corpo
em ti me encontro.
E contigo parto em noturna cavalgada,
num dorcel de linho e plumas.

Na bruma rubra
busco teu corpo,
na fome de tua alma.

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Micheliny Verunschk

Micheliny Verunschk

Rápido Monólogo do Caçador Com Sua Caça

Trago
Pardos
Os olhos
De cobiça
Que atiro
Sobre ti,
Teu verbo/teu sexo:

Tua presa
de
marfim.

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