Criatividade e Inspiração

Poemas neste tema

José Saramago

José Saramago

Forja

Quero branco o poema, e ruivo ardente
O metal duro da rima fragorosa,
Quero o corpo suado, incandescente,
Na bigorna sonora e corajosa,
E que a obra saída desta forja
Seja simples e fresca como a rosa.
1 128
José Saramago

José Saramago

O Primeiro Poema

Água, brancura e luz da madrugada,
E nardos orvalhados, olhos tardos,
E regressos de longe, lentos, vagos,
De espiral que se expande, ou nebulosa.
Assim diria que o mundo se criou:
Gesto liso das mãos do universo
Com perfumes e auras que anunciam,
Noutras mãos de quimera, outro verso.
1 316
José Saramago

José Saramago

Estou Onde o Verso Faço

Estou onde o verso faço, e erro o verso
Porque a fuga do tempo, ao núcleo escasso,
Tira a carne do fruto até ao osso.
Rilho no fel o dente e o desafio,
Tal, vagaroso, o bicho em jaula morde,
No travor do caroço, a memória do mel.
1 044
Vinicius de Moraes

Vinicius de Moraes

A Criação Na Poesia

(Ideal)

(Fragmento)
O poeta parte no eterno renovamento.
Mas seu destino é fugir sempre ao
homem que ele traz em si.

O poeta:
Eu sonho a poesia dos gestos fisionômicos de um anjo!
1 261
Martha Medeiros

Martha Medeiros

inspirada

inspirada
caio na velha cilada
de tornar lírico o miserável
concentro-me em rimas difíceis
construo imagens simbólicas
procuro ser respeitável
aí faço as piores burradas
não sei criar versos eternos
sou o azarão de todas as apostas
abandonada a literatura
hoje me detenho no que sei que tu gostas
os detalhes da minha última noitada
983
Martha Medeiros

Martha Medeiros

silêncio, estou escrevendo

silêncio, estou escrevendo
e não sei se destas palavras
sairá como mágica um poema
uma reportagem ou um recado
não sei em que se transformará
este grupo de sujeitos e advérbios
que buscam aqui reunidos
decifrar todos os meus medos
silêncio, estou me escutando
e quem fala são meus dedos
1 112
Martha Medeiros

Martha Medeiros

hoje eu sonhei tão alto

hoje eu sonhei tão alto
que as aves na minha janela pousaram
e pediram que eu sonhasse mais baixo
porque elas lá em cima voavam
1 053
Sophia de Mello Breyner Andresen

Sophia de Mello Breyner Andresen

Quem Me Roubou o Tempo Que Era Um

quem me roubou o tempo que era meu
o tempo todo inteiro que sorria
onde o meu Eu foi mais limpo e verdadeiro
e onde por si mesmo o poema se escrevia
Setembro de 2001
1 561
Martha Medeiros

Martha Medeiros

o mistério me fascina

o mistério me fascina
porque não me explica nada
não me dá satisfação
tá pouco ligando
pro meu cárcere


e eu fico imaginando uma resposta
uma invenção
para tirar sua força
qualquer coisa como ser um morcego
que não voa
e é um pássaro
1 089
Sophia de Mello Breyner Andresen

Sophia de Mello Breyner Andresen

Inverno

Este Inverno é longo gélido
E confuso
Na varanda só o vento passa
E o vento olha-nos de esguelha quando passa

Nenhum poema aflora
Entre as linhas finas e aéreas
Da página em branco
Inverno de 1999
1 717
Sophia de Mello Breyner Andresen

Sophia de Mello Breyner Andresen

Arte Poética

A dicção não implica estar alegre ou triste
Mas dar minha voz à veemência das coisas
E fazer do mundo exterior substância da minha mente
Como quem devora o coração do leão

Olha fita escuta
Atenta para a caçada no quarto penumbroso
1 219
Sophia de Mello Breyner Andresen

Sophia de Mello Breyner Andresen

À La Manière De

No mundo da arte há muitos saltimbancos
Que voam sem rede e jogam
A virar o mundo de pernas para o ar
Também caminham
Pé ante pé no arame
Equilibrados no fio fino e leve da vara

Eles próprios são leves e finos e recaem
Aéreos sobre a terra e conhecem
As leis abstractas do equilíbrio

O jogo do que é os absorve
Porque o inventam
1 069
Sophia de Mello Breyner Andresen

Sophia de Mello Breyner Andresen

Harpa

A juventude impetuosa do mar invade o quarto
A musa poisa no espaço vazio à contraluz
As cordas transparentes da harpa

E no espaço vazio dedilha as cordas ressoantes
1 237
Sophia de Mello Breyner Andresen

Sophia de Mello Breyner Andresen

Homero

Escrever o poema como um boi lavra o campo
Sem que tropece no metro o pensamento
Sem que nada seja reduzido ou exilado
Sem que nada separe o homem do vivido
1 522
Sophia de Mello Breyner Andresen

Sophia de Mello Breyner Andresen

Fernando Pessoa

Com o sobretudo abotoado até ao queixo
Embiocado afastado
No lugar mais escuro do café escrevia
O múltiplo poema o canto inumerável
Arrancado ao desejo à paixão à memória
Às lucidissímas fúrias da renúncia
Julho de 1994
1 068
Sophia de Mello Breyner Andresen

Sophia de Mello Breyner Andresen

Escrita Ii

Escreve numa sala grande e quase
Vazia
Não precisa de livro nem de arquivos
A sua arte é filha da memória
Diz o que viu
E o sol do que olhou para sempre o aclara
1 103
Sophia de Mello Breyner Andresen

Sophia de Mello Breyner Andresen

O Poeta Sábio

É sábio hábil arguto informado
Porém quando ele escreve
As Ménades não dançam
1 329
Sophia de Mello Breyner Andresen

Sophia de Mello Breyner Andresen

Memória

Mimesis. E vós Musas filhas da memória
De leve passo nos cimos do Parnaso
Suave a brisa — a fonte impetuosa
Princípio fundamento rosto-início
Espelho para sempre os olhos verdes

As longas mãos as azuladas veias
1 322
Sophia de Mello Breyner Andresen

Sophia de Mello Breyner Andresen

Escrevi As Navegações

Na longa viagem, à ida, de madrugada, quando as cortinas ainda estavam corridas, e a cabine estava ainda na penumbra, ouvi o microfone dizer a meia voz:
— Estamos a sobrevoar a costa do Vietname.
Corri uma cortina e vi um ar fulgurantemente azul e lá em baixo um mar ainda mais azul. E, perto de uma longa costa verde, vi no mar três ilhas de coral azul-escuro, cercadas por lagunas de uma transparência azulada.
Pensei naqueles que ali chegaram sem aviso prévio, sem mapas, ou relatos, ou desenhos ou fotografias que os prevenissem do que iam ver.
Escrevi os primeiros poemas simultaneamente a partir da minha imaginação, desse primeiro olhar, e a partir do meu próprio maravilhamento. As portas da Ásia abriram-se naquele preciso azul de que fala Dante no Purgatório:
«Dolce color d’oriental zaffiro».
Mas estavam neste mundo.
Como já disse na revista Prelo, há nas Navegações um intrincado jogo de invocações e ecos mais ou menos explícitos. E também através dos poemas navega a frase em que algures Maria Velho da Costa se refere aos «visionários do visível».
À medida que os poemas iam surgindo ia-se decidindo em mim a vontade de os editar ao lado dos mapas da época, os mapas onde ainda é visível o espanto do olhar inicial, o deslumbramento perante a diferença, perante a multiplicidade do real, a veemência do real mais belo que o imaginado, o maravilhamento perante os coqueiros, os elefantes, as ilhas, os telhados arqueados dos pagodes. E também a revelação de um outro rosto do humano e do sagrado.
Levei algum tempo a encontrar o editor que entendesse o meu desejo. Finalmente recorri à Imprensa Nacional, à qual estou em extremo grata por ter feito a edição que eu sonhei e quis.
Para mim o tema das Navegações não é apenas o feito, a gesta, mas fundamentalmente o olhar, aquilo a que os gregos chamavam aletheia, a desocultação, o descobrimento. Aquele olhar que às vezes está pintado à proa dos barcos.
(Discurso proferido na entrega do Prémio do Centro Português da Associação de Críticos Literários, em 1984.)
1 243
Sophia de Mello Breyner Andresen

Sophia de Mello Breyner Andresen

No Deserto

Metade de mim cavalo de mim mesma eu te domino
Eu te debelo com espora e rédea

Para que não te percas nas cidades mortas
Para que não te percas
Nem nos comércios de Babilónia
Nem nos ritos sangrentos de Nínive

Eu aponto o teu nariz para o deserto limpo
Para o perfume limpo do deserto
Para a sua solidão de extremo a extremo

Por isso te debelo te combato te domino
E o freio te corta a espora te fere a rédea te retém

Para poder soltar-te livre no deserto
Onde não somos nós dois mas só um mesmo
No deserto limpo com seu perfume de astros
Na grande claridade limpa do deserto
No espaço interior de cada poema
Luz e fogo perdidos mas tão perto
Onde não somos nós dois mas só um mesmo
1 473
Sophia de Mello Breyner Andresen

Sophia de Mello Breyner Andresen

Vi. Irmão do Que Escrevi

Irmão do que escrevi
Distante me desejo
Como quem ante o quadro
Pra melhor ver recua.
Mas tu, Neera, impões
Leis que não são as minhas.
Teus pés batem a dança
De sombra e desmesura
Em frente da varanda
Fugidia cintilas
Longas mãos brancos pulsos
Torcem os teus cabelos
Quando irrompe da noite
Tua face de toira
E acordas as imagens
Mais antigas que os deuses.
1 351
Sophia de Mello Breyner Andresen

Sophia de Mello Breyner Andresen

Xi. Final

Assim termina a lenda
Daquele escultor:
Nem pedra nem planta
Nem jardim nem flor
Foram seu modelo.
Sevilha/Lisboa, 1959
1 263
Sophia de Mello Breyner Andresen

Sophia de Mello Breyner Andresen

I. o Escultor E a Tarde

No meio da tarde
Um homem caminha:
Tudo em suas mãos
Se multiplica e brilha.
O tempo onde ele mora
É completo e denso
Semelhante ao fruto
Interiormente aceso.
No meio da tarde
O escultor caminha:
Por trás de uma porta
Que se abre sozinha
O destino espera.
E depois a porta
Se fecha gemendo
Sobre a Primavera.
1 911
Sophia de Mello Breyner Andresen

Sophia de Mello Breyner Andresen

No Poema

Transferir o quadro o muro a brisa
A flor o copo o brilho da madeira
E a fria e virgem liquidez da água
Para o mundo do poema limpo e rigoroso

Preservar de decadência morte e ruína
O instante real de aparição e de surpresa
Guardar num mundo claro
O gesto claro da mão tocando a mesa
1 796