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Poemas neste tema

Fernando Pessoa

Fernando Pessoa

Pequena vida consciente

Pequena vida consciente
A quem outra persegue
A imagem repetida
Do abismo onde perdê-la.
1 331
Fernando Pessoa

Fernando Pessoa

43 - THE BRIDGE

Kisses on me like dew
        Pour, and it shall be morn
My waked spirit through.
        My bowed, greyed head adorn
With bays, that I may view
        My shadow crowned and smile even as I rnourn

Although my head is bent,
        Thy feet, sandalled with hope,
Pass and are eloquent
         I' th' way they do not stop.
Somewhere i'th' grass they are blent
        With that of me that does for meanings grope

Let us be lovers aye,
        Out of all flesh agreeing,
Lovers in some new way
        That needs not words nor seeing.
Thus abstract, our love may
        Not ours, be but a vague breath of Pure Being
1 456
Fernando Pessoa

Fernando Pessoa

Pequena vida consciente, sempre

Pequena vida consciente, sempre
Da repetida imagem perseguida
Do fim inevitável, a cada hora
        Sentindo-se mudada,
E, como Orfeu volvendo à vinda esposa
O olhar algoz, para o passado erguendo
A memória pra em mágoas o apagar
        No baratro da mente.
1 312
Fernando Pessoa

Fernando Pessoa

Hora a hora não dura a face antiga

Hora a hora não dura a face antiga
Dos repetidos seres, e hora a hora,
        Pensando, envelhecemos.
Tudo passa ignorado, e o que, sabido,
Fica só sabe que ignora, porém nada
        Torna, ciente ou néscio.
Pares, assim, do que não somos pares,
Da hora incerta a chama agasalhemos
        Com côncavas mãos frias.
878
Fernando Pessoa

Fernando Pessoa

Tão pouco heráldica a vida!

Tão pouco heráldica a vida!
Tão sem tronos e ouropéis quotidianos!
Tão de si própria oca, tão do sentir-se despida
Afogai-me, ó ruído da acção, no som dos vossos oceanos!

Sede abençoados, (...) carros, comboios e trens
Respirar regular de fábricas, motores trementes a atroar
Com vossa crónica (...)
Sede abençoados, vós ocultais-me a mim...

Vós ocultais o silêncio real e inteiro da Hora
Vós despis de seu murmúrio o mistério
Aquele que dentro de mim quase grita, quase, quase chora
Dorme em vosso embalar férreo,

Levai-me para longe de eu saber que vida é que sinto
Enchei de banal e de material o meu ouvido vosso
A vida que eu vivo — ó (...) - é a vida que me minto
Só tenho aquilo que (...); só quero o que ter não posso.
894
Fernando Pessoa

Fernando Pessoa

É Carnaval, e estão as ruas cheias

É Carnaval, e estão as ruas cheias
De gente que conserva a sensação,
Tenho intenções, pensamento, ideias,
Mas não posso ter máscara nem pão.

Esta gente é igual, eu sou diverso —
Mesmo entre os poetas não me aceitariam.
Às vezes nem sequer ponho isto em verso —
E o que digo, eles nunca assim diriam.

Que pouca gente a muita gente aqui!
Estou cansado, com cérebro e cansaço.
Vejo isto, e fico, extremamente aqui
Sozinho com o tempo e com o espaço.

Detrás de máscaras nosso ser espreita,
Detrás de bocas um mistério acode
Que meus versos anódinos enjeita.

Sou maior ou menor? Com mãos e pés
E boca falo e mexo-me no mundo.
Hoje, que todos são máscaras, és
Um ser máscara-gestos, em tão fundo...
1 131
Fernando Pessoa

Fernando Pessoa

Nós ao igual destino

Nós ao igual destino
Iniguais pertencemos.
803
Fernando Pessoa

Fernando Pessoa

Não inquiro do anónimo futuro

Não inquiro do anónimo futuro
        Que serei, pois que tenho,
Qualquer que seja, que vivê-lo. Tiro
        Os olhos do vindouro.
Odeio o que não vejo. Se pudera,
        Vê-lo, grato o não vira.
Se mo mostrarem num quadro, ou o virarem
        Não tenho o que não tenho.
O que o Destino manda, saiba-o ele.
        A ignorância me basta.
1 233
Fernando Pessoa

Fernando Pessoa

Não torna atrás a negregada prole

Não torna atrás a negregada prole
        Regular de Saturno,
Nem magnos deuses implorados volvem
        Quem foi à luz que vemos.
Moramos, hóspedes na vida, e usamos
        Um tempo do discurso,
Um breve amor, um sorriso breve, e um dia
        Saudoso de todos.
1 046
Fernando Pessoa

Fernando Pessoa

Deixa passar o vento

Deixa passar o vento
Sem lhe perguntar nada.
Seu sentido é apenas
Ser o vento que passa…

Consegui que desta hora
O sacrifical fumo
Subisse até ao Olimpo.
E escrevi estes versos
Pra que os deuses voltassem.
1 624
Fernando Pessoa

Fernando Pessoa

Tenho um lenço que esqueceu

Tenho um lenço que esqueceu
A que se esquece de mim.
Não é dela, não é meu,
Não é princípio nem fim.
1 231
Fernando Pessoa

Fernando Pessoa

O SOBA DE BIKÁ — TRAJÉDIA

O soba de Biká, maravilhoso gajo,
Constantemente usava um admirável trajo
Que era feito de pele e de coisa nenhuma.
Havia uma harmonia entre ele e o trajo; em suma,
O soba de Biká, ou de noite ou de dia,
Era sempre da cor do trajo que vestia.
Mas o soba, coitado!, um dia em sua casa,
Sentou-se por descuido em cima de uma brasa,
E, em vez de gritar «Ai, minhas calças!», «Uh!»,
Gritou ele, esquecendo o trajo, «ai o meu cu!»
1 395
Fernando Pessoa

Fernando Pessoa

Teu olhar não tem remorsos

Teu olhar não tem remorsos
Não é por não ter que os ter.
É porque hoje não é ontem
E viver é só esquecer.
1 233
Fernando Pessoa

Fernando Pessoa

Folha após folha vemos caem

De amore suo

Folha após folha vemos caem,
        Cloé, as folhas todas.
Nem antes para elas, para nós
        Que sabemos que morrem.
        Assim, Cloé, assim,
O amor, antes que o corpo que empregamos
        Nele, em nós envelhece;
E nós, diversos, somos, inda jovens,
        Só a mútua lembrança.
Ah, se o que somos será isto sempre
        E só uma hora é o que somos,
Com tal excesso e fúria em cada amplexo
        A hausta vida ponhamos,
Que encha toda a memória, e nos beijemos
        Como se, findo o beijo
Único, sobre nós ruísse a súbita
        Mole do inteiro mundo.
1 429
Fernando Pessoa

Fernando Pessoa

Fazes renda de manhã

Fazes renda de manhã
E fazes renda ao serão.
Se não fazes senão renda,
Que fazes do coração?
2 356
Fernando Pessoa

Fernando Pessoa

Rouxinol que não cantaste,

Rouxinol que não cantaste,
Gaio que não cantarás,
Qual de vós me empresta o canto
Para ver o que ela faz?
923
Fernando Pessoa

Fernando Pessoa

Quis que comigo vísseis

Quis que comigo vísseis
        A sombra essencial, o abstracto fruto
Do inúmero universo. Mas, não fostes
Mais que uma luz extinta em noite densa
         Um pampal sem fruto.
 (...) —  Que é pensar
Sem ser? poeta, o que pensa vive o que é,
        E a raiz não medita.
1 105
Fernando Pessoa

Fernando Pessoa

Duas horas te esperei./Duas mais te esperaria.

Duas horas te esperei.
Duas mais te esperaria.
Se gostas de mim não sei...
Algum dia há-de ser dia...
1 262
Fernando Pessoa

Fernando Pessoa

Sob o jugo essencial e (...)

Sob o jugo essencial e (...)
De Saturno, e de Júpiter seu filho,
        Não vale que com Marte
        Me aborreçam os momentos.
Calmo, solenemente passageiro,
Dado às cousas e à minha vida própria,
        Procuro, não nos astros
        Mas em mim mesmo um amigo.
E alheio a quanto sob os céus distantes
Troa e anuvia a placidez das cousas,
        Pertenço-me em segredo
        Perante a Natureza.
1 352
Fernando Pessoa

Fernando Pessoa

Quando chegaste à janela

Quando chegaste à janela
Todos que estavam na rua
Disseram: olha, é aquela,
Tal é a graça que é tua!
1 116
Fernando Pessoa

Fernando Pessoa

Trazes um lenço apertado

Trazes um lenço apertado
Na cabeça, e um nó atrás.
Mas o que me traz cansado
É o nó que nunca se faz.
1 026
Fernando Pessoa

Fernando Pessoa

Nuvem que passas no céu,

Nuvem que passas no céu,
Dize a quem não perguntou
Se é bom dizer a quem deu:
«O que deste, não to dou.»
1 500
Fernando Pessoa

Fernando Pessoa

A vida é triste. O céu é sempre o mesmo. A hora

A vida é triste. O céu é sempre o mesmo. A hora
Passa segundo nossa estéril, tímida maneira.
Ah não haver terraços sobre o impossível.
796
Fernando Pessoa

Fernando Pessoa

Pequeno é o espaço que de nós separa

Pequeno é o espaço que de nós separa
O que havemos de ser quando morrermos.
Não conhecemos quem será o morto
        De hoje que então acaba.
Só o passado, comum a nós e a ele,
Será indício de que a nossa alma
Persiste e como antiga ama, conta
        Histórias esquecidas…
Se pudéssemos pôr o pensamento
Com esta visão adentro de ideia
Que havemos de ter naquela hora,
        Estranhos olharíamos
O que somos, cuidando ver um outro
E o espaço temporal que hoje habitamos
Luz onde nossa alma nasceu
        Alheia antes de a termos.
1 496