Vida

Poemas neste tema

Renato Rezende

Renato Rezende

As Veias

O mesmo sangue que corre em minhas veias
já correram em minhas veias
em muitos outros corpos, disso tenho certeza.
Já chamei de minhas muitas veias, muitos corpos
em infindáveis línguas passadas, já mortas.
Já vivi muitas, muitas vidas... in short:
não há diferença entre um ser humano e o próximo.


Nova York, 2 de março 1996
1 009
Renato Rezende

Renato Rezende

As Horas de Amor

O Marajá Akbar
escreve em sua biografia
que durante sua vida inteira
só sentiu amor verdadeiro
por três minutos e meio.

Akbar, o rei, o imperador
não apenas de uma província
mas de um país inteiro.

Quanto tempo de amor
eu tenho vivido na minha vida?


Nova York, 28 de junho 1995
940
Domingos Pellegrini

Domingos Pellegrini

Milagres

O milagre da uva
virar vinho
e o vinho virar
vinagre

O milagre da flor
virar semente
e a semente virar
uma baita árvore

O milagre das pedras
sua lenta vida
rocha virando areia

E o milagre dos astros
o universo tecido
de órbitas e estrelas.
733
Paulo Henriques Britto

Paulo Henriques Britto

MEMENTO MORI II

Luz frágil que brota no breu
e num rápido relance dá forma
e cor e corpo às coisas todas,

luz que se apega o pouco que pode
às aparências, acredita piamente
no sonho de substância que secretam,

luta com todas as parcas forças
contra o conforto de apagar-se enfim
por trás de duas implacáveis pálpebras.
777
Alexandre Guarnieri

Alexandre Guarnieri

O sangue

no corpo
há tão pouco espaço
entre um osso   e outro

só o óleo dos glóbulos
passa (o plasma)
quando não     é pálido

(na ampulheta viva /
sangue é tempo)

como a graxa
(da máquina)
escorre    entre

as engrenagens
               do   relógio
                bio    lógico
496
Giorgos Seferis

Giorgos Seferis

EXISTE

Existe, pelos deuses cruéis predestinada,
uma dor universal,
e cada um de nós dela pega a sua parte,
quanto aguente levar.

Julgamos insensatos
os que, carregando pressurosamente nos ombros
mais do que podiam carregar,
aliviam assim a carga comum:
os heróis, os mártires, os criminosos.

Rogo-lhes que nos perdoem.
Recordamos.
660
Manuel Gusmão

Manuel Gusmão

o comboio de corda

o comboio de corda
cruza o sítio de partida
e fecha um dos zeros
do ∞ deitado no mapa
celeste
e se leste
até ao fim o seu movimento
viste-o fechar o outro zero
e caíste infinitamente
na terra finita.
1 127
Eucanaã Ferraz

Eucanaã Ferraz

VINHETA

Ame-se o que é, como nós,
efêmero. Todo o universo
podia chamar-se: gérbera.
Tudo, como a flor, pulsa

e arde e apodrece. Sei,
repito ensinamento já sabido
e lições não dizem mais
que margaridas e junquilhos.

Lições, há quem diga,
são inúteis, por mais belas.
Melhor, porém, acrescento,
se azuis, vermelhas, amarelas.
674
Manuel de Freitas

Manuel de Freitas

CODA

[...]
Hoje
parece mais triste, talvez por no seu íntimo
saber já que vai escrever um poema
sobre mim, mera ajudante de leitura
dos códigos fatais em que cada um se expõe.
Mas para que tantas palavras? Bastava
-lhe
ter dito que me chamo Isilda
e que a vida que tenho não presta. A dele,
suponho, não será muito mais feliz
1 046
Charles Bukowski

Charles Bukowski

Verdade

um dos melhores versos de Lorca
é
“agonia, sempre
agonia...”

pense nisso quando você
matar uma
barata ou
pegar uma navalha para
se barbear

ou despertar na manhã
para
encarar o
sol.
1 242
Charles Bukowski

Charles Bukowski

Para As Irmãs da Caridade

é justificada
toda morte é justificada
toda matança toda morte toda
passagem,
nada é em vão
nem sequer o pescoço
de uma mosca,
e uma flor
passa através dos exércitos
e como um garotinho
gabando-se,
ergue suas
cores.
897
Manuel Bandeira

Manuel Bandeira

Maçã

Por um lado te vejo como um seio murcho
Pelo outro como um ventre de cujo umbigo pende ainda o cordão placentário

És vermelha como o amor divino

Dentro de ti em pequenas pevides
Palpita a vida prodigiosa
Infinitamente
E quedas tão simples
Ao lado de um talher
Num quarto pobre de hotel.

Petrópolis, 25.2.1938
3 064
Manuel Bandeira

Manuel Bandeira

Entrevista

Vida que morre e que subsiste
Vária, absurda, sórdida, ávida,
Má!

Se me indagar um qualquer
Repórter:
"Que há de mais bonito
No ingrato mundo?”
Não hesito;
Responderei:
"De mais bonito
Não sei dizer. Mas de mais triste,
— De mais triste é uma mulher
Grávida. Qualquer mulher grávida."
1 569
Marina Colasanti

Marina Colasanti

E LOGO PASSA

A vida é uma praça às duas da tarde
o sol queimando a nuca e o coração
e nós andando cegos no destino
que nos crava a pino.
1 023
Marina Colasanti

Marina Colasanti

Com o sol na língua

Ó Senhor!, que a garganta
não aguenta
tanto leandro em flor
tanta giesta
e o mar lá embaixo
como mesa posta.
Quero água de fonte
sobre os pulsos
e o sol na língua
como pão ou hóstia.
Quero descer
subir
a escadaria da encosta
a alma escancarada
a carne exposta
e esse explodir de sinos
na cabeça.
881
Affonso Romano de Sant'Anna

Affonso Romano de Sant'Anna

Aprendizados

Uns aprendem a nadar
outros a dançar, tocar piano,
fazer tricô e a esperar.
Na infância cai-se
para se aprender a andar,
cai-se do cavalo e do emprego
aprendendo a viver e a cavalgar.
Em alguns aprendizados
chega-se à perfeição.
Em alguns.
No amor, não.
1 184
Affonso Romano de Sant'Anna

Affonso Romano de Sant'Anna

Para Tigrão

Passo a mão no pelo deste cão
deitado no tapete.
Essa cabeça grande, quente, magnífica.
Passo a mão e ele aceita
meu carinho humano, animal.
No entanto, morreremos, os dois.
Nos tocamos ternamente.
Neste instante
– não morreremos jamais.
1 120
Affonso Romano de Sant'Anna

Affonso Romano de Sant'Anna

Iluminando

Que fulgurante a vida face ao entardecer.
Desfolho seus momentos numa verticalidade absurda.
Os gregos amavam o Sol
e os decadentistas
lunares formas de viver.
Projeto uns nos outros
iluminando o escurecer.
A tarde tem sortilégios.
Estou maduro para ela.
Escrevo. Escrevo. Escrevo.
E, algo se grava e se esclarece
no ato de escreviver.
1 217
Affonso Romano de Sant'Anna

Affonso Romano de Sant'Anna

Presente Vivo

Viver
é conjugação diária
do presente.
Viver
é presentear.
Mais que um jeito de doer
é um modo de doar.
E um presente
mais que um objeto
é o elo entre dois olhos
a floração do gesto
o prateado evento
e o cristalino afeto.
Não se dá
apenas pelo prazer
de ver
o outro receber.
Dá-se
para que o outro
entre-abrindo-se ao presente
também dê.
865
Affonso Romano de Sant'Anna

Affonso Romano de Sant'Anna

Os Bois

De madrugada matam os bois
que comemos ao amanhecer.
No entanto, eles tinham seus projetos:
comer a erva da manhã,
mascar o azul do entardecer
e cercados de aves e borboletas
ir adubando o dia por nascer.
1 053
Pablo Neruda

Pablo Neruda

XXXV

Não será nossa vida um túnel
entre duas vagas claridades?

Ou não será uma claridade
entre dois triângulos escuros?

Ou não será a vida um peixe
preparado para ser pássaro?

A morte será de não ser
ou de substâncias perigosas?
1 037
Pablo Neruda

Pablo Neruda

XXV

Por que para esperar a neve
se desnudou o arvoredo?

E como saber qual é Deus
entre os deuses de Calcutá?

Por que vivem tão esfarrapados
todos os bichos-da-seda?

Por que é tão dura a doçura
do coração da cereja?

É por que se tem de morrer
ou por que se tem de continuar?
1 018
Pablo Neruda

Pablo Neruda

XXXVIII

Não achas que vive a morte
dentro do sol de uma cereja?

Não pode também matar-te
um beijo da primavera?

Achas que o luto te adianta
a bandeira de teu destino?

E encontras na caveira
tua estirpe a osso condenada?
981
Pablo Neruda

Pablo Neruda

XXXIX

Não sentes também o perigo
na gargalhada do mar?

Não vês na seda sangrenta
da papoula uma ameaça?

Não vês que floresce a macieira
para morrer na maçã?

Não choras rodeado de riso
com as garrafas do olvido?
993