Mudança e Transformação

Poemas neste tema

António Ramos Rosa

António Ramos Rosa

Mediadora da Página

Desaparece. Renasce.
É um corpo ou um nome?
Florescência sem raízes. Cada imagem
gera outra imagem. Partículas

intermitentes. Tempestade
silenciosa. Como reencontrar
o negro e as raízes?
Algo tão pobre no silêncio

requer uma linguagem nua.
Surpreendente júbilo quando
na estrita área branca
a nudez profunda repercute.
957
António Ramos Rosa

António Ramos Rosa

Pronunciar a Terra

Pronunciar a terra
com as suas estridências.
Rodar com o novo sangue e a sua ignorância.
979
António Ramos Rosa

António Ramos Rosa

Fiel À Lentidão Que Abarca a Cinza E o Fogo

Fiel à lentidão que abarca a cinza e o fogo.
Fogo do ar em sua tácita certeza.
Confluência à superfície na dispersão latente.
1 186
António Ramos Rosa

António Ramos Rosa

Mediadora da Nudez

Um corpo aquece
ascende
liberta-se
dos círculos cinzentos.

Uma língua se tece
dentro da pele
as pálpebras compreendem
as cordas do silêncio.

Aroma global
da ferida e da resina
os extremos são barcas
nudez completa.
886
António Ramos Rosa

António Ramos Rosa

Não Querer Na Espera

Não querer na espera
até ao tácito oculto que interroga.
Arquear-se entre os arcos de água
até ao fundo e nascer flexível signo.
946
António Ramos Rosa

António Ramos Rosa

Num Ponto Qualquer

Num ponto qualquer
sensualmente subtil
algo que antes não servia para nada
irradia agora habitada surpresa.
1 056
António Ramos Rosa

António Ramos Rosa

A Brecha Aberta Pelo Gesto

A brecha aberta pelo gesto
apaga todas as fórmulas. Do rio
nasce a palavra que corre para o fogo.
Outra boca se abre inicial, perdida.
885
António Ramos Rosa

António Ramos Rosa

Dizem Que É Jardim

Dizem que é jardim
porque repousa

E diz-se também que se ilumina
em pausas
repentinas

Mas que dizer da trama
em movimento?

Que dizer do vento?
Que se prepara o incêndio
aqui na folha
888
António Ramos Rosa

António Ramos Rosa

O Que Segrega Névoa E Suor Debaixo de Um Sol Escuro Outro Sistema?

O que segrega névoa e suor debaixo de um sol escuro Outro sistema?
Nada mais do que sombras que não flectem nem respiram
Partiu-se o espelho das imagens
múltiplas
Abre-se o arco do sujeito nulo
no inesperado sopro de outras formas
867
António Ramos Rosa

António Ramos Rosa

Limiar Ou o Silêncio

Limiar ou o silêncio
de um corpo obscuro e branco
As hastes vivas
envolvem-no na clareira
em que a sua nudez promete o nome

A fenda escura e verde
em que desliza a mão
sem atingir o inseparável ou o núcleo

Imagens múltiplas
até que os limites se conjuguem
no novo corpo ou na palavra
que o transpõe
1 028
António Ramos Rosa

António Ramos Rosa

Algo Se Duplica

Algo se duplica
e inclina-se
refracta-se
num novo espaço em que se recompõe
Vertigem densa angústia do não igual de um outro qual?
O acaso decisivo
e o gesto imprevisível
negam ao espaço a multidão de imagens
920
António Ramos Rosa

António Ramos Rosa

O Sim do Instante — a Montanha Branca

O sim do instante — a montanha branca

negra
519
António Ramos Rosa

António Ramos Rosa

A Nuvem Passa

A nuvem passa

sem vestígios

abrindo o espaço
1 012
António Ramos Rosa

António Ramos Rosa

Caminho Sem Saída…

Caminho sem saída porque é a incessante saída e a perda, o inesperado intervalo que se abre a outro intervalo que se abre, a sucessiva vida simultânea de uma parede de água, página respirada pela boca na árvore ou na mão da terra.
1 134
António Ramos Rosa

António Ramos Rosa

Refaz a Pequena Chama da Montanha

Refaz a pequena chama da montanha
refaz a ardente fuga dos flancos
chama os joelhos e as nádegas sob as ondas

Chama e refaz o rosto sob as máscaras
na nudez sem perdão no perdão da nudez
reclama outro nome outra música outras pedras
Deita-te sobre os seios e o sexo da terra
1 206
António Ramos Rosa

António Ramos Rosa

Onde o Caminho

Onde o caminho é a mão que se abre,
a mão que vai.
O silêncio que respiro é o caminho que vem.

A mão nova palpa a parede do ar.
Uma parede nova.

Caminho para o solo alto.
Desloco a terra.

O fragor branco do céu.

O dia não estala.
1 078
António Ramos Rosa

António Ramos Rosa

Caminhando

Um passo largo
que me enche
de ar

uma certeza rápida
e fresca
sem memória

a face gasta
sob os pés

um solo de grãos onde trepida o branco
977
António Ramos Rosa

António Ramos Rosa

Árvore

Forço e quero ao fundo delicadamente
como subindo no sentido da seiva
espraiar-me nas folhas verdejantes,
espaçado vento repousando em taças,
mão que se alarga e espalma em verde lava,
tronco em movimento enraizado,
surto da terra, habitante do ar,
flexíveis palmas, movimentos, haustos,
verde unidade quase silenciosa.
1 025
António Ramos Rosa

António Ramos Rosa

Se o Mar Entrar

Se o mar entrar em casa
com suas flores de som
inundar os tapetes
onde a cinza se instalou
com o tempo
e as minúcias do pó

O mar já está aberto
e voltado de borco
se o mar entrar
o chão já se rompeu
pelos buracos a cor
abre-se a floresta
é um tambor de paz
o dia fruto novo
503
António Ramos Rosa

António Ramos Rosa

Voz Inicial

Quem sou já não interessa
se o disse na certeza
que começa outro ser
615
Sophia de Mello Breyner Andresen

Sophia de Mello Breyner Andresen

E Só Então Saí Das Minhas Trevas

E só então saí das minhas trevas:
Abri as minhas mãos como folhagens,
Intacta a luz brotava das paisagens,
Mas na doçura fantástica das coisas
As minhas mãos queimavam-se e morriam.

Dia perfeito, inteiro e luminoso,
Dia presente como a morte — luz
Trespassando os meus olhos de cegueira.
Cada voz, cada gesto, cada imagem
Na exaltação do sol se consumia.
2 095
Sophia de Mello Breyner Andresen

Sophia de Mello Breyner Andresen

Que Poderei de Mim Mais Arrancar

Que poderei de mim mais arrancar
P'ra suportar o dom da tua mão,
Anjo rubro do vento e solidão
Que me trouxeste o espaço, o deus e o mar?

No céu, a linha última das casas
É já azul, alada, imensa e leve.
Nenhum gesto, nenhum destino é breve
Porque em todos estão inquietas asas.

Depois ao pôr do sol ardem as casas,
O céu e o fogo passam pela terra,
E a noite negra vem cheia de brasas
Num crescendo sem fim que nos desterra.
2 076
Sophia de Mello Breyner Andresen

Sophia de Mello Breyner Andresen

Ítaca

Quando as luzes da noite se reflectirem imóveis nas águas verdes de Brindisi
Deixarás o cais confuso onde se agitam palavras passos remos e guindastes
A alegria estará em ti acesa como um fruto
Irás à proa entre os negrumes da noite
Sem nenhum vento sem nenhuma brisa só um sussurrar de búzio no silêncio
Mas pelo súbito balanço pressentirás os cabos
Quando o barco rolar na escuridão fechada
Estarás perdida no interior da noite no respirar do mar
Porque esta é a vigília de um segundo nascimento
O sol rente ao mar te acordará no intenso azul
Subirás devagar como os ressuscitados
Terás recuperado o teu selo a tua sabedoria inicial
Emergirás confirmada e reunida
Espantada e jovem como as estátuas arcaicas
Com os gestos enrolados ainda nas dobras do teu manto
3 345
Sophia de Mello Breyner Andresen

Sophia de Mello Breyner Andresen

Floresta

Entre o terror e a noite caminhei
Não em redor das coisas mas subindo
Através do calor das suas veias
Não em redor das coisas mas morrendo
Transfigurada em tudo quanto amei.

Entre o luar e a sombra caminhei:
Era ali a minha alma, cada flor
— Cega, secreta e doce como estrelas —
Quando a tocava nela me tornei.

E as árvores abriram os seus ramos
Os seus ramos enormes e convexos
E no estranho brilhar dos seus reflexos
Oscilavam sinais, quebrados ecos
Que no silêncio fantástico beijei.
4 185