Mar, Rios e Oceanos
Poemas neste tema
Alexandre Guarnieri
ilha na névoa
cercada pela tempestade que ameaça
sua secreta falésia de pétalas
toda e qualquer ilha, o mesmo símbolo
em todo ímpeto que habita, o mesmo nível
em todo mar que ataca a pedra:
a mesma meta
correnteza eterna
se há algo que a ilha renega e é eterno
é esta névoa
que atraiçoa seu único insulano,
um passo em falso:
entregue à queda
sua secreta falésia de pétalas
toda e qualquer ilha, o mesmo símbolo
em todo ímpeto que habita, o mesmo nível
em todo mar que ataca a pedra:
a mesma meta
correnteza eterna
se há algo que a ilha renega e é eterno
é esta névoa
que atraiçoa seu único insulano,
um passo em falso:
entregue à queda
678
Tomas Tranströmer
Tempestade
O homem que passeia de súbito dá com o velho
carvalho gigante, um alce transformado em pedra com
a sua enorme armadura contra o verde escuro da muralha
baixa do oceano.
Tempestade do norte. As sorveiras bravas
estão quase maduras. De noite acordado ele
escuta as constelações muito acima do carvalho
saltando nos seus cadeirais.
carvalho gigante, um alce transformado em pedra com
a sua enorme armadura contra o verde escuro da muralha
baixa do oceano.
Tempestade do norte. As sorveiras bravas
estão quase maduras. De noite acordado ele
escuta as constelações muito acima do carvalho
saltando nos seus cadeirais.
357
Manuel Gusmão
O rio divide-te
O rio divide-te entre
as margens montanhosas
pelas pedras
que saltando
vais de
onde vens
rosto de quem
uma borboleta
brilha na claridade
do súbito assombro.
as margens montanhosas
pelas pedras
que saltando
vais de
onde vens
rosto de quem
uma borboleta
brilha na claridade
do súbito assombro.
698
Carlito Azevedo
BANHISTA
Apenas
em frente
ao mar
um dia de verão -
quando tua voz
acesa percorresse,
consumindo-o,
o pavio de um verso
até sua última
sílaba inflamável -
quando o súbito
atrito de um nome
em tua memória te
incendiasse os cabelos -
(e sobre tua pele
de fogo a
brisa fizesse
rasgaduras
de água)
em frente
ao mar
um dia de verão -
quando tua voz
acesa percorresse,
consumindo-o,
o pavio de um verso
até sua última
sílaba inflamável -
quando o súbito
atrito de um nome
em tua memória te
incendiasse os cabelos -
(e sobre tua pele
de fogo a
brisa fizesse
rasgaduras
de água)
738
Grazia Deledda
A Primavera
O inverno arrefeceu também
a cor das rochas. Da montanha desciam
veias de prata, mil riachos silenciosos,
brilhando no verde vivo da erva.
Um sobressalto de torrente no fundo do vale
entre pêssegos e amendoeiras em flor, e tudo era puro,
jovem, fresco, sob a luz prateada do céu.
a cor das rochas. Da montanha desciam
veias de prata, mil riachos silenciosos,
brilhando no verde vivo da erva.
Um sobressalto de torrente no fundo do vale
entre pêssegos e amendoeiras em flor, e tudo era puro,
jovem, fresco, sob a luz prateada do céu.
640
Ademir Assunção
A Canção dos Peixes
submersos
nas funduras
(de onde
alma alguma
retorna)
entre algas
rochas e restos
de naufrágios
cegos
e sem memória
os peixes
cantam
seus blues
canções inaudíveis
de um tempo
sem tempo
que ninguém
(nem coltrane
nem hermeto)
pode ouvir
em lugar algum
nas funduras
(de onde
alma alguma
retorna)
entre algas
rochas e restos
de naufrágios
cegos
e sem memória
os peixes
cantam
seus blues
canções inaudíveis
de um tempo
sem tempo
que ninguém
(nem coltrane
nem hermeto)
pode ouvir
em lugar algum
593
Charles Bukowski
Eu Provo As Cinzas da Sua Morte
as florações agitam
água súbita
por minha manga,
água súbita
fresca e limpa
como neve –
enquanto as espadas
de caules afiados
avançam
contra seu peito
e as doces selvagens
rochas
saltam por cima
e
nos prendem.
água súbita
por minha manga,
água súbita
fresca e limpa
como neve –
enquanto as espadas
de caules afiados
avançam
contra seu peito
e as doces selvagens
rochas
saltam por cima
e
nos prendem.
604
Manuel Bandeira
Edmée
Que delícia na mata o fio d'água
Da fresca fonte para a sede grande!
(Assim a tua voz, límpida água
Para outra sede, Edmée Brandi.)
Da fresca fonte para a sede grande!
(Assim a tua voz, límpida água
Para outra sede, Edmée Brandi.)
1 076
Manuel Bandeira
A Onda
A O N D A
a onda anda
aonde anda
a onda?
a onda ainda
ainda onda
ainda anda
aonde?
aonde?
a onda a onda
a onda anda
aonde anda
a onda?
a onda ainda
ainda onda
ainda anda
aonde?
aonde?
a onda a onda
1 727
Manuel Bandeira
D. Janaína
D. Janaína
Sereia do mar
D. Janaína
De maiô encarnado
D. Janaína
Vai se banhar.
D. Janaína
Princesa do mar
D. Janaína
Tem muitos amores
É o rei do Congo
É o rei de Aloanda
É o sultão-dos-matos
É S. Salavá!
Saravá saravá
D. Janaína
Rainha do mar!
D. Janaína
Princesa do mar
Dai-me licença
Pra eu também brincar
No vosso reinado.
Sereia do mar
D. Janaína
De maiô encarnado
D. Janaína
Vai se banhar.
D. Janaína
Princesa do mar
D. Janaína
Tem muitos amores
É o rei do Congo
É o rei de Aloanda
É o sultão-dos-matos
É S. Salavá!
Saravá saravá
D. Janaína
Rainha do mar!
D. Janaína
Princesa do mar
Dai-me licença
Pra eu também brincar
No vosso reinado.
1 520
Manuel Bandeira
Lua
A proa reta abre no oceano
Um tumulto de espumas pampas.
Delas nascer parece a esteira
Do luar sobre as águas mansas.
O mar jaz como um céu tombado,
Ora é o céu que é um mar, onde a lua,
A só, silente louca, emerge
Das ondas-nuvens, toda nua.
Um tumulto de espumas pampas.
Delas nascer parece a esteira
Do luar sobre as águas mansas.
O mar jaz como um céu tombado,
Ora é o céu que é um mar, onde a lua,
A só, silente louca, emerge
Das ondas-nuvens, toda nua.
1 705
Manuel Bandeira
Cantiga
Nas ondas da praia
Nas ondas do mar
Quero ser feliz
Quero me afogar.
Nas ondas da praia
Quem vem me beijar?
Quero a estrela-d'alva
Rainha do mar.
Quero ser feliz
Nas ondas do mar
Quero esquecer tudo
Quero descansar.
Nas ondas do mar
Quero ser feliz
Quero me afogar.
Nas ondas da praia
Quem vem me beijar?
Quero a estrela-d'alva
Rainha do mar.
Quero ser feliz
Nas ondas do mar
Quero esquecer tudo
Quero descansar.
1 350
Marina Colasanti
Tão clara a água
Naquele verão
um homem afogou-se
no meu mar de criança.
Disseram que uma câimbra
que um mal súbito
que um peixe
uma água-viva.
Procuraram desculpas
para morte
em tão límpidas águas.
Eu não me perguntei por que
mas onde,
procurando no claro
a escuridão.
E até o fim do verão
não mergulhei no mar
adentrei numa tumba.
um homem afogou-se
no meu mar de criança.
Disseram que uma câimbra
que um mal súbito
que um peixe
uma água-viva.
Procuraram desculpas
para morte
em tão límpidas águas.
Eu não me perguntei por que
mas onde,
procurando no claro
a escuridão.
E até o fim do verão
não mergulhei no mar
adentrei numa tumba.
952
Manuel Bandeira
Oceano
Olho a praia. A treva é densa.
Ulula o mar, que não vejo,
Naquela voz sem consolo,
Naquela tristeza imensa
Que há na voz do meu desejo.
E nesse tom sem consolo
Ouço a voz do meu destino:
Má sina que desconheço,
Vem vindo desde eu menino,
Cresce quanto em anos cresço.
— Voz de oceano que não vejo
Da praia do meu desejo...
Ulula o mar, que não vejo,
Naquela voz sem consolo,
Naquela tristeza imensa
Que há na voz do meu desejo.
E nesse tom sem consolo
Ouço a voz do meu destino:
Má sina que desconheço,
Vem vindo desde eu menino,
Cresce quanto em anos cresço.
— Voz de oceano que não vejo
Da praia do meu desejo...
951
Marina Colasanti
De encrespado dorso
Na manhã nublada
eu disse ao lago:
granito.
Ofendeu-se.
Agora
se encrespa
réptil tentando livrar-se
do couro
em toda sua longa extensão
e morde
em espuma
a darsena.
Villa Serbelloni, Bellagio, 1999
eu disse ao lago:
granito.
Ofendeu-se.
Agora
se encrespa
réptil tentando livrar-se
do couro
em toda sua longa extensão
e morde
em espuma
a darsena.
Villa Serbelloni, Bellagio, 1999
1 017
Marina Colasanti
Entre nosso olhar e
A luz sobre o lago é
um biombo chinês
que se desdobra
entregando transparências
que se recolhe
em sedas superpostas
anteparo irredutível
que estremece
entre nosso olhar
e as montanhas.
Villa Serbelloni, Bellagio, 1999
um biombo chinês
que se desdobra
entregando transparências
que se recolhe
em sedas superpostas
anteparo irredutível
que estremece
entre nosso olhar
e as montanhas.
Villa Serbelloni, Bellagio, 1999
997
Marina Colasanti
Verde deserto
Na praia de Essauíra
os cameleiros
tocam as suas montadas
mar adentro.
Verdes dunas que as patas estilhaçam
espumas
e o ondear
em volutas
dos pescoços.
Atrás das trincheiras das lentes
olhares turistas
sequestram camelos pisando nas conchas.
No fundo de areia
passadas esmagam estrelas.
Inverte-se em águas
o céu beduino.
os cameleiros
tocam as suas montadas
mar adentro.
Verdes dunas que as patas estilhaçam
espumas
e o ondear
em volutas
dos pescoços.
Atrás das trincheiras das lentes
olhares turistas
sequestram camelos pisando nas conchas.
No fundo de areia
passadas esmagam estrelas.
Inverte-se em águas
o céu beduino.
917
Marina Colasanti
Perspectiva à noite
Na altura do quinto andar
uma traineira
vara o negro céu negro mar
saindo ao longe
por trás da quina de concreto.
Luz do mastro somente
traço invisível
estrela que cai na horizontal
com o ventre carregado de escamas.
uma traineira
vara o negro céu negro mar
saindo ao longe
por trás da quina de concreto.
Luz do mastro somente
traço invisível
estrela que cai na horizontal
com o ventre carregado de escamas.
1 066
Marina Colasanti
Com o sol na língua
Ó Senhor!, que a garganta
não aguenta
tanto leandro em flor
tanta giesta
e o mar lá embaixo
como mesa posta.
Quero água de fonte
sobre os pulsos
e o sol na língua
como pão ou hóstia.
Quero descer
subir
a escadaria da encosta
a alma escancarada
a carne exposta
e esse explodir de sinos
na cabeça.
não aguenta
tanto leandro em flor
tanta giesta
e o mar lá embaixo
como mesa posta.
Quero água de fonte
sobre os pulsos
e o sol na língua
como pão ou hóstia.
Quero descer
subir
a escadaria da encosta
a alma escancarada
a carne exposta
e esse explodir de sinos
na cabeça.
881
Marina Colasanti
FAZENDA Á BEIRA SAL
Vacas soltas no pasto
à beira-mar
fulvas como leões ao sol poente.
Cabeça baixa
e entrando pelas ventas
um perfume de sal e mato quente.
Sob a canga do vento
inclinam-se as ramagens e os arbustos
o mar é uma planície que se encrespa.
Só as vacas não se dobram.
Sólidas
sobre delgadas patas
mastigam ervas
e ruminam ondas.
à beira-mar
fulvas como leões ao sol poente.
Cabeça baixa
e entrando pelas ventas
um perfume de sal e mato quente.
Sob a canga do vento
inclinam-se as ramagens e os arbustos
o mar é uma planície que se encrespa.
Só as vacas não se dobram.
Sólidas
sobre delgadas patas
mastigam ervas
e ruminam ondas.
973
Marina Colasanti
CINCO DA TARDE E SUDOESTE
Logo virá a tempestade
trazendo a noite.
Mas por enquanto tudo
é doce mucosa
e o cinza e o rosa
se tocam no horizonte.
Sábias como aves de rocha
as traineiras se aninham
os recortes da costa.
Uma primeira luz se acende
junto à ilha.
E o grilo ainda canta
quando ao longe
o trovão escancara a garganta.
trazendo a noite.
Mas por enquanto tudo
é doce mucosa
e o cinza e o rosa
se tocam no horizonte.
Sábias como aves de rocha
as traineiras se aninham
os recortes da costa.
Uma primeira luz se acende
junto à ilha.
E o grilo ainda canta
quando ao longe
o trovão escancara a garganta.
971
Marina Colasanti
ORÁCULO E PRIMAVERA
Pessegueiros em flor, pessegueiros
que balançam cincerros no pescoço
entalhando a montanha
rumo ao mar.
Ou seriam as ovelhas que florescem
e balem estremecendo as folhas
dos seus olhos?
Pessegueiros em flor, pessegueiros
se chover hoje à noite
sobre Delfos
a chuva terá gosto de sal
e amanhã entre as flores
cintilarão escamas.
Delfos 1988
que balançam cincerros no pescoço
entalhando a montanha
rumo ao mar.
Ou seriam as ovelhas que florescem
e balem estremecendo as folhas
dos seus olhos?
Pessegueiros em flor, pessegueiros
se chover hoje à noite
sobre Delfos
a chuva terá gosto de sal
e amanhã entre as flores
cintilarão escamas.
Delfos 1988
1 167
Marina Colasanti
COM FUNDO MUSICAL DE NINO ROTA
O caminhar da noite
já se ouve
vindo da escura
mansão do leste.
A névoa deitou-se
para o sono
sobre a linha do horizonte.
Na última claridade
o transatlântico avança
todo aceso em suas luzes.
Por um instante
- alada coroa -
parece pousar no topo
do edificio que entre o mar
e meus olhos
se interpôe.
Mas logo
sem âncora que o retenha
segue viagem.
já se ouve
vindo da escura
mansão do leste.
A névoa deitou-se
para o sono
sobre a linha do horizonte.
Na última claridade
o transatlântico avança
todo aceso em suas luzes.
Por um instante
- alada coroa -
parece pousar no topo
do edificio que entre o mar
e meus olhos
se interpôe.
Mas logo
sem âncora que o retenha
segue viagem.
899
Affonso Romano de Sant'Anna
Cena Na Lagoa
Movida por dez braços
– múltipla flecha –
uma canoa avança
no crepúsculo da lagoa.
Atletas conduzem
a centopeia aquática
com seus potentes músculos
fecundando o ocaso.
Anoitece.
Com duas mãos
(apenas)
também remo
(parado)
na escuridão.
– múltipla flecha –
uma canoa avança
no crepúsculo da lagoa.
Atletas conduzem
a centopeia aquática
com seus potentes músculos
fecundando o ocaso.
Anoitece.
Com duas mãos
(apenas)
também remo
(parado)
na escuridão.
965
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