Arte
Poemas neste tema
Rodrigo Carvalho
Livro
à Soares Feitosa,
sobre o seu espantoso
"Requiem em Sol da Tarde"
Quem ao ler um livro,
chora,
como à morte de um querido ente,
sente,
o peso e a dor das palavras,
e cada gota de sangue e lágrimas,
como manchas,
em cada página.
E tem a alma leve, pura,
voando livremente...
Salvador, 12 de novembro de 1996
sobre o seu espantoso
"Requiem em Sol da Tarde"
Quem ao ler um livro,
chora,
como à morte de um querido ente,
sente,
o peso e a dor das palavras,
e cada gota de sangue e lágrimas,
como manchas,
em cada página.
E tem a alma leve, pura,
voando livremente...
Salvador, 12 de novembro de 1996
859
Samuel Nogueira Filho
O Soneto Imortal
Beleza está patente é na simplicidade...
O alexandrino, bem se pode consagrar...
A poesia aparece... Aflora, e na verdade
um verso musical nem precisa rimar...
Se rima, tem a forma, é melhor. Recitar
um soneto rimado é prazer. E quem há de
um soneto de cor não querer declamar
em vez de lê-lo escrito, e ter dificuldade?
Palavras, expressões, todas da mesma gama
em português castiço alguém jamais reclama
nem vai ao Dicionário. Eis do escritor o ideal.
Quem não gosta de ver seu soneto falado
em recital qualquer? Vê-lo ser aclamado,
aquele que fará seu autor imortal?
O alexandrino, bem se pode consagrar...
A poesia aparece... Aflora, e na verdade
um verso musical nem precisa rimar...
Se rima, tem a forma, é melhor. Recitar
um soneto rimado é prazer. E quem há de
um soneto de cor não querer declamar
em vez de lê-lo escrito, e ter dificuldade?
Palavras, expressões, todas da mesma gama
em português castiço alguém jamais reclama
nem vai ao Dicionário. Eis do escritor o ideal.
Quem não gosta de ver seu soneto falado
em recital qualquer? Vê-lo ser aclamado,
aquele que fará seu autor imortal?
959
Sidney Frattini
Canto ao Homem do Povo, Drummond
I
(Não) Era preciso que, nem poeta, nem maior, porém um tanto exposto à galhofa, girando um pouco em tua atmosfera ou nela aspirando a viver como na poética e essencial atmosfera de sonhos translúcidos.
Era preciso que este pequeno cantor mudo, de ritmos inexistentes, vindo de lugar-nenhum, onde nem nunca se usa gravata, e raro alguém é polido, e a opressão é desestranha, e o heroísmo se banha, também, em ironia, era preciso que atual velho vinte-e-tantos-tombos, preso à tua "gauchice" por filamentos de ternura e vida, viesse ousar falar-te e, fruto imaturo, te visitasse para dizer-te alguns nadas, sobcolor de despoema.
Para dizer-te como os nós te amamos e que nisso, como em nada mais, nossa gente não se parece com qualquer gente do mundo - exclusive os que perderam bondes e esperanças, e voltam pálidos para casa, e cujos corpos transigem na confluência do amor, iludindo a brutalidade e a brutal idade, e que, secretamente, pronunciam tuas palavras de vida e sonho.
Bem sei que o discurso, acalanto freguês, não te esmorece, e esta tua vivência é tua entrevista aos hebdomadários. Não é a saudação dos entusiasmados que te ofereço. Eles existem, mas é a de gente comum em mundo incomum.
Nem faço muita questão da anti-matéria de meu canto, tão abaixo de ti, como uma letra mal sucedida, mandada por vida real ao escritor de todas as cartilhas.
Falam por mim sei quantos, sujos de inexpressåo e gente, levados a refletir, ainda que microssegundo, que te percorreram papel adentro e, em meio ao Palácio das Jóias, descobriram anéis que lhes serviam e se sentiram imensamente ricos.
Falam por mim os que simplesmente simples de coração nunca ouviram falar de ti, ou si, a não ser por adjetivos e nunca por eles mesmos, líricos ou cismarentos, irresponsáveis ou patéticos, cariciosos ou loucos, e os que não chegam a ser nada disso.
II
A noite dissolve os homens, e não te apaga, não, a visão.
A noite é mortal, mas já não o és, mesmo despido de fardões que não te caem bem, deselegante predestinado, condenado à Eternidade, independente de certidões.
Assim, perdida a sábia infância, acumulas a noite na calvície plena e adquires a dimensão do grande e o pedaço vital da trajetória.
E te fazes em frases.
E então sentimos a noite.
Não como trevas, mas como fonte natural de nostalgia e brisa, como se ao contato da tua mensagem voltássemos ao país secreto onde dormem meninos ambiciosos de soltar coisas ocultas no peito.
III
Vazio de sugestões alimentícias, matas a fome dos que foram (ou não) chamados à ceia celeste ou industrial. E notas na toalha da mesa, em plena janta, impurezas no branco - lição de coisas que a vida te ensinou.
IV
E agora, Carlos? Não sossegues.
Teus ombros suportam o mundo, embora tenhas apenas duas mãos e a poesia seja, definitivamente, incomunicável, teu verso é nossa consolação e cachaça.
Oitenta por cento de ferro nas almas e brejo e vontade de amar doem, e o tempo é matéria, definitivamente.
V
Fazendeiro aéreo, habilitado para a noite, carregas no bolso viola eternamente encordoada. És apenas um homem e teu presente inunda nossa vida inteira.
VI
No meio do caminho tinha uma retina que enxergava a pedra.
Nunca me esquecerei desse acontecimento.
A pedra que ontem não vi hoje seria avalanche.
Ela repousa na vida, sem esconderijo, enxergada.
No meio do caminho tinha uma retina.
VII
E, ao contrário do que dizes, todos os meninos saltam de tua vida, a restaurar as suas.
Suspeitaste o velho em ti? Sabe o sábio que és, com tuas rugas e tua calva.
Foi bom que te expusésses: meditavas e meditávamos.
E tudo dizias... (ó palavras gastas, entretanto salvas, ditas de novo).
Poder de mais-que-humana voz, inventando novos caminhos, dando sopro aos exaustos; dignidade digna, amor profundo, crispação de ser humano, árvore firme ante desastres ecológicos, ó Carlos, meu e nosso amigo, tua vida e poesia FABRICAM a estrada de pó e esperança.
(Não) Era preciso que, nem poeta, nem maior, porém um tanto exposto à galhofa, girando um pouco em tua atmosfera ou nela aspirando a viver como na poética e essencial atmosfera de sonhos translúcidos.
Era preciso que este pequeno cantor mudo, de ritmos inexistentes, vindo de lugar-nenhum, onde nem nunca se usa gravata, e raro alguém é polido, e a opressão é desestranha, e o heroísmo se banha, também, em ironia, era preciso que atual velho vinte-e-tantos-tombos, preso à tua "gauchice" por filamentos de ternura e vida, viesse ousar falar-te e, fruto imaturo, te visitasse para dizer-te alguns nadas, sobcolor de despoema.
Para dizer-te como os nós te amamos e que nisso, como em nada mais, nossa gente não se parece com qualquer gente do mundo - exclusive os que perderam bondes e esperanças, e voltam pálidos para casa, e cujos corpos transigem na confluência do amor, iludindo a brutalidade e a brutal idade, e que, secretamente, pronunciam tuas palavras de vida e sonho.
Bem sei que o discurso, acalanto freguês, não te esmorece, e esta tua vivência é tua entrevista aos hebdomadários. Não é a saudação dos entusiasmados que te ofereço. Eles existem, mas é a de gente comum em mundo incomum.
Nem faço muita questão da anti-matéria de meu canto, tão abaixo de ti, como uma letra mal sucedida, mandada por vida real ao escritor de todas as cartilhas.
Falam por mim sei quantos, sujos de inexpressåo e gente, levados a refletir, ainda que microssegundo, que te percorreram papel adentro e, em meio ao Palácio das Jóias, descobriram anéis que lhes serviam e se sentiram imensamente ricos.
Falam por mim os que simplesmente simples de coração nunca ouviram falar de ti, ou si, a não ser por adjetivos e nunca por eles mesmos, líricos ou cismarentos, irresponsáveis ou patéticos, cariciosos ou loucos, e os que não chegam a ser nada disso.
II
A noite dissolve os homens, e não te apaga, não, a visão.
A noite é mortal, mas já não o és, mesmo despido de fardões que não te caem bem, deselegante predestinado, condenado à Eternidade, independente de certidões.
Assim, perdida a sábia infância, acumulas a noite na calvície plena e adquires a dimensão do grande e o pedaço vital da trajetória.
E te fazes em frases.
E então sentimos a noite.
Não como trevas, mas como fonte natural de nostalgia e brisa, como se ao contato da tua mensagem voltássemos ao país secreto onde dormem meninos ambiciosos de soltar coisas ocultas no peito.
III
Vazio de sugestões alimentícias, matas a fome dos que foram (ou não) chamados à ceia celeste ou industrial. E notas na toalha da mesa, em plena janta, impurezas no branco - lição de coisas que a vida te ensinou.
IV
E agora, Carlos? Não sossegues.
Teus ombros suportam o mundo, embora tenhas apenas duas mãos e a poesia seja, definitivamente, incomunicável, teu verso é nossa consolação e cachaça.
Oitenta por cento de ferro nas almas e brejo e vontade de amar doem, e o tempo é matéria, definitivamente.
V
Fazendeiro aéreo, habilitado para a noite, carregas no bolso viola eternamente encordoada. És apenas um homem e teu presente inunda nossa vida inteira.
VI
No meio do caminho tinha uma retina que enxergava a pedra.
Nunca me esquecerei desse acontecimento.
A pedra que ontem não vi hoje seria avalanche.
Ela repousa na vida, sem esconderijo, enxergada.
No meio do caminho tinha uma retina.
VII
E, ao contrário do que dizes, todos os meninos saltam de tua vida, a restaurar as suas.
Suspeitaste o velho em ti? Sabe o sábio que és, com tuas rugas e tua calva.
Foi bom que te expusésses: meditavas e meditávamos.
E tudo dizias... (ó palavras gastas, entretanto salvas, ditas de novo).
Poder de mais-que-humana voz, inventando novos caminhos, dando sopro aos exaustos; dignidade digna, amor profundo, crispação de ser humano, árvore firme ante desastres ecológicos, ó Carlos, meu e nosso amigo, tua vida e poesia FABRICAM a estrada de pó e esperança.
1 307
Sidney Frattini
Dados Biográficos
Nascido em São Paulo, capital, há 42 anos. Casado, 3 filhos, morador no Rio de Janeiro desde 1994. Mestrado em Administração de Empresas pela Fundação Getúlio Vargas (SP) e Bacharelado em Comunicação Social (Propaganda e Marketing) pela ESPM (SP). Há mais de 15 anos trabalha como executivo de empresas, sendo atualmente diretor de recursos humanos em uma multinacional estabelecida no Rio.
Autor de textos em crônica, poesia e contos, além de trabalhos técnicos / profissionais, possui algumas livros inéditos, entre os quais: Substância Viva (Da Retribuição das Bolinhas de Gude), crônicas e poesias, 1990; Um dia, ele pinta (Introdução à Esperança), contos, 1995.
Autor de textos em crônica, poesia e contos, além de trabalhos técnicos / profissionais, possui algumas livros inéditos, entre os quais: Substância Viva (Da Retribuição das Bolinhas de Gude), crônicas e poesias, 1990; Um dia, ele pinta (Introdução à Esperança), contos, 1995.
712
José Carlos Souza Santos
O Desespero do Amante
Onde andará
quem um dia o meu passo transformou
e sutil e silenciosa e envolvente
acorrentada manteve-me a esperança
Nas insubmissas falanges do peito
em toda parte te busquei
Fiz-me do vento, das areias molhadas das praias,
dos clarões de lua que te viram nua,
dos raios de sol que te beijaram o dorso,
inimigos declarados porque cúmplices na tua fuga
De nada valeram as minhas dragonas
na tua busca
nem o rútilo da espada
tantas vezes entre os dosséis desembainhada
amedrontaram o tempo que implacável
te esconde e alcovita
Maldito para sempre
o tempo que em nós passou
qual ave de rapina, imensa,
erodiu o esvoaçar dos teus cabelos
transformou em ladeira abandonada
tuas curvas
antes precipício
onde o suicídio a cada instante eu cometia
Onde indescobertos ficaram
os altaneiros cimos de bicos acintosos
a desafiar a gravidade.
Onde o trigal às bordas do Vesúvio
em cinzas transformado
Onde a lassidão,
aquele sentimento enorme de morrer a dois
quando a maré entrechocada
confundia o sentimento e a razão
O tempo afugentou a sinuosidade do teu corpo
contido antes no leito de um vestido
Tempo, tempo, porque me obrigas
a ir buscá-la
montado na crina azul das minhas lembranças
se sabes a magia desfeita e desvanecido o encanto
Não te basta o sorver amargo
do veneno ensandecido
gota a gota
nos versos malditos
que cultivo
Arranque-a pedaço a pedaço
das minhas estrelas
Emudeça-me as mãos
petrifique-me a razão
faça-me calar no peito
a imagem que os meus galos madrugada
insistem envolver nos meus lençóis.
quem um dia o meu passo transformou
e sutil e silenciosa e envolvente
acorrentada manteve-me a esperança
Nas insubmissas falanges do peito
em toda parte te busquei
Fiz-me do vento, das areias molhadas das praias,
dos clarões de lua que te viram nua,
dos raios de sol que te beijaram o dorso,
inimigos declarados porque cúmplices na tua fuga
De nada valeram as minhas dragonas
na tua busca
nem o rútilo da espada
tantas vezes entre os dosséis desembainhada
amedrontaram o tempo que implacável
te esconde e alcovita
Maldito para sempre
o tempo que em nós passou
qual ave de rapina, imensa,
erodiu o esvoaçar dos teus cabelos
transformou em ladeira abandonada
tuas curvas
antes precipício
onde o suicídio a cada instante eu cometia
Onde indescobertos ficaram
os altaneiros cimos de bicos acintosos
a desafiar a gravidade.
Onde o trigal às bordas do Vesúvio
em cinzas transformado
Onde a lassidão,
aquele sentimento enorme de morrer a dois
quando a maré entrechocada
confundia o sentimento e a razão
O tempo afugentou a sinuosidade do teu corpo
contido antes no leito de um vestido
Tempo, tempo, porque me obrigas
a ir buscá-la
montado na crina azul das minhas lembranças
se sabes a magia desfeita e desvanecido o encanto
Não te basta o sorver amargo
do veneno ensandecido
gota a gota
nos versos malditos
que cultivo
Arranque-a pedaço a pedaço
das minhas estrelas
Emudeça-me as mãos
petrifique-me a razão
faça-me calar no peito
a imagem que os meus galos madrugada
insistem envolver nos meus lençóis.
838
Ruy Ventura
Chuvas no Alentejo
chuva no poema
noite ardida a flutuar na rua
— o espaço do último sangue
estranha geometria
pontuação que se fecha sobre o tempo
como quem colhe na tarde
o fermentou que restou
de uma vírgula ou insecto
vírgula no poema aguaceiro
forte acolhendo a sombra
que do retrato o rosto faz
cair
pouco importa o vento
que vem das velhas fotografias
ou nas cartas que se não abriram
só importa a chuva
aceite entre duas sílabas
como um pássaro ou um livro
noite ardida a flutuar na rua
— o espaço do último sangue
estranha geometria
pontuação que se fecha sobre o tempo
como quem colhe na tarde
o fermentou que restou
de uma vírgula ou insecto
vírgula no poema aguaceiro
forte acolhendo a sombra
que do retrato o rosto faz
cair
pouco importa o vento
que vem das velhas fotografias
ou nas cartas que se não abriram
só importa a chuva
aceite entre duas sílabas
como um pássaro ou um livro
402
Flávio Sátiro Fernandes
Augusto dos Anjos e a Escola do Recife
O tema que trago à consideração dos que compõem este Conselho Estadual de Cultura tem sido tocado, apenas, de leve, por quantos se interessam pela vida e pela obra do maior dos poetas paraibanos - Augusto de Carvalho Rodrigues dos anjos - cujo centenário de nascimento todo o Brasil, este ano, comemora.
De fato, Agripino Grieco chama-o, de passagem, "epígono retardado da Escola do Recife" (1); Ferreira Gullar alude ao contato de Augusto com o "espírito cientificista que se tornara tradição da famosa Escola do Recife, a partir de Tobias Barreto" (2); Jamil Almansur Haddad proclama que a "geração de Augusto dos Anjos ainda é herdeira da escola do Recife, do pontificado de Sílvio Romero e Tobias Barreto e acaba sendo um florescimento brasileiro da poesia científica" (3); Pinto Ferreira, em considerações sobre a Escola do Recife, reconhece ter sido Augusto, "não diretamente ligado ao magistério de Tobias, porém influenciado pelo evolucionismo, dentro do clima ideológico da Escola". (4)
O tema, pois, não é original. Cabe-me, apenas, o esforço de tratá-lo mais demoradamente e, pela primeira vez, na província.
Dito isso, perguntaríamos: Que aproximações poderiam ser estabelecidas entre Augusto dos Anjos e a Escola do Recife? Que influências teria o nosso grande vate recebido daquele movimento? Quais os sinais dessas influências na obra de Augusto?
Para responder a tais perquirições e para exata compreensão das influências recebidas por Augusto das idéias em voga, ao seu tempo, no Recife, creio necessário expor, inicialmente, o que foi a Escola do Recife, suas figuras luminares, suas fases, as teorias nela discutidas.
A Escola do Recife
O que se convencionou chamar de Escola do Recife foi um movimento cultural de ampla repercussão, congregando pensadores, estudiosos, juristas, sociólogos, poetas, preocupados em debater os mais variados temas dentro de suas respectivas especialidades. A Escola do Recife não teve um ideário próprio e definido. Antes, foi um movimento heterogêneo, um cadinho de filosofias, de sociologias, de correntes literárias e jurídicas. Conforme assinala Pinto Ferreira, o grande esforço válido da Escola do Recife foi o convite ao debate filosófico e cultural.
A Escola teve, primitivamente, três fase, Digo primitivamente porque, consoante ainda Pinto Ferreira, "este movimento de idéias não ficou estacionado no tempo, os segmentos do tempo lhe foram indiferentes". Para o mestre pernambucano, a Escola do Recife "e um movimento dinâmico que sobrevive na atualidade, em uma nova fase de desenvolvimento". (5)
Primitivamente, pois, a Escola teve três fases: a fase poética, a fase crítico-filosófica e a fase jurídica. Durante essas três fases, vários nomes podem ser identificados como exponenciais da Escola: Tobias Barreto, sem dúvida, a maior figura do movimento, Castro Alves, Sílvio Romero, Clóvis Beviláqua, Martins Junior, Artur Orlando e outros mais.
O primeiro período - da poesia - iniciou-se de 1862 a 1863, conforme esclarece Clóvis Beviláqua. (6) Essa fase corresponde à formação daquela corrente denominada por Capistrano de Abreu, "escola condoreira", integrada por Tobias Barreto e Castro Alves, notadamente, bem como por Vitoriano Palhares, Guimarães Junior, Antônio Alves Carvalho, Xavier Lima (7) e Sílvio Romero. (8)
Lançam-se por essa época os fundamentos da poesia filosófico-científica.
Tobias Barreto embebe-se do panteísmo do "Ahasverus", de Edgar Quinet e em sua poesia já estremece "um brado de revolta de um espírito abalado pelos desgostos e pela filosofia do século". (9) Dessa fase é o poema O Gênio da Humanidade, síntese da evolução humana, provavelmente inspirado no Ahasverus. Outro de seus poemas, Ignorabimus, traz à tona preocupações religiosas do autor:
Quanta ilusão!... O céu mostra-se esquivo
E surdo ao brado do Universo inteiro...
De dúvidas cruéis prisioneiro,
Tomba por terra o pensamento altivo.
Dizem que Cristo, o filho de Deus vivo,
A quem chamam também Deus verdadeiro,
Veio o mundo remir do cativeiro!...
E eu vejo o mundo ainda tão cativo!
Se os reis são sempre os reis, se o povo ignaro
Não deixou de provar o duro freio
Da travessia e da miséria o trato;
Se é sempre o mesmo engodo e falso enleio,
Se o homem chora e continua escravo,
De que foi que Jesus salvar-nos veio?...
E em outro, intitulado Epicurismo, defende essa filosofia de vida:
Se as crenças são um engodo,
Se falha o verbo da fé,
Se o homem se acaba todo
Com a matéria que ele é,
Se o coração nada aspira,
Se este bater é mentiroso,
Se além não há desfrutar,
Da vida a idéia suprema,
O grande, o sábio problema
É viver muito e gozar...
Também Sílvio Romero cultiva a poesia científica. E mais: foi seu ardente defensor, conforme assinala França Pereira, no Prefácio à segunda edição de A poesia científica, de Martins Junior. (10)
São, assim, Tobias e Sílvio Romero os precursores da chamada poesia filosófico-científica, que vai ter, ainda, na Escola do Recife, um teorizador e praticante apaixonado, na pessoa de Martins Junior, de que falarei adiante.
A segunda fase é a fase crítico-filosófica, iniciada pelos anos de 1868 a 1870 e que se estende até 1882, quando, com o concurso de Tobias Barreto, para professor da Faculdade de Direito, tem começo a fase jurídica da Escola.
Durante a segunda fase têm curso as mais diversas correntes filosóficas, críticas e religiosas, sobressaindo-se como autores mas acatados e discutidos Spencer, Heckel, Hartmann, Schopenhauer, Kant. Mas é fora de discussão que nessa época a Escola elege, por intermédio de Tobias, notadamente, o monismo e o evolucionismo, como as idéias principais de seu pensamento, a ponto de Luís Washington Vita, citado por Pinto Ferreira, observar que a doutrina adotada pelos pioneiros da Escola do Recife foi um somatório daquelas duas teorias. (11)
O evolucionismo teve, como se sabe, em Herbert Spencer um de seus mais importantes defensores. A nota fundamental que o evolucionismo spenceriano distingue na evolução é o progresso. Evolução significa progresso, conforme proclama o filósofo inglês em seu ensaio intitulado Progresso. O progresso, segundo Spencer, investe todos os aspectos da realidade. "Quer se trate - diz ele no ensaio citado - do desenvolvimento da Terra, quer se trate do desenvolvimento da vida na sua superfície ou do desenvolvimento da sociedade, ou do governo, ou da indústria, ou do comércio, ou da linguagem, ou da literatura, ou da ciência, ou da arte, sempre no fundo de todo progresso está a evolução que vai do simples ao complexo através de diferenciações sucessivas". (12)
E nos seus Primeiros Princípios, assim definia a evolução: "A evolução é uma integração da matéria e uma concomitante dissipação de movimento, durante a qual a matéria passa de uma homogeneidade indefinida e incoerente para uma heterogeneidade definida e coerente e durante a qual o movimento conservado é passível de uma transformação paralela". (13)
Ao lado do evolucionismo, a outra doutrina, também acatada pelos pensadores foi o monismo, cuja figura maior foi, sem dúvida, o filósofo alemão Ernst Haeckel.
Spencer e Haeckel dominam, por conseguinte, com suas idéias, o ambiente cultural do Recife, de fins do século passado e princípios do atual, graças à ação intelectual de Tobias Barreto, o grande mentor da Escola do Recife, e da dos demais que o acompanhavam naquele movimento.
Finalmente, a terceria fase da Escola, a fase jurídica, inicia-se em 1882, ano em que Tobias presta concurso para professor da Faculdade de Direito do Recife. Despontam nessa fase, além do grande sergipano, as figuras de Clóvis Beviláqua, José Izidro Martins Junior e Artur Orlando, este mais sociólogo que jurista.
Deles
De fato, Agripino Grieco chama-o, de passagem, "epígono retardado da Escola do Recife" (1); Ferreira Gullar alude ao contato de Augusto com o "espírito cientificista que se tornara tradição da famosa Escola do Recife, a partir de Tobias Barreto" (2); Jamil Almansur Haddad proclama que a "geração de Augusto dos Anjos ainda é herdeira da escola do Recife, do pontificado de Sílvio Romero e Tobias Barreto e acaba sendo um florescimento brasileiro da poesia científica" (3); Pinto Ferreira, em considerações sobre a Escola do Recife, reconhece ter sido Augusto, "não diretamente ligado ao magistério de Tobias, porém influenciado pelo evolucionismo, dentro do clima ideológico da Escola". (4)
O tema, pois, não é original. Cabe-me, apenas, o esforço de tratá-lo mais demoradamente e, pela primeira vez, na província.
Dito isso, perguntaríamos: Que aproximações poderiam ser estabelecidas entre Augusto dos Anjos e a Escola do Recife? Que influências teria o nosso grande vate recebido daquele movimento? Quais os sinais dessas influências na obra de Augusto?
Para responder a tais perquirições e para exata compreensão das influências recebidas por Augusto das idéias em voga, ao seu tempo, no Recife, creio necessário expor, inicialmente, o que foi a Escola do Recife, suas figuras luminares, suas fases, as teorias nela discutidas.
A Escola do Recife
O que se convencionou chamar de Escola do Recife foi um movimento cultural de ampla repercussão, congregando pensadores, estudiosos, juristas, sociólogos, poetas, preocupados em debater os mais variados temas dentro de suas respectivas especialidades. A Escola do Recife não teve um ideário próprio e definido. Antes, foi um movimento heterogêneo, um cadinho de filosofias, de sociologias, de correntes literárias e jurídicas. Conforme assinala Pinto Ferreira, o grande esforço válido da Escola do Recife foi o convite ao debate filosófico e cultural.
A Escola teve, primitivamente, três fase, Digo primitivamente porque, consoante ainda Pinto Ferreira, "este movimento de idéias não ficou estacionado no tempo, os segmentos do tempo lhe foram indiferentes". Para o mestre pernambucano, a Escola do Recife "e um movimento dinâmico que sobrevive na atualidade, em uma nova fase de desenvolvimento". (5)
Primitivamente, pois, a Escola teve três fases: a fase poética, a fase crítico-filosófica e a fase jurídica. Durante essas três fases, vários nomes podem ser identificados como exponenciais da Escola: Tobias Barreto, sem dúvida, a maior figura do movimento, Castro Alves, Sílvio Romero, Clóvis Beviláqua, Martins Junior, Artur Orlando e outros mais.
O primeiro período - da poesia - iniciou-se de 1862 a 1863, conforme esclarece Clóvis Beviláqua. (6) Essa fase corresponde à formação daquela corrente denominada por Capistrano de Abreu, "escola condoreira", integrada por Tobias Barreto e Castro Alves, notadamente, bem como por Vitoriano Palhares, Guimarães Junior, Antônio Alves Carvalho, Xavier Lima (7) e Sílvio Romero. (8)
Lançam-se por essa época os fundamentos da poesia filosófico-científica.
Tobias Barreto embebe-se do panteísmo do "Ahasverus", de Edgar Quinet e em sua poesia já estremece "um brado de revolta de um espírito abalado pelos desgostos e pela filosofia do século". (9) Dessa fase é o poema O Gênio da Humanidade, síntese da evolução humana, provavelmente inspirado no Ahasverus. Outro de seus poemas, Ignorabimus, traz à tona preocupações religiosas do autor:
Quanta ilusão!... O céu mostra-se esquivo
E surdo ao brado do Universo inteiro...
De dúvidas cruéis prisioneiro,
Tomba por terra o pensamento altivo.
Dizem que Cristo, o filho de Deus vivo,
A quem chamam também Deus verdadeiro,
Veio o mundo remir do cativeiro!...
E eu vejo o mundo ainda tão cativo!
Se os reis são sempre os reis, se o povo ignaro
Não deixou de provar o duro freio
Da travessia e da miséria o trato;
Se é sempre o mesmo engodo e falso enleio,
Se o homem chora e continua escravo,
De que foi que Jesus salvar-nos veio?...
E em outro, intitulado Epicurismo, defende essa filosofia de vida:
Se as crenças são um engodo,
Se falha o verbo da fé,
Se o homem se acaba todo
Com a matéria que ele é,
Se o coração nada aspira,
Se este bater é mentiroso,
Se além não há desfrutar,
Da vida a idéia suprema,
O grande, o sábio problema
É viver muito e gozar...
Também Sílvio Romero cultiva a poesia científica. E mais: foi seu ardente defensor, conforme assinala França Pereira, no Prefácio à segunda edição de A poesia científica, de Martins Junior. (10)
São, assim, Tobias e Sílvio Romero os precursores da chamada poesia filosófico-científica, que vai ter, ainda, na Escola do Recife, um teorizador e praticante apaixonado, na pessoa de Martins Junior, de que falarei adiante.
A segunda fase é a fase crítico-filosófica, iniciada pelos anos de 1868 a 1870 e que se estende até 1882, quando, com o concurso de Tobias Barreto, para professor da Faculdade de Direito, tem começo a fase jurídica da Escola.
Durante a segunda fase têm curso as mais diversas correntes filosóficas, críticas e religiosas, sobressaindo-se como autores mas acatados e discutidos Spencer, Heckel, Hartmann, Schopenhauer, Kant. Mas é fora de discussão que nessa época a Escola elege, por intermédio de Tobias, notadamente, o monismo e o evolucionismo, como as idéias principais de seu pensamento, a ponto de Luís Washington Vita, citado por Pinto Ferreira, observar que a doutrina adotada pelos pioneiros da Escola do Recife foi um somatório daquelas duas teorias. (11)
O evolucionismo teve, como se sabe, em Herbert Spencer um de seus mais importantes defensores. A nota fundamental que o evolucionismo spenceriano distingue na evolução é o progresso. Evolução significa progresso, conforme proclama o filósofo inglês em seu ensaio intitulado Progresso. O progresso, segundo Spencer, investe todos os aspectos da realidade. "Quer se trate - diz ele no ensaio citado - do desenvolvimento da Terra, quer se trate do desenvolvimento da vida na sua superfície ou do desenvolvimento da sociedade, ou do governo, ou da indústria, ou do comércio, ou da linguagem, ou da literatura, ou da ciência, ou da arte, sempre no fundo de todo progresso está a evolução que vai do simples ao complexo através de diferenciações sucessivas". (12)
E nos seus Primeiros Princípios, assim definia a evolução: "A evolução é uma integração da matéria e uma concomitante dissipação de movimento, durante a qual a matéria passa de uma homogeneidade indefinida e incoerente para uma heterogeneidade definida e coerente e durante a qual o movimento conservado é passível de uma transformação paralela". (13)
Ao lado do evolucionismo, a outra doutrina, também acatada pelos pensadores foi o monismo, cuja figura maior foi, sem dúvida, o filósofo alemão Ernst Haeckel.
Spencer e Haeckel dominam, por conseguinte, com suas idéias, o ambiente cultural do Recife, de fins do século passado e princípios do atual, graças à ação intelectual de Tobias Barreto, o grande mentor da Escola do Recife, e da dos demais que o acompanhavam naquele movimento.
Finalmente, a terceria fase da Escola, a fase jurídica, inicia-se em 1882, ano em que Tobias presta concurso para professor da Faculdade de Direito do Recife. Despontam nessa fase, além do grande sergipano, as figuras de Clóvis Beviláqua, José Izidro Martins Junior e Artur Orlando, este mais sociólogo que jurista.
Deles
1 703
Renato Russo
Plantas embaixo do aquário
Aceite o desafio e provoque um desempate:
Desarme a armadilha e desmonte o disfarce.
Se afaste do abismo -
Faça do bom-senso a nova ordem;
Não deixe a guerra começar.
Pense só um pouco,
Não há nada de novo.
Você vive insatisfeito e não confia em ninguém
E não acredita em nada
E agora é só cansaço e falta de vontade,
Mas, faça do bom-senso a nova ordem:
Não deixe a guerra começar.
Desarme a armadilha e desmonte o disfarce.
Se afaste do abismo -
Faça do bom-senso a nova ordem;
Não deixe a guerra começar.
Pense só um pouco,
Não há nada de novo.
Você vive insatisfeito e não confia em ninguém
E não acredita em nada
E agora é só cansaço e falta de vontade,
Mas, faça do bom-senso a nova ordem:
Não deixe a guerra começar.
870
Renato Russo
A ordem dos templários (Instrumental)
A montanha mágica
Sou meu próprio líder: ando em círculos
Me equilibro entre dias e noites
Minha vida toda espera algo de mim
Meio-sorriso, meia-lua, toda tarde
Minha papoula da India
Minha flor da Tailândia
Es o que tenho de suave
E me fazes tão mal
Ficou logo o que tinha ido embora
Estou só um pouco cansado
Não sei se isto termina logo
Meu joelho dói
E não há nada a fazer agora
Para que servem os anjos ?
A felicidade mora aqui comigo
Até segunda ordem
Um outro agora vive minha vida
Sei o que ele sonha, pensa e sente
Não é coincidência a minha indiferença
Sou uma cópia do que faço
O que temos é o que nos resta
E estamos querendo demais
Minha papoula da India
Minha flor da Tailândia
Es o que tenho de suave
E me fazes tão mal
Existe um descontrole, que corrompe e cresce
Pode até ser, mas estou pronto prá mais uma
O que é que desvirtua e ensina ?
O que fizemos de nossas próprias vidas ?
O mecanismo da amizade,
A matemática dos amantes -
Agora só artesanato:
Os restos são escombros
Mas é claro que não vamos lhe fazer mal
Nem é por isso que estamos aqui
Cada criança com seu próprio canivete
Cada líder com seu próprio .38
Minha papoula da India
Minha flor da Tailândia
Chega - vou mudar a minha vida
Deixa o copo encher até a borda
Que eu quero um dia de sol num copo dágua
Sou meu próprio líder: ando em círculos
Me equilibro entre dias e noites
Minha vida toda espera algo de mim
Meio-sorriso, meia-lua, toda tarde
Minha papoula da India
Minha flor da Tailândia
Es o que tenho de suave
E me fazes tão mal
Ficou logo o que tinha ido embora
Estou só um pouco cansado
Não sei se isto termina logo
Meu joelho dói
E não há nada a fazer agora
Para que servem os anjos ?
A felicidade mora aqui comigo
Até segunda ordem
Um outro agora vive minha vida
Sei o que ele sonha, pensa e sente
Não é coincidência a minha indiferença
Sou uma cópia do que faço
O que temos é o que nos resta
E estamos querendo demais
Minha papoula da India
Minha flor da Tailândia
Es o que tenho de suave
E me fazes tão mal
Existe um descontrole, que corrompe e cresce
Pode até ser, mas estou pronto prá mais uma
O que é que desvirtua e ensina ?
O que fizemos de nossas próprias vidas ?
O mecanismo da amizade,
A matemática dos amantes -
Agora só artesanato:
Os restos são escombros
Mas é claro que não vamos lhe fazer mal
Nem é por isso que estamos aqui
Cada criança com seu próprio canivete
Cada líder com seu próprio .38
Minha papoula da India
Minha flor da Tailândia
Chega - vou mudar a minha vida
Deixa o copo encher até a borda
Que eu quero um dia de sol num copo dágua
818
Roberto Pontes
Contracanto
Estou em meu poema
como os amantes se estão.
Moro nas vogais e consoantes
circunflexos
ós e xizes cantantes.
Estou nos casebres tristes
da imaginação.
Sou nas quase
vírgulas de ouro
que faço sem porquês.
O alfabeto habito
como me moram
muitas vezes muitas
meu coração.
como os amantes se estão.
Moro nas vogais e consoantes
circunflexos
ós e xizes cantantes.
Estou nos casebres tristes
da imaginação.
Sou nas quase
vírgulas de ouro
que faço sem porquês.
O alfabeto habito
como me moram
muitas vezes muitas
meu coração.
1 165
Rita de Cássia
Deserto
Contemplo vaga imensidão ao meu redor
E tão sozinha encontro-me aqui, novamente
Simples e sempre andarilha deste deserto
Esta mesma, que você não quis, e somente...
Só e mente sempre são as minhas imagens,
Visíveis nesta poeira bege e infinita;
Nesta poesia tão amargamente escrita
Para que então, assim lesse a minha miragem
Ah... Que mensagem tão inutilmente dita,
Só porque os seus ouvidos não me escutarão
E tão simplesmente pelos seus olhos vistas,
Pois dentre os caminhos perdidos, vagarão...
E talvez, palavras que não foram escritas
Eram a chave-mestra do seu coração...
E tão sozinha encontro-me aqui, novamente
Simples e sempre andarilha deste deserto
Esta mesma, que você não quis, e somente...
Só e mente sempre são as minhas imagens,
Visíveis nesta poeira bege e infinita;
Nesta poesia tão amargamente escrita
Para que então, assim lesse a minha miragem
Ah... Que mensagem tão inutilmente dita,
Só porque os seus ouvidos não me escutarão
E tão simplesmente pelos seus olhos vistas,
Pois dentre os caminhos perdidos, vagarão...
E talvez, palavras que não foram escritas
Eram a chave-mestra do seu coração...
508
Raniere Rodrigues dos Santos
O Pássaro
Olho para traz
E nada vejo.
A demonstração
Aparece
E revela
O pássaro.
Simples,
Quieto,
Tentando voar,
Para no céu brilhar.
Sabendo
Que não é chegada a hora,
Ele esperneia e chora
E só o sonho o consola.
Ele serve,
Ele encanta,
Ele escreve poesia
Rimando com a alegria.
O show
Chega
E o pássaro
Voa.
Ele brilha
Entre as estrelas
E toca
Uma paralisia.
Que pássaro
Danado,
Já tem filhos
E os protege.
O espetáculo
É preparado
E o pássaro
Fica todo embelezado.
O sucesso,
É o futuro
Que se torna presente
Para o pássaro contente.
Olho para trás
E vejo que há passado
Olho para frente
E vejo que há futuro de um presente
E nada vejo.
A demonstração
Aparece
E revela
O pássaro.
Simples,
Quieto,
Tentando voar,
Para no céu brilhar.
Sabendo
Que não é chegada a hora,
Ele esperneia e chora
E só o sonho o consola.
Ele serve,
Ele encanta,
Ele escreve poesia
Rimando com a alegria.
O show
Chega
E o pássaro
Voa.
Ele brilha
Entre as estrelas
E toca
Uma paralisia.
Que pássaro
Danado,
Já tem filhos
E os protege.
O espetáculo
É preparado
E o pássaro
Fica todo embelezado.
O sucesso,
É o futuro
Que se torna presente
Para o pássaro contente.
Olho para trás
E vejo que há passado
Olho para frente
E vejo que há futuro de um presente
861
Rodrigo Guidi Peplau
Conflito Noturnal
Meu peito cora
diz que agora vai explodir.
O telefone toca — coração aos pulos
quem irá me acudir?
Tudo se acalma,
faz parte do enredo
tenho que então decidir.
E decido cruzar os braços
pois se é para te ter em pedaços
prefiro vê-la partir
diz que agora vai explodir.
O telefone toca — coração aos pulos
quem irá me acudir?
Tudo se acalma,
faz parte do enredo
tenho que então decidir.
E decido cruzar os braços
pois se é para te ter em pedaços
prefiro vê-la partir
744
Raniere Rodrigues dos Santos
Sou Poeta
Para provar que sou poeta
Tenho que poetizar.
Para poetizar,
Tenho que inspirar-me.
Para inspirar-me,
Tenho que amar,
Para amar,
Tenho que sentir.
Para sentir,
Tenho que ver.
Para ver,
Tenho que crer.
Para crer,
Tenho que viver
Para viver,
Tenho que ser.
Ser Poeta.
Tenho que poetizar.
Para poetizar,
Tenho que inspirar-me.
Para inspirar-me,
Tenho que amar,
Para amar,
Tenho que sentir.
Para sentir,
Tenho que ver.
Para ver,
Tenho que crer.
Para crer,
Tenho que viver
Para viver,
Tenho que ser.
Ser Poeta.
780
Rosani Abou Adal
Aquário
Tudo frio na madrugada.
Teu corpo ausente dos meus braços,
o colchão vazio e distante.
Repouso a cabeça no travesseiro de pedra,
sonho contigo de olhos abertos.
Voas como um gavião para o desconhecido.
O quarto escuro e triste.
O peixe no aquário solitário
sente meus sinais e movimentos.
Nada, mergulha e me observa
com seus olhinhos miúdos.
Somos dois, cercados de quadros e livros,
em harmonia como dois eremitas.
Na cama, meu corpo nu.
No aquário, o peixinho carente
pede com suas guelras
uma companheira para repartir
seu espaço e pequenino coração.
Entendo a mensagem e psicografo
pelo vidro com um toque sereno.
Ele dorme aliviado ao sentir
carinho e afeto através das fibras mortas.
O silêncio toma conta da noite,
as obras de arte perdem a cor,
os livros, sem títulos e autoria,
as páginas em branco emudecem.
Dentro de minhalma uma tempestade de neve
esquenta meu corpo,
um inverno latente me acolhe.
O peixe estático dorme
tranqüilo e esperançoso.
Em sua cor de fogo, uma infinita paz.
Teu corpo ausente dos meus braços,
o colchão vazio e distante.
Repouso a cabeça no travesseiro de pedra,
sonho contigo de olhos abertos.
Voas como um gavião para o desconhecido.
O quarto escuro e triste.
O peixe no aquário solitário
sente meus sinais e movimentos.
Nada, mergulha e me observa
com seus olhinhos miúdos.
Somos dois, cercados de quadros e livros,
em harmonia como dois eremitas.
Na cama, meu corpo nu.
No aquário, o peixinho carente
pede com suas guelras
uma companheira para repartir
seu espaço e pequenino coração.
Entendo a mensagem e psicografo
pelo vidro com um toque sereno.
Ele dorme aliviado ao sentir
carinho e afeto através das fibras mortas.
O silêncio toma conta da noite,
as obras de arte perdem a cor,
os livros, sem títulos e autoria,
as páginas em branco emudecem.
Dentro de minhalma uma tempestade de neve
esquenta meu corpo,
um inverno latente me acolhe.
O peixe estático dorme
tranqüilo e esperançoso.
Em sua cor de fogo, uma infinita paz.
771
Rodrigo Guidi Peplau
Poêmio
Poêmio
sou eu
um poêmio
que foge se o sol nasceu
que tem várias paixões
mas nenhuma namorada
que é amigo das ilusões
e dorme com a tristeza
agarrada.
Poêmio
e toda sua papelada
o poêmio
que sem ela não é nada
que trata cada emoção
como sua afilhada
e cria seu coração
com as dores que tomou
das pancadas
sou eu
um poêmio
que foge se o sol nasceu
que tem várias paixões
mas nenhuma namorada
que é amigo das ilusões
e dorme com a tristeza
agarrada.
Poêmio
e toda sua papelada
o poêmio
que sem ela não é nada
que trata cada emoção
como sua afilhada
e cria seu coração
com as dores que tomou
das pancadas
1 075
Rosani Abou Adal
Brahma
O piano tocava notas melodiosas
que vibravam das mãos suaves.
O chope e o bolinho de bacalhau sobre a mesa.
Vozes murmuravam nos bancos rubros.
Abajures solitários iluminavam
a expressão sem sorriso das lâmpadas.
O zunzum do happy-hour,
a falação dos corpos cansados,
as gargalhadas que se equilibravam
no ambiente ébrio como plumas,
deslizavam no vácuo sem fronteiras.
O piano não parava de sussurrar
notas e mais notas harmoniosas.
Dont Cry for me Argentina
gritavam as teclas brancas e pretas.
Gravatas borboletas conduziam
copos de levedura e tira-gosto
para acalentar as peles vermelhas,
brancas, amarelas e negras que se apoiavam
na privacidade de um assento frio/quente.
Homens de negócios, secretárias,
profissionais liberais, poetas e artistas
compartilhavam o do-re-mi-fá-sol-lá-si-do,
falavam de suas tristezas, angústias, felicidades,
frustrações, alegrias, de mais um dia de trabalho,
de negócios satisfatórios ou sem frutos,
de prazeres, desamores, de...
Eu acompanhada da esferográfica
esperava teus passos ofegantes
pousarem sobre os pelos gastos do tapete.
que vibravam das mãos suaves.
O chope e o bolinho de bacalhau sobre a mesa.
Vozes murmuravam nos bancos rubros.
Abajures solitários iluminavam
a expressão sem sorriso das lâmpadas.
O zunzum do happy-hour,
a falação dos corpos cansados,
as gargalhadas que se equilibravam
no ambiente ébrio como plumas,
deslizavam no vácuo sem fronteiras.
O piano não parava de sussurrar
notas e mais notas harmoniosas.
Dont Cry for me Argentina
gritavam as teclas brancas e pretas.
Gravatas borboletas conduziam
copos de levedura e tira-gosto
para acalentar as peles vermelhas,
brancas, amarelas e negras que se apoiavam
na privacidade de um assento frio/quente.
Homens de negócios, secretárias,
profissionais liberais, poetas e artistas
compartilhavam o do-re-mi-fá-sol-lá-si-do,
falavam de suas tristezas, angústias, felicidades,
frustrações, alegrias, de mais um dia de trabalho,
de negócios satisfatórios ou sem frutos,
de prazeres, desamores, de...
Eu acompanhada da esferográfica
esperava teus passos ofegantes
pousarem sobre os pelos gastos do tapete.
789
Paulo Silva Ribeiro
Juras Secretas
Juras Secretas
Não te farei juras secretas,
Não lhe darei ilusões,
Não te amarei em vão,
Não te beijarei só para sentir o gosto de teus lábios,
Não debruçarei meu corpo sobre o teu, só para sentir o teu prazer,
Não serei enfim, aquele que só lhe diz sempre sim, mas
Serei aquele que te amou enfim...
Há tempos
Sou teu endereço esquecido,
Sou teu livro não mais lido,
Sou teu caderno em branco,
Sou teu espelho sem imagem,
Sou tuas lembranças apagadas,
Sou tua madrugada não desejada,
Sou afianl o que passou de passagem por ti
Nesta vida inacaba...
Não te farei juras secretas,
Não lhe darei ilusões,
Não te amarei em vão,
Não te beijarei só para sentir o gosto de teus lábios,
Não debruçarei meu corpo sobre o teu, só para sentir o teu prazer,
Não serei enfim, aquele que só lhe diz sempre sim, mas
Serei aquele que te amou enfim...
Há tempos
Sou teu endereço esquecido,
Sou teu livro não mais lido,
Sou teu caderno em branco,
Sou teu espelho sem imagem,
Sou tuas lembranças apagadas,
Sou tua madrugada não desejada,
Sou afianl o que passou de passagem por ti
Nesta vida inacaba...
1 004
Paulo Silva Ribeiro
O Poema Não é Único
O Poema Não é Único
Os poemas são como cartas
Soltas ao vento,
Se tocam alguém, é porque o sentimento
Existe dentro da alma...
O poema não é único,
É loucura,
É doçura,
É até mesmo inocência, sempre dentro
Do espírito do homem...
Saber encontar nas palavras
A verdadeira linguagem
Do Inexplicavel sentido da alma,
É o eterno buscar dos poemas,
Sejam eles tortos, ou mesmo tolos,
Não importa, Saudemos a todos que neles
Encontram sua maneira de saudar
A vida, amores,
E porque não suas dores...
Os poemas são como cartas
Soltas ao vento,
Se tocam alguém, é porque o sentimento
Existe dentro da alma...
O poema não é único,
É loucura,
É doçura,
É até mesmo inocência, sempre dentro
Do espírito do homem...
Saber encontar nas palavras
A verdadeira linguagem
Do Inexplicavel sentido da alma,
É o eterno buscar dos poemas,
Sejam eles tortos, ou mesmo tolos,
Não importa, Saudemos a todos que neles
Encontram sua maneira de saudar
A vida, amores,
E porque não suas dores...
771
Pedro Paulo de Sena Madureira
Affonso Romano de Sant’ana
Entre escolhos e rombos
sem temer os tombos
narras a exata fúria de teus versos.
Professas um carvão implacável
que me queima e não hesita, aceso,
ante a cinza provável
que o anula.
No fundo e fim de teus poemas
devassas o tempo, seus casulos e traves.
Rezas, e não sabes.
sem temer os tombos
narras a exata fúria de teus versos.
Professas um carvão implacável
que me queima e não hesita, aceso,
ante a cinza provável
que o anula.
No fundo e fim de teus poemas
devassas o tempo, seus casulos e traves.
Rezas, e não sabes.
724
Pedro Marato
Voto
Corrompe-te um vício de humanidade.
Se teu verso repousar na pedra,
Na cúpula do tempo ressoar,
Gradua-lhe o tom de eternidade,
Em poeira de renúncia.
Se de humano o vício suplantares,
Implanta essa avareza
no gesto sem afago e cruel,
pois é necessário roubar ao convívio,
todo o traço de intimidade.
Hostil já não reputes
o veio corrosivo da cal,
no ardor de seu repouso sobre a pele.
A indolência da bondade
faz tombar as lágrimas,
úteis à higiene de teu rosto.
Se teu verso repousar na pedra,
Na cúpula do tempo ressoar,
Gradua-lhe o tom de eternidade,
Em poeira de renúncia.
Se de humano o vício suplantares,
Implanta essa avareza
no gesto sem afago e cruel,
pois é necessário roubar ao convívio,
todo o traço de intimidade.
Hostil já não reputes
o veio corrosivo da cal,
no ardor de seu repouso sobre a pele.
A indolência da bondade
faz tombar as lágrimas,
úteis à higiene de teu rosto.
705
Onestaldo de Pennafort
Noturno
Lá vem ele a guiar o seu rebanho.
Cada pedra que encontra em seu caminho,
ele transforma em dócil cordeirinho.
E lá vai a guiar o seu rebanho...
Quando ele passa erguendo o alto cajado,
pastor sem gado chamam-lhe os pastores.
Mas crianças dizem que são flores
que ele vai a guiar com o seu cajado...
Cada pedra que encontra em seu caminho,
ele transforma em dócil cordeirinho.
E lá vai a guiar o seu rebanho...
Quando ele passa erguendo o alto cajado,
pastor sem gado chamam-lhe os pastores.
Mas crianças dizem que são flores
que ele vai a guiar com o seu cajado...
1 054
Olegario Schmitt
As Letras
abcdefghijlmnopqrstuvxz
Me perguntas como é que se faz poesia.
Pois bem, junte isso que está aí em cima e que por definição
se chama alfabeto, reuna isso que por definição se chama de letra,
em qualquer quantia, na ordem que quiseres, durante o tempo que
quiseres,
e aí está a poesia...
Poesias são reuniões que as letras fazem
pra tomar o chá das cinco. E é isso apenas o que sei e que te posso
ensinar,
o resto tudo é fofoca dessas tias curucacas.
Me perguntas como é que se faz poesia.
Pois bem, junte isso que está aí em cima e que por definição
se chama alfabeto, reuna isso que por definição se chama de letra,
em qualquer quantia, na ordem que quiseres, durante o tempo que
quiseres,
e aí está a poesia...
Poesias são reuniões que as letras fazem
pra tomar o chá das cinco. E é isso apenas o que sei e que te posso
ensinar,
o resto tudo é fofoca dessas tias curucacas.
894
Papiniano Carlos
Bom Dia, Afonso Duarte
Nas ruas exaustas de morte e silêncio,
entre rios mortos e áspera solidão,
passeio contigo, Afonso Duarte.
Sob teu rosto grave, teus nevados cabelos,
seara cansada de tantas espigas,
couves e rosas, Afonso Duarte.
Um galo canta longínquo, ou é tua voz
a seiva do chão, oculta e milenária,
a cantar ainda, Afonso Duarte?
Em teu jardim de angústia (ao longe o mar) colho
no ramo quebrado nossa ave imperecível
e a dor da Pátria, Afonso Duarte.
E vendo-te, raiz e flor, a meio do teu povo,
(eu mesmo cavo e sou quem poda a vida)
só te digo: Bom-dia, Afonso Duarte.
entre rios mortos e áspera solidão,
passeio contigo, Afonso Duarte.
Sob teu rosto grave, teus nevados cabelos,
seara cansada de tantas espigas,
couves e rosas, Afonso Duarte.
Um galo canta longínquo, ou é tua voz
a seiva do chão, oculta e milenária,
a cantar ainda, Afonso Duarte?
Em teu jardim de angústia (ao longe o mar) colho
no ramo quebrado nossa ave imperecível
e a dor da Pátria, Afonso Duarte.
E vendo-te, raiz e flor, a meio do teu povo,
(eu mesmo cavo e sou quem poda a vida)
só te digo: Bom-dia, Afonso Duarte.
1 633
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