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Poemas neste tema

Frei Avertano de Santa Maria

Frei Avertano de Santa Maria

Soneto

Este extático Apolo que está tísico
De aturar o noturno, e diurno cântico
Por que não vai banhar-se ao mar Atlântico
Sendo como Esculápio tão bom físico?

Tanto sobe que passa a metafísico
Donde posto também a nigromântico
Só reforça o corpólico farfântico
Com o ofusco licor do lago estígico.

Mas se contra Tonante que é belígero
Deste raio não fica todo pálido
Acolhendo-se a Marte que é armígero:

Ficará quando ignífero tão válido
Que transformado em Pã porque é cornígero
Sairá por Europa touro cálido.

353
Francisco Orban

Francisco Orban

Rio de Janeiro

Noite densa de falas e pontes
que país sangrado é esse
de falsos horizontes e profetas?
No meu tempo não era bem assim,
meus inimigos tinham a cara aberta
meus amigos banhavam-se na maresia
os bondes passavam sob as pontes de luzes
do Rio de janeiro
e não havia canção muda nos meus versos.
Mas o meu tempo também é hoje
de circos derrubados e elefantes proscritos
de noites decretadas e frios ofícios
de trens partindo e vidas divididas.
No meu tempo também era assim,
as luzes do Rio de janeiro me diziam
um animal de sonho espreitava a vida oficial
que eu vivia
e eu amava as pontes de luzes dos Rio,
que eram de marfim e eu não sabia.

856
Fernando Fábio Fiorese Furtado

Fernando Fábio Fiorese Furtado

A Casa

na rua da casa não passe.
o futuro será póstumo

a fachada da Casa não olhe.
os olhos serão outros

na calçada da Casa não pise.
a terra será queda

os frutos da Casa não coma.
dentro as paixões disparam

aos viventes da Casa não fale.
qualquer palavra é rendição

os cômodos da Casa não visite.
os gatos enlouquecem de tanta beleza

na Casa eu vivo.
os ausentes são minha família

935
Fernando José dos Santos Oliveira

Fernando José dos Santos Oliveira

Sou alguém comum

Sou alguém comum

Sou alguém comum, que a multidão de homens comuns esconde.
(ainda que charmoso não admitir).
Algumas vezes fui maior, menor, mais alto, mais baixo, mais feio, mais bonito.
Sou tão incomum quanto qualquer homem comum.
Algumas vezes nadei, outras, em corredeiras me arrebentei.
Já morri muitas mortes e em todas renasci;
Nem sempre certo, nem sempre errado,
às vezes sequer diferente.
Já desisti de viver muitos sonhos; jamais de sonhá-los.
Quando definirem amor, talvez eu diga que já amei,
ou que fui amado.
Não sei.
Mas, por Deus, eu sempre tentei.
Não sei se sei quem sou, ou mesmo se quero sabê-lo:
o que me encanta é a jornada.
Sou alguém que busca, e não sabe se quer encontrar.
Já senti saudades doloridas de mim,
Já me escondi, apavorado.
Já menti, já matei, já fiz chorar, já magoei, já pisei;
Mas eu me lembro de quando lutei verdades,
de vidas que dei,
de lágrimas que sequei,
das mágoas que tomei a mim,
e vejo marcas de pés no meu corpo, também.
Já chorei de dor,
ou por uma flor.
Já dei porradas e recebi outras tantas, dolorosas - e sobrevivi.
Já sorri sorrisos de todas as cores;
Já dei e me esquivei de muitos abraços;
Já beijei e fui beijado, de muitas formas:
dos falsos aos essenciais.
Já transei, já "trepei", já "comi";
e talvez um dia (sonho meu) eu venha a fazer amor.
Já tive amigos (e ainda os tenho, todos, mesmo que não se lembrem).
Tenho o corpo de quem abraça, mas também quero ser abraçado.
Já tive medo da morte, e já a desejei, e já a venci.
Já tive medo da vida, e já a desejei, e já a vivi
Sou alguém que caminha pela estrada,
às vezes de mãos dadas com a alegria;
outras, abraçado pela tristeza.
Tenho os pés no chão mas não me furto o prazer de voar.
Tenho os olhos tristes (já o disseram) mas consigo, aqui e ali, sorrir
- mesmo que para esconder.
Tenho estado num lugar ou noutro, nas horas certas e nas erradas.
Tenho sido vários e espero jamais ter que escolher um.
Tenho sido um pouco disso, daquilo e talvez mais,
e talvez menos.
Nada de mais, não!
Saio por aí, voando ou me arrastando, e sempre volto para aqui:
Sou alguém comum, que a multidão de homens comuns esconde.

915
Moacyr Felix

Moacyr Felix

Auto-Retrato

Certa vez, numa aventura estranha
fugi
do estreito túmulo em que me estorcia
para uma ampliação sem fim.
Quando voltei
e senti, de novo, ferindo-me, o peso dos grilhões,
então não mais sabia quem eu era.
E nunca mais soube quem eu sou.
Talvez a sombra triste de um sonho de poeta.
Talvez a misteriosa alma de uma estrela
a guardar ainda no profundo cerne
a ilógica saudade de um passado astral.

[C.T., 1959.1

1 543
Fernando Cereja

Fernando Cereja

Ser e Já

que esta luz
que me
assombra
não
transforme
em sombra
minha luz

746
Fábio Roberto Rodrigues Belo

Fábio Roberto Rodrigues Belo

Passaporte

passeport

porque porta passo pra
poder te ver?

que passatempo fará resistir minha
paciência?

faço-me forte
saro-me o corte
temo a morte
caço a sorte
passaporte

por onde
o pássaro faz
seupercurso?

preciso ter alegria
paraguerrear...

per fas et nefas

persistamos
em
existir:
é o
que
im-porta.

934
Elisabeth Veiga

Elisabeth Veiga

Enigma

Malícia, fidúcia:
as unhas pintadas de mel.

E o vestido da nudez oculta
a velhice da alma.

Verdes mares longínquos
da mocidade: ressaca
de vinho tinto.

Que punhal é esse que não vejo
e usas, de súbito
e engulo,
e com uma cobra por echarpe
sirvo a mesa
de luto:
não sou a mesma. E quem és?

Quem és? Responde
com a tua inocência de um tiro.
Em que bolso estava
quem eu vejo?
Mas tão depressa que parece nada.

A mesa é a mesma:
é madeira sem surpresa.
O que é servido evapora.
Quem eras?

767
Fernanda Benevides

Fernanda Benevides

Visita da Solidão

Eis que a solidão me visita.
Recebo-a feliz.
Ficamos a sós.
Um brinde a nós!

Há uma perfeita simbiose
entre mim e a solidão.
Sempre que chega,
saúdo-a alegre,
feliz assim...

A sensação é inexplicável!
Algo parecido com voar, soltar, libertar...
Um indescritível bem-estar,
satisfação plena.
Um clima de pureza,
paz,
algo mais...

Vivo-a intensamente.
Convivemos de forma salutar,
sobretudo quando junto ao mar,
perto do céu,
sol,
sal,
crepúsculo,
luar...
Respiro o ar despoluído da simplicidade,
simplesmente,
como sou.

( in, POEIRA DA ESTRADA)
Fortaleza - Ce, 1984

704
Fábio Afonso de Almeida

Fábio Afonso de Almeida

Minutos

Espaços Vivenciados amesquinham
Em torno de sólidos egocentrismos
E excrecências pontiagudas de realidade
Desnudam-se ante o revoluteio incessante
Da possibilidade dos atos e fatos,
Mesmo que as circunstâncias pareçam sempre
Uma concreta e coerente parede.

Oh! Minha alma rude e insensata
Sangra-se ante a dureza branca e Iógica
Do limite incontestável deste muro!
Embora sinta a liquidez mágica
E probabilística destes interiores,
Pensa como pode e bate inutilmente
No fatalismo justo das perspectivas,
Enrolando, passo a passo, os minutos
De um tempo próprio e sem tempo.

846
Fanny Luíza Dupré

Fanny Luíza Dupré

Verão

Sobe a piracema
desafiando a correnteza
do rio caudaloso.

Vestibular...
Entra para a faculdade
o candidato cego.

769
Manoel Elias Filho

Manoel Elias Filho

Restos

Do amor intensoNa calada da noiteDo fogo do sexoSobraram restosVestígios, marcas.Do encontroSobrou a fuga.Da sociedadeRestou a insegurançaDo ser humanoRestou pedaçosTrapos de um serDivisão, confusão.Que da verdadeRestou a mentira.Que da razãoRestou a loucura.E da realidadeRestou a fantasiaPedaços de mimRestos de vocêSobras de todosRestos do mundo.

876
Eliane Pantoja Vaidya

Eliane Pantoja Vaidya

Ora, ouvi romanos

Ora, ouvi romanos

se quiserdes

mas há muito me defini

sou gaulês.

673
Eliane Pantoja Vaidya

Eliane Pantoja Vaidya

O que foi pendurado na árvore

O que foi pendurado na árvore é maldito de Deus
Deuteronômio 21:23

O que foi pendurado na árvore
é maldito entre os homens
que penduram pelo pé
como "Le Pendu"
os destituídos
de todas as idades.

789
Elisa Lucinda

Elisa Lucinda

A Esse Papo Indo-lente

Quando me perguntam depois de
"Ó que lindos olhos"...
Esses olhos são seus?"
Me sinto como se perguntassem
se o sol é rei mesmo
ou uma espécie de lâmpada de mil
Me sinto constrangida como se tivesse
sido possível a alguém alguma vez
confundir lata de goiabada com fruta de pé.
me sinto velha virada há milênios
Aniversariada por várias civilizações e nada esqueci.
Me sinto madura madeira escaldada
pra lá destas idades do agora.
Sou dos longínquos tempos de goiabeiras
mangueiras, formigas cabeçudas
tanajuras de umidade, baratas cascudas
e canaviais nos quintais
Sou ainda mais
na magia do que havia nesses anais,
sou do tempo em que era bom
nascer com olhos de esmeralda
e a artista a ser cumprimentada
era a mãe-natureza
pela proeza de olhos ser olhos
e lente ser lente.
Sou do tempo em que eu era
toda realeza
e com certeza não se compravam olhos
em shoppings, meus deus.
Sou do tempo em que meus olhos
Só podiam ser meus.

1 457
Éric Ponty

Éric Ponty

Narcissus

O que somos afinal sobre o sol que a pino,
encerra o silêncio de nossas esperanças,
que encantados com o brilho lunar nos refaz.

O que somos afinal sobre a lua que cheia,
floresce nossos ensejos, e frutifica nossos mitos,
que desiludidos com o solar ofuscamento nos reluz.

Lúgrebe como é lúgrebe o canto que nasce
que jorra límpida nas outras fontes d’água,
silêncios que encerram nossa imagem
de um refletido mito surdo.

Irrigada voz que descanta o pássaro,
que com asas de brancas nuvens
se interroga sobre a matéria tempo,
fúnebre como o paladar do sino a obrar.

Olhos de prata, murmúrios de ouro,
interrogações que se abrumaram,
rudes questionamentos que não se esvam,.
acumulados e dissimulados
na consciência incerta.

Sol e Lua dentro da noite adentro do dia,
dúbia conversa entre astros que não ponderam
se circunferenciam numa rota imutável,
rotineira como o tempo irrefutável.

Despir, rubro significado altivo,
máscara que não tateia simulacro inteira,
Lívia pele, tenra mentira fluida n’água,
paixão que se encadeia, mas não queima,
límpido abismo simulado de realidade.

Entrecortadas vozes que se dissecam,
o vento, o que diz o vento ao vento
que ventila a própria sentença
de outros apagados tempos invernais?

Sim, a paixão é rubra lavra de vulcão,
espessa e fluida e sufocada nuvem,
que dilui a consciência e o logos.

Resistir na verde margem relva,
com o retrato entrecortado n’água,
tingido pelas toscas luzes do prisma,
para que o branco não seja preto,
para que o preto não seja branco,
simulada visão do natural tempo,
arquitetado.

O que somos, àquilo que nós fomos,
dentro de poucos instantes, iremos,
a questão inquestionável que aglutina,
súplice e suplicado que ateia,
ruge o instante dentro de um infinito.

Driblar uma consciência outra, gesto possível,
e a si mesmo, improvável ato que desfigura,
como a cera de uma face resplandecente,
que desfalece na contra luz do tempo.

Um eclipse é uma imagem de pena,
rápido encontro, infindável espera,
que se perde como amantes por acaso,
que desfalecem após o orgasmo.

Admira-se trágica cena de um enamorado,
que enluarado pela límpida água refletida,
soltos suspiros como se outra natureza,
sua máscara fosse esculpida e terminada.

Rogado por tal imagem quer ser altivo,
buscar dentro de si próprio outros gemidos,
que a faça entreter de seus alaridos,
dissimulado como está de si na margem.

Perdido, quer encontrar um pedido, só suspiro,
melodiar, uma canção suave, só grunhido,
entreter ao outro, e a si mesmo, só que entretido.

Desfazer-se de sua própria figura espectral,
sem tal companheira, voar altivo no azul céu,
pintando o que lhe resta da augusta miséria.

O suplicante exaurido de sua ébria consciência,
vê os reflexos na margem cobertos de rubro véu,
os raios de circunferência prata, ledo engano,
são frios como a noite invernal, que o vento retrata,
é tão só esta paixão que exaure e assusta
quem se observa refletido, a si mesmo perdido.

As brancas mãos, os braços abraçados que aguardam
a possibilidade de ali ainda haver um ninho doirado,
que agassa-lhe o pássaro de sua frígida tempestade,
antes que se finde numa escura nuvem do nada.

Altiva é sua boca, carnudos lábios marmóreos,
suspiros e gemidos é feito o martírio que dali, .
parte e retorna num outro segundo de infinita perda,
na paisagem onde um branco mancebo se retraí.

O corpo é branca estátua que não se move mais,
inerte como a mais dura esfinge indecifrável,
corrói o interior sobre o sol angustiante e a pino,
cabelos doirados que não mais doiram a enseada,
só a brisa lhe sussurra, o que antes lhe encantava,
triste é a sua matéria, ledo seu simulacro invólucro.

O que somos sobre uma margem de uma relva,
que nos desperta com a limpida água que flui,
é a ébria forma de uma bruma suplicada,
que se perfez, e se desfaz n’água de um lago.

942
Elizabeth Hazin

Elizabeth Hazin

Não Escute

Não escute meu choro
quieto:
eu sou um deserto
e preciso chorar

Não escute meu amor
fugidio:
eu sou um rio
e preciso passar

Não escute meu sorriso
constante:
eu sou um instante
e preciso durar

976
David Mestre

David Mestre

Que outro nome

Que rio se pode
abrir na língua acesa
para o capim crepitando
baixo. Que palavra
por ele nasce

e corre corre a lua
e outra lua sem que regresse
ao corpo. Que outro nome
te demos
vestida e no escuro desposada.

Liberdade.

Que tempo de
ocultar o nome sabíamos
perder e nem

de moscardo zumbias: Ngola

nosso pouco maruvo eras
no terreiro anunciada.

Liberdade.

Quem das copas pronuncia
os teus lábios na terra? Nzambi
neles tivesse
mordiscado leve.

Liberdade.

1 007
Di Souto

Di Souto

Busca

Há momentos
em que me vejo
em mim:
é quando descinjo
as brumas do pensamento
e encontro-me
em ti.

Há momentos
em que te vejo
em mim:
é quando os entroses
(nossas arcadas)
moem o beijo
de outras bocas,
que é só nosso.

Há momentos
em que somos,
um para o outro,
simplesmente estranhos,
no vazio do universo.

Há momentos
em que somos,
unidos,
o cinzel de nossas almas,
a chaminé das idéias,
ou o cinturão,
desusado,
da ternura.

Há momentos
em que não me vejo
em mim
e nem em ti.
(Extrínsecas almas
flutuantes no nada
sem sermos nada.)

Há momentos
em que me vejo
em mim
e em ti:
é quando os sapatos
desamarrados,
jogados na areia,
esperam nossos pés
que se perderam,
em busca de nós mesmos

Messejana, 23.12.70

369
Daniel Orlandi Mattos Edmundson

Daniel Orlandi Mattos Edmundson

Fim

Quem sou eu,
Agora?
Nao me reconheco mais,
Nao sou como outrora.

Quando meu cigarro parar de fumar,
E meus livros parar de ler;
Podem tocar a marcha fúnebre,
Pois eu hei de morrer.

E quando isso acontecer,
Ninguém há de chorar,
Ninguém há re rezar,
E espero que seja num dia cinza posto a chover.

Porque escrevo esse poema?
Se ninguém o há de ler.
Ninguém vai se lembrar,
De uma vela para mim acender.

E se por ventura,
Alguém em algum lugar
Algum dia disser meu nome,
Por favor
Derrame por mim
Uma lágrima
Para que minha alma possa nela se lavar,
e aspirar poder ao céu
Algum dia,
Eu chegar.

1 020
Eliane Pantoja Vaidya

Eliane Pantoja Vaidya

Amo estes gregos pagãos

Amo estes gregos pagãos
que amavam a vida
a partir de um céu azul
e um mar violeta.
Amo estas montanhas cabritas
onde Safo e companhia
a de belos tornozelos
galgavam o dia.

803
Daniel Orlandi Mattos Edmundson

Daniel Orlandi Mattos Edmundson

A Escola

Estudar, Estourar, Esfregar na nossa cara que somos burros
Na escola a gente
Aprende a ser gente
E sente na pele
A semente da desgraça
Posta a coçar
Cogitar, Armar, Amedrontar
Fulminar o seu eu interior.
Tão somente quando tudo acabar
Você vai ver, e se defrontar
Com quem você realmente é
E vai jogar fora sua máscara,
E se porá a correr.

892
Carla Dias

Carla Dias

O Estar Humano

Falta, e às vezes tanto,
que deito, choro e adormeço ...
e chego onde nunca estaria
se pudesse escolher.
Quando escolho, é como se estivesse
rompendo-se a magia.
Deixo que me escolham,
os dias bons e os difíceis,
as alegrias e o deboche,
a vergonha e a ... sede.
Sou um ser que sofre de ser,
que ama de amor,
e deita na grama
olhando o céu de fim de tarde.
E datilografo papéis, somo, subtraio.
Espero o instante em que nada
me faça sentir deslocada,
sem espaço ...
esperando que a crueza da vida
me cante em acontecimentos.

848
Dílson Catarino

Dílson Catarino

Eu Você

quero por que quero querer
seu cheiro em minha vida

não me importa se é já
ou se é muito depois
o que me importa é
ter um filme a assistir
ou cervejas a tomar

o que quero é estar
no seu sonho ou pesadelo
e por acaso penetrar
em sua fome ou janela

não gosto de não ter
vontade de ter fome
você sem minha fome

gosto de você mesmo sem fome

você é a minha madrugada
é meu carinho em um cão sem dono
é meu sonho em uma estrada de madrugada

é meu cheiro de lenha molhada
é minha ópera de madrugada
é a minha própria madrugada

você sem mim
é meio sem fim
eu sem você
sou todo sem quê.
sou inteiro sem porquê
sou montante sem sem
sou eu sem ser você
sou você sem ser você

minha vida é sem Drummond

o duro é estar Byron
querendo estar você
e meio sem saber
sempre sou você

EU EM VOCÊ

VOCÊ E EU

925