Beleza

Poemas neste tema

António Ramos Rosa

António Ramos Rosa

Mediadora Das Alturas

Clara ligeireza
na mais clara distância.
Silêncio ardente e suave.
Subtil incêndio.

Que tão leve tumulto
nas ligeiras alturas!
Tão íntima e calada
no imponderável.

Nos ares constrói a fábula
de um suavíssimo surgir.
Que cálidas certezas
entre nuvens e ares!

Nascer sempre, nascer
em errantes delícias,
na fácil transparência.
Que grácil equilíbrio!
940
António Ramos Rosa

António Ramos Rosa

Mediadora da Perfeição Aberta

Entre a luz e o vento as praias
emigram. Vaivém imóvel.
A substância do segredo aérea e cálida.
Satélite ou desejo, perfeição aberta.

Pela alegria e pelo ócio, o voo
das nuvens e dos pássaros oblíquos.
Cálido poder oferece o espaço.
Ao nível da fábula o ar segreda.

Um animal sinuoso ou a língua do fogo
arde e desliza no exacto inviolável.
As praias não cessam. Frases livres deslumbrantes
deslumbradas. O aroma total da claridade.
884
António Ramos Rosa

António Ramos Rosa

Mediadora Irrevelada

Descalça e fulgurante
passageira das sombras.
Lâmpada sonâmbula
interrompendo as águas.

Não pousam pássaros
nos seus ombros escuros.
Corpo ainda aéreo
opaco e cristalino.

Não música nem pintura.
Eclipse do espelho.
Silenciosa energia
de um voo irrevelado.
1 047
António Ramos Rosa

António Ramos Rosa

Mediadora Terrestre

A sua língua é um jovem animal.
O seu sono um fruto transparente.
Uma criança vive sobre os ombros.
Ó evidência de fábula terrestre!

Alegria branca. Solidão verde.
Vagar feliz. Vendaval claríssimo.
Maravilha contínua. Juventude
das pedras. Aliança intacta.
942
António Ramos Rosa

António Ramos Rosa

Mediadora Límpida

Delicada insondável
a mediadora límpida
desliza sem rumor
no repouso do seu espaço

Serenidade vivaz
íntima na distância
habitação de altura
esplendor do branco

Tão nada como imagem
profunda em transparência
Demora nos instantes
unidos do silêncio

Ouvem-se cantos de água
inundação de ser
Abolição de um reino
palácio de palavras

Libertos os contrários
toda a bruma se evola
Nitidez de perfis
Rio luminoso e lúcido

Secreta calma intensa
como um lento prodígio
intocável suprema
do mundo espaço vivo

Não se prolongam ecos
nem ressoam pisadas
em sua esfera estática
sem fuga nem exílio

Sua nudez e assombro
paixão silenciosa
concavidade presente
onde se descobre o ar

Pura firmeza de estar
à superfície ondula
em misteriosa leveza
habitação segredada.
495
António Ramos Rosa

António Ramos Rosa

Mediadora Leve

De que suaves declives
ela desce, tão efémera
em sua fresca lucidez.
Imediata fluência

perfumada. Com um hálito
de espuma transparece
entre vertentes e vértices.
Não é mais que folha ou água.

Nada pesa e tudo queda
no seu círculo subtil:
cada vez mais leve o ar
entre a penumbra dos músculos.

Nada oculta sob as pedras
do vento. A claridade lisa.
O espaço escuta. Uma fábula
de calma profundidade.

Tão próxima sempre, aviva
o fulgor dos ângulos, o brilho
do pensamento das lâmpadas.
Rosa de um círculo latente.

Ninguém a espera e é esperada
no seu fluxo de inocência.
A densidade é mais leve.
Carne da luz e da alma.

Enquanto dura o seu estar
tudo é sossego e visão
ama-se a água na água.
Amam-se as veias da sombra.
1 065
António Ramos Rosa

António Ramos Rosa

Mediadora do Real

Suavidade e tumulto.
Aroma da nudez.
Luz redonda, luz delícia
de evidência.

Prodígio da terra, grande
enlace
de imediatas moradas
confiantes.

Profusa maravilha, o centro
abriu-se.
Júbilo da nudez. Delírio fulvo.
A alegria lê a fábula real.
1 149
António Ramos Rosa

António Ramos Rosa

Mediadora Sonâmbula

Dançarina do sono,
a que raízes se ligam as pupilas
nocturnas? Obedece
à árvore dos seus passos.

Conduz os animais
minuciosos
do desejo errante.
Sua inocência

tem a forma do silêncio.
O vazio vibra na leveza
do andar.
Desenha o astro em que caminha.
995
António Ramos Rosa

António Ramos Rosa

Mediadora da Lacuna

Diz-se a transparência elementar.
É um objecto que quer ser amado com o nome.
Algo azul flutua entre volutas
verdes.

Florações de imagens libertinas,
voláteis. Imprevistas, inexplicáveis.
Ou as brancas lâmpadas monótonas.
A figura escurece no papel

onde o corpo se enterra. O diamante
ou a gota minúscula do sol?
De uma lacuna os lúcidos contornos
separam-nos do jardim.
976
António Ramos Rosa

António Ramos Rosa

Mediadora do Acaso

Nua, no acaso,
táctil, leve,
fácil, viva.
Júbilo cristalino,

hipérboles. Dançam
nas veias, diluem-se,
amanhecem.
Nomes do excesso

subtil, conciso.
Pleonasmos
do corpo
impenetrável.
1 009
António Ramos Rosa

António Ramos Rosa

Mediadora Branca

Inacessível próxima
sim do vagar e de um cimo
magia de sempre e nunca
água que nasce da água

Branco jardim na noite
um acorde entre ruínas
de novo a beleza branca
a transparência do corpo

Continuamente desnuda
azulada inalcançada
nada acumula ou retém
no seu redondo horizonte

Que mensageira tu és
que só o branco revelas
inundas como se nada
em teus relâmpagos brancos

Presença feita de ausência
do silêncio estrela branca
em ti permanece o idêntico
sem miragens nem figura

Solitária e povoada
glória imóvel vigília
branco palácio do ar
balança sobre o vazio

Quieta de sílabas altas
fonte do espaço presença
tudo se apaga e exalta
em tua branca morada

Uma água de distância
flui em tuas largas veias
Magia íntima música
pureza metal brancura

Na pausa de um grande círculo
transpareces repentina
centro de ser incêndio liso
viva palavra da vida
905
António Ramos Rosa

António Ramos Rosa

Mediadora Simples

Demora em sossegos fundos
sonoros o seu fogo azul
por simples caminhos de erva,
talvez cristal, mas argila.

Sempre amiga e silenciosa
inunda a sombra dos quartos
sem esplendor nem coroa vã
mas em suas flores de água.

Não irrompe, surge plácida
entre a surdina das coisas.
Límpida, intensa, suave
cheia de fulgores minúsculos.

Mulher de serenidade,
sem grutas nem sombras ácidas,
abre o âmbito mais suave
na simplicidade de ser.
962
António Ramos Rosa

António Ramos Rosa

Mediadora da Ausência

O sol é uma noite suave.
Silencioso triunfo da noite e da nudez.
Cintilantes frutos erguem-se
do abismo. Serenidade fresca.

Reconheço um caminho entre dois reinos.
Jogos da elipse e do contíguo.
Puros relevos. Os negros emblemas
da luz. Os fósseis do rigor.

De que desolado fundo surge a árvore
ou o rosto? O arbitrário poder
das pedras. Ser sem qualidades,
consciência sem palavras.

Paciência na cor e na pedra
do ser. O esplendor dos sulcos brancos.
Abóbada de ausência, círculo do universo.
O que permanece ondula entre o verde e o vento.
507
António Ramos Rosa

António Ramos Rosa

Mutação da Distância

Mutação da distância
Uma íntima brisa se levanta
Ritmos unânimes
consonantes com ignorados fundamentos
Apoteose oculta desenrola-se num branco fausto
Nunca abrira esta porta e no entanto abriu-se
como se fosse o caminho de sempre
O ruído o repouso o movimento
transformaram-se numa dicção das coisas
A interrogação desposa a textura iminente
Aproximam-se superfícies
Uma sombra vai e vem até se transformar em pedra
Ilhas de sílabas vão formando um arquipélago verde
Revelação de outro sabor ignorado
Carícias de carícias vibrações mais finas
Pela transparência desnudado dilato-me na densidade
Prolonga-se o imponderável o mínimo o subtil
Tácita no sangue lavra a flora do permanente
874
António Ramos Rosa

António Ramos Rosa

Unidade do Silêncio

Unidade do silêncio com o corpo da água
irradiação de uma montanha
cimo e abismo numa única linha
melancolia viva e fresca floresta e pomba
a beleza frágil a beleza serena
arde a opacidade arde a madeira do mundo
revela-se a superfície fundamental
invulnerável a harmonia que inunda
Frases frases já não complicadas
mas orientadas
para a plenitude do ser
Redes vindas do ignorado disseminam-se
Uma paciência de mil árvores
Dilata-se a estrela de água
Praias praias onde os segredos se desvelam
Por toda a parte mediações para o desconhecido
Vagas vagas de ligeireza primaveril
Clara visão do fundo vibrante continuidade
igual a tudo na soberania do simples
1 014
António Ramos Rosa

António Ramos Rosa

Por Encanto de Nuvem

Por encanto de nuvem
no favorável silêncio voluptuoso
a forma afluiu com as cabeças
rompendo a água do azul.
554
António Ramos Rosa

António Ramos Rosa

Uma Delícia Intacta É o Seu Corpo

Uma delícia intacta é o seu corpo
numa irradiante atmosfera luminosa.
Gracioso repouso de irredutível sentido
e de enigma suave. Nudez de água
intensa
sobre areias verdes.
Um sopro grácil conduz o seu trabalho.
1 015
António Ramos Rosa

António Ramos Rosa

Generosidade Nos Flancos Lisos

Generosidade nos flancos lisos
do que dura num voo firme.
Sinuosidades de um insondável estar
na contínua corrente iniciando
o sabor de um abrigo imponderável.
1 024
António Ramos Rosa

António Ramos Rosa

Imobilidade

Tudo está quieto nada insiste nada clama
a água o horizonte imóvel
repousa o tempo a beleza luz e água

Muitas árvores estremecem num torvelinho suave

Cessaram os nomes ou petrificaram-se

Estamos onde estamos onde
a luz se despenha
entre gretas de pedra

Afluem coisas mínimas pelo espaço diáfano

Dizer o repouso do silêncio Atingir
a simplicidade das coisas no silêncio

Este contacto com o mundo é a aliança

Verdade e erro uma verdade apenas
que se desnuda e se abre e abre

Ar na total vacuidade livre

Em pleno dia somos noite e água

Este é o domínio da água e da folhagem
onde todo o segredo é abertura viva
965
António Ramos Rosa

António Ramos Rosa

Nela Se Curva a Luz

Nela se curva a luz
como se um feixe de músculos tocássemos
sob a pele.
1 070
António Ramos Rosa

António Ramos Rosa

O Lugar

Alegria na madeira na claridade do ritmo
ímpeto redondo livremente circulando
aqui nas pedras e na língua e nos olhos
música do espaço terrível e feliz
perfeita confiança que se eleva em chamas
Tudo é liso tudo é vazio ou lúcido
Nenhuma agitação distrai a imóvel luz
O teu nome silencioso encanta-me os ouvidos
Vibram ao vento as surpresas simples
Estamos no lugar que não é uma miragem
O jardim junto à torre a claridade azul
A água treme no umbigo de uma pedra
Entramos na imobilidade de uma melodia nua.
1 066
António Ramos Rosa

António Ramos Rosa

Na Extrema Claridade

Leve prodígio vegetações
dispersas
de qualidade incerta
mas feliz
*
Ela aparece quando aparece
ela flui desliza eleva-se
e o tremor é exacto no seu ápice
Uma asa dispersa os nomes
a área simplifica-se até ao branco
O seu desaparecimento é vertical
*
Uma vibração suave (talvez ela)
da luz na exactidão completa
Quem a conhece
conhece a simplicidade extrema
a nudez da primeira claridade
*
Estremece estremece quando
a vibração do mundo
se reflecte noutra luz incerta
que a reclama no seu corpo incerto
*
Se é aqui o corpo a exaltação da terra
a cintilação de um corpo submerso
aceitação da água
na transparência tranquila
de outras palavras aqui que se inclinam
*
O temor dos seus olhos o tremor
do seu corpo as linhas
paralelas sombrias
onde se oculta o seio e a água viva
*
Reparte-se divide-se mas inteira
estende-se entre as colunas
prossegue uma viagem imóvel numa nuvem
*
Se a figura atravessa os declives
desce os degraus até à luz mais rasa
se ler agora é o vestido e a sombra
a transparência do animal na sombra
*
Ela é pedra em cada palavra e o fulgor
silencioso
de um torso que avança em transparência aérea
1 072
António Ramos Rosa

António Ramos Rosa

Nasce E É Uma Sombra E Arde

Nasce e é uma sombra e arde
na frescura de ser a dilatada folha
exacta e branca.
1 189
António Ramos Rosa

António Ramos Rosa

Entre o Sol E a Lua

procura-se um segredo solar
atrás de cadeiras empoeiradas. um perfume arcaico.
uma sabedoria de portas circunstanciais.

sobre a mesa uma crusta
nova. a lâmpada e a elipse.
a chama de uma frase negra.

há vibrações quase imperceptíveis.
uma laranja sobre uma cadeira.
os anéis incessantes em torno das cinturas.

a noite emite os seus signos.
uma música de lua e de silêncio
multiplica-se na seda dos espelhos.

os ventos são azuis sobre a beleza
incerta. as palavras vão
do esplendor à música.

uma porta lunar abriu-se
sobre um quarto. na mesa está a chave
de todas as imagens esquecidas.
988