Corpo
Poemas neste tema
Angela Santos
Inscrição
Por
todos os sinais
por desvendar
gestos, palavras, caminhos
pelo obscuro ventre da verdade
por tudo o que somos,
ou ainda não…
por todas as noites
grávidas de luzes subtis,
auroras, alvoradas
ansiadas…
por aquilo que faremos,
caminhos reinventados,
por aquilo que ainda é sonho
e é urgente cumprir…
do fundo em nós se erguerão
gritos rasgando silêncios
lanças guerreiras
de encontro ao que nega
a ousadia a vida,
o devir, o crer.
Transfigurados os olhos,
volta-se à raiz de tudo
e a singular forma Humana,
no âmago do ser inscrita,
emergirá lá do fundo
noutra imagem reflectida.
todos os sinais
por desvendar
gestos, palavras, caminhos
pelo obscuro ventre da verdade
por tudo o que somos,
ou ainda não…
por todas as noites
grávidas de luzes subtis,
auroras, alvoradas
ansiadas…
por aquilo que faremos,
caminhos reinventados,
por aquilo que ainda é sonho
e é urgente cumprir…
do fundo em nós se erguerão
gritos rasgando silêncios
lanças guerreiras
de encontro ao que nega
a ousadia a vida,
o devir, o crer.
Transfigurados os olhos,
volta-se à raiz de tudo
e a singular forma Humana,
no âmago do ser inscrita,
emergirá lá do fundo
noutra imagem reflectida.
615
Angela Santos
Resistência
No caminhar silente
cresce um ventre
prenhe de vozes que não sei
mas adivinho,
eco sussurrante, tão perto , tão irmão…
ainda te oiço…
rompe o silencio
rasga as paredes de solidão
a estreitarem dentro de mim…
quase cedo…
à impotência de gestos,
à recusa de passos,
à inutilidade de cada grito que amordaço.
cresce um ventre
prenhe de vozes que não sei
mas adivinho,
eco sussurrante, tão perto , tão irmão…
ainda te oiço…
rompe o silencio
rasga as paredes de solidão
a estreitarem dentro de mim…
quase cedo…
à impotência de gestos,
à recusa de passos,
à inutilidade de cada grito que amordaço.
959
Angela Santos
Eco
Rasgo
a sulcos o corpo
da memória,
vivos permanecem todos os tempos
em mim…
É um nome antigo aquele que oiço,
antigo o sonho que me leva.
a sulcos o corpo
da memória,
vivos permanecem todos os tempos
em mim…
É um nome antigo aquele que oiço,
antigo o sonho que me leva.
1 175
Nauro Machado
Cosa Mentale
Pode-se
viver de pensar?
Saber-se coisa dentre um corpo
Como animal de pensamento?
Do pó não pode haver nada:
Apenas mãos, do pó nascidas,
No pó se chamam mãos...Ó Nada!
Ó esplendoroso Nada em ti
na luz do ser após nascido
para a grande noite depois:
teu corpo é um quarto mobilado
sobre quem dispo o pensamento
de todas as suas gavetas.
Minha memória te destrói
- prego por prego - nos ferrolhos,
para tirar-te inteira ao dentro.
Pode-se viver de pensar:
a matéria atrapalha tudo
pelo hábito de acabar-se.
viver de pensar?
Saber-se coisa dentre um corpo
Como animal de pensamento?
Do pó não pode haver nada:
Apenas mãos, do pó nascidas,
No pó se chamam mãos...Ó Nada!
Ó esplendoroso Nada em ti
na luz do ser após nascido
para a grande noite depois:
teu corpo é um quarto mobilado
sobre quem dispo o pensamento
de todas as suas gavetas.
Minha memória te destrói
- prego por prego - nos ferrolhos,
para tirar-te inteira ao dentro.
Pode-se viver de pensar:
a matéria atrapalha tudo
pelo hábito de acabar-se.
1 227
Armindo Trevisan
Repreensão a Uma Lâmpada
O rumor
da boca traria pitangas
O vermelho do bico fora do azul
A gravaria na terra e seríamos dois
Num corpo quieto que avançasse
Para um pôr-de-sol. Ela ocultaria
O pescoço do que a pudesse violar
E domaria entre as mãos
O ar não ferido pelas palavras.
Inclinaria o peito sobre
O que jamais lavrara em si
E pediria um movimento
De vegetal austero. Eu
A abraçaria e cairíamos
no bojo de um fogão tão lento
Que da carne ao seu ofício
não descobriríamos um vão
e sim um rio a cruzar duas vezes
o mesmo leito.
da boca traria pitangas
O vermelho do bico fora do azul
A gravaria na terra e seríamos dois
Num corpo quieto que avançasse
Para um pôr-de-sol. Ela ocultaria
O pescoço do que a pudesse violar
E domaria entre as mãos
O ar não ferido pelas palavras.
Inclinaria o peito sobre
O que jamais lavrara em si
E pediria um movimento
De vegetal austero. Eu
A abraçaria e cairíamos
no bojo de um fogão tão lento
Que da carne ao seu ofício
não descobriríamos um vão
e sim um rio a cruzar duas vezes
o mesmo leito.
1 070
Armindo Trevisan
Elogio da Nudez
Quando
me vejo nu,
carne e tamanho apenas,
sofrendo a garra de algo
que me não orna, nem me afaga
Sinto por dentro um silencio
Que me deixa inda mais nu!
Quando me vejo nu
ao sol que me rói, parado
ao sal que me entra na vida,
ao ar que me desnuda a alma
Fico no mundo sem par,
Desejando me enterrar
Ah que desnudez faminta!
no banheiro, sobre o leito,
em qualquer parte do mundo,
onde se deixe o vestido
É o próprio medo do homem,
que aparece sobre a pele
Mas é tão bom , delicioso
O jôrro de água, o unguento
O perfume, a relva, a seda
De outra carne inda mais nua
Que o terror é esquecido
Por um instante florido!
Só um homem todo nu
Pode acreditar em algo,
Num pássaro azul, em deus
Numa coisa irreversível....
me vejo nu,
carne e tamanho apenas,
sofrendo a garra de algo
que me não orna, nem me afaga
Sinto por dentro um silencio
Que me deixa inda mais nu!
Quando me vejo nu
ao sol que me rói, parado
ao sal que me entra na vida,
ao ar que me desnuda a alma
Fico no mundo sem par,
Desejando me enterrar
Ah que desnudez faminta!
no banheiro, sobre o leito,
em qualquer parte do mundo,
onde se deixe o vestido
É o próprio medo do homem,
que aparece sobre a pele
Mas é tão bom , delicioso
O jôrro de água, o unguento
O perfume, a relva, a seda
De outra carne inda mais nua
Que o terror é esquecido
Por um instante florido!
Só um homem todo nu
Pode acreditar em algo,
Num pássaro azul, em deus
Numa coisa irreversível....
932
Armindo Trevisan
Uma Mulher
Tem os
olhos escondidos
no meio das pedras.
Ali o regato
brota de cerejas envelhecidas.
Suas mãos apanham o ar.
Caminha de leve
sobre as palavras.
É exata.
Ninguém lhe adivinha a nudez.
Muitos, muitos a amam.
a ninguém deu o amor.
Em seu corpo ela permanece,
a alma lhe exige um corpo tão diferente
que não sabe onde esperá-lo.
olhos escondidos
no meio das pedras.
Ali o regato
brota de cerejas envelhecidas.
Suas mãos apanham o ar.
Caminha de leve
sobre as palavras.
É exata.
Ninguém lhe adivinha a nudez.
Muitos, muitos a amam.
a ninguém deu o amor.
Em seu corpo ela permanece,
a alma lhe exige um corpo tão diferente
que não sabe onde esperá-lo.
1 128
Mariazinha Congílio
Totalidade
Seu é meu
canto
Alegre e triste
Agreste e simples
Seu é meu corpo
Carente
Seu é meu pensamento
Consciente
Seus os meus sentimentos
Imprudentes
Minha fidelidade essencial
Meu é o seu sorriso
Que enternece
Minhas são as suas dúvidas
Que me esclarecem
Meu é o seu amor
Que flutua
Sobre meu canto
Sobre mim.
canto
Alegre e triste
Agreste e simples
Seu é meu corpo
Carente
Seu é meu pensamento
Consciente
Seus os meus sentimentos
Imprudentes
Minha fidelidade essencial
Meu é o seu sorriso
Que enternece
Minhas são as suas dúvidas
Que me esclarecem
Meu é o seu amor
Que flutua
Sobre meu canto
Sobre mim.
845
Armindo Trevisan
O Círculo
Que ela
estivesse lá e sózinhos
Palpássemos o coração e desaprendêssemos
Como as ancas teriam a natural vacilação
E caminhasse para o ar desabotoando
O perito em silêncio e oferecesse
O corpo à natureza da terra e lhe sentisse
Os lábios mortos e desenrolasse a escuridão
De suas pernas livres e depois fêmea
Reclinasse a cabeça sobre a minha sombra
Ah nem os pássaros devorarão
A inconsciência de frutos como soube
Perdê-la e juntos sairmos para
A carnalidade do dia.
estivesse lá e sózinhos
Palpássemos o coração e desaprendêssemos
Como as ancas teriam a natural vacilação
E caminhasse para o ar desabotoando
O perito em silêncio e oferecesse
O corpo à natureza da terra e lhe sentisse
Os lábios mortos e desenrolasse a escuridão
De suas pernas livres e depois fêmea
Reclinasse a cabeça sobre a minha sombra
Ah nem os pássaros devorarão
A inconsciência de frutos como soube
Perdê-la e juntos sairmos para
A carnalidade do dia.
899
Armindo Trevisan
Amor é Teu
Olhar que Sobe
Amor é
teu olhar que sobe
E desce torna a subir ao ramo
Desce ao poço detém-se
Na água porque a sede avança
E torna a subir em carícia
Pelo braço compraz-se
Em resvalar pelo declive
Do corpo em balanço
Como o movimento de um
Pêndulo e assim nunca
Sabes se o caminho
para ele é ascensão
ou simplesmente espera
sobre um trilho de pedras
mais do que uma ideia
sentimento porque
o subir e o descer crescem
na viagem indiferentes
ao amor até que a ames
como se nunca a tivesses
conhecido somente
fora do teu alcance.
Amor é
teu olhar que sobe
E desce torna a subir ao ramo
Desce ao poço detém-se
Na água porque a sede avança
E torna a subir em carícia
Pelo braço compraz-se
Em resvalar pelo declive
Do corpo em balanço
Como o movimento de um
Pêndulo e assim nunca
Sabes se o caminho
para ele é ascensão
ou simplesmente espera
sobre um trilho de pedras
mais do que uma ideia
sentimento porque
o subir e o descer crescem
na viagem indiferentes
ao amor até que a ames
como se nunca a tivesses
conhecido somente
fora do teu alcance.
1 230
Armindo Trevisan
Gratidão
Eu morrerei
Mas tão à parte
De mim que nunca
O saberá
O alegre mundo
No qual subsisto
Em comunhão omnipresente.
eu morrerei
me desculpando diante dele
de ser diverso
(como me dói
só de pensar-me
ausente dele
em outro mundo!)
mas se puder morrer
tão rápido
que o mundo apenas
vendo o meu corpo
diante de si
quieto e ancorado
julgue que eu mesmo
esteja ali
então, espirito
ou o que for
me achegarei
dele sorrindo
e o beijarei
com tanto ardor
que, eternamente
lhe ficará
na face imensa,
o meu sinal
de criatura
agradecida.
Mas tão à parte
De mim que nunca
O saberá
O alegre mundo
No qual subsisto
Em comunhão omnipresente.
eu morrerei
me desculpando diante dele
de ser diverso
(como me dói
só de pensar-me
ausente dele
em outro mundo!)
mas se puder morrer
tão rápido
que o mundo apenas
vendo o meu corpo
diante de si
quieto e ancorado
julgue que eu mesmo
esteja ali
então, espirito
ou o que for
me achegarei
dele sorrindo
e o beijarei
com tanto ardor
que, eternamente
lhe ficará
na face imensa,
o meu sinal
de criatura
agradecida.
1 044
Hilda Hilst
Venho de Tempos Antigos
Deus
pode ser a grande noite escura
E de sobremesa
O flambante
sorvete de cereja.
Deus? Uma superfície de gelo ancorada no riso.
Venho de tempos antigos. Nomes extensos:
Vaz Cardoso, Almeida Prado
Dubayelle Hilst… eventos.
Venho de tuas raízes, sopros de ti.
E amo-te lassa agora, sangue, vinho
Taças irreais corroídas de tempo.
Amo-te como se houvesse o mais e o descaminho.
Como se pisássemos em avencas
E elas gritassem, vítimas de nós dois:
Intemporais, veementes.
Amo-te mínima como quem quer MAIS
Como quem tudo adivinha:
Lobo, lua, raposa e ancestrais.
Dize de mim: És minha.
pode ser a grande noite escura
E de sobremesa
O flambante
sorvete de cereja.
Deus? Uma superfície de gelo ancorada no riso.
Venho de tempos antigos. Nomes extensos:
Vaz Cardoso, Almeida Prado
Dubayelle Hilst… eventos.
Venho de tuas raízes, sopros de ti.
E amo-te lassa agora, sangue, vinho
Taças irreais corroídas de tempo.
Amo-te como se houvesse o mais e o descaminho.
Como se pisássemos em avencas
E elas gritassem, vítimas de nós dois:
Intemporais, veementes.
Amo-te mínima como quem quer MAIS
Como quem tudo adivinha:
Lobo, lua, raposa e ancestrais.
Dize de mim: És minha.
1 401
Hilda Hilst
De tanto te pensar
De tanto te pensar, me veio a ilusão.
A mesma ilusão
Da égua que sorve a água pensando sorver a lua.
De te pensar me deito nas aguadas
E acredito luzir e estar atada
Ao fulgor do costado de um negro cavalo de cem luas.
De te sonhar, tenho nada,
Mas acredito em mim o ouro e o mundo.
De te amar, possuída de ossos e abismos
Acredito ter carne e vadiar
Ao redor dos teus cismos. De nunca te tocar
Tocando os outros
Acredito ter mãos, acredito ter boca
Quando só tenho patas e focinho.
De muito desejar altura e eternidade
Me vem a fantasia de que Existo e Sou.
Quando sou nada: égua fantasmagórica
Sorvendo a lua nágua.
A mesma ilusão
Da égua que sorve a água pensando sorver a lua.
De te pensar me deito nas aguadas
E acredito luzir e estar atada
Ao fulgor do costado de um negro cavalo de cem luas.
De te sonhar, tenho nada,
Mas acredito em mim o ouro e o mundo.
De te amar, possuída de ossos e abismos
Acredito ter carne e vadiar
Ao redor dos teus cismos. De nunca te tocar
Tocando os outros
Acredito ter mãos, acredito ter boca
Quando só tenho patas e focinho.
De muito desejar altura e eternidade
Me vem a fantasia de que Existo e Sou.
Quando sou nada: égua fantasmagórica
Sorvendo a lua nágua.
3 117
Carlos Nejar
Chegamento
Até aqui
cheguei
vivente, ileso ainda,
apresentando as trilhas
que só eu caminhei,
amamentadas filhas.
Até aqui cheguei,
pressuroso, confiante
mas seco, sem detenças
no depois e no antes;
sou a colina estreita
e o sol posto à direita.
Amigos, inimigos
até aqui cheguei,
por força de eu comigo;
com armas fabriquei
o tempo, onde Vulcano
subterrâneo, desceu.
A liberdade amei,
era bela e eu moço,
donzela a desposei.
E por sabê-la amada
e sempre mais diversa
do amor sobrou-me nada
e da esperança, réstias
Até aqui cheguei;
esse poder que tinha
de tanto andar, gastei.
Por isto na cantina,
guardador me encerrei
à espera de outra vinha.
Até aqui cheguei.
Para tantos cuidados,
afinal o que é meu
Que treva e luz se aninha
No corpo, que é só minha?
A roupa, quem ma deu
há muito apodreceu.
Os bens desempregados
são vindos e voltados.
E de tanto buscar
desfaço-me no ar.
Afinal o que é meu?
Até aqui cheguei.
Exaurido, remando
ou sem remos.
Amando ou desamando,
desconheço quando
os pés na mesma via
atingirão o dia.
Caminharei.
cheguei
vivente, ileso ainda,
apresentando as trilhas
que só eu caminhei,
amamentadas filhas.
Até aqui cheguei,
pressuroso, confiante
mas seco, sem detenças
no depois e no antes;
sou a colina estreita
e o sol posto à direita.
Amigos, inimigos
até aqui cheguei,
por força de eu comigo;
com armas fabriquei
o tempo, onde Vulcano
subterrâneo, desceu.
A liberdade amei,
era bela e eu moço,
donzela a desposei.
E por sabê-la amada
e sempre mais diversa
do amor sobrou-me nada
e da esperança, réstias
Até aqui cheguei;
esse poder que tinha
de tanto andar, gastei.
Por isto na cantina,
guardador me encerrei
à espera de outra vinha.
Até aqui cheguei.
Para tantos cuidados,
afinal o que é meu
Que treva e luz se aninha
No corpo, que é só minha?
A roupa, quem ma deu
há muito apodreceu.
Os bens desempregados
são vindos e voltados.
E de tanto buscar
desfaço-me no ar.
Afinal o que é meu?
Até aqui cheguei.
Exaurido, remando
ou sem remos.
Amando ou desamando,
desconheço quando
os pés na mesma via
atingirão o dia.
Caminharei.
1 109
Armindo Trevisan
A Nuca
Tua nuca
atrás assim tua nuca
A simultaneidade de duas bocas para a frente
Outra vez tua nuca
Salgueiro e amêndoa
A respiração apertada contra o muro
O repouso rompido aos pedaços
Tu a experimentá-la nos
Cabelos na água a subir-lhe
Aos olhos
Pálpebras torcidas contra o sol
O trigo a descer-lhe pelas pernas
Tua nuca
A reprimir o espaço fortes asas da necessidade
Provas o sabor de seus ângulos o cipó
De seu pêlo
Tua nuca( no seio dela a refeição)
O corpo que ninguém governa é a primeira
Inclina a cabeça para a relva oh
Se as coisas
Se respondessem umas às outras
E tímida a gengiva
Escorresse mel no galho com o pássaro
Os ninhos o ventre em que a alma
(fêmea) te aguarda para a comunhão
atrás assim tua nuca
A simultaneidade de duas bocas para a frente
Outra vez tua nuca
Salgueiro e amêndoa
A respiração apertada contra o muro
O repouso rompido aos pedaços
Tu a experimentá-la nos
Cabelos na água a subir-lhe
Aos olhos
Pálpebras torcidas contra o sol
O trigo a descer-lhe pelas pernas
Tua nuca
A reprimir o espaço fortes asas da necessidade
Provas o sabor de seus ângulos o cipó
De seu pêlo
Tua nuca( no seio dela a refeição)
O corpo que ninguém governa é a primeira
Inclina a cabeça para a relva oh
Se as coisas
Se respondessem umas às outras
E tímida a gengiva
Escorresse mel no galho com o pássaro
Os ninhos o ventre em que a alma
(fêmea) te aguarda para a comunhão
1 160
Armindo Trevisan
Carícia
Há no corpo
uma carícia
que ele mesmo a si se nega
a mão a aguarda por dentro,
jóia magra e deliciosa.
Se no banho, se na pressa,
ninguém a arranca, ciosa
só se pertence a si mesma
vazia de dimensão e agrado
Dá-se gratuita no raro,
no momento impessoal
no aperto da mão perdida
no recolher em pleno sono
Ninguém experimentará jamais
esse afago onipresente,
contudo subtraído
ao contato, á doação.
Talvez no estremecer
da pupila que alça vôo,
ela se dê – a deus , ao diabo
total, linda, inacessível.
uma carícia
que ele mesmo a si se nega
a mão a aguarda por dentro,
jóia magra e deliciosa.
Se no banho, se na pressa,
ninguém a arranca, ciosa
só se pertence a si mesma
vazia de dimensão e agrado
Dá-se gratuita no raro,
no momento impessoal
no aperto da mão perdida
no recolher em pleno sono
Ninguém experimentará jamais
esse afago onipresente,
contudo subtraído
ao contato, á doação.
Talvez no estremecer
da pupila que alça vôo,
ela se dê – a deus , ao diabo
total, linda, inacessível.
1 107
Silvaney Paes
Preto
Negras
Almas
Em peles alvas
Não esqueceram
Suas negras senzalas
Negras Falas
Que vez por outra,
São naus lembradas
Trazendo almas escravas.
Negras Almas
Nessas línguas com facas
Que separam por serem fracas
E que cortam, marcam e matam
Negras Falas
Que humilham, pisam,
Negando as almas
Que não tenham a pele clara
Negras Almas
Enganadas achando terem escravas
Sendo vós as pretas almas
Em pele clara
Almas
Em peles alvas
Não esqueceram
Suas negras senzalas
Negras Falas
Que vez por outra,
São naus lembradas
Trazendo almas escravas.
Negras Almas
Nessas línguas com facas
Que separam por serem fracas
E que cortam, marcam e matam
Negras Falas
Que humilham, pisam,
Negando as almas
Que não tenham a pele clara
Negras Almas
Enganadas achando terem escravas
Sendo vós as pretas almas
Em pele clara
998
Jorge Viegas
Antecipadamente escorregadia
Nas sombras
do luar
O olhar enfeita o vazio
Símbolos alegremente sensíveis
Excitando a dimensão do equilíbrio
Alma volúvel
Que as lendas ancestrais
Diluíram docemente
Em simbioses sentimentais
O corpo ilumina-se
Mistura de ritmos e profecias
E ela enrola-se com o seu calor perfumado
Com os cabelos sombreados
Pelo reflexo dos mistérios
Murmura a canção da pérola apaixonada
Escorrega pelo passado
Criando misturas sensuais
Derretidas pela simetria da paixão
do luar
O olhar enfeita o vazio
Símbolos alegremente sensíveis
Excitando a dimensão do equilíbrio
Alma volúvel
Que as lendas ancestrais
Diluíram docemente
Em simbioses sentimentais
O corpo ilumina-se
Mistura de ritmos e profecias
E ela enrola-se com o seu calor perfumado
Com os cabelos sombreados
Pelo reflexo dos mistérios
Murmura a canção da pérola apaixonada
Escorrega pelo passado
Criando misturas sensuais
Derretidas pela simetria da paixão
916
Ana Cristina Cesar
Deus na Antecâmera
Mereço(merecemos,
meretrizes)
Perdão(perdoai-nos, patres conscripti)
Socorro (correi, valei-nos, santos perdidos)
Eu quero me livrar desta poesia infecta
beijar mãos sem elos sem tinturas
consciências soltas pelos ventos
desatando o culto das antecedências
sem medo de dedos de dados de dúvidas
em prontidão sangüinária
(sangue e amor se aconchegando
horas atrás de hora)
Eu quero pensar ao apalpar
eu quero dizer ao conviver
eu quero parir ao repartir
Filho
Pai
E
Fogo
DE-LI-BE-RA-MEN-TE
abertos ao tudo inteiro
maiores que o todo nosso
em nós(com a gente) se dando
HOMEM: ACORDA!
meretrizes)
Perdão(perdoai-nos, patres conscripti)
Socorro (correi, valei-nos, santos perdidos)
Eu quero me livrar desta poesia infecta
beijar mãos sem elos sem tinturas
consciências soltas pelos ventos
desatando o culto das antecedências
sem medo de dedos de dados de dúvidas
em prontidão sangüinária
(sangue e amor se aconchegando
horas atrás de hora)
Eu quero pensar ao apalpar
eu quero dizer ao conviver
eu quero parir ao repartir
Filho
Pai
E
Fogo
DE-LI-BE-RA-MEN-TE
abertos ao tudo inteiro
maiores que o todo nosso
em nós(com a gente) se dando
HOMEM: ACORDA!
1 608
Jorge Viegas
Estrada do Silêncio
Apalpo os
passos que dou lentamente...
vergado,
ando pelas ruas,
rasgando o chão de pedras nuas,
humilhado,
à procura de um sinal ardente.
Vai o sol poente encontrar-me
à beira mar deitado.
No meu peito,
vulcões de sangue quente
desfazem as imagens da mente.
Apetece-me rasgar o silêncio estúpido
fazer das tiras, uma longa trança de desejo
e banhá-la no sangue translúcido
que escorre pela face escondida.
Apetece-me desfazer palavras
tornando-as insignificantes no deslocamento do tempo,
quebrar silabas, dando movimento
ao ardor alojado no peito.
Arrancar os segundos ao tempo,
destruindo a monotonia do saber.
Arrancar os ponteiros do contratempo..
não continuar a sofrer.
passos que dou lentamente...
vergado,
ando pelas ruas,
rasgando o chão de pedras nuas,
humilhado,
à procura de um sinal ardente.
Vai o sol poente encontrar-me
à beira mar deitado.
No meu peito,
vulcões de sangue quente
desfazem as imagens da mente.
Apetece-me rasgar o silêncio estúpido
fazer das tiras, uma longa trança de desejo
e banhá-la no sangue translúcido
que escorre pela face escondida.
Apetece-me desfazer palavras
tornando-as insignificantes no deslocamento do tempo,
quebrar silabas, dando movimento
ao ardor alojado no peito.
Arrancar os segundos ao tempo,
destruindo a monotonia do saber.
Arrancar os ponteiros do contratempo..
não continuar a sofrer.
1 181
Regina Souza Vieira
A Abóbora Menina
Tão gentil
de distante, tão macia aos olhos
vacuda, gordinha,
de segredos bem escondidos
estende-se à distância
procurando ser terra
quem sabe possa
acontecer o milagre:
folhinhas verdes
flor amarela
ventre redondo
depois é só esperar
nela desaguam todos os rapazes.
de distante, tão macia aos olhos
vacuda, gordinha,
de segredos bem escondidos
estende-se à distância
procurando ser terra
quem sabe possa
acontecer o milagre:
folhinhas verdes
flor amarela
ventre redondo
depois é só esperar
nela desaguam todos os rapazes.
1 021
Silvaney Paes
Desejo
Porque
me negar o desejo
Que nessa carne reclama,
De não provar de teu beijo
Se a libido é quem clama?
Porque te negar essa carne
Que de tão fresca te chama,
De saciar tua fome
Se a libido é quem clama?
Porque me negar à mistura
Que nessa carne se entrança,
De delirar na entrega
Se a libido é quem clama?
Porque adiar essa entrega
Que nesse medo se aplaina,
De saciar minha fome
Se a libido é quem clama?
Porque se a libido é quem chama
Que nessa fome se entrança,
Devo queimar nessa chama
Se ouvir o desejo que clama..
me negar o desejo
Que nessa carne reclama,
De não provar de teu beijo
Se a libido é quem clama?
Porque te negar essa carne
Que de tão fresca te chama,
De saciar tua fome
Se a libido é quem clama?
Porque me negar à mistura
Que nessa carne se entrança,
De delirar na entrega
Se a libido é quem clama?
Porque adiar essa entrega
Que nesse medo se aplaina,
De saciar minha fome
Se a libido é quem clama?
Porque se a libido é quem chama
Que nessa fome se entrança,
Devo queimar nessa chama
Se ouvir o desejo que clama..
910
Almandrade
IV
O umbigo transborda
o éter
alva, lisa
sem marca
de cansaço
epiderme de mulher
o mar do nome
doce, leve
peixe
a dança refresca
o belo namora
a boca e as pernas.
o éter
alva, lisa
sem marca
de cansaço
epiderme de mulher
o mar do nome
doce, leve
peixe
a dança refresca
o belo namora
a boca e as pernas.
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Regina Souza Vieira
Árvore de Frutos
Cheiras
ao caju da minha infância
e tens a cor do barro vermelho molhado
de antigamente;
há sabor a manga a escorrer-te na boca
e dureza de maboque a saltar-te nos seios.
Misturo-te com a terra vermelha
e com as noites
de histórias antigas
ouvidas há muito.
No teu corpo
sons antigos dos batuques à minha porta,
com que me provocas,
enchem-me o cérebro de fogo incontido.
Amor, és o sonho feito carne
do meu bairro antigo do musseque!
ao caju da minha infância
e tens a cor do barro vermelho molhado
de antigamente;
há sabor a manga a escorrer-te na boca
e dureza de maboque a saltar-te nos seios.
Misturo-te com a terra vermelha
e com as noites
de histórias antigas
ouvidas há muito.
No teu corpo
sons antigos dos batuques à minha porta,
com que me provocas,
enchem-me o cérebro de fogo incontido.
Amor, és o sonho feito carne
do meu bairro antigo do musseque!
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