Tempo e Passagem

Poemas neste tema

Sophia de Mello Breyner Andresen

Sophia de Mello Breyner Andresen

Ali, Então

Ali então em pleno mundo antigo
À sombra do cipreste e da videira
Olhando o longo tremular do mar
Num silêncio de luas e de trigo

(Como se a morte a dor o tempo e a sorte
Não nos tivessem nunca acontecido)

Em nossas mãos a pausa há-de poisar
Como o luar que poisa nas videiras
E em frente ao longo tremular do mar
Num perfume de vinho e de roseiras
A sombra da videira há-de poisar
Em nossas mãos e havemos de habitar
O silêncio das luas e do trigo
No instante ameaçado e prometido

E os poemas serão o próprio ar
— Canto do ser inteiro e reunido —
Tudo será tão próximo do mar
Como o primeiro dia conhecido
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Sophia de Mello Breyner Andresen

Sophia de Mello Breyner Andresen

Penélope

Desfaço durante a noite o meu caminho.
Tudo quanto teci não é verdade,
Mas tempo, para ocupar o tempo morto,
E cada dia me afasto e cada noite me aproximo.
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Sophia de Mello Breyner Andresen

Sophia de Mello Breyner Andresen

Cada Dia É Mais Evidente Que Partimos

Cada dia é mais evidente que partimos,
Sem nenhum possível regresso no que fomos,
Cada dia as horas se despem mais do alimento:
Não há saudade nem terror que baste.
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Sophia de Mello Breyner Andresen

Sophia de Mello Breyner Andresen

Biografia

Tive amigos que morriam, amigos que partiam
Outros quebravam o seu rosto contra o tempo.
Odiei o que era fácil
Procurei-me na luz, no mar, no vento.
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Sophia de Mello Breyner Andresen

Sophia de Mello Breyner Andresen

Dia

Meu rosto se mistura com o dia
Nuvens telhados ramagens e Dezembro
Apaixonada estou dentro do tempo
Que me abriga com canto e com imagens

Tão abrigada estou dentro da hora
Que nem lamento já a tarde antiga
Tudo se torna presente e se demora
Será que o dia me pede que eu o diga?
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Sophia de Mello Breyner Andresen

Sophia de Mello Breyner Andresen

Breve Encontro

Este é o amor das palavras demoradas
Moradas habitadas
Nelas mora
Em memória e demora
O nosso breve encontro com a vida
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Sophia de Mello Breyner Andresen

Sophia de Mello Breyner Andresen

Brisa

Que branca mão na brisa se despede?
Que palavra de amor
A noite de Maio em si recebe e perde?

Desenha-te o luar como uma estátua
Que no tempo não fica

Quem poderá deter
O instante que não pára de morrer?
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Sophia de Mello Breyner Andresen

Sophia de Mello Breyner Andresen

As mortas

Aquelas que morreram tinham, leve
Um halo em redor do seu sorriso
E tudo no seu ser era indeciso
Tocando de infinito o tempo breve.

Tudo quanto floresce delas vem,
Pois ficaram dispersas na paisagem.
Esquecidas de si não são ninguém,
Mas vagabundas são em cada imagem.



Sophia de Mello Breyner Andresen | "Dia do mar", pág. 88 | Edições Ática, 1974
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Sophia de Mello Breyner Andresen

Sophia de Mello Breyner Andresen

Nunca Mais Te Darei o Tempo Puro

Nunca mais te darei o tempo puro
Que em dias demorados eu teci
Pois o tempo já não regressa a ti
E assim eu não regresso e não procuro
O deus que sem esperança te pedi.
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Sophia de Mello Breyner Andresen

Sophia de Mello Breyner Andresen

Dia de Hoje

Ó dia de hoje, ó dia de horas claras
Florindo nas ondas, cantando nas florestas,
No teu ar brilham transparentes festas
E o fantasma das maravilhas raras
Visita, uma por uma, as tuas horas
Em que há por vezes súbitas demoras
Plenas como as pausas dum verso.

Ó dia de hoje, ó dia de horas leves
Bailando na doçura
E na amargura
De serem perfeitas e de serem breves.
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Manuel António Pina

Manuel António Pina

É apenas um pouco tarde

Ainda não é o fim
nem o princípio do mundo
calma
é apenas um pouco tarde



Manuel António Pina | "Todas as palavras - poesia reunida 1974-2011", pág. 7 (escrito em 1969) | Assírio & Alvim, 2012
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Emily Dickinson

Emily Dickinson

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Como se o Mar se apartasse
E mostrasse um Mar além –
E este – um outro – e os Três
Apenas fossem a suspeita –
De um suceder de Mares –
Não tocados por nenhuma Praia –
Eles mesmos sendo a Orla de Mares a vir –
Eis aí – a Eternidade –
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Paulo Leminski

Paulo Leminski

o novo

o novo
não me choca mais
nada de novo
sob o sol

apenas o mesmo
ovo de sempre
choca o mesmo novo

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Fernando Tavares Rodrigues

Fernando Tavares Rodrigues

As Time Goes By

Como o
tempo passa
Enquanto ficamos  sós...
Passamos nós pelo tempo
Ou passa o tempo por nós?
Bebamos os dois á taça
O que afinal sou eu só
- ambígua raiva, duelo,
dualidade num só.

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Mariazinha Congílio

Mariazinha Congílio

Cinzas do Viver

O tempo
parado
Espera o instante esquecido
A mão inutilmente estendida
O amor perdido
A carícia ausente.

Proprietário das omissões
Suave e tranquilamente
O tempo colhe cinzas do viver

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Ferreira Gullar

Ferreira Gullar

Lição de Um Gato Siamês

Só agora
sei
que existe a eternidade:
é a duração
finita
da minha precariedade

O tempo fora
de mim
é relativo
mas não é o tempo vivo:
esse é eterno
porque efetivo
- dura eternamente
enquanto vivo

E como não vivo
além do eu vivo
não é
tempo relativo:
dura em si mesmo
eterno (e transitivo)
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Mariazinha Congílio

Mariazinha Congílio

O Começo e o Fim

Certeza?
De nada.
Aguardando
Imprevistos
Qualquer hora
Qualquer lugar
Viver em aventura
Pronta para partir
Em qualquer madrugada
Ou anoitecer.
Sempre estamos
nos despedindo,
pessoas. Coisas, lugares
e muita vez
nem sabemos
se o instante que vivemos
é o começo ou o fim.
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Reinaldo Ferreira

Reinaldo Ferreira

Tu, Baby, ao leres um dia

Tu, Baby, ao leres um dia
Meus versos - e hás-de lê-los
Se durar esta poesia
Mais que o sol nos teus cabelos -

Mal saberás quanto neste
Morto momento que passa,
Porque sorrias, me encheste,
Sorrindo, da tua graça.

Pudesses pura ficar!
Nem que, criança também,
Houvesses sempre que andar
Ao colo de tua mãe!

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Nana Corrêa de Lima

Nana Corrêa de Lima

Sonhos de Baú

Sonhos de Baú

Janeiro floresce.
Os galhos dos dias abrem-se um a um
em melodia preguiçosa e sonolenta.
Os sonhos de dezembro
são relíquias cuidadosamente guardadas
em um velho baú.
Utopias do florir do ano....

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Rogaciano Leite Filho

Rogaciano Leite Filho

Relógio

No tic-tac do tempo
o mundo passa.
Presa entre cordas
e correntes,
a mente se cala.
E a vida passa.
Sofrendo e morrendo
entre canhões e balas
o sangue se coalha.
E o tempo vai.
Correndo com fome
entre muros altos e duros
o homem se perde.
Mas, a vida passa.

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Viriato Gaspar

Viriato Gaspar

Voluntários da Pátria

perdemos a tarde
o ônibus
a paciência
e a vida

perdemos a cor
a calma
a voz
o voto
a vergonha
e agora
voltamos pela rua lentamente
livres do peso da nossa dignidade
— sobrevivemos a mais um dia —

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Mário Donizete Massari

Mário Donizete Massari

Infância

Pés no chão
alma descalça . . .

A vida passa
os pés se calçam
a alma se veste

Os pés são os mesmos,
os caminhos segredos,
chega o medo . . .

A escuridão
ilusão . . .

Da infância resta
o chão
— e os pés a fugir
da solidão.

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Horácio Dídimo

Horácio Dídimo

As Doces Meninas de Outrora

as doces meninas de outrora
amanheceram
vestiram os vestidos novos
pintaram as unhas de vermelho
por um instante resplandeceram
depois baixaram as cabecinhas louras
e envelheceram como as flores

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J.Cardia

J.Cardia

Neste sol de sempre

Neste sol de sempre
folhas se acastanham
e chegam ao chão.
Todo instante, toda estação.
Eu não. Outono.

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