Silêncio

Poemas neste tema

Sophia de Mello Breyner Andresen

Sophia de Mello Breyner Andresen

Goesa

Tudo era atravessado por um rio de memórias
E brisas subtis e lentas se cruzavam
E enquanto lá fora baloiçavam
Os grandes leques verdes das palmeiras
Uma rapariga descalça como bailarina sagrada
Atravessou o quarto leve e lenta
Num silêncio de guitarra dedilhada
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Sophia de Mello Breyner Andresen

Sophia de Mello Breyner Andresen

A Activista Cultural

O passo decidido não acerta com o cismar do palácio
O ouvido não ouve a flauta da penumbra
Nem reconhece o silêncio
O pensamento nada sabe dos labirintos do tempo
O olhar toma nota e não vê
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Sophia de Mello Breyner Andresen

Sophia de Mello Breyner Andresen

Noite

Noite. Noite em nossa roda. Noite aberta.
E encontramos um silêncio imenso,
Um silêncio perfeito que nos esperava desde sempre.
E uma solidão que era a nossa imagem,
E uma profunda esperança,
Como se a noite tremesse
De tocar a aurora.
1 299
Sophia de Mello Breyner Andresen

Sophia de Mello Breyner Andresen

Narciso

Um longo barco é no silêncio agudo
Outro Narciso em busca do retrato.
29 de Novembro de 1949
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Sophia de Mello Breyner Andresen

Sophia de Mello Breyner Andresen

I. Deslizado Silêncio Sob Alísios

Deslizado silêncio sob alísios
— As velas todas brandamente inchadas —
Brilho de escamas sobre os grandes mares
E a bombordo nas costas avistadas
Sob o clamor de extáticos luares
Um imóvel silêncio de palmares
1982
1 082
Sophia de Mello Breyner Andresen

Sophia de Mello Breyner Andresen

Um Pálido Inverno

Um pálido inverno escorria nos quartos
Brancos de silêncio como a névoa
Um frio azul brilhava no vidro das janelas
As coisas povoavam os meus dias
Secretas graves nomeadas
1 088
Sophia de Mello Breyner Andresen

Sophia de Mello Breyner Andresen

Palmeiras Geometria

Palmeiras geometria
São meu alimento
Secura silêncio
São minha bebida
E a infinita ausência
É a minha vida
A funda a secreta
Com sabor a pedra
E perfume de vento
1 187
Sophia de Mello Breyner Andresen

Sophia de Mello Breyner Andresen

Reino

Reino de medusas e água lisa
Reino de silêncio luz e pedra
Habitação das formas espantosas
Coluna de sal e círculo de luz
Medida da Balança misteriosa
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Sophia de Mello Breyner Andresen

Sophia de Mello Breyner Andresen

A Pequena Estátua

Presença ritual e tutelar
Companheira da sombra desenho do silêncio
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Sophia de Mello Breyner Andresen

Sophia de Mello Breyner Andresen

Noite Das Coisas, Terror E Medo

Na aparente paz dispersa
Sobre as linhas caladas.
Efeitos de luz nas paredes caiadas,
Gestos e murmúrios de conversa
No mundo estranho do arvoredo.
1 163
Adélia Prado

Adélia Prado

Num Jardim Japonês

Ao minuto de gozo do que chamamos Deus,
fazer silêncio ainda é ruído.
1 436
Adélia Prado

Adélia Prado

No Bater Das Pálpebras

Se tudo estiver silente,
menos um grilo
— velado, não estridente —,
a casa mora.
1 077
António Ramos Rosa

António Ramos Rosa

O Sono do Espaço

Um sono sem superfície nem fundo. Um sono sem sonhos, um sono totalmente obscuro e branco. E, através da sua espessura, a calma intensa de um olhar ilimitado.
1 042
António Ramos Rosa

António Ramos Rosa

A Casa

Um sossegado alento na penumbra de madeira.
A casa adormeceu e está viva numa tranquila pulsação.
Oiço um leve martelar de teclas de sombra.
Um prato de cobre brilha verticalmente na obscuridade.
A mesa é redonda e limpa como um círculo de harmonia.
Numa parede flutuam arabescos cintilantes.
O tempo segrega sílabas de argila e espuma.
1 032
António Ramos Rosa

António Ramos Rosa

Pausas, Pausas Brancas

Pausas, pausas brancas
para que a cabeça
role por uma colina de mil esparsos perfumes.
984
António Ramos Rosa

António Ramos Rosa

Este É o Lugar de Todas As Ausências

Este é o lugar de todas as ausências
no silêncio do azul.
Aqui sei que a luz
é o nada
e o alimento perfeito e transparente
que desata os nós sepultos.
542
António Ramos Rosa

António Ramos Rosa

Nunca Será Música, Nunca Será Bosque

Nunca será música, nunca será bosque
nem o torso de uma pomba
nem a pedra rutilante
nem uma garganta do mar.
Não, não quero mais do que a saliva do vento
e o rumor dos abismos.
Nenhuma mensagem, nenhum voo.
Apenas os inviolados signos de um fundo mágico.
1 121
António Ramos Rosa

António Ramos Rosa

Mediadora da Lucidez Espacial

Principia por
uma inclinação
leve
coincidência frágil

rumor aceso
de que silêncio outro?
entrar
escutar

onde não se erguem perguntas
em abandono límpido
num impulso de terra
em espacial lucidez.
989
António Ramos Rosa

António Ramos Rosa

Mediadora do Silêncio

Onde o incandescente
centro das flores?
Entre margens de água
onde a alma se encurva?

Voz próxima do chão
onde estremecem palavras
na indivisa espera
de um vinho negro.

Respiram minuciosas
entre detritos verdes
e lâmpadas quebradas.
Não dizem a palavra.

Calar, calar talvez.
Querer dizer é demais.
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António Ramos Rosa

António Ramos Rosa

Mediadora Apagada

Acolhe na sua língua
um veneno de lâmpadas.
Apaga-se e
centra-se

na obscura falha.
Onde os nomes nas ervas
da noite?
Um silêncio de ilha

propaga-se nas palavras.
Uma boca desaparece
no fulgor
de uma nuvem.
481
António Ramos Rosa

António Ramos Rosa

Deixar Sem Caminho Até Ao Alcance

Deixar sem caminho até ao alcance
de não querer possuir
à deriva do silêncio
na súbita tranquilidade do vazio
em que a abertura nos abre e nos sustém.
913
António Ramos Rosa

António Ramos Rosa

Vem Secretamente Aberta

Vem secretamente aberta
para nascer no sedento repouso
de estar sentindo o sabor do ilimite
tão simplesmente côncava no rumor
que germina em palavras silenciosas.
1 049
António Ramos Rosa

António Ramos Rosa

Sem Desígnios Sem Pedir Transparências

Sem desígnios sem pedir transparências
procurar a estância nula.
Onde a afirmação sem fundo
onde secreta continua a linha
cuja vibração se esvai
até ao princípio onde se respira sem desígnios.
1 002
António Ramos Rosa

António Ramos Rosa

O Que o Silêncio Não Diz E Permanece

O que o silêncio não diz e permanece
intransferível raiz do espaço.
Vislumbre que se prolonga sem fulgor.
Latência viva que não estala e inicia.
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