Escritas

Morte

Poemas neste tema

Rodrigo Carvalho

Rodrigo Carvalho

Intervenção da Morte

Consulta médica.
O ar anestesia meus pensamentos,
deixando-os livres.
Que teria eu sofrido para estar em tal lugar?
E o doutor,
de barbas brancas, — que até passava um pouco de calma, sabe?! —
anunciou o esperado:
— Tu realmente és saudável, é verdade.
Salvo tuas vísceras,
teimosas,
impondo-se em deslocar-se.
Causastes uma hérnia, vísceras danadas!
Hospital.
Exames, espera, tricotomia, espera, roupas brancas — ridículas! —
botinhas de pano, touca, cadeira-de-rodas. . .
Sala de cirurgia!
Deito-me na maca e amarram-me por inteiro.
Eletroldos, injeções, soro, bisturi, coração, anestesia. . .

. . .

Terminou?

. . .

E vem a recuperação que,
apesar de rápida,
é bastante dolorosa.
Após a cirurgia, paro e reflito.
Tenho a nítida impressão de que a morte,
é aquilo ali:
não sente-se nada;
não ouve-se nada;
não se é nada,
após os ‘bip’s’. . .

Salvador, 10 de julho de 1994

619
Rodrigo Carvalho

Rodrigo Carvalho

Lamento Derradeiro

à meu Pai
Salvador. Tarde de 5 de janeiro.
Brinco, excercendo o ofício da minha infância.
Curta.
Meu pai, nessa hora, junto a mim morria. . .
sem um gemido, como que se fosse feito e prometido.

E eu nem lhe ouvi o lamento derradeiro.
Quando acordei, sonhei que ele dormia,
mas o pranto fraterno desmentia. . .

E saí para ver a Santa natureza.
Em tudo, o mesmo tom cinzento.
Capitalismo selvagem das capitais.
Era só o cinza daquela selva de pedras.
Nem uma nuvem no céu.
Branca.

Mas, pareceu-me entre as estrelas flóreas,
como ti, num carro repleto de glórias,
ver tua alma subindo aos céus.

Por ti, penar é a certeza do amor.
Por ti, suplicar aos pés do Onipotente,
em preces comoventes. . .
e depois, remir meus desejos.

Volta!

792
Ruy Câmara

Ruy Câmara

Humanidade Enferma

Neste sono em que imerge a massa,
a morte vulgar, a boa notícia,
catástrofes se perfumam de malícia,
nas manchetes com cheiro de desgraça.

O homem acorda fedendo a si mesmo,
não sente mais a falta do ofício.
Ofício distópico, imperfeito
um poema chora o desperdício.

No suplício da miséria, nos conflitos,
saem frases sem brilho, sem poesias,
fotos opacas, com perfume de vísceras,
vísceras fartas de exageros e vícios.
Vícios de poder, vícios de dominação,
uma lágrima cai no precipício.

Eu detesto a humanidade enferma,
autista, egoísta, perversa, fictícia,
cruel consigo mesma
Ninguém para ouvir uma boa notícia.

884
Saulo Mendonça

Saulo Mendonça

Poema Diante de Augusto dos Anjos

Explodem visceras de ferro e força
no corpo magro, parado e surdo
à sombra de sua dramática solidão.

Abro infinitamente o compacto bronze
com meus olhos nus e serenados
olhando o mistério triste e amargo
no vertical denso que o guarda.

Na fisionomia inflexível
sua onipresença se estende
o mecanismo da fala muda
canta no imóvel magicamente.
E no cérebro duro de férreas substâncias
sua individualidade retorna.

O hermetismo de estanho e bronze
se plasma na poesia eterna que balbucia.
Absorvo o peito tremido de Augusto
fitando sua dor exclamativa.

Rasgam-se vôos doloridos
de sua fala quieta e explosiva.

A imagem sórdida da morte se sucumbe
e eu o vejo falar, ainda vivo
no seu íntimo silêncio de bronze.

1 023
Silva Avarenga

Silva Avarenga

A Roseira

Rondó LII

Ah! roseira desgraçada,
Dedicada aos meus amores,
Tuas flores mal se abriram,
E caíram de pesar!

Quando Glaura me dizia
Que era sua esta roseira,
De esperança lisonjeira
Me senda consolar.
Mas a sorte, que invejosa
Este alívio não consente,
Não há mal que não invente
Rigorosa em maltratar.

Ah! roseira desgraçada,
Dedicada aos meus amores,
Tuas flores mal se abriram,
E caíram de pesar!

Da risonha primavera
Esperei os dias belos:
Glaura... oh dor! os teus cabelos
Quem Pudera coroar.
Já não vives oh que mágoa!
E a roseira que foi tua,
Eu a vejo estéril, nua,
Junto d’água desmaiar.

Ah! roseira desgraçada,
Dedicada aos meus amores,
Tuas flores mal se abriram,
E caíram de pesar!

Parca iníqua, atroz, funesta,
Era teu o infausto agouro;
Já levaste o meu tesouro,
Mais não resta que roubar.

Nem às flores permitiste...
Oh! que bárbara impiedade!
Fica só cruel saudade,
Fica o triste suspirar.

Ah! roseira desgraçada,
Dedicada aos meus amores,
Tuas flores mal se abriram,
E caíram de pesar!

De teus ramos a beleza
Era o mimo destes prados;
Move agora, ó ímpios fados!
De tristeza a lamentar.
Horrorosos são meus males;
Tudo encontro em névoa escura;
Vem comigo a desventura
Estes vales assombrar.

Ah! roseira desgraçada,
Dedicada aos meus amores,
Tuas flores mal se abriram,
E caíram de pesar!

1 068
Renato Russo

Renato Russo

Teorema

Não vá embora
Fique um pouco mais
Ninguém sabe fazer
O que você me faz
É exagero
E pode até não ser
O que você consegue
Ninguém sabe fazer

Parece energia mas é só distorção
E não sabemos se isso é problema
Ou se é a solução

Não tenha medo
Não preste atenção
Não dê conselhos
Não peça permissão
É só você quem deve decidir o que fazer
Prá tentar ser feliz

Parece um teorema sem ter demonstração
E parece que sempre termina
Mas não tem fim

1 006
Roberto Pontes

Roberto Pontes

Ode à Cama

Então pode-se ouvir certo ruído
O doce farfalhar feito e desfeito
O cálido fluir do ser que é
Fundado sobre o cê e o verbo ama
A lânguida canção. Lida do leito.

Cama em que os filhos fiz
E onde virá baixar a morte
Lugar de amor, viagem, transe.
Oh! entre madeira, verniz e pano
Vai selada nossa vida e nossa sorte.

1 099
Roberto Pontes

Roberto Pontes

Epitáfio

Aqui jaz o amor um dia dito
só de beijos e flores viveria.
E não morreu por falta de sustento,
ardor e sonho, pois estes vivem sempre
ao jugo seco da crua existência.
Deixou de haver o sopro simples,
o desejo de ser o conivente,
o comparsa do outro na paixão
que a vida faz ruir devagarinho.
Quem esta morte de bom grado aceita
quer deixar escrito na memória,
na verdade indestrutível de um poema,
o seu perdão, o seu adeus,
o seu soturno desamparo ausente.

1 209
Rogério F. P.

Rogério F. P.

É alegre o baile dos restos

É alegre o baile dos restos
que me pendem do corpo
ao sabor dos ventos,
que sopram à leste.

Brincam entre meus
orifícios abertos pelas
mágoas que cultivei,
as inocentes criancinhas!

Quando alcançar finalmente os umbrais da morte
deixarei a cada amigo
então, um pedaço deste
melancólico pagão,
para que, em noites

melancólicas de inverno, se
lembrem que, aquele
que fora um deles,
agora repousa sossegado no inferno!

798
Rogério F. P.

Rogério F. P.

A Tanatus

Que gosto tem, no final da tarde, cálida criatura,
tornar-se a figura que assusta minhalma
dando fim a toda a minha calma,
e se afastar levando consigo a última parede do meu abrigo?

Seus olhos são archotes fumegantes de pavor.
Sua boca traz blasfêmias do inferno
mas, mesmo assim, pobre enfermo,
acendo pra você uma vela
em sinal de reverência.

Leve-me embora, já é tempo,
finda-se a hora.
O tempo escoa sobre os andrajos desse corpo imundo,
já pende a carne carcomida e ofereço-a a você, minha querida!

Tem a sua frente um adorador.
Leve-me, meu amor,
envolva-me em seus braços
e faça, finalmente, dessa existência demente
uma estátua posta no inferno!

897
Paulo Augusto Rodrigues

Paulo Augusto Rodrigues

Hora

Hora final!

Hora em que o mundo é mais vasto,
O sorriso mais fraco,
O aperto mais junto.

Hora que a saudade nem nasce,
E aborta,
A lembrança nem chega
E a imagem se perde.

Hora que nunca esperamos,
Hora que nunca queremos.

Hora da pequena morte.
Hora que ficamos mais velhos.
Hora que a vida me joga na cara.
Hora em que perco para deus.

Hora, que é só um instante!
Hora que desaba o castelo,
Da ruína das cartas.

Hora de se enroscar no futuro,
Largar os pedaços,
Os lastros.

Triste hora,
Porque me persegues?
Outra vez!

É chegada a hora!
A hora da despedida,
A hora do adeus.

872
Roberto Pontes

Roberto Pontes

As Durações

O ocaso passeia pela morte
no ruço alazão que ama e trata
e anuncia nas serras e cidades
o belo ataúde que precede.
O arauto esmaece seu mistério
e estende a fronha negra
sobre o sol.
Tudo fica envolto numa sombra,
uma espécie de eclipse total,
e então os frutos verdes amaduram,
processo da matéria progredindo.
Todos os seres dão seu passo além
e eu marco o sol jacente
e a nova lua
lá onde inscrevo sempre as durações.

918
Roberto Pontes

Roberto Pontes

Cantiga

Os mais desesperados são os mais belos cantos.
Musset
Até Cecília
que se encantava
morreu.

Por que um dia
também não morro eu?

Até Cecília
que de beleza
padeceu
e não desejou mais nada
arrefeceu.

Onde Cecília
seus olhos de estampa
escondeu
após os Cânticos
que prometeu?

Até Cecília
ave encantada
feneceu.

Por que de dor talvez
quem sabe não morro eu?

1 106
Roberto Pontes

Roberto Pontes

O Dia

No dia
um grande estrondo romperá o céu
e não será o trovão trazendo a chuva

No dia
um calor do inferno nos envolverá
e com certeza não será de abraço

No dia
um guarda-chuva nos dará a sombra
dos cogumelos do "País das Maravilhas"

No dia
o fogo nos fará másacaras sobreviventes
e não para princar no carnaval

No dia
o pânico e a morte serão nossos convivas
e o ágape servido será dor e veneno

No dia
e após o dia
a vida irá sumindo lentamente
e cheios de medalhas
os cus dos generais apodrecendo

(In: Alguma Poesia Jornal n. 2 ano II julho/setembro 1985, Rio de Janeiro)

838
Ricardo Madeira

Ricardo Madeira

Sempre

Falta de ar,
Perda de visão:
Sintomas da morte,
Arautos da Escuridão.

Sinos que tocam,
Prisioneiro de um caixão,
Mas... Então?!...
Porque ainda bate o meu coração?

And it kept pulsing beneath the Earth,
A crimson jewel underneath six feet of dirt,
Forever waiting an impossible rebirth...

869
Ricardo Madeira

Ricardo Madeira

O Metropolitano

Num rosto
Nasceu e faleceu
Um sorriso
Que riu e ruiu.

Um Sol
Caído e ferido,
Astro-rei
Queimado, gelado.

Mas é assim que acaba tudo,
Sem saber aquilo que poderias ter alcançado,
O teu olhar tornou-se mudo,
Desconhecido um paraíso que jaz inexplorado.

Olhos sem brilho,
De luz despidos,
Nem caminho nem trilho,
Hotéis escuros...
Impuros...

Horror em tudo o que vês...
Olhos e caras,
Foges e páras,
Sombras e luzes,
Pregos e cruzes...

O som do martelo,
Tão suave, tão belo,
Apenas mais uma crucificação,
Apenas outra só razão
Para esquecer...
Para adormecer...

O túnel, o clarão,
Pensamentos, sentimentos a brotar,
O chiar e o trovão,
Tão poucos momentos, tanto para dar...

Em sangue um sol... não se tornará a erguer, infeliz...
Pedaços de algo outrora eterno são cadáver nos carris.

806
Ricardo Madeira

Ricardo Madeira

Memórias Perdidas de Tempos Esquecidos

Tudo o que tenho para te recordar
Está a meu lado: o teu vazio lugar
Que ninguém parece poder ocupar.

Que alternativa existe, para além de morrer,
Quando a única razão que temos para viver
É exactamente aquela que tentamos esquecer?

E o mais belo sonho que podemos sonhar
(O teu sorriso... Os teus olhos a brilhar...)
É aquele que temos de matar e enterrar...

As memórias perdidas de tempos esquecidos
Saem das sombras, voltam para me assombrar,
São os ecos das palavras que não te pude dizer,
Todos os sonhos que geram pesadelos ao acordar.

Um corredor sem sentido, nenhuma porta se abre,
Uma vida sem destino, a fechadura recusa a chave.

"Vem muerte tan escondida,
Que no te sienta venir,
Porque el plazer del morrir
No me torne á dar la vida."
-Miguel De Cervantes

979
Ricardo Hiroshi Minoda

Ricardo Hiroshi Minoda

Sambará

Sambará

Poesia pífia de atitudes
tais e quais fluídicas mesclas de suicidas
buscando nos regatos aleitamento das mães que estão longe
longe longe longe longe longe

Estou cansado

Spinoza espinhos coreos que espairam nos clowns de Shakespeare

lago
Iago
buscando em

poesia de doramor e amor tristeza

Chomsky CHOMSKY CHOMSKY CHOMSKY CHOMSKY

Auhm

transcende alma inconstante transcende o véu mítico da vida-merda
encalacrada na merda-invólucro de carne

choro entre as pernas abraçado de meu irmão
vento busco e me sufoco
poesia berrada por todos os portões do grande império pretérito

nas águas fios salgados dos pulmões cuspidos
lentes mortas desfocadas nos telhados

esquecido

Einstein will Einstein
Einstein will Ein Stein
Ein Stein
leben Ein Stein

556
Eneida Alves Regado

Eneida Alves Regado

Cidade

A espera doentia,
A chegada tardia
A dor......
A vida simples contada em minutos;
A flor que morre para viver o fruto
Incolor......
Também há dor.
As janelas fechadas nos prédios
As vidas fechadas em gaiolas de ferro
O meio, o feio.........
Meu passarinho de asa quebrada,
Meu piriquito cantor, calado
Não voa, voa......
Minha arte: da vida um pouco,
Minha vida é arte
Mas é pouco.......
No silêncio da noite: o mistério
O mistério da noite é o silêncio
E o desejo.......Barcos perdidos no mar da vida,
Vidas perdidas no mar da cidade,
Cidades confusas no mar da mente
Um perigo latente..........

745
Paula Nei

Paula Nei

Trança

Esta santa relíquia imaculada
Do teu saudoso amor, esta lembrança
Da vida, que fugiu arrebatada,
Ligeira, como um sonho de criança.

Nas noites do meu sono de bonança
Eu guardo, junto a mim, ah! noiva amada,
Enquanto minha vista não se cansa
De vê-la, de adorá-la, extasiada...

Com o fio desta trança tão escura,
Tão negra, sim, que até minha amargura
Invejara-lhe a cor, e tão macia,

Qual pétala de rosa, eu teço, à noite,
Da viração sentindo o brando açoite,
O epitáfio de minha campa fria.

915
Paulo Silva Ribeiro

Paulo Silva Ribeiro

A Morte Como Vida

A Morte Como Vida

Estranho sentido a vida tem,
Estranho os caminhos da felicidade,
Estranho a busca incessante pelo poder,
Estranho a morte como vida,
Estranho viver sem sofrer...
Desconheço todos os sentidos
Que a vida pode ter
Pelo simples motivo de já tê-los
Abolidos...
Vejo sereno agora
O verdadeiro sentido
Já a muito esquecido,
Saudade não se pode mais sentir...
A morte dona de toda sorte
Que de Súbito nos leva tudo
Amores, dores, angústias
E que sem nos avisar
Vem nos buscar...

796
Pedro Paulo de Sena Madureira

Pedro Paulo de Sena Madureira

O Olhar Branco

O olhar branco
preso ao vazio
depois que as coisas ficaram por ser vistas.

O silêncio branco
despido de harmonia
depois que as palavras ficaram por ser ditas.

A morte branca
sem grito
sem cruz
sem glória
no avesso da história
depois que a agonia toda ficou por ser escrita.

876
Fernando Py

Fernando Py

Morte Íntima

A Eliane Zagury
Quatro sílabas viajam
no rumo de ninguém.
Quatro caladas mágoas
já sem uso em palavras.
Língua cortada, o eco
regressando à origem
que se pressente oblíqua
anterior à linguagem.

A idéia segue a sílaba
em seu perecimento
mantendo-se intranqüila
durante algum momento.
Sejam dias ou séculos
igual será o lamento
desse ruído - som morto
cavado na laringe.

Persista embora o símbolo
constante do alfabeto
os signos não reunidos
jamais na mesma sílaba
lerão palavra idêntica
a essas duas minúsculas
outrora pronunciadas
carreando emoções mágicas.

A morte dessas sílabas
completa a do indivíduo.

855
Pereira da Silva

Pereira da Silva

Impressão

Era tal meu desgosto nesse dia
Que o próprio coração desfalecia...
E então vi vindo a Morte a passo lento,
Vago, sutil, quase sem movimento.

Era uma virgem de cabelo louro
E manto azul, cheio de estrelas de ouro
E claridade fria e compungente
Como a luz do crepúsculo do Poente.

Vi-a chegar de olhar alheio a tudo,
Mas imóvel no meu, lívido e mudo.

E ou porque se enganasse no lugar
Ou me quisesse apenas avisar
Que a Vida é como um gozo de entremez,
Sorriu-se do meu susto e se desfez...

760