Beleza

Poemas neste tema

Sophia de Mello Breyner Andresen

Sophia de Mello Breyner Andresen

Escrevi As Navegações

Na longa viagem, à ida, de madrugada, quando as cortinas ainda estavam corridas, e a cabine estava ainda na penumbra, ouvi o microfone dizer a meia voz:
— Estamos a sobrevoar a costa do Vietname.
Corri uma cortina e vi um ar fulgurantemente azul e lá em baixo um mar ainda mais azul. E, perto de uma longa costa verde, vi no mar três ilhas de coral azul-escuro, cercadas por lagunas de uma transparência azulada.
Pensei naqueles que ali chegaram sem aviso prévio, sem mapas, ou relatos, ou desenhos ou fotografias que os prevenissem do que iam ver.
Escrevi os primeiros poemas simultaneamente a partir da minha imaginação, desse primeiro olhar, e a partir do meu próprio maravilhamento. As portas da Ásia abriram-se naquele preciso azul de que fala Dante no Purgatório:
«Dolce color d’oriental zaffiro».
Mas estavam neste mundo.
Como já disse na revista Prelo, há nas Navegações um intrincado jogo de invocações e ecos mais ou menos explícitos. E também através dos poemas navega a frase em que algures Maria Velho da Costa se refere aos «visionários do visível».
À medida que os poemas iam surgindo ia-se decidindo em mim a vontade de os editar ao lado dos mapas da época, os mapas onde ainda é visível o espanto do olhar inicial, o deslumbramento perante a diferença, perante a multiplicidade do real, a veemência do real mais belo que o imaginado, o maravilhamento perante os coqueiros, os elefantes, as ilhas, os telhados arqueados dos pagodes. E também a revelação de um outro rosto do humano e do sagrado.
Levei algum tempo a encontrar o editor que entendesse o meu desejo. Finalmente recorri à Imprensa Nacional, à qual estou em extremo grata por ter feito a edição que eu sonhei e quis.
Para mim o tema das Navegações não é apenas o feito, a gesta, mas fundamentalmente o olhar, aquilo a que os gregos chamavam aletheia, a desocultação, o descobrimento. Aquele olhar que às vezes está pintado à proa dos barcos.
(Discurso proferido na entrega do Prémio do Centro Português da Associação de Críticos Literários, em 1984.)
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Sophia de Mello Breyner Andresen

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Não Te Esqueças Nunca

Não te esqueças nunca de Thasos nem de Egina
O pinhal a coluna a veemência divina
O templo o teatro o rolar de uma pinha
O ar cheirava a mel e a pedra a resina
Na estátua morava tua nudez marinha
Sob o sol azul e a veemência divina

Não esqueças nunca Treblinka e Hiroshima
O horror o terror a suprema ignomínia
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Sophia de Mello Breyner Andresen

Sophia de Mello Breyner Andresen

Goesa

Tudo era atravessado por um rio de memórias
E brisas subtis e lentas se cruzavam
E enquanto lá fora baloiçavam
Os grandes leques verdes das palmeiras
Uma rapariga descalça como bailarina sagrada
Atravessou o quarto leve e lenta
Num silêncio de guitarra dedilhada
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Sophia de Mello Breyner Andresen

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Retrato

O jovem lord Byron é americano
E jornalista. Consigo traz
— Mais do que Escócias de outras eras —
Um futuro de eficácia errância e pressa

Porém seu perfil de estátua desenha a noite morna
E negro se anela na brisa o seu cabelo

Com ele vem um rumor de amor perdido
E a seu bem talhado rosto conviria
Turbante de palikare ou de fakir
E parece surgir de um filme antigo
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Sophia de Mello Breyner Andresen

Sophia de Mello Breyner Andresen

Glosa

«Dá a surpresa de ser
É alta de um loiro escuro»
Fernando Pessoa

Dá a surpresa de ser
É alto de um loiro escuro
Faz bem só pensar em ver
Seu gesto firme e seguro

Tem qualquer coisa de mastro
Tem qualquer coisa de sol
Saber que existe sossega
Como no mar o farol

Há qualquer coisa de rude
Em sua beleza extrema
Como saber a crueza
Que há no dentro do poema

Tem qualquer coisa de limpo
Apetece como o sal
Espanta que seja real
Sua perfeição de Olimpo

Há qualquer coisa de toiro
Na largura dos seus ombros
Navegam brilhos e assombros
No obscuro do seu loiro
1968 (?)
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Sophia de Mello Breyner Andresen

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Ondas

Onde — ondas — mais belos cavalos
Do que estas ondas que vós sois
Onde mais bela curva do pescoço
Onde mais longa crina sacudida
Ou impetuoso arfar no mar imenso
Onde tão ébrio amor em vasta praia?
Dezembro de 1989
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Sophia de Mello Breyner Andresen

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Goa

Bela, jovem, toda branca
A vaca tinha longos finos cornos
Afastados como as hastes da cítara
E pintados
Um de azul outro de veemente cor-de-rosa
E um deus adolescente atento e grave a guiava

Passavam os dois junto aos altos coqueiros
E ante a igreja barroca também ela toda branca
E em seu passar luziam
Os múltiplos e austeros sinais da alegria
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Sophia de Mello Breyner Andresen

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Museu

Aqui — como convém aos mortais —
Tudo é divino
E a pintura embriaga mais
Que o próprio vinho
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Sophia de Mello Breyner Andresen

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Retrato de Mulher

Algo de cereal e de campestre
Algo de simples em sua claridade
Algo sorri em sua austeridade
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Sophia de Mello Breyner Andresen

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Projecto I

O longo muro alentejano e branco
O desejo de limpo e de lisura
Aqui na casa térrea a arquitectura
Tem a clareza nua de um projecto
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Sophia de Mello Breyner Andresen

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Ii. Navegação Abstracta

Navegação abstracta
Fito como um peixe o voo segue a rota
Vista de cima tornou-se a terra um mapa

Porém subitamente
Atravessámos do Oriente a grande porta
De safiras azuis no mar luzente
1977
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Sophia de Mello Breyner Andresen

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I. Navegámos Para Oriente

Navegámos para Oriente —
A longa costa
Era de um verde espesso e sonolento

Um verde imóvel sob o nenhum vento
Até à branca praia cor de rosas
Tocada pelas águas transparentes

Então surgiram as ilhas luminosas
De um azul tão puro e tão violento
Que excedia o fulgor do firmamento
Navegado por garças milagrosas

E extinguiram-se em nós memória e tempo
1977
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Sophia de Mello Breyner Andresen

Sophia de Mello Breyner Andresen

O Templo de Athena Aphaia

O templo de Athena Aphaia é claro doirado e terrestre:
Espiga de trigo
Erguida para o céu nos píncaros de Egina
O templo de Athena Aphaia é claro doirado e terrestre:
Raparigas
Erguidas como espigas nos píncaros de Egina
O templo de Athena Aphaia em sua áspera doçura cereal
É claro doirado e terrestre como raparigas de trigo
Que os deuses transformaram em colunas
Junto do mar nos píncaros de Egina
Egina, Julho de 1970
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Sophia de Mello Breyner Andresen

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A Rapariga E a Praia

Uma rapariga vai como uma espiga
São cor de areia suas pernas finas
Seu íris é azul verde e cinzento

Uma rapariga vai como uma espiga
Carnal e cereal intacta cerrada
Mas nela enterra sua faca o vento

E tudo espalha com suas mãos o vento
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Sophia de Mello Breyner Andresen

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Torso

Torcendo o torso virava o volante da escavadora
Ao cair da tarde num Setembro do século XX
Na estrada que vai de Patras para Atenas

Combatia no poente sua beleza helenística
As massas musculares inchadas pelo esforço
Construíam o tumulto de clarão e sombra
Que dobra os corpos dos deuses já perdidos
Dos frisos de Pérgamo

Pois também no poente onde eu habito
Os deuses são vencidos
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Sophia de Mello Breyner Andresen

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V. (O Auriga)

A nudez dos pés que o escultor modelou com amor e minúcia
Mostra a pura nudez do teu estar na terra
A longa túnica em seu recto cair diz o austero
Aprumo de prumo da tua juventude
O pulso fino a concisa mão divina dizem
O pensamento rápido e subtil como Athena
E a vontade sensível e serena:
A ti mesmo te guias como a teus cavalos
Os beiços de seiva inchados como fruto
Dizem o teu amor da vida extasiado e grave
E sob as pestanas de bronze nos olhos de esmalte e de ónix
Fita-nos a tua paixão tranquila
O teu projecto
De em ti mesmo celebrares a ordem natural do divino
O número imanente
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Sophia de Mello Breyner Andresen

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Reino

Reino de medusas e água lisa
Reino de silêncio luz e pedra
Habitação das formas espantosas
Coluna de sal e círculo de luz
Medida da Balança misteriosa
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Sophia de Mello Breyner Andresen

Sophia de Mello Breyner Andresen

Gruta do Leão

Para além da terra pobre e desflorida
Mostra-me o mar a gruta roxa e rouca
Feita de puro interior
E povoada
De cava ressonância e sombra e brilho
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Sophia de Mello Breyner Andresen

Sophia de Mello Breyner Andresen

Iii. (Antinoos)

Noite diurna
Até à mais funda limpidez do instinto
Sob os teus cabelos em anel sombria vinha
Corpo terrestre e solene como o azul mais aceso da montanha
O quase imóvel fogo dos teus beiços
Pesa como o fruto pleno no rumor de brisa da árvore
Porta aberta para toda a natureza
É através de ti que os meus rios caminham como veias
Novilho de testa curta no secreto silêncio do bosque
Sobre os teus ombros poisa terrível o meio-dia
Do divino celebrado no terrestre
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Sophia de Mello Breyner Andresen

Sophia de Mello Breyner Andresen

Manhã

Como um fruto que mostra
Aberto pelo meio
A frescura do centro
Assim é a manhã
Dentro da qual eu entro
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Sophia de Mello Breyner Andresen

Sophia de Mello Breyner Andresen

Eras Bela

Eras bela como a pintura de Mantegna
Onde cada coisa mostra a nítida atenção
Do olhar soletrando a eternidade
Eras bela como a pintura de Mantegna
Decifrando a escrita da ressurreição
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Sophia de Mello Breyner Andresen

Sophia de Mello Breyner Andresen

Iv. o Encontro

Redonda era a tarde
Sossegada e lisa
Na margem do rio
Alguém se despia.
Sozinho o cigano
Sozinho na tarde
Na margem do rio
Seu corpo surgia
Brilhante da água
Semelhante à lua
Que se vê de dia
Semelhante à lua
E semelhante ao brilho
De uma faca nua.
Redonda era a tarde.
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Sophia de Mello Breyner Andresen

Sophia de Mello Breyner Andresen

Túmulo Nos Astros

Como és belo
Cercado de sete anéis como Saturno
Fechado no teu fogo mais secreto.

Como és belo
No coração do silêncio ilimitado,
Imutável e perfeito
De pura escuridão aureolado.

Já nenhum rosto mora no teu pensamento
De nenhum peso os teus gestos se alimentam
Nenhum acaso desvia
O teu olhar atento.
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Sophia de Mello Breyner Andresen

Sophia de Mello Breyner Andresen

Sobre Um Desenho de Miguel Ângelo

Do caos humano, confuso e hostil,
Sobe milagroso o teu perfil
O mais claro ensinamento.

O olhar procura
O mais profundo fundo
O mais longínquo além.
O nariz sente e respira
Cada exalação da vida
E a boca renuncia.
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