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Poemas neste tema

Régis Bonvicino

Régis Bonvicino

RB Resolve Ser Poeta

Nas páginas de "La Rosa Profunda"
descubro que escolhi
a mais curiosa das profissões humanas,
salvo que todas, a seu modo, o são.

Como os alquimistas
que buscaram a pedra filosofal
no azougue fugitivo,
farei com que as palavras comuns
— naipes marcados do tahur, moeda da plebe —
rendam a magia que foi sua
quando Thor era o nume e o estrépito,
o trovão e a prece.

No dialeto de hoje,
direi, de minha forma, as coisas eternas;
tratarei de não ser indigno
do grande eco de Camões.

Este pó(eta) que sou será invulnerável.

Se uma mulher compartilhar de meu amor,
meu verso roçará a décima esfera dos céus concêntricos;
se uma mulher desdenhar meu amor,
farei de minha tristeza uma música,
um alto rio que siga ressoando no tempo.

Viverei de esquecer-me.

Serei a cara que entrevejo e esqueço,
Judas que aceita
a divina missão de ser traidor,
Calibán no lamaçal,
um soldado mercenário que morre
sem temor e sem fé,
Polícrates que vê com espanto
o anel devolvido pelo destino,
serei o amigo que me odeia.

O Rubáiyát me dará o rouxinol
e os Texperts as palavras-espadas.

Máscaras, agonias, ressurreições,
desmancharam e mancharam minha sorte:
e, alguma vez, talvez agora,
eu seja Jorge Luis Borges.


In: BONVICINO, Régis. Más companhias: poesia, 1983/1986. São Paulo: Olavobrás, 1987.

NOTA DE RÉGIS BONVICINO: Tradução-encarnação do poema "Browning Resuelve Ser Poeta", de Jorge Luis Borges, do livro LA ROSA PROFUND
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Claudio Willer

Claudio Willer

Faz Tempo que Eu Queria Dizer Isto

ainda não conseguiram destruir o mar
não foram capazes de estrangulá-lo com fios elétricos e rodovias
nem de o retalhar com cercas
ou de lotear as manchas do seu dorso
o mar ainda existe
presente na consciência dos amantes
nas madrugadas de suor cúmplice estampado nos lençóis
para podermos ver o mar
para penetrar aos poucos nestes refúgios mornos
cavernas do primitivo sonho
útero de filamentos luminosos
é preciso nos desnudarmos totalmente
e sabermos nos reconhecer
pelo toque da pele
como algo que termina e recomeça
dois poemas entrelaçados
mordendo-se como a serpente mítica
(...)


In: WILLER, Claudio. Jardins da provocação: poemas, 1976/1980. São Paulo: Massao Ohno: Roswitha Kempt, 1981
1 175
Eudoro Augusto

Eudoro Augusto

Suma Biológica de Cacá de Aquino

Deus tudo vê.
O Diabo também.
Mas prefere as cenas mais fortes.
Deus tudo sabe. Noite e dia.
O Diabo também. E tripudia.
Deus tudo escuta.
O Diabo não faz por menos:
um rock pesado aos berros
num quarto de puta.
Deus é a consciência do Universo.
O Diabo não. Inconsciência total.
Bebe pra caralho
cai de boca no brilho
e só pensa em sacanagem.
Deus vota sempre com a democracia cristã.
O Diabo é mais alienado. Não sai da praia.
Não sai do Baixo. E faz o gênero intelectual de esquerda
só pra comer aquela militante de bunda empinada
e peitinhos de adolescente. É um doente.
Deus faz análise há séculos
por causa do problema da Virgem Maria.
Já o Diabo não tem pai nem mãe
não tem culpa nem mecanismos repressivos
e além do mais não leva muita fé
em terapias neofreudianas argentinas.
O hálito de Deus é a brisa da esperança.
O bafo do Diabo se tu cheira tu dança.
Deus é uma chama no coração.
O Diabo é um fogo no rabo.
Enquanto o Bem vai sarrando o Mal
um raio laser acende
tua xota no meu pau.
Religião não se discute. Ponto final.


In: AUGUSTO, Eudoro. O desejo e o deserto. São Paulo: Massao Ohno, 1989. Poema integrante da série Uma Noite na Ópera
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Armindo Trevisan

Armindo Trevisan

Poema-Granadino XI

Psiu! Entortaram
o beiço que herdamos
sem cachimbo de um pilão
e de uma erva do mato.

Pajé deu de comer
na mão aos passarinhos,
e a Anchieta.

Uma cruz ruminou
a alma implumada.

Psiu! Entortaram
o coração deste país.
Quem amolecerá o bronze
da pele que era nossa?

Entortaram até a língua.
A cor deu de aleitar-se,
o mameluco chupou
o polegar por descuido.

Qualquer coisa é preciso
para encher de aroma,
de som,
o padre-nosso esquecido.

Fiquem onde ficarem
os galões de Rondon.
Igaçabas e cascavéis
são nossos.

É preciso desentortar
a pancada que mugiu
no cérebro desta terra.

E fazer da ciência
como cauim o delírio
de provetas e guindastes,
iluminação e portos.

Não se desentorte errado
o sangue! Sangue é vento
que vem de todo lado.
Respire-o quem puder,
e fique mais corado.

Desentorte-se o vesgo
de um fuzil amargo,
o dinheiro pago
pelo dizer
sim ao passado.
E outra vez
desentorte-se o não,
que é tino de mundo
logo depois da criação.

E se alguém souber
de um destino mais terreal,
fale grosso que a língua
que temos é de algodão.

Se falarmos como pudermos,
seremos o que quisermos.


In: TREVISAN, Armindo. Funilaria no ar. Porto Alegre: Movimento; Brasília: INL, 1973. (Poesia Sul, 7)
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Gilberto Mendonça Teles

Gilberto Mendonça Teles

Meus Outros Anos

A Maximiano de Carvalho e Silva

Eu me lembro, eu me lembro, Casimiro,
no meu São João, no meu Goiás, na aurora
da minha vida, eu li o teu suspiro,
li teus versos de amor que leio agora.

E que meu filho lê, e todo mundo
sabe de cor, de coração, de ouvido,
desde que sinta o apelo mais profundo
de tudo que tem força e tem sentido.

Contigo comecei a ver e vi
as coisas mais comuns — o natural:
o rio, a bananeira, a juriti
e a tarde que cismava no quintal.

Contigo descobri a travessia
do tempo na manhã, no amor, no medo,
nos olhares da prima que sabia
a dimensão maior do meu brinquedo.

E até este confuso sentimento,
esta idéia de pátria, que persiste,
veio de teus poemas, no momento
em que tudo era belo e apenas triste

era pensar no exílio e ver no termo
um motivo de doença e de pecado;
triste era imaginar o poeta enfermo,
tossindo os seus silêncios no passado.

Eu me lembro, eu me lembro! e quis de perto
ver o teu rio, teu São João, teu lar;
ler a poesia desse céu aberto
que continuas a escrever no mar.


In: TELES, Gilberto Mendonça. Saciologia goiana. 3. ed. Goiânia: Cerne, 1986. p. 78. Poema integrante da série Sombras da Terra.

NOTA: Referência aos poemas "Amor e Medo", "Juriti", "Meus Oito Anos", "No Lar" e "Suspiros", do livro AS PRIMAVERAS (1859), de Casimiro de Abre
1 565
Mafalda Veiga

Mafalda Veiga

A fantasia (tem brilhos como as estrelas)

Vais pela rua
E finges que navegas
Desancorado até à alma
Percorres os mares do mundo
Hoje és um rei
E finges que te entregas
Ao vento e à tempestade
Como se fosses um vagabundo

A aventura, sente
A maresia e a madrugada
Corre, deixa-te levar
Pelo vento quente
Que se cola ao teu corpo
E te embala sempre
Até quereres voltar

A fantasia
Tem brilhos como as estrelas
E morna e doce e apetece
Soltá-la a voar no mundo

Hoje és um rei
Na tua caravela
A navegar
Num sopro de magia
1 155
Raimundo Correia

Raimundo Correia

Julieta

A loura Julieta enamorada,
Triste, lânguida, pálida, abatida,
Aparece radiante na sacada
Dos raios brancos do luar ferida.

Engolfa o olhar na sombra condensada,
Perscruta, busca em torno... e na avenida
Surge Romeu; da valerosa espada
Esplende a clara lâmina polida...

Sente-se o arfar de sôfregos desejos,
Estoura no ar um turbilhão de beijos,
Mas o dia reponta!... Ó indiscreta

Da cotovia matinal garganta!
Ó perigo do amor, que o amor quebranta!
Ó noites de Verona! Ó Julieta!


Publicado no livro Sinfonias (1882). Último da série Perfis Românticos, constituída por oito sonetos.

In: CORREIA, Raimundo. Poesias completas. Org. pref. e notas Múcio Leão. São Paulo: Ed. Nacional, 1948. v.2, p.149
2 123
Álvares de Azevedo

Álvares de Azevedo

Pálida à luz da lâmpada sombria

Pálida à luz da lâmpada sombria,
Sobre o leito de flores reclinada,
Como a lua por noite embalsamada,
Entre as nuvens do amor ela dormia!

Era a virgem do mar, na escuma fria
Pela maré das águas embalada!
Era um anjo entre nuvens d’alvorada
Que em sonhos se banhava e se esquecia!

Era mais bela! O seio palpitando...
Negros olhos as pálpebras abrindo...
Formas nuas no leito resvalando...

Não te rias de mim, meu anjo lindo!
Por ti – as noites eu velei chorando,
Por ti – nos sonhos morrerei sorrindo!


Publicado no livro Poesias de Manuel Antônio Álvares de Azevedo (1853).

In: GRANDES poetas românticos do Brasil. Pref. e notas biográficas por Antônio Soares Amora. Org. rev. e notas por Frederico José da Silva Ramos. São Paulo: LEP, 1949. p.568
4 904
Guilherme de Almeida

Guilherme de Almeida

Humorismo

Sossego macio da tarde.
Um sol cansado
passa pelo rosto suado
uma nuvenzinha alva como um lenço
para enxugar as primeiras estrelas.
Silêncio.

E o sol vai caminhando sobre os montes tranqüilos
vai cochilando. E de repente
tropeça e cai redondamente
sob a pateada dos sapos e a vaia dos grilos.


Publicado no livro Meu: livro de estampas (1925).

In: ALMEIDA, Guilherme de. Toda a poesia. 2.ed. São Paulo: Livr. Martins, 1955. v.4. p. 164-165
2 675
Mafalda Veiga

Mafalda Veiga

Gente Perdida

Eu fui devagarinho
Com medo de falhar
Não fosse esse o caminho certo
Para te encontrar
Fui descobrindo devagar
Cada sorriso teu
Fui aprendendo a procurar
Por entre sonhos meus

Eu fui assim chegando
Sem entender porquê
Já foram tantas vezes tantas
Assim como esta vez
Mas é mais fundo o teu olhar
Mais do que eu sei dizer
É um abrigo pra voltar
Ou um mar para me perder

Lá fora o vento
Nem sempre sabe a liberdade
A gente finge
Mas sabe o que não é verdade
Foge ao vazio
Enquanto brinda, dança e salta
Eu trago-te comigo
E sinto tanto, tanto a tua falta

Eu fui entrando pouco a pouco
Abri a porta e vi
Que havia lume aceso
E um lugar pra mim
Quase me assusta descobrir
Que foi este sabor
Que a vida inteira procurei
Entra a paixão e a dor

Lá fora o vento
Nem sempre sabe a liberdade
Gente perdida
Balança entre o sonho e a verdade
Foge ao vazio
Enquanto brinda, dança e salta
Eu trago-te comigo
E sinto tanto, tanto a tua falta

Lá fora o vento
Nem sempre sabe a liberdade
Gente perdida
Balança entre o sonho e a verdade
Foge ao vazio
Enquanto brinda, dança e salta
Eu trago-te comigo
E guardo este abraço só para ti
1 467
Ronald de Carvalho

Ronald de Carvalho

Advertência

Europeu!
Nos tabuleiros de xadrez da tua aldeia,
na tua casa de madeira, pequenina, coberta de hera,
na tua casa de pinhões e beirais, vigiada por filas de cercas
[paralelas, com trepadeiras moles balançando
[e florindo;
na tua sala de jantar, junto do fogão de azulejos, cheirando a
[resina de pinheiro e faia,
na tua sala de jantar, em que os teus avós leram a Bíblia e
[discutiram casamentos, colheitas e enterros,
entre as tuas arcas bojudas e pretas, com lãs felpudas e linhos
[encardidos, colares, gravuras, papéis
[graves e moedas roubadas ao inútil
[maravilhoso;
diante do teu riacho, mais antigo que as Cruzadas, desse teu
[riacho serviçal, que engorda trutas e
[carpas;

Europeu!
Em frente da tua paisagem, dessa tua paisagem com estradas,
[quintalejos, campanários e burgos, que
[cabe toda na bola de vidro do teu
[jardim;
diante dessas tuas árvores que conheces pelo nome- o carvalho
[do açude, o choupo do ferreiro, a tília
[da ponte — que conheces pelo nome
[como os teus cães, os teus jumentos e as
[tuas vacas;

Europeu! filho da obediência, da economia e do bom senso,
tu não sabes o que é ser Americano!
Ah! os tumultos do nosso sangue temperado em saltos e disparadas
[sobre pampas, savanas, planaltos,
[caatingas onde estouram boiadas tontas,
[onde estouram batuques de cascos, tropel
[de patas, torvelinho de chifres!
Alegria virgem das voltas que o laço dá na coxilha verde,
Alegria virgem de rios-mares, enxurradas, planícies cósmicas,
[picos e grimpas, terras livres, ares livres,
[florestas sem lei!
Alegria de inventar, de descobrir, de correr!
Alegria de criar o caminho com a planta do pé!

Europeu!
Nessa maré de massas informes, onde as raças e as línguas se
[dissolvem,
o nosso espírito áspero e ingênuo flutua sobre as cousas, sobre
[todas as cousas divinamente rudes, onde
[bóia a luz selvagem do dia americano!


Publicado no livro Toda a América (1926).

In: CARVALHO, Ronald de. O espelho de Ariel e poemas escolhidos. Pref. Antônio Carlos Villaça. Rio de Janeiro: Nova Aguilar; Brasília: INL, 1976. p.187-188. (Manancial, 44
2 570
Mafalda Veiga

Mafalda Veiga

Tatuagens

em cada gesto perdido
tu és igual a mim
em cada ferida que sara
escondida do mundo
eu sou igual a ti

fazes pintura de guerra
que eu não sei apagar
pintas o sol da cor da terra
e a lua da cor do mar

em cada grito da alma
eu sou igual a ti
de cada vez que um olhar
te alucina e te prende
tu és igual a mim

fazes pinturas de sonhos
pintas o sol na minha mão
e és mistura de vento e lama
entre os luares perdidos no chão

em cada noite sem rumo
tu és igual a mim
de cada vez que procuro
preciso um abrigo
eu sou igual a ti

faço pinturas de guerra
que eu não sei apagar
e pinto a lua da cor da terra
e o sol da cor do mar

em cada grito afundado
eu sou igual a ti
de cada vez que a tremura
desata o desejo
tu és igual a mim

faço pinturas de sonhos
e pinto a lua na tua mão
misturo o vento e a lama
piso os luares perdidos no chão
1 115
Edgar Allan Poe

Edgar Allan Poe

To F—s S O—d

Thou wouldst be loved?— then let thy heart
From its present pathway part not!
Being everything which now thou art,
Be nothing which thou art not.
So with the world thy gentle ways,
Thy grace, thy more than beauty,
Shall be an endless theme of praise,
And love- a simple duty.


1835

983
Edgar Allan Poe

Edgar Allan Poe

To

Fair maiden, let thy generous heart
From its present pathway part not!
Being every thing which now thou art,
Be nothing which thou art not.
So with the world thy gentle ways,
Thy unassuming beauty,
Thy truth — shall be a theme of praise,
Forever — and love a duty.


1839

991
Fernando Pessoa

Fernando Pessoa

Quarta: D. JOÃO, INFANTE DE PORTUGAL

Não fui alguém. Minha alma estava estreita
Entre tão grandes almas minhas pares,
Inutilmente eleita,
Virgemmente parada;

Porque é do português, pai de amplos mares,
Querer, poder só isto:
O inteiro mar, ou a orla vã desfeita —
O todo, ou o seu nada.

5 384
Edgar Allan Poe

Edgar Allan Poe

Eulalie

I dwelt alone
In a world of moan,
And my soul was a stagnant tide,
Till the fair and gentle Eulalie became my blushing bride—
Till the yellow-haired young Eulalie became my smiling bride.

Ah, less— less bright
The stars of the night
Than the eyes of the radiant girl!
That the vapor can make
With the moon-tints of purple and pearl,
Can vie with the modest Eulalie's most unregarded curl—
Can compare with the bright-eyed Eulalie's most humble and careless curl.

Now Doubt- now Pain
Come never again,
For her soul gives me sigh for sigh,
And all day long
Shines, bright and strong,
Astarte within the sky,
While ever to her dear Eulalie upturns her matron eye—
While ever to her young Eulalie upturns her violet eye.


1850

2 090
Mafalda Veiga

Mafalda Veiga

Pedras e Flores

Hoje a vida passa como um barco
Ilha de náufragos esquecida no mar
E o tempo é nada haver sentido tudo
O que por nada ser nos faz mudar
Hoje o mundo é o revés de um sonho
Que um sono mais profundo fez esquecer
Para quê querer das coisas a razão
Se quase nada tem razão de ser
O luar traz silêncios e disparos
E carícias fugazes e horrores
E morre-se num canto de um poema
Por isso e outras coisa dão-se flores
Bebe-se vinho e dorme-se ao relento
E liberta-se o grito que vier
Pra se ouvir longe e perto, e dentro
Conserva-se o silêncio, o que se puder
E alguma vez ainda se acredita
Na força da montanha céu adentro
E na canção do mar por ser bonita
E nas asas que inventa, cores ao vento
Mas hoje voam pássaros sem asas
Na terra desabrocham cores de guerra
E hoje as flores rolam pelo chão
Como se fossem pedras
1 327
Mafalda Veiga

Mafalda Veiga

Em toda a parte

A distância é um fogo
Onde vou chegar
Num abraço fechado
Para te levar

Por campos abertos
Por onde puder
Levar-te por dentro
Pra não te perder

Nem com mil tormentas
Que arrasem o mundo

Em qualquer lado
Onde quer que eu vá
Levo no corpo o desejo
De te abraçar
Em toda a parte
Onde quer que o sonho me leve
Hei-de lembrar-me de ti

Por outros caminhos
Hei-de vaguear
Num abraço fechado
Para te levar

E há uma canção
Que um dia aprendi
Eu hei-de cantá-la
A pensar em ti

Em qualquer lado
Onde quer que eu vá
Levo no corpo o desejo
De te abraçar
Em toda a parte
Onde quer que o sonho me leve
hei-de lembrar-me de ti
1 067
Edgar Allan Poe

Edgar Allan Poe

Lines Written in an Album

Eliza! — let thy generous heart
From its present pathway part not!
Being every thing which now thou art,
Be nothing which thou art not.
So with the world thy gentle ways,
Thy unassuming beauty,
And truth shall be a theme of praise,
Forever — and love a duty.


1835

1 058
Edgar Allan Poe

Edgar Allan Poe

The Coliseum

Lone ampitheatre ! Grey Coliseum !
Type of the antique Rome ! Rich reliquary
Of lofty contemplation left to Time
By buried centuries of pomp and power !
At length, at length — after so many days
Of weary pilgrimage, and burning thirst,
(Thirst for the springs of love [lore] that in thee lie,)
I kneel, an altered, and an humble man,
Amid thy shadows, and so drink within
My very soul thy grandeur, gloom, and glory.

Vastness ! and Age ! and Memories of Eld !
Silence and Desolation! and dim Night!
Gaunt vestibules! and phantom-peopled aisles !
I feel ye now: I feel ye in your strength!
O spells more sure then [than] e'er Judæan king
Taught in the gardens of Gethsemane !
O charms more potent than the rapt Chaldee
Ever drew down from out the quiet stars !

Here, where a hero fell, a column falls :
Here, where the mimic eagle glared in gold,
A midnight vigil holds the swarthy bat:
Here, where the dames of Rome their yellow hair
Wav'd to the wind, now wave the reed and thistle :
Here, where on ivory couch the Cæsar sate,
On bed of moss lies gloating the foul adder :

Here, where on golden throne the monarch loll'd,
Glides spectre-like unto his marble home,
Lit by the wan light of the horned moon,
The swift and silent lizard of the stones.

These crumbling walls; these tottering arcades ;
These mouldering plinths; these sad, and blacken'd shafts ;
These vague entablatures; this broken frieze ;
These shattered cornices; this wreck; this ruin ;
These stones, alas! — these grey stones — are they all ;
All of the great and the colossal left
By the corrosive hours to Fate and me ?

"Not all," — the echoes answer me; "not all :
Prophetic sounds, and loud, arise forever
From us, and from all ruin, unto the wise,
As in old days from Memnon to the sun.
We rule the hearts of mightiest men: — we rule
With a despotic sway all giant minds.
We are not desolate — we pallid stones ;
Not all our power is gone; not all our Fame ;
Not all the magic of our high renown ;
Not all the wonder that encircles us ;
Not all the mysteries that in us lie;
Not all the memories that hang upon,
And cling around about us now and ever,
And clothe us in a robe of more than glory."


1833

1 442
Edgar Allan Poe

Edgar Allan Poe

Enigma

The noblest name in Allegory's page,
The hand that traced inexorable rage;
A pleasing moralist whose page refined,
Displays the deepest knowledge of the mind;
A tender poet of a foreign tongue,
(Indited in the language that he sung.)
A bard of brilliant but unlicensed page
At once the shame and glory of our age,
The prince of harmony and stirling sense,
The ancient dramatist of eminence,
The bard that paints imagination's powers,
And him whose song revives departed hours,
Once more an ancient tragic bard recall,
In boldness of design surpassing all.
These names when rightly read, a name [make] known
Which gathers all their glories in its own.


1833

1 914
Augusto dos Anjos

Augusto dos Anjos

Canto de Onipotência

Cloto, Átropos, Tifon, Laquesis, Siva...
E acima deles, como um astro, a arder,
Na hiperculminação definitiva
O meu supremo e extraordinário Ser!

Em minha sobre-humana retentiva
Brilhavam, como a luz do amanhecer,
A perfeição virtual tornada viva
E o embrião do que podia acontecer!

Por antecipação divinatória,
Eu, projetado muito além da História,
Sentia dos fenômenos o fim...

A coisa em si movia-se aos meus brados
E os acontecimentos subjugados
Olhavam como escravos para mim!

2 368
Arthur Rimbaud

Arthur Rimbaud

FOME

Meu gosto, agora se encerra
Em comer pedras e terra.
Só me alimento de ar,
de rochas, de carvão, de ferro.

Pastai o prado de feno,
Ó fomes minhas.
Chamai o gaio veneno
Das campainhas.

Comei o cascalho que seja
Das velhas pedras de igreja;
Seixos de antigos dilúvios,
Pão semeado em vales turvos.


Uiva o lobo na folhagem,
Cuspindo a bela plumagem
Das aves de seu repasto :
É assim que me desgasto.

As hortalicas, as frutas
Esperam só a colheita.
Mas o aranhão da hera
Não come senão violetas.

Que eu adormeca, que eu arda
Nas aras de Salomão.
Na ferrugem escorre a calda
E se mistura ao Cedrão.

Enfim, ó ventura, ó razão, afastei do céu o azul,
que é negro, e vivi, centelha de ouro, dessa
luz natureza. De alegria, adotava a expres-
são mais ridícula e desvairada possível :

Achada, é verdade ?!
Quem ? A eternidade.
É o mar que o sol
Invade

Observa, minh´alma
Eterna, o teu voto
Seja noite só,
Torre o dia em chama.

Que então te avantajes
A humanos sufrágios,
A impulsos comuns !
Tu voas como os...

- Esperanca ausente,
Nada de oriétur
Ciência paciência,
Só o suplício é certo.

O amanhã não vem,
Brasas de cetim.
Deves o ardor
Ao dever doar.

Achada, é verdade ?!
- Quem ? - A Eternidade.
É o amor que o sol
Invade.


4 096
Eloise Petter

Eloise Petter

Egos-branon

Nas profundas mistificações de minha alma sangrando
Entrementes as vertentes do Rio Poseidon
Na longínqua galáxia imaginária de Egos-branon
Encontrei o que sou:
Viajante indelével de alguém que sonhou

Viajante indelével por entre mundos vazios
Flutuações cosmológicas e novembros frios

Viajante do estranho mito
Amálgama de caveiras sorridentes
Supercordas de um violino
E astronautas amarelos

Amálgama de partículas e desejos
Visões esculpidas em buracos negros
Cérebros falantes e macacos pequenos
Universos perdidos como bolhas ao vento

Em genes partidos
Em quantuns vendidos
Em ondas corpóreas
Que andam paradas
Viajante indelével da terra alada

Para além das estrelas
De várias dimensões
De ofuscantes teatros
E flamejantes paixões
Onde elétrons e prótons
Se beijam em atos
E as belas comédias
São homens que falam

Viajante indelével
Andarilho de corpos
Quarks de quasares
Que explodem e saltam
Nesta boca vermelha
Que toca meus lábios

Na longínqua galáxia imaginária de Egos-branon
Entrementes as vertentes do Rio Poseidon
Encontrei o que sou:
Espectro holográfico de alguém que sonhou



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