Morte
Poemas neste tema
Moacyr Felix
Cantiga para os Pescadores
A Tereza e Ferreira Gullar
Eia, que eu vou pescar um peixe
de ver meu barco virar!
Eia, que outro peixe não serve
quando mais terra não há,
que a morte só tem valia
no gesto que encontra o mar,
que tudo é vida se o homem
é onda de um renovar
que se renova a si mesmo
sem nunca ter que parar!
Na espuma branca das ondas
onde o vento lambe o sal,
no meu orgulho de homem
que prova o bem, prova o mal,
noites de álcool e de areia
se erguerão, farpas lançadas
contra a morte universal
(isto é triste, mas não mata
esta alegria infernal
de eu havê-las arrancado
qual grande peixe de prata
deste nada tão central).
Eia, que eu vou pescar um peixe
de ver meu barco virar,
que tudo é vida se o homem
é onda de um renovar
que se renova a si mesmo
sem nunca ter que parar.
(...)
Publicado no livro Um Poeta na Cidade e no Tempo (1966).
In: FÉLIX, Moacyr. Antologia poética. Rio de Janeiro: J. Olympio, 1993. p.101
NOTA: Poema composto de 7 estrofe
Eia, que eu vou pescar um peixe
de ver meu barco virar!
Eia, que outro peixe não serve
quando mais terra não há,
que a morte só tem valia
no gesto que encontra o mar,
que tudo é vida se o homem
é onda de um renovar
que se renova a si mesmo
sem nunca ter que parar!
Na espuma branca das ondas
onde o vento lambe o sal,
no meu orgulho de homem
que prova o bem, prova o mal,
noites de álcool e de areia
se erguerão, farpas lançadas
contra a morte universal
(isto é triste, mas não mata
esta alegria infernal
de eu havê-las arrancado
qual grande peixe de prata
deste nada tão central).
Eia, que eu vou pescar um peixe
de ver meu barco virar,
que tudo é vida se o homem
é onda de um renovar
que se renova a si mesmo
sem nunca ter que parar.
(...)
Publicado no livro Um Poeta na Cidade e no Tempo (1966).
In: FÉLIX, Moacyr. Antologia poética. Rio de Janeiro: J. Olympio, 1993. p.101
NOTA: Poema composto de 7 estrofe
1 123
Sousa Caldas
Ode II [Oh! quanto és bela
Oh! quanto és bela
Vermelha rosa,
Tu me retratas
Nise formosa.
Lindo botão
Vejo a teu lado,
Qual junto a Vênus
O Filho alado.
Ele de Nise
Me pinta a cor,
E o seu amável
Terno pudor.
Verdes espinhos,
Para defesa,
Te pôs em torno
A Natureza.
Tal a Razão,
Sempre adorável,
De Nise cerca
O peito afável:
Nele se enlaça,
Bem como a hera,
E seus desejos
Rege severa.
Quando no meigo
Seio de Flora
o orvalho atrais
Da roxa Aurora,
Sobre as mais flores
Beleza ostentas:
Delas o cetro
Ter representas.
Ah! quantas vezes
Da espécie humana
Julguei ser Nise
A Soberana.
Tão gentil rosto
Jamais a Terra
Viu; nele a força
D'Amor se encerra.
Ó Flor mimosa,
Quero colher-te,
E no meu peito
Sempre trazer-te.
Mas ah! depressa
Tu murcharás,
E imagens tristes
Me lembrarás.
Já de horror sinto
Torvar-se o spr'ito,
E o coração
Bater-me aflito.
A minha Nise
Também da Morte
Há de sentir
O duro Corte!
Fazei-a, ó Céus,
Ou menos bela,
Ou nunca a Morte
Possa vencê-la!
Poema integrante da série Odes Anacreônticas.
In: CALDAS, Sousa. Obras poéticas: poesias sacras e profanas. Org. e notas Francisco de Borja Garção-Stockler. Paris: Of. de P.N. Rougeron, 1821. v.
Vermelha rosa,
Tu me retratas
Nise formosa.
Lindo botão
Vejo a teu lado,
Qual junto a Vênus
O Filho alado.
Ele de Nise
Me pinta a cor,
E o seu amável
Terno pudor.
Verdes espinhos,
Para defesa,
Te pôs em torno
A Natureza.
Tal a Razão,
Sempre adorável,
De Nise cerca
O peito afável:
Nele se enlaça,
Bem como a hera,
E seus desejos
Rege severa.
Quando no meigo
Seio de Flora
o orvalho atrais
Da roxa Aurora,
Sobre as mais flores
Beleza ostentas:
Delas o cetro
Ter representas.
Ah! quantas vezes
Da espécie humana
Julguei ser Nise
A Soberana.
Tão gentil rosto
Jamais a Terra
Viu; nele a força
D'Amor se encerra.
Ó Flor mimosa,
Quero colher-te,
E no meu peito
Sempre trazer-te.
Mas ah! depressa
Tu murcharás,
E imagens tristes
Me lembrarás.
Já de horror sinto
Torvar-se o spr'ito,
E o coração
Bater-me aflito.
A minha Nise
Também da Morte
Há de sentir
O duro Corte!
Fazei-a, ó Céus,
Ou menos bela,
Ou nunca a Morte
Possa vencê-la!
Poema integrante da série Odes Anacreônticas.
In: CALDAS, Sousa. Obras poéticas: poesias sacras e profanas. Org. e notas Francisco de Borja Garção-Stockler. Paris: Of. de P.N. Rougeron, 1821. v.
997
Dante Milano
VII [Na noite cor de sono, cor de sonho
Na noite cor de sono, cor de sonho,
Fulgurando na treva, um raio estronda,
Final do céu, divino mas medonho.
E uma mulher sem ter onde se esconda,
Os cabelos desfeitos, aparece
E em meus braços se atira. Então, absorto,
Vi que o corpo, quando ama, desfalece,
Vi que o rosto, ao beijar, parece morto.
Como se o beijo os lábios lhe torcesse,
A boca toma a forma de um sorriso
Que se contrai, como se o beijo doesse.
Visões do amor, possuídas mas incertas.
O corpo se entregou, mas indeciso,
E deixou-se cair de mãos abertas.
Publicado no livro Poesias (1948). Poema integrante da série Sonetos e Fragmentos.
In: MILANO, Dante. Poesias. Pref. Ivan Junqueira. Petrópolis: Ed. Firmo, 1994. p.33. (Pedra mágica, 1
Fulgurando na treva, um raio estronda,
Final do céu, divino mas medonho.
E uma mulher sem ter onde se esconda,
Os cabelos desfeitos, aparece
E em meus braços se atira. Então, absorto,
Vi que o corpo, quando ama, desfalece,
Vi que o rosto, ao beijar, parece morto.
Como se o beijo os lábios lhe torcesse,
A boca toma a forma de um sorriso
Que se contrai, como se o beijo doesse.
Visões do amor, possuídas mas incertas.
O corpo se entregou, mas indeciso,
E deixou-se cair de mãos abertas.
Publicado no livro Poesias (1948). Poema integrante da série Sonetos e Fragmentos.
In: MILANO, Dante. Poesias. Pref. Ivan Junqueira. Petrópolis: Ed. Firmo, 1994. p.33. (Pedra mágica, 1
1 072
Sousa Caldas
Salmo XXII [O meu DEUS é minha guia
Dominus regit me...
1.
O meu DEUS é minha guia,
Tenho tudo de abundância;
A mais suave fragrância,
Verde e fresca amenidade,
É dos prados companhia,
Onde assentou minha herdade;
Com perene fonte a rega,
Me conforta, me sossega.
2.
Por mostrar seu braço forte,
A minha alma iluminando
Sempre fui meus pés firmando
Da justiça pela estrada;
Em vão me acomete a morte
De densas sombras cercada.
Sem temor, ó DEUS, a vejo;
Pois ao lado teu forcejo.
3.
O cajado, e a lisa vara
Com que sempre me regeste,
Ao voraz lobo que investe
Vigorosa fere, e mata:
E contra a coorte amara
Que me segue e me maltrata,
A meus olhos preparaste
Pingue mesa, e me esforçaste.
4.
Mil perfumes sobre a frente
Me espargiste, generoso;
E como é delicioso
O cáli com que me abrandas
Minha sede impaciente!
Ah! benignas sempre e brandas
Tuas mostras de piedade
Me sigam em toda a idade.
5.
Sim, meu DEUS, serás piedoso
Com teu servo, e longamente
Té que eu possa eternamente,
Roto o véu que me circunda,
Ver teu rosto glorioso;
Oxalá serena e munda
Já minha alma, leda entrasse
No teu paço, e te gozasse!
In: CALDAS, Sousa. Obras poéticas: salmos de Davi vertidos em ritmo português. Org. pref. e notas Francisco de Borja Garção-Stockler. Paris: Of. de P. N. Rougeron, 1820. v.
1.
O meu DEUS é minha guia,
Tenho tudo de abundância;
A mais suave fragrância,
Verde e fresca amenidade,
É dos prados companhia,
Onde assentou minha herdade;
Com perene fonte a rega,
Me conforta, me sossega.
2.
Por mostrar seu braço forte,
A minha alma iluminando
Sempre fui meus pés firmando
Da justiça pela estrada;
Em vão me acomete a morte
De densas sombras cercada.
Sem temor, ó DEUS, a vejo;
Pois ao lado teu forcejo.
3.
O cajado, e a lisa vara
Com que sempre me regeste,
Ao voraz lobo que investe
Vigorosa fere, e mata:
E contra a coorte amara
Que me segue e me maltrata,
A meus olhos preparaste
Pingue mesa, e me esforçaste.
4.
Mil perfumes sobre a frente
Me espargiste, generoso;
E como é delicioso
O cáli com que me abrandas
Minha sede impaciente!
Ah! benignas sempre e brandas
Tuas mostras de piedade
Me sigam em toda a idade.
5.
Sim, meu DEUS, serás piedoso
Com teu servo, e longamente
Té que eu possa eternamente,
Roto o véu que me circunda,
Ver teu rosto glorioso;
Oxalá serena e munda
Já minha alma, leda entrasse
No teu paço, e te gozasse!
In: CALDAS, Sousa. Obras poéticas: salmos de Davi vertidos em ritmo português. Org. pref. e notas Francisco de Borja Garção-Stockler. Paris: Of. de P. N. Rougeron, 1820. v.
1 001
Raimundo Correia
Luiz Gama
A Raul Pompéia
Tantos triunfos te contando os dias,
Iam-te os dias descontando e os anos,
Quando bramavas, quando combatias
Contra os bárbaros, contra os desumanos;
Quando a alma brava e procelosa abrias
Invergável ao pulso dos tiranos,
E ígnea, como os desertos africanos
Dilacerados pelas ventanias...
Contra o inimigo atroz rompeste em guerra,
Grilhões a rebentar por toda a parte,
Por toda a parte a escancarar masmorras.
Morreste!... Embalde, Escravidão! Por terra
Rolou... Morreu por não poder matar-te!
Também não tarda muito que tu morras!
In: CORREIA, Raimundo. Poesias completas. Org. pref. e notas Múcio Leão. São Paulo: Ed. Nacional, 1948. v.2, p.19
Tantos triunfos te contando os dias,
Iam-te os dias descontando e os anos,
Quando bramavas, quando combatias
Contra os bárbaros, contra os desumanos;
Quando a alma brava e procelosa abrias
Invergável ao pulso dos tiranos,
E ígnea, como os desertos africanos
Dilacerados pelas ventanias...
Contra o inimigo atroz rompeste em guerra,
Grilhões a rebentar por toda a parte,
Por toda a parte a escancarar masmorras.
Morreste!... Embalde, Escravidão! Por terra
Rolou... Morreu por não poder matar-te!
Também não tarda muito que tu morras!
In: CORREIA, Raimundo. Poesias completas. Org. pref. e notas Múcio Leão. São Paulo: Ed. Nacional, 1948. v.2, p.19
2 575
Edimilson de Almeida Pereira
39 [as experiências que um monitor de
as experiências que um monitor de
literatura apreende são outras que
um tintureiro jamais desejará são
experiências como as de um girassol
e uma cantora protegida da morte
mas são as experiências muito comuns
de passar a limpo um pensamento
o passar no tempo com pensamento
In: PEREIRA, Edimilson de Almeida. Ô Lapassi & Outros ritmos de ouvido. Belo Horizonte: Ed. da UFMG, 1990. p.51. (Coleção Prêmio de Literatura UFMG
literatura apreende são outras que
um tintureiro jamais desejará são
experiências como as de um girassol
e uma cantora protegida da morte
mas são as experiências muito comuns
de passar a limpo um pensamento
o passar no tempo com pensamento
In: PEREIRA, Edimilson de Almeida. Ô Lapassi & Outros ritmos de ouvido. Belo Horizonte: Ed. da UFMG, 1990. p.51. (Coleção Prêmio de Literatura UFMG
1 046
Péricles Eugênio da Silva Ramos
Céus Nossos
Céus nossos, terra nossa,
nossa é a graça,
a graça de existir por um momento.
Chamas, ensinai-nos a lição
de iluminar morrendo.
In: RAMOS, Péricles Eugênio da Silva. A noite da memória. São Paulo: Art Ed., 1988
nossa é a graça,
a graça de existir por um momento.
Chamas, ensinai-nos a lição
de iluminar morrendo.
In: RAMOS, Péricles Eugênio da Silva. A noite da memória. São Paulo: Art Ed., 1988
1 076
Cassiano Ricardo
Morte em Câmara de Gás
1
Tão certa a morte
que inútil marcar-lhe
uma hora exata.
Gosto da lei em ser
exata
não
apenas certa.
Nenhuma razão
pra tanto amor
ao relógio, ao
necrológio.
A data é que lhe põe
(felina) uma gota
de fel em cada
minuto.
E o mata com uma
lentidão de faca.
A justiça, olhos
fechados como os
da noite.
A câmara de gás
talvez
menos vil
se à noite.
Na cela em que o
condenado
dorme
sem data
olhos fechados
como os da justiça.
2
Ao carr'asco
se evitaria
o asco
do seu nome.
In: RICARDO, Cassiano. Os sobreviventes: acompanhados de um poema circunstancial e de uma tradução. Pref. Eduardo Portella. Rio de Janeiro: J. Olympio, 1971. p.67-68. Poema integrante da série Xilogravuras
Tão certa a morte
que inútil marcar-lhe
uma hora exata.
Gosto da lei em ser
exata
não
apenas certa.
Nenhuma razão
pra tanto amor
ao relógio, ao
necrológio.
A data é que lhe põe
(felina) uma gota
de fel em cada
minuto.
E o mata com uma
lentidão de faca.
A justiça, olhos
fechados como os
da noite.
A câmara de gás
talvez
menos vil
se à noite.
Na cela em que o
condenado
dorme
sem data
olhos fechados
como os da justiça.
2
Ao carr'asco
se evitaria
o asco
do seu nome.
In: RICARDO, Cassiano. Os sobreviventes: acompanhados de um poema circunstancial e de uma tradução. Pref. Eduardo Portella. Rio de Janeiro: J. Olympio, 1971. p.67-68. Poema integrante da série Xilogravuras
2 301
Murilo Mendes
Elegia de Taormina
A dupla profundidade do azul
Sonda o limite dos jardins
E descendo até à terra o transpõe.
Ao horizonte da mão ter o Etna
Considerado das ruínas do templo grego,
Descansa.
Ninguém recebe conscientemente
O carisma do azul.
Ninguém esgota o azul e seus enigmas.
Armados pela história, pelo século,
Aguardando o desenlace do azul, o desfecho da
[bomba,
Nunca mais distinguiremos
Beleza e morte limítrofes.
Nem mesmo debruçados sobre o mar de Taormina.
Ó intolerável beleza,
Ó pérfido diamante,
Ninguém, depois da iniciação, dura
No teu centro de luzes contrárias.
Sob o signo trágico vivemos,
Mesmo quando na alegria
O pão e o vinho se levantam.
Ó intolerável beleza
Que sem a morte se oculta.
Poema integrante da série Siciliana, 1954/1955.
In: MENDES, Murilo. Poesias, 1925/1955. Rio de Janeiro: J. Olympio, 195
Sonda o limite dos jardins
E descendo até à terra o transpõe.
Ao horizonte da mão ter o Etna
Considerado das ruínas do templo grego,
Descansa.
Ninguém recebe conscientemente
O carisma do azul.
Ninguém esgota o azul e seus enigmas.
Armados pela história, pelo século,
Aguardando o desenlace do azul, o desfecho da
[bomba,
Nunca mais distinguiremos
Beleza e morte limítrofes.
Nem mesmo debruçados sobre o mar de Taormina.
Ó intolerável beleza,
Ó pérfido diamante,
Ninguém, depois da iniciação, dura
No teu centro de luzes contrárias.
Sob o signo trágico vivemos,
Mesmo quando na alegria
O pão e o vinho se levantam.
Ó intolerável beleza
Que sem a morte se oculta.
Poema integrante da série Siciliana, 1954/1955.
In: MENDES, Murilo. Poesias, 1925/1955. Rio de Janeiro: J. Olympio, 195
1 897
Castro Alves
Quando eu Morrer
Eu morro, eu morro. A matutina brisa
Já não me arranca um riso. A rósea tarde
Já não me doura as descoradas faces
Que gélidas se encovam.
JUNQUEIRA FREIRE
Quando eu morrer... não lancem meu cadáver
No fosso de um sombrio cemitério...
Odeio o mausoléu que espera o morto
Como o viajante desse hotel funéreo.
Corre nas veias negras desse mármore
Não sei que sangue vil de messalina,
A cova, num bocejo indiferente,
Abre ao primeiro o boca libertina.
Ei-la a nau do sepulcro — o cemitério...
Que povo estranho no porão profundo!
Emigrantes sombrios que se embarcam
Para as plagas sem fim do outro mundo.
Tem os fogos — errantes — por santelmo.
Tem por velame — os panos do sudário...
Por mastro — o vulto esguio do cipreste,
Por gaivotas — o mocho funerário...
Ali ninguém se firma a um braço amigo
Do inverno pelas lúgubres noitadas...
No tombadilho indiferentes chocam-se
E nas trevas esbarram-se as ossadas...
Como deve custar ao pobre morto
Ver as plagas da vida além perdidas,
Sem ver o branco fumo de seus lares
Levantar-se por entre as avenidas!...
Oh! perguntai aos frios esqueletos
Por que não têm o coração no peito...
E um deles vos dirá "Deixei-o há pouco
De minha amante no lascivo leito."
Outro: "Dei-o a meu pai". Outro: "Esqueci-o
Nas inocentes mãos de meu filhinho"...
...Meus amigos! Notai... bem como um pássaro
O coração do morto volta ao ninho!...
São Paulo, março de 1869.
Publicado no livro Espumas flutuantes: poesias de Castro Alves, estudante do quarto ano da Faculdade de Direito de S. Paulo (1870).
In: ALVES, Castro. Obra completa. Org. e notas Eugênio Gomes. Rio de Janeiro: Nova Aguilar, 198
Já não me arranca um riso. A rósea tarde
Já não me doura as descoradas faces
Que gélidas se encovam.
JUNQUEIRA FREIRE
Quando eu morrer... não lancem meu cadáver
No fosso de um sombrio cemitério...
Odeio o mausoléu que espera o morto
Como o viajante desse hotel funéreo.
Corre nas veias negras desse mármore
Não sei que sangue vil de messalina,
A cova, num bocejo indiferente,
Abre ao primeiro o boca libertina.
Ei-la a nau do sepulcro — o cemitério...
Que povo estranho no porão profundo!
Emigrantes sombrios que se embarcam
Para as plagas sem fim do outro mundo.
Tem os fogos — errantes — por santelmo.
Tem por velame — os panos do sudário...
Por mastro — o vulto esguio do cipreste,
Por gaivotas — o mocho funerário...
Ali ninguém se firma a um braço amigo
Do inverno pelas lúgubres noitadas...
No tombadilho indiferentes chocam-se
E nas trevas esbarram-se as ossadas...
Como deve custar ao pobre morto
Ver as plagas da vida além perdidas,
Sem ver o branco fumo de seus lares
Levantar-se por entre as avenidas!...
Oh! perguntai aos frios esqueletos
Por que não têm o coração no peito...
E um deles vos dirá "Deixei-o há pouco
De minha amante no lascivo leito."
Outro: "Dei-o a meu pai". Outro: "Esqueci-o
Nas inocentes mãos de meu filhinho"...
...Meus amigos! Notai... bem como um pássaro
O coração do morto volta ao ninho!...
São Paulo, março de 1869.
Publicado no livro Espumas flutuantes: poesias de Castro Alves, estudante do quarto ano da Faculdade de Direito de S. Paulo (1870).
In: ALVES, Castro. Obra completa. Org. e notas Eugênio Gomes. Rio de Janeiro: Nova Aguilar, 198
3 378
Henriqueta Lisboa
Melancolia
Água negra
negros bordes
poço negro
com flor.
Água turva
densa escuma
turvo limo
com flor.
Noite espessa
sem lanterna
espesso poço
com flor.
sobra, corpo
de serpente
na oferenda
da flor
Risco de morte
violenta,
árdua morte
de asfixia
veneno letal
fatal
quase que puro
suicídio
com uma
lenta
lenta
flor.
Publicado no livro A Face Lívida: poesia, 1941/1945 (1945).
In: LISBOA, Henriqueta. Obras completas I: poesia geral, 1929/1983. Pref. Fábio Lucas. São Paulo: Duas Cidades, 198
negros bordes
poço negro
com flor.
Água turva
densa escuma
turvo limo
com flor.
Noite espessa
sem lanterna
espesso poço
com flor.
sobra, corpo
de serpente
na oferenda
da flor
Risco de morte
violenta,
árdua morte
de asfixia
veneno letal
fatal
quase que puro
suicídio
com uma
lenta
lenta
flor.
Publicado no livro A Face Lívida: poesia, 1941/1945 (1945).
In: LISBOA, Henriqueta. Obras completas I: poesia geral, 1929/1983. Pref. Fábio Lucas. São Paulo: Duas Cidades, 198
1 780
Henriqueta Lisboa
Em Sobressalto
As notícias me sobressaltam. Dia a dia
cada vez mais terríveis.
Brotam da terra pelos poros
entram pela janela em silvos ásperos
fazem pilha no chão em letras tortas
caem das nuvens em mortalhas.
E já são outras realidades apostas
ao retoque dos memorandos
às interpretações da ribalta
ao sortilégio da casa dos contos
ao ruminar dos bois — fuga e refúgio.
Em confronto são dúbias
precipitam-se acotovelam-se
em contramarcha se repelem.
Na deturpação do humano
anunciam com alvoroço
através de pinças de fogo
em cartazes de gelo
— o suicídio da multidão em nome de Deus
— o império do vício em nome da Arte
— o sequestro do juiz em prol da Justiça
— o arremesso de touros em via pública
para a alegria dos que se salvam.
Recuso-me a acreditar nas notícias
mas elas se impõem de cátedra
com implacável desfaçatez
talvez para convencer-nos
de que somos todos culpados.
Agem assim como tóxicos
impunemente sorvidos
nas delongas do tédio.
A busca de notícias é um mórbido
caminhar para a cruz
Sem embargo as procuro com empenho
na expectativa tantas vezes vã
de que à noite se mudem
na reparação no contraveneno
das notícias colhidas pela manhã.
Publicado no livro Pousada do Ser (1982).
In: LISBOA, Henriqueta. Obras completas I: poesia geral, 1929/1983. Pref. Fábio Lucas. São Paulo: Duas Cidades, 198
cada vez mais terríveis.
Brotam da terra pelos poros
entram pela janela em silvos ásperos
fazem pilha no chão em letras tortas
caem das nuvens em mortalhas.
E já são outras realidades apostas
ao retoque dos memorandos
às interpretações da ribalta
ao sortilégio da casa dos contos
ao ruminar dos bois — fuga e refúgio.
Em confronto são dúbias
precipitam-se acotovelam-se
em contramarcha se repelem.
Na deturpação do humano
anunciam com alvoroço
através de pinças de fogo
em cartazes de gelo
— o suicídio da multidão em nome de Deus
— o império do vício em nome da Arte
— o sequestro do juiz em prol da Justiça
— o arremesso de touros em via pública
para a alegria dos que se salvam.
Recuso-me a acreditar nas notícias
mas elas se impõem de cátedra
com implacável desfaçatez
talvez para convencer-nos
de que somos todos culpados.
Agem assim como tóxicos
impunemente sorvidos
nas delongas do tédio.
A busca de notícias é um mórbido
caminhar para a cruz
Sem embargo as procuro com empenho
na expectativa tantas vezes vã
de que à noite se mudem
na reparação no contraveneno
das notícias colhidas pela manhã.
Publicado no livro Pousada do Ser (1982).
In: LISBOA, Henriqueta. Obras completas I: poesia geral, 1929/1983. Pref. Fábio Lucas. São Paulo: Duas Cidades, 198
1 200
Luís Guimarães Júnior
A Jangada
Cinco paus mal seguros e enlaçados
Vão através dos ventos tormentosos:
Neles confiam mais que jubilosos
Dois pescadores nus e desgraçados.
Essa prancha que em saltos arrojados
Corta o mar como os lenhos poderosos,
Resume a vida, a fé — resume os gozos
Dos miseráveis rotos e esfaimados.
Nós também, alma minha, as desventuras
Bem conhecemos: — forte e esperançada
Sulcas do mundo o pranto e as vagas duras.
Que importa! A crença é tudo e a morte é nada,
E neste fundo abismo de amarguras
Uma esperança vale uma jangada.
Poema integrante da série Terceira Parte.
In: GUIMARÃES JÚNIOR, Luiz. Sonetos e rimas: lírica. 3.ed. Pref. Fialho d'Almeida. Lisboa: Liv. Clássica Ed. de A. M. Teixeira, 191
Vão através dos ventos tormentosos:
Neles confiam mais que jubilosos
Dois pescadores nus e desgraçados.
Essa prancha que em saltos arrojados
Corta o mar como os lenhos poderosos,
Resume a vida, a fé — resume os gozos
Dos miseráveis rotos e esfaimados.
Nós também, alma minha, as desventuras
Bem conhecemos: — forte e esperançada
Sulcas do mundo o pranto e as vagas duras.
Que importa! A crença é tudo e a morte é nada,
E neste fundo abismo de amarguras
Uma esperança vale uma jangada.
Poema integrante da série Terceira Parte.
In: GUIMARÃES JÚNIOR, Luiz. Sonetos e rimas: lírica. 3.ed. Pref. Fialho d'Almeida. Lisboa: Liv. Clássica Ed. de A. M. Teixeira, 191
2 061
Carlos Nejar
Considerações sobre a Morte e seus Hábitos
I Visitante insólita
A morte e seu consumo.
A morte e seu apuro.
O repuxo que ela traz, o soldo.
Desde antanho
concebemos seu vulto.
Desde antanho
a projetamos
no muro do que somos.
Limpa nos parece:
arroio, lebre.
O recuo não cabe
quando, adrede,
se cala.
Eis o aviso prévio.
Para que serve então
nossa vigília,
a escola, o calendário?
Que argumento a demove
do faro,
de unha aguçada,
do presságio?
Desde antanho
o aviso que ela dá
é de hora certa,
sem rádio, telefone
ou rezas.
O aviso é sem aviso,
recibo
de contas a pagar,
atavios, conceitos.
Está onde está.
E todos mudam de lotação
ou velocípede.
Todos mudam de cômodos.
O aluguel de nível.
Todos mudam de emprego.
Só a morte,
desde antanho,
não mudou,
não se converteu
ao rebanho.
Publicado no livro Ordenações (1969). Poema integrante da série Ordenação Primavera: Regate.
In: NEJAR, Carlos. Obra poética I. Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 1980. p.241-242. (Poiesis)
NOTA: Poema composto de 5 partes: II. Disciplina; III. Da roupa final; IV. Do hábito; V. Sepultament
A morte e seu consumo.
A morte e seu apuro.
O repuxo que ela traz, o soldo.
Desde antanho
concebemos seu vulto.
Desde antanho
a projetamos
no muro do que somos.
Limpa nos parece:
arroio, lebre.
O recuo não cabe
quando, adrede,
se cala.
Eis o aviso prévio.
Para que serve então
nossa vigília,
a escola, o calendário?
Que argumento a demove
do faro,
de unha aguçada,
do presságio?
Desde antanho
o aviso que ela dá
é de hora certa,
sem rádio, telefone
ou rezas.
O aviso é sem aviso,
recibo
de contas a pagar,
atavios, conceitos.
Está onde está.
E todos mudam de lotação
ou velocípede.
Todos mudam de cômodos.
O aluguel de nível.
Todos mudam de emprego.
Só a morte,
desde antanho,
não mudou,
não se converteu
ao rebanho.
Publicado no livro Ordenações (1969). Poema integrante da série Ordenação Primavera: Regate.
In: NEJAR, Carlos. Obra poética I. Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 1980. p.241-242. (Poiesis)
NOTA: Poema composto de 5 partes: II. Disciplina; III. Da roupa final; IV. Do hábito; V. Sepultament
959
Henriqueta Lisboa
A Face Lívida [Lábios que não se abrem, lábios
Lábios que não se abrem, lábios
com seu segredo
calado
Segredo no ermo da noite
resiste à rosa dos ventos
calado.
Flauta sem a vibração
do sopro.
Luar e espelho, frente a frente,
em calada
vigília.
Fria espada unida
ao corpo.
Resto de lágrimas sobre
lábios
calados.
Borboleta da morte
em sorvo
pousada à flor dos lábios
calados
calados.
Publicado no livro A Face Lívida: poesia, 1941/1945 (1945).
In: LISBOA, Henriqueta. Obras completas I: poesia geral, 1929/1983. Pref. Fábio Lucas. São Paulo: Duas Cidades, 198
com seu segredo
calado
Segredo no ermo da noite
resiste à rosa dos ventos
calado.
Flauta sem a vibração
do sopro.
Luar e espelho, frente a frente,
em calada
vigília.
Fria espada unida
ao corpo.
Resto de lágrimas sobre
lábios
calados.
Borboleta da morte
em sorvo
pousada à flor dos lábios
calados
calados.
Publicado no livro A Face Lívida: poesia, 1941/1945 (1945).
In: LISBOA, Henriqueta. Obras completas I: poesia geral, 1929/1983. Pref. Fábio Lucas. São Paulo: Duas Cidades, 198
1 704
Armando Freitas Filho
Micro
Boca de rato. Morte.
Não há saída viva da vida.
Murmúrio de rádio através dos muros.
Vozes miúdas
roendo por dentro
no dia-a-dia
de mordidas mínimas e minuciosas.
16 nov. 89
In: FREITAS FILHO, Armando. Cabeça de homem, 1987/1990. Pref. Luiz Costa Lima. Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 1991. (Poesia brasileira)
Não há saída viva da vida.
Murmúrio de rádio através dos muros.
Vozes miúdas
roendo por dentro
no dia-a-dia
de mordidas mínimas e minuciosas.
16 nov. 89
In: FREITAS FILHO, Armando. Cabeça de homem, 1987/1990. Pref. Luiz Costa Lima. Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 1991. (Poesia brasileira)
1 271
Maria Helena Nery Garcez
Tess
Que cortejo é este que avança com sanfonas pela estrada?
De morte é,
certamente,
embora toque e dance.
Se, desesperadamente, sei o final,
por que é que então,
desesperadamente,
o miolo me obceca?
Se Romeu perde Julieta
e por ela é igualmente perdido,
se,
ao fim e ao cabo,
Hamlet tomba ao fio da espada,
o que é que me leva a torcer?
a sofrer?
a vibrar?
O que, como Abraão,
a esperar contra toda a esperança?
a desejar uma posteridade mais numerosa que os grãos de areia
e as estrelas do céu?
Que cortejo é este, Deus meu,
que avança com sanfonas de morte e dança pela estrada?
In: GARCEZ, Maria Helena Nery. Conta gotas. São Paulo: J. Scortecci, 1987
De morte é,
certamente,
embora toque e dance.
Se, desesperadamente, sei o final,
por que é que então,
desesperadamente,
o miolo me obceca?
Se Romeu perde Julieta
e por ela é igualmente perdido,
se,
ao fim e ao cabo,
Hamlet tomba ao fio da espada,
o que é que me leva a torcer?
a sofrer?
a vibrar?
O que, como Abraão,
a esperar contra toda a esperança?
a desejar uma posteridade mais numerosa que os grãos de areia
e as estrelas do céu?
Que cortejo é este, Deus meu,
que avança com sanfonas de morte e dança pela estrada?
In: GARCEZ, Maria Helena Nery. Conta gotas. São Paulo: J. Scortecci, 1987
885
Capinan
O Poeta
O poeta não mente. Dificulta.
Como ser falso o caminho?
A mensagem é luminosa, flui, a mensagem é líquida.
Mentira que o poema sublime
O medo e o sofrimento.
O poema é trabalhado, dói, o poema é amargo.
O poeta não fugiu ao poema.
O verso amadurece como fruto:
Revela-se a semente quando a fome o parte.
O poeta não idealiza.
Seu caminho é humano
(Mas que pode o poeta se não lhe alcançam o símbolo?)
O poeta é gago.
Se não o amam, se não o esperam,
Não se elucida a palavra e o vôo cai.
A ponte ou às vezes o rio:
O poeta não está sobre as coisas,
O poeta depende, o poeta as sofre.
É homem o poeta.
Sofre o tempo, a fome e o corpo
Da mulher amada, como chora e morre e chora.
O poeta é livre para danificar a ave.
O poeta não danifica a ave,
Executa sem matar, porque o poema é propriamente e não ave.
In: CAPINAN. Inquisitorial. Introdução de José Guilherme Merquior. 2. ed. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira, 1995. p. 44-4
Como ser falso o caminho?
A mensagem é luminosa, flui, a mensagem é líquida.
Mentira que o poema sublime
O medo e o sofrimento.
O poema é trabalhado, dói, o poema é amargo.
O poeta não fugiu ao poema.
O verso amadurece como fruto:
Revela-se a semente quando a fome o parte.
O poeta não idealiza.
Seu caminho é humano
(Mas que pode o poeta se não lhe alcançam o símbolo?)
O poeta é gago.
Se não o amam, se não o esperam,
Não se elucida a palavra e o vôo cai.
A ponte ou às vezes o rio:
O poeta não está sobre as coisas,
O poeta depende, o poeta as sofre.
É homem o poeta.
Sofre o tempo, a fome e o corpo
Da mulher amada, como chora e morre e chora.
O poeta é livre para danificar a ave.
O poeta não danifica a ave,
Executa sem matar, porque o poema é propriamente e não ave.
In: CAPINAN. Inquisitorial. Introdução de José Guilherme Merquior. 2. ed. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira, 1995. p. 44-4
1 188
D. Pedro II
III - A Idéia Consoladora
Vendo as ondas correr para o ocidente,
Corre mais do que elas a saudade,
Mas espero que a minha enfermidade
O mesmo me consinta brevemente.
Com saúde mais lustre dar à mente
É cousa que enobrece a humanidade;
Contudo agora o paga a amizade
Da pátria, e da família, cruelmente;
Mas consola-me a idéia, — que mais forte
Lhes voltarei para melhor amá-los,
Pois mais anos assim até a morte
Eu mostrarei que sempre quis ligá-los
Na feliz, e também na infeliz sorte
Para, amando-os, ainda consolá-los.
Bordo do Gironde, 4 de Julho de 1887.
In: D. PEDRO II. Poesias completas de D. Pedro II: originais e traduções, sonetos do exílio, autênticas e apócrifas. Prefácio de Medeiros e Albuquerque. Rio de Janeiro: Guanabara, 1932. Poema integrante da série Poesias Autênticas
Corre mais do que elas a saudade,
Mas espero que a minha enfermidade
O mesmo me consinta brevemente.
Com saúde mais lustre dar à mente
É cousa que enobrece a humanidade;
Contudo agora o paga a amizade
Da pátria, e da família, cruelmente;
Mas consola-me a idéia, — que mais forte
Lhes voltarei para melhor amá-los,
Pois mais anos assim até a morte
Eu mostrarei que sempre quis ligá-los
Na feliz, e também na infeliz sorte
Para, amando-os, ainda consolá-los.
Bordo do Gironde, 4 de Julho de 1887.
In: D. PEDRO II. Poesias completas de D. Pedro II: originais e traduções, sonetos do exílio, autênticas e apócrifas. Prefácio de Medeiros e Albuquerque. Rio de Janeiro: Guanabara, 1932. Poema integrante da série Poesias Autênticas
1 428
Neide Archanjo
Não estamos perdidos
Não estamos perdidos.
Isto é um milagre. Ter um corpo
uma casa um amigo
manter nas veias o sangue aceso
é um milagre. Saber que houve alguém
que nos acariciou
e nos banhou de lágrimas.
Só
no meio da rua
penso nestas dádivas
antes que a lâmina da morte me atravesse.
Poema integrante da série I - Da Morte.
In: ARCHANJO, Neide. Tudo é sempre agora. Posfácio de Júlio Diniz. São Paulo: Maltese, 1994
Isto é um milagre. Ter um corpo
uma casa um amigo
manter nas veias o sangue aceso
é um milagre. Saber que houve alguém
que nos acariciou
e nos banhou de lágrimas.
Só
no meio da rua
penso nestas dádivas
antes que a lâmina da morte me atravesse.
Poema integrante da série I - Da Morte.
In: ARCHANJO, Neide. Tudo é sempre agora. Posfácio de Júlio Diniz. São Paulo: Maltese, 1994
1 087
Régis Bonvicino
Dias em Seguida
estoit il lors temps de moy taire?
françois villon
vida — a que me convidas?
aos becos sem saída,
às noites mal dormidas,
à esperança perdida,
ao dano dos inseticidas,
à brasília podrida,
à fé de n. s. aparecida,
às idéias traídas,
às poesias reunidas,
às migalhas do rei midas,
às verdades não vividas,
aos dias em seguida?
vida — a que me condenas?
à retribuição das penas,
ao riso das hienas,
aos banqueiros da onzena,
ao assassino de viena,
à boa alma de mecenas,
ao remorso de madalena,
ao socorro da sirena,
ao torpor das cantilenas,
à calvície de melena,
ao destino das antenas,
a morrer apenas?
In: BONVICINO, Régis. 33 poemas. São Paulo: Iluminuras: Secretaria de Estado da Cultura, 1990.
NOTA: Publicado no Folhetim de 01 jan. 1988; Este poema foi escrito no dia do 88o. aniversário da Repúblic
françois villon
vida — a que me convidas?
aos becos sem saída,
às noites mal dormidas,
à esperança perdida,
ao dano dos inseticidas,
à brasília podrida,
à fé de n. s. aparecida,
às idéias traídas,
às poesias reunidas,
às migalhas do rei midas,
às verdades não vividas,
aos dias em seguida?
vida — a que me condenas?
à retribuição das penas,
ao riso das hienas,
aos banqueiros da onzena,
ao assassino de viena,
à boa alma de mecenas,
ao remorso de madalena,
ao socorro da sirena,
ao torpor das cantilenas,
à calvície de melena,
ao destino das antenas,
a morrer apenas?
In: BONVICINO, Régis. 33 poemas. São Paulo: Iluminuras: Secretaria de Estado da Cultura, 1990.
NOTA: Publicado no Folhetim de 01 jan. 1988; Este poema foi escrito no dia do 88o. aniversário da Repúblic
1 366
Neide Archanjo
No jardim do mosteiro
No jardim do mosteiro
silêncios envolvem o monge
e seu livro de horas.
Ele sabe da sombra infinita
que espera lá fora.
É velho o monge
e morrerá com ele
alguma frase em latim
uma entonação gregoriana
seu rosário suas sandálias
e um pouco de mim.
Poema integrante da série I - Da Morte.
In: ARCHANJO, Neide. Tudo é sempre agora. Posfácio de Júlio Diniz. São Paulo: Maltese, 1994
silêncios envolvem o monge
e seu livro de horas.
Ele sabe da sombra infinita
que espera lá fora.
É velho o monge
e morrerá com ele
alguma frase em latim
uma entonação gregoriana
seu rosário suas sandálias
e um pouco de mim.
Poema integrante da série I - Da Morte.
In: ARCHANJO, Neide. Tudo é sempre agora. Posfácio de Júlio Diniz. São Paulo: Maltese, 1994
1 166
Antônio Barreto
Sobre as Virtudes da Preguiça
Não devemos fazer nada em Agosto.
Agosto, dizem os jornais mais corajosos,
é sombrio, anticatólico e meditabundo.
Assim posto, não devemos fazer nada em Agosto.
Agosto é o mês das bruxas, das rixas e das tragédias.
Devemos ficar trancados em casa, em Agosto,
comendo salgadinhos e rezando às Almas
que as almas sempre soltam suas rédeas
mesmo quando não as queremos soltas.
Não devemos fazer nada em Agosto:
alguma coisa tenebrosa lhe cavalga o dorso.
Assim, devemos ficar à toa em Agosto
Esperando a morte, sem remorso.
In: BARRETO, Antônio. Vastafala: poesia. São Paulo: Scipione: Fundação Nestlé de Cultura, 1988. p.64. Poema integrante da série Revelações do Abismo.
Agosto, dizem os jornais mais corajosos,
é sombrio, anticatólico e meditabundo.
Assim posto, não devemos fazer nada em Agosto.
Agosto é o mês das bruxas, das rixas e das tragédias.
Devemos ficar trancados em casa, em Agosto,
comendo salgadinhos e rezando às Almas
que as almas sempre soltam suas rédeas
mesmo quando não as queremos soltas.
Não devemos fazer nada em Agosto:
alguma coisa tenebrosa lhe cavalga o dorso.
Assim, devemos ficar à toa em Agosto
Esperando a morte, sem remorso.
In: BARRETO, Antônio. Vastafala: poesia. São Paulo: Scipione: Fundação Nestlé de Cultura, 1988. p.64. Poema integrante da série Revelações do Abismo.
1 507
Odylo Costa Filho
Os Objetos
No fechado silêncio dos objetos
mais simples mora um toque de magia.
De um só tijolo nasce a casa: afetos,
barro, sol, água, mesa, moradia,
e a presença tenaz das mãos humanas,
afeiçoando o mistério da existência
e dando às coisas mais quotidianas
senso de vida — e de sobrevivência.
Chardin, quando há dois séculos viveu,
uma arraia pintou, disforme, aberta
em sangue e dentes, agressiva e forte.
Veio o tempo e com ele emudeceu
muita glória que a moda julgou certa.
Aquela arraia sobrevive à morte.
Poema integrante da série Os Mirantes do Ilhéu.
In: COSTA, FILHO, Odylo. Boca da noite. Rio de Janeiro: Salamandra, 1979
mais simples mora um toque de magia.
De um só tijolo nasce a casa: afetos,
barro, sol, água, mesa, moradia,
e a presença tenaz das mãos humanas,
afeiçoando o mistério da existência
e dando às coisas mais quotidianas
senso de vida — e de sobrevivência.
Chardin, quando há dois séculos viveu,
uma arraia pintou, disforme, aberta
em sangue e dentes, agressiva e forte.
Veio o tempo e com ele emudeceu
muita glória que a moda julgou certa.
Aquela arraia sobrevive à morte.
Poema integrante da série Os Mirantes do Ilhéu.
In: COSTA, FILHO, Odylo. Boca da noite. Rio de Janeiro: Salamandra, 1979
1 257
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