Fé Espiritualidade e Religião
Poemas neste tema
Renato Rezende
Ensaio
Deitado na cama, sozinho, escrevo
porque escrever
é a única coisa que me dá prazer:
Penso em morrer.
Em acercar-me de ti, Deus, humildemente:
Senhor, já cumpri 32 anos
e a minha vida está completa.
Não quero ser poeta nem santo,
deixa-me partir.
Mas não se morre quando se quer
e sim quando se pode.
Deitado na cama, olhos fechados
ensaio a minha morte.
Nova York, 10 de março 1996
porque escrever
é a única coisa que me dá prazer:
Penso em morrer.
Em acercar-me de ti, Deus, humildemente:
Senhor, já cumpri 32 anos
e a minha vida está completa.
Não quero ser poeta nem santo,
deixa-me partir.
Mas não se morre quando se quer
e sim quando se pode.
Deitado na cama, olhos fechados
ensaio a minha morte.
Nova York, 10 de março 1996
928
Renato Rezende
Asas
Como uma borboleta às vezes voa baixo
e acaba
atropelada
nas ruas desta cidade;
luz e azul
estagnados
estampados
no negro do asfalto;
anjo crucificado
entre carros que passam,
minha vida
morna e delicada
beijou a parede e o asfalto, trêmula
nas encostas do precipício.
Sento-me rente
à calçada
na raíz de uma enorme árvore, só
entre a sarjeta e o asfalto,
entre o tempo e a morte.
Ó alta e sábia árvore.
Ó árvore,
eu beijo tua casca--
tua grossa, antiga casca.
Imagino que esta árvore mágica
poderia destruir a cidade
e transformá-la novamente em mata.
Imagino e sou salvo.
No meio da mata Atlântica
no tempo vegetal
como uma larva
eu subo a alta árvore
até o céu.
O céu anil
das asas de uma borboleta livre
sobre o mar terrestre.
Subo e sou
luz e crisálida,
um pouco já raio e êxtase.
Quero vertigens transparentes,
quero o grande salto d'alma.
Deus, será que dava, de onde eu caio
fazer-me santo rápido,
algum tipo de pássaro,
dar-me asas?
Rio de Janeiro, 4 de maio 1997
e acaba
atropelada
nas ruas desta cidade;
luz e azul
estagnados
estampados
no negro do asfalto;
anjo crucificado
entre carros que passam,
minha vida
morna e delicada
beijou a parede e o asfalto, trêmula
nas encostas do precipício.
Sento-me rente
à calçada
na raíz de uma enorme árvore, só
entre a sarjeta e o asfalto,
entre o tempo e a morte.
Ó alta e sábia árvore.
Ó árvore,
eu beijo tua casca--
tua grossa, antiga casca.
Imagino que esta árvore mágica
poderia destruir a cidade
e transformá-la novamente em mata.
Imagino e sou salvo.
No meio da mata Atlântica
no tempo vegetal
como uma larva
eu subo a alta árvore
até o céu.
O céu anil
das asas de uma borboleta livre
sobre o mar terrestre.
Subo e sou
luz e crisálida,
um pouco já raio e êxtase.
Quero vertigens transparentes,
quero o grande salto d'alma.
Deus, será que dava, de onde eu caio
fazer-me santo rápido,
algum tipo de pássaro,
dar-me asas?
Rio de Janeiro, 4 de maio 1997
980
Renato Rezende
Os Anjos
Um anjo desce e estende
o pequeno braço branco para mim:
--- Venha comigo
passar dez minutos no paraíso.
--- Não, eu digo,
não sou desses que têm tempo
para passear no paraíso.
Mas o anjo é misericordioso.
Sem perceber cochilo,
e por dez minutos sonho
com todas as cores do paraíso.
Boston, maio 1991
o pequeno braço branco para mim:
--- Venha comigo
passar dez minutos no paraíso.
--- Não, eu digo,
não sou desses que têm tempo
para passear no paraíso.
Mas o anjo é misericordioso.
Sem perceber cochilo,
e por dez minutos sonho
com todas as cores do paraíso.
Boston, maio 1991
1 025
Renato Rezende
À Beira do Mar, Esta Manhã
À beira do mar, esta manhã
eu fui um homem
à beira do mar.
Apenas um homem,
sem nome, sem memória:
Deus
à beira do seu mar.
Rio de Janeiro, 23 de novembro 1994
eu fui um homem
à beira do mar.
Apenas um homem,
sem nome, sem memória:
Deus
à beira do seu mar.
Rio de Janeiro, 23 de novembro 1994
941
Renato Rezende
Concepção
(Como em "Las ruinas circulares"
o sonhador sonha e é sonhado),
O homem criou Deus, da criatura
Sendo criado. Pai e filho
Em um espelho mítico unificado.
Assim, num tempo estático e revertido
Nasceram, escritor- e escrito, da poesia.
(Como misteriosamente é Fátima
mãe e filha do o poeta:
Filho da sua filha.
o sonhador sonha e é sonhado),
O homem criou Deus, da criatura
Sendo criado. Pai e filho
Em um espelho mítico unificado.
Assim, num tempo estático e revertido
Nasceram, escritor- e escrito, da poesia.
(Como misteriosamente é Fátima
mãe e filha do o poeta:
Filho da sua filha.
1 061
Ricardo Aleixo
BISPO DO ROSÁRIO
quem fez e refez
cem vezes o
caminho do mundo
até antes
cem vezes na
cabeça o longo
trecho entre o
mar e o
céu
quem re fez o
caminho da perda
com seu manto
de
ver deus filho.
cem vezes o
caminho do mundo
até antes
cem vezes na
cabeça o longo
trecho entre o
mar e o
céu
quem re fez o
caminho da perda
com seu manto
de
ver deus filho.
664
Ricardo Aleixo
NANÃ
Mãe sem marido,
avó do universo.
Senhora da alvura.
Nanã, a de rosto
sempre coberto.
Ó poderosa
dona dos cauris,
filha do grande pássaro Atioró.
Água.
Lama.
Morte.
Mãe do segredo
do mundo.
O úmido.
O que flui.
Água.
Lama.
Filhos.
Teus gestos
lentos
no fundo
da água escura.
avó do universo.
Senhora da alvura.
Nanã, a de rosto
sempre coberto.
Ó poderosa
dona dos cauris,
filha do grande pássaro Atioró.
Água.
Lama.
Morte.
Mãe do segredo
do mundo.
O úmido.
O que flui.
Água.
Lama.
Filhos.
Teus gestos
lentos
no fundo
da água escura.
768
Ricardo Aleixo
TEOFAGIA
Aqui, eu —
consumada falha
de papai e mamãe:
meia ¾ (acho
que de menina),
uma palma
e uma folha
de papel na mão,
minutos depois
de deglutir
Deus, à guisa
de primeira
comunhão.
consumada falha
de papai e mamãe:
meia ¾ (acho
que de menina),
uma palma
e uma folha
de papel na mão,
minutos depois
de deglutir
Deus, à guisa
de primeira
comunhão.
613
Ricardo Aleixo
CINE-OLHO
Um
menino
não.
Era
mais
um
felino,
um
Exu
afelinado
chispando
entre
os
carros
um
ponto
riscado
a
laser
na
noite
de
rua
cheia
para
os
lados
do
Mercado.
menino
não.
Era
mais
um
felino,
um
Exu
afelinado
chispando
entre
os
carros
um
ponto
riscado
a
laser
na
noite
de
rua
cheia
para
os
lados
do
Mercado.
732
Ricardo Aleixo
OIÁ
Repito o que
recita o vento:
que as coisas vem
a seu tempo,
que elas sabem
qual tempo é o delas,
que esse tempo
quase nunca
é o dos viventes mas
que, assim sendo,
forca é render-se
á forca delas
movendo-se folha
ao vento, rasgacéus,
deusa ciosa das coisas
que lhe ofertem
e de cada corpo quando
dance na festa
em seu nome ao vento
veja-a: resplendente
aqui, já recontando
ali-epa, Oiá-Ó!
recita o vento:
que as coisas vem
a seu tempo,
que elas sabem
qual tempo é o delas,
que esse tempo
quase nunca
é o dos viventes mas
que, assim sendo,
forca é render-se
á forca delas
movendo-se folha
ao vento, rasgacéus,
deusa ciosa das coisas
que lhe ofertem
e de cada corpo quando
dance na festa
em seu nome ao vento
veja-a: resplendente
aqui, já recontando
ali-epa, Oiá-Ó!
811
Ricardo Aleixo
CANTIGA DE CAMINHO
Sou filho de mãe mineira
meu pai é de Minas Gerais
sei rezar latim pro nobis
sou primo do preto Brás
Sou filho de pai mineiro
mamãe é de Minas Gerais
vou vivendo como vivo
faço o que ninguém mais faz
Desde menino eu misturo
o antes, o agora e o depois
sei somar zero com zero
e ainda divido por dois
Desde menino eu misturo
o antes, o agora e o depois
sempre que posso eu passo
o carro à frente dos bois
Sou filho de pai mineiro
mamãe é de Minas Gerais
sou rosa e pedra no caminho
sou capaz de guerra e paz
Sou filho de mãe mineira
meu pai é de Minas Gerais
dou volta e meia no mundo
e o mundo não acaba mais
meu pai é de Minas Gerais
sei rezar latim pro nobis
sou primo do preto Brás
Sou filho de pai mineiro
mamãe é de Minas Gerais
vou vivendo como vivo
faço o que ninguém mais faz
Desde menino eu misturo
o antes, o agora e o depois
sei somar zero com zero
e ainda divido por dois
Desde menino eu misturo
o antes, o agora e o depois
sempre que posso eu passo
o carro à frente dos bois
Sou filho de pai mineiro
mamãe é de Minas Gerais
sou rosa e pedra no caminho
sou capaz de guerra e paz
Sou filho de mãe mineira
meu pai é de Minas Gerais
dou volta e meia no mundo
e o mundo não acaba mais
772
Cida Pedrosa
ladainha para alberto da cunha melo
para a alma do poeta que se foi
eu rogo ao poema que componha o silêncio
para a alma do sertanejo que se foi
eu rogo ao poema que se empalhe em chuva
para a alma da criança que se foi
eu rogo ao poema que confeite a vida
para a alma da negra que se foi
eu rogo ao poema que se emplume em pássaro
para a alma do pobre que se foi
eu rogo ao poema que petrifique o pão
para a alma do revolucionário que se foi
eu rogo ao poema que ampute o sonho
para a alma do músico que se foi
eu rogo ao poema que dedilhe o chão
para a alma do filho que se foi
eu rogo ao poema que psicografe a falta
para a alma do palhaço que se foi
eu rogo ao poema que reinvente a cor
para alma da mulher que se foi
eu rogo ao poema que alcance as asas
para a alma do poema que se foi
eu rogo à poesia que borde os sentidos
para a alma do verso que se foi
eu rogo à palavra que se parta em várias
para a alma da palavra que se foi
eu rogo ao poeta que se ajoelhe e crie
eu rogo ao poema que componha o silêncio
para a alma do sertanejo que se foi
eu rogo ao poema que se empalhe em chuva
para a alma da criança que se foi
eu rogo ao poema que confeite a vida
para a alma da negra que se foi
eu rogo ao poema que se emplume em pássaro
para a alma do pobre que se foi
eu rogo ao poema que petrifique o pão
para a alma do revolucionário que se foi
eu rogo ao poema que ampute o sonho
para a alma do músico que se foi
eu rogo ao poema que dedilhe o chão
para a alma do filho que se foi
eu rogo ao poema que psicografe a falta
para a alma do palhaço que se foi
eu rogo ao poema que reinvente a cor
para alma da mulher que se foi
eu rogo ao poema que alcance as asas
para a alma do poema que se foi
eu rogo à poesia que borde os sentidos
para a alma do verso que se foi
eu rogo à palavra que se parta em várias
para a alma da palavra que se foi
eu rogo ao poeta que se ajoelhe e crie
905
Marco Lucchesi
Como dizer Villaça
Como dizer Villaça
os medos
que devastavam teu coração?
o mosteiro errante
ao qual pertencias
e para o qual não sabias voltar
monge sem mosteiro
saltimbanco de um
circo místico
o perene abandono
de deus
e dos homens
sob cuja
sombra inquieto
te guardavas
esse crepúsculo de amores
não vividos
e tua anfíbia
condição de céu
e terra pecado
e salvação
essa memória
impenitente
era teu inefável luminoso labirinto
a luz
de que surgiam
os mortos
para tomar café
todas as tardes
na praia do flamengo
teu coração
feroz
e compassivo
e os mortos devastados
redivivos pelo deus cruel
e solitário da memória
das sentenças
de Abelardo aos livros
de Gilberto Amado
das cartas de Alceu
aos poemas
de Drummond
um deus que não sabia
nada de si mesmo
preso às teias de um fatal esquecimento
a tirania sagrada
que impuseste para esconder
as formas frágeis de teu rosto
tuas palavras tendiam
ao silêncio transformadas
de há muito em estrelas
e um anjo precisaria
arrancá-las de teus olhos
antes que se dissolvessem
na luz
das coisas
fundas que alcançavas
mas ele não veio
e te salvaste apenas
das atrocidades do mundo
não do abismo
de tua vasta
mortal delicada inocência
os medos
que devastavam teu coração?
o mosteiro errante
ao qual pertencias
e para o qual não sabias voltar
monge sem mosteiro
saltimbanco de um
circo místico
o perene abandono
de deus
e dos homens
sob cuja
sombra inquieto
te guardavas
esse crepúsculo de amores
não vividos
e tua anfíbia
condição de céu
e terra pecado
e salvação
essa memória
impenitente
era teu inefável luminoso labirinto
a luz
de que surgiam
os mortos
para tomar café
todas as tardes
na praia do flamengo
teu coração
feroz
e compassivo
e os mortos devastados
redivivos pelo deus cruel
e solitário da memória
das sentenças
de Abelardo aos livros
de Gilberto Amado
das cartas de Alceu
aos poemas
de Drummond
um deus que não sabia
nada de si mesmo
preso às teias de um fatal esquecimento
a tirania sagrada
que impuseste para esconder
as formas frágeis de teu rosto
tuas palavras tendiam
ao silêncio transformadas
de há muito em estrelas
e um anjo precisaria
arrancá-las de teus olhos
antes que se dissolvessem
na luz
das coisas
fundas que alcançavas
mas ele não veio
e te salvaste apenas
das atrocidades do mundo
não do abismo
de tua vasta
mortal delicada inocência
661
Marco Lucchesi
Santa Cruz
Constança foi ao céu me visitar
seu vestido era verde
como as pedras
de Itacoatiara
trazia nos olhos
um canarinho
um buquê de flores
e os seios de minha mãe
soprou em meus pulmões
como quem salva um
afogado
nas terras ínvias do coração
inundadas
de pranto e algaravia
deitou ali todas as flores
como se fosse o Éden
num céu terrivelmente
azul
(havemos
todos de ressuscitar
um dia sob esse mesmo
azul )
o vento de meus pulmões
canta e silencia
recua e avança
não escondo minhas lágrimas
Jesus também chorou
no Jardim das Oliveiras
a vida é um arquipélago
de amor atormentado
uma Roma
que se debate em delírios
enquanto espera
a chegada dos bárbaros
ou a vinda
fulminante do Messias
seu vestido era verde
como as pedras
de Itacoatiara
trazia nos olhos
um canarinho
um buquê de flores
e os seios de minha mãe
soprou em meus pulmões
como quem salva um
afogado
nas terras ínvias do coração
inundadas
de pranto e algaravia
deitou ali todas as flores
como se fosse o Éden
num céu terrivelmente
azul
(havemos
todos de ressuscitar
um dia sob esse mesmo
azul )
o vento de meus pulmões
canta e silencia
recua e avança
não escondo minhas lágrimas
Jesus também chorou
no Jardim das Oliveiras
a vida é um arquipélago
de amor atormentado
uma Roma
que se debate em delírios
enquanto espera
a chegada dos bárbaros
ou a vinda
fulminante do Messias
762
Mailson Furtado Viana
crônica de um homem de fé
não era de frequentar igrejas
mas era crente nalguma coisa
na volta do trabalho
na barraca de cachorro-quente
um senhor discursava
preâmbulos do fim do mundo
o juízo final se aproxima
sentiu medo
ao chegar em casa
perguntou à mulher
como se rezava o pai-nosso
mas era crente nalguma coisa
na volta do trabalho
na barraca de cachorro-quente
um senhor discursava
preâmbulos do fim do mundo
o juízo final se aproxima
sentiu medo
ao chegar em casa
perguntou à mulher
como se rezava o pai-nosso
590
Alexandre Guarnieri
cotidianometria
fitter, healthier and more productive
a pig in a cage on antibiotics
Radiohead (OK Computer, 1997)
suje as digitais de tinta /
não sorria na fotografia / cabelo cortado
apare quaisquer outros pelos /
dentifrício, desodorante / e necessário o asseio
remova óculos ou lentes / renove o ânimo
mantenha a cabeça a um determinado ângulo
sopre o bafômetro / prenda o fôlego
língua para fora, barriga para dentro
inspire, expire / (sexo oral à la marilyn manson)
nunca deixe para amanhã, faça hoje mesmo
submeta-se ao exame / não perca mais tempo
preencha corretamente os dados /
sempre recadastre-se no prazo
silicone nos seios / correção de septo
as quatro cópias no cartório / melhor prevenir
do que remediar / beba mais água, evite o álcool
livre-se da gordura hidrogenada
(opte pela salada crua) / não esqueça a data
se confesse com marcelo rossi
ao som do padre fábio de melo
guarde-se para o rapaz certo / sexo
só depois do casamento / não gaste água,
mas escove os dentes sempre
mocinhas vestem-se com decência
respeite a fila / pague em dia
seja condescendente diante da ignorância alheia
tome o remédio / tudo no horário
vá ao cinema (assista a um filme inédito)
em caso de vida ou morte: aperte o botão vermelho
a pig in a cage on antibiotics
Radiohead (OK Computer, 1997)
suje as digitais de tinta /
não sorria na fotografia / cabelo cortado
apare quaisquer outros pelos /
dentifrício, desodorante / e necessário o asseio
remova óculos ou lentes / renove o ânimo
mantenha a cabeça a um determinado ângulo
sopre o bafômetro / prenda o fôlego
língua para fora, barriga para dentro
inspire, expire / (sexo oral à la marilyn manson)
nunca deixe para amanhã, faça hoje mesmo
submeta-se ao exame / não perca mais tempo
preencha corretamente os dados /
sempre recadastre-se no prazo
silicone nos seios / correção de septo
as quatro cópias no cartório / melhor prevenir
do que remediar / beba mais água, evite o álcool
livre-se da gordura hidrogenada
(opte pela salada crua) / não esqueça a data
se confesse com marcelo rossi
ao som do padre fábio de melo
guarde-se para o rapaz certo / sexo
só depois do casamento / não gaste água,
mas escove os dentes sempre
mocinhas vestem-se com decência
respeite a fila / pague em dia
seja condescendente diante da ignorância alheia
tome o remédio / tudo no horário
vá ao cinema (assista a um filme inédito)
em caso de vida ou morte: aperte o botão vermelho
570
Maria Lúcia Dal Farra
Loucura
A órbita da loucura é imensa.
Aviso às incautas criaturas
tanto quanto
aos navegantes sem rumo.
Nela se movem constelações superiores
ilimitadas águas
e as mãos com que Deus nos acena
(segundo a segundo)
com a sua graça.
Consolos prontos a redimir o mundo
palavras ausentes de escrita
ali se asilam
e mais
o risco do iminente abissal.
É tão amplo o rosto da loucura
que podem caber nele
quaisquer
das nossas muitas faces
– inclusive esta com que agora me empenho
em apreendê-lo.
Aviso às incautas criaturas
tanto quanto
aos navegantes sem rumo.
Nela se movem constelações superiores
ilimitadas águas
e as mãos com que Deus nos acena
(segundo a segundo)
com a sua graça.
Consolos prontos a redimir o mundo
palavras ausentes de escrita
ali se asilam
e mais
o risco do iminente abissal.
É tão amplo o rosto da loucura
que podem caber nele
quaisquer
das nossas muitas faces
– inclusive esta com que agora me empenho
em apreendê-lo.
648
Carlos Soulié do Amaral
Tragédia da monja
Incendiou-se a virilha da monja
a santa monja piedosa e pura.
O hábito que usava ela despiu
e do que era sem saber saiu
imaculada, ainda que em fervura.
Então, correndo pela capela
barroca e bela,
a monja atônita esculpiu pavor
na face de todos os santos
que não sentiam sua dor.
Em seu transe transbordado
ganhou o espaço do paço.
Nem mesmo invocou a Virgem,
nem mesmo invocou Jesus.
No ardente e pânico terror
das brasas que jamais imaginara,
a monja foi correndo, quase alada,
tombar, sem lérias e sem leros,
nos braços do poeta que sonhara
o pecado de tê-la como amada.
Deslumbrado, o poeta deslumbrou
a monja com os ímpetos mais feros,
cobrindo-a de calafrios
nas aras do altar de Eros.
Apagou-se então o incêndio
num susto de duplo mistério:
santa e vate se perderam
num embate de virilhas
entre ardores e arrepios
no paço do monastério:
santa e vate se encontraram
na história de maravilhas
de um conto que me contaram.
a santa monja piedosa e pura.
O hábito que usava ela despiu
e do que era sem saber saiu
imaculada, ainda que em fervura.
Então, correndo pela capela
barroca e bela,
a monja atônita esculpiu pavor
na face de todos os santos
que não sentiam sua dor.
Em seu transe transbordado
ganhou o espaço do paço.
Nem mesmo invocou a Virgem,
nem mesmo invocou Jesus.
No ardente e pânico terror
das brasas que jamais imaginara,
a monja foi correndo, quase alada,
tombar, sem lérias e sem leros,
nos braços do poeta que sonhara
o pecado de tê-la como amada.
Deslumbrado, o poeta deslumbrou
a monja com os ímpetos mais feros,
cobrindo-a de calafrios
nas aras do altar de Eros.
Apagou-se então o incêndio
num susto de duplo mistério:
santa e vate se perderam
num embate de virilhas
entre ardores e arrepios
no paço do monastério:
santa e vate se encontraram
na história de maravilhas
de um conto que me contaram.
618
Paulo Teixeira
Monge na orla do mar
I
Com a santidade de quem se deixou ficar
sobre um chão de cal apagada,
olha a amplidão do espaço à sua frente
num cabo lançado sobre o mar.
Permanece hirto como osso temporal
depois que o tempo passou. Presciência a sua,
imóvel, neste fundo brenhoso da noite.
Pergaminho enrugado onde lesse os sinais,
o mar fumega frases obscuras para o céu.
As gaivotas ouvem-se gritando em roda,
indo, esmoleres do escuro e das horas.
Mas nem o oceano revolto nem o céu baço
espelham verdades que lhe sirvam, hoje,
com o seu rosto de ave nocturna perscrutando
sobre um manto de basalto que lhe pesa
à imposição do Seu dono e Senhor.
Enquanto a brisa lhe cristaliza as faces,
espera que nessa fenda escura do espaço
um astro apareça e brilhe. Apoia a cabeça na mão -
pudesse e desejava para o sono a eternidade.
Com a santidade de quem se deixou ficar
sobre um chão de cal apagada,
olha a amplidão do espaço à sua frente
num cabo lançado sobre o mar.
Permanece hirto como osso temporal
depois que o tempo passou. Presciência a sua,
imóvel, neste fundo brenhoso da noite.
Pergaminho enrugado onde lesse os sinais,
o mar fumega frases obscuras para o céu.
As gaivotas ouvem-se gritando em roda,
indo, esmoleres do escuro e das horas.
Mas nem o oceano revolto nem o céu baço
espelham verdades que lhe sirvam, hoje,
com o seu rosto de ave nocturna perscrutando
sobre um manto de basalto que lhe pesa
à imposição do Seu dono e Senhor.
Enquanto a brisa lhe cristaliza as faces,
espera que nessa fenda escura do espaço
um astro apareça e brilhe. Apoia a cabeça na mão -
pudesse e desejava para o sono a eternidade.
658
Hélia Correia
7.
Nós, os ateus, nós, os monoteístas,
Nós, os que reduzimos a beleza
A pequenas tarefas, nós, os pobres
Adornados, os pobres confortáveis,
Os que a si mesmos se vigarizavam
Olhando para cima, para as torres,
Supondo que as podiam habitar,
Glória das águias que nem águias tem,
Sofremos, sim, de idêntica indigência,
Da ruína da Grécia.
Nós, os que reduzimos a beleza
A pequenas tarefas, nós, os pobres
Adornados, os pobres confortáveis,
Os que a si mesmos se vigarizavam
Olhando para cima, para as torres,
Supondo que as podiam habitar,
Glória das águias que nem águias tem,
Sofremos, sim, de idêntica indigência,
Da ruína da Grécia.
1 101
Golgona Anghel
O mundo é estranho, Sandy
«O mundo é estranho, Sandy!»
O nosso é parecido com a palavra agora.
Das mãos nasce-nos uma espécie de nostalgia trémula
que na versão alemã traduziram por dipsomania.
Quando temos sede abrimos um rio
de esperas na noite dentro
e arregaçamos as calças até aos joelhos.
Não se dê que a madrugada
nos surpreenda com as cheias.
Estou com esta doença agora, but it’s ok.
I close my eyes and drift away;
I softly say a silent pray.
Não ligues nem comentes,
just press play:
«O mundo é estranho, Sandy! O nosso é parecido.»
O nosso é parecido com a palavra agora.
Das mãos nasce-nos uma espécie de nostalgia trémula
que na versão alemã traduziram por dipsomania.
Quando temos sede abrimos um rio
de esperas na noite dentro
e arregaçamos as calças até aos joelhos.
Não se dê que a madrugada
nos surpreenda com as cheias.
Estou com esta doença agora, but it’s ok.
I close my eyes and drift away;
I softly say a silent pray.
Não ligues nem comentes,
just press play:
«O mundo é estranho, Sandy! O nosso é parecido.»
990
Karl Adolph Gjellerup
El peregrino Kamanita (fragmento)
Mientras el Sublime pronunciaba estas palabras en casa del alfarero de Rajagaha, el peregrino Kamanita despertaba en el paraíso del Oeste.
Envuelto en una túnica roja que, suave y brillante como el pétalo de una flor, caía en pliegues abundantes, se encontró, sentado en sus piernas, sobre una enorme flor de loto del color de su túnica, que flotaba en un gran estanque. Por dondequiera, en la amplia superficie del agua se veían flores de loto rojas, azules y blancas; unas todavía en brote, aunque bastante desarrolladas, pero incontables, abiertas como la suya. Y casi de todas ellas salía una figura humana, cuya vestimenta parecía haber emergido de los pétalos de las flores.
En los márgenes del estanque, en la hierba verde, reían infinitas flores, como si hubieran renacido allí, en figura de flores, todas las piedras preciosas del mundo, conservando su brillo y sus juegos de color transparente, pero cambiando la dura coraza que habían llevado en su existencia terrenal por algo de planta, blanco, flexible y vivo. El aroma que despedían era más fuerte que el de todas las esencias fragantes que pueden encerrarse en un frasco de cristal; pero tenía la frescura del olor de las flores naturales.
De esta atractiva orla de los márgenes, la mirada encantada seguía deslizándose entre árboles altos y de amplias copas con follaje de esmeralda y refulgencias de piedras preciosas, unos aislados, en grupos otros, y otros formando espesos bosques, hasta las graciosas colinas de roca, que unas veces mostraban desnudas sus formas cristalinas, marmóreas y alabastrinas, y otras se cubrían de espesa maleza o aparecían salpicadas de olorosas flores. A lo lejos se veía una cañada en que rocas y bosques se apartaban para dejar paso a un río hermoso, que silenciosamente, como una corriente de luz de estrellas, se vertía en el estanque.
Por sobre todo este paisaje lucía la bóveda de un cielo de un azul intensísimo, y bajo esta cúpula flotaban blancas nubecillas de caprichosas formas, sobre las que se posaban graciosos geniecillos, cuyos instrumentos llenaban el espacio con los sones encantados de deliciosas armonías.
En este cielo no se veía sol alguno; mas tampoco era necesario, pues de las nubecillas y los genios, de rocas y flores, del agua y de las flores de loto, de las vestiduras de los bienaventurados, y más aún de sus rostros, irradiaba una luz maravillosa y dulcísima. Y así como esta luz era de una claridad resplandeciente, sin ser por eso deslumbradora, el tibio calor, saturado de fragancias, era refrescado por la constante brisa que salía del agua, y sólo respirar este aire era un placer al que no hay nada semejante en el mundo.
Envuelto en una túnica roja que, suave y brillante como el pétalo de una flor, caía en pliegues abundantes, se encontró, sentado en sus piernas, sobre una enorme flor de loto del color de su túnica, que flotaba en un gran estanque. Por dondequiera, en la amplia superficie del agua se veían flores de loto rojas, azules y blancas; unas todavía en brote, aunque bastante desarrolladas, pero incontables, abiertas como la suya. Y casi de todas ellas salía una figura humana, cuya vestimenta parecía haber emergido de los pétalos de las flores.
En los márgenes del estanque, en la hierba verde, reían infinitas flores, como si hubieran renacido allí, en figura de flores, todas las piedras preciosas del mundo, conservando su brillo y sus juegos de color transparente, pero cambiando la dura coraza que habían llevado en su existencia terrenal por algo de planta, blanco, flexible y vivo. El aroma que despedían era más fuerte que el de todas las esencias fragantes que pueden encerrarse en un frasco de cristal; pero tenía la frescura del olor de las flores naturales.
De esta atractiva orla de los márgenes, la mirada encantada seguía deslizándose entre árboles altos y de amplias copas con follaje de esmeralda y refulgencias de piedras preciosas, unos aislados, en grupos otros, y otros formando espesos bosques, hasta las graciosas colinas de roca, que unas veces mostraban desnudas sus formas cristalinas, marmóreas y alabastrinas, y otras se cubrían de espesa maleza o aparecían salpicadas de olorosas flores. A lo lejos se veía una cañada en que rocas y bosques se apartaban para dejar paso a un río hermoso, que silenciosamente, como una corriente de luz de estrellas, se vertía en el estanque.
Por sobre todo este paisaje lucía la bóveda de un cielo de un azul intensísimo, y bajo esta cúpula flotaban blancas nubecillas de caprichosas formas, sobre las que se posaban graciosos geniecillos, cuyos instrumentos llenaban el espacio con los sones encantados de deliciosas armonías.
En este cielo no se veía sol alguno; mas tampoco era necesario, pues de las nubecillas y los genios, de rocas y flores, del agua y de las flores de loto, de las vestiduras de los bienaventurados, y más aún de sus rostros, irradiaba una luz maravillosa y dulcísima. Y así como esta luz era de una claridad resplandeciente, sin ser por eso deslumbradora, el tibio calor, saturado de fragancias, era refrescado por la constante brisa que salía del agua, y sólo respirar este aire era un placer al que no hay nada semejante en el mundo.
772
Ivan Bunin
Mulher de pedra
Grama seca e morta de braseira,
Estepe sem limite, mas ao longe medra o azul.
Há restos cavalares de caveira.
E novamente – a Mulher de Pedra.
Como seu vulto raso é sonolento!
E quão grosseiro é o corpo primordial!
Estou com medo de ti... E tu, timidamente
Me sorris.
Oh! tição selvagem de antiga escuridão!
Foi a ti que adoraram? foi a ti?
– Não Deus nos fez. Não de suas mãos.
Nós fizemos os deuses, servil o coração.
Estepe sem limite, mas ao longe medra o azul.
Há restos cavalares de caveira.
E novamente – a Mulher de Pedra.
Como seu vulto raso é sonolento!
E quão grosseiro é o corpo primordial!
Estou com medo de ti... E tu, timidamente
Me sorris.
Oh! tição selvagem de antiga escuridão!
Foi a ti que adoraram? foi a ti?
– Não Deus nos fez. Não de suas mãos.
Nós fizemos os deuses, servil o coração.
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Giorgos Seferis
Comentários
Já escurecera na sacada
junto a nós uma urgência esvoaçava
nos dois corações, bem aninhada,
uma confissão correspondida.
Vã, murchou a voz. Enxame de erros
nossos lábios, e nas profundezas
do corpo, Deus, só estava acesa
nossa espera da benção pedida.
Dentro da casa os sonhos zumbiam
e da luz da tarde até o ímã
dos cabelos teus, tudo trazia
à memória o anjo inalcançável
de para com os anéis subitâneos
de chofre caídos, dos abanos
no pensamento que, o mesmo orando,
líamos, evangelho inefável.
Mulher que na minha alma te hospedas
tua surpresa é o que me resta
formosa mulher amada, nesta
tarde que absurdamente definha,
e os teus olhos de círculos negros
e a noite e seu calafrio ligeiro…
Quimera, espada do meu silêncio,
curva-te e entra outra vez na bainha.
junto a nós uma urgência esvoaçava
nos dois corações, bem aninhada,
uma confissão correspondida.
Vã, murchou a voz. Enxame de erros
nossos lábios, e nas profundezas
do corpo, Deus, só estava acesa
nossa espera da benção pedida.
Dentro da casa os sonhos zumbiam
e da luz da tarde até o ímã
dos cabelos teus, tudo trazia
à memória o anjo inalcançável
de para com os anéis subitâneos
de chofre caídos, dos abanos
no pensamento que, o mesmo orando,
líamos, evangelho inefável.
Mulher que na minha alma te hospedas
tua surpresa é o que me resta
formosa mulher amada, nesta
tarde que absurdamente definha,
e os teus olhos de círculos negros
e a noite e seu calafrio ligeiro…
Quimera, espada do meu silêncio,
curva-te e entra outra vez na bainha.
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