Velhice e Envelhecimento
Poemas neste tema
Ruy Belo
As impossíveis crianças
Nesta manhã de outono dos primeiros frios
mais a caminho da velhice que da minha casa
eu vejo-vos em roda todas a cantar
Impossíveis crianças deixais-me brincar?
Ruy Belo | "Obra Poética de Ruy Belo" - Vol. 2, pág. 16 | Editorial Presença Lda., 1981
mais a caminho da velhice que da minha casa
eu vejo-vos em roda todas a cantar
Impossíveis crianças deixais-me brincar?
Ruy Belo | "Obra Poética de Ruy Belo" - Vol. 2, pág. 16 | Editorial Presença Lda., 1981
1 349
Susana Thénon
Minuto
Em todo instante
se renova
a fugaz memória dos espelhos,
o perfil tosco dos corpos oxidados,
o andaime de palavras
não habitadas por mãos
ou por bocas escuras.
O tempo enruga os caminhos,
apaga os olhares longínquos,
vai iluminando a morte nas esquinas.
E como não saber isto:
chegará um minuto vazio
que almeja nossos rostos.
se renova
a fugaz memória dos espelhos,
o perfil tosco dos corpos oxidados,
o andaime de palavras
não habitadas por mãos
ou por bocas escuras.
O tempo enruga os caminhos,
apaga os olhares longínquos,
vai iluminando a morte nas esquinas.
E como não saber isto:
chegará um minuto vazio
que almeja nossos rostos.
731
Fernando Pessoa
Quer com amor, que sem amor, senesces
Quer com amor, que sem amor, senesces
Antes senescer tendo perdido que não tendo tido.
Antes senescer tendo perdido que não tendo tido.
833
Fernando Pessoa
TO A MORALIST
Thou dost say that too soon we grow old,
That all pleasure of earth is but air;
Ay, but tell me, oh moralist cold,
Besides pleasure what pleasure is there?
That all pleasure of earth is but air;
Ay, but tell me, oh moralist cold,
Besides pleasure what pleasure is there?
1 381
Fernando Pessoa
Hora a hora não dura a face antiga
Hora a hora não dura a face antiga
Dos repetidos seres, e hora a hora,
Pensando, envelhecemos.
Tudo passa ignorado, e o que, sabido,
Fica só sabe que ignora, porém nada
Torna, ciente ou néscio.
Pares, assim, do que não somos pares,
Da hora incerta a chama agasalhemos
Com côncavas mãos frias.
Dos repetidos seres, e hora a hora,
Pensando, envelhecemos.
Tudo passa ignorado, e o que, sabido,
Fica só sabe que ignora, porém nada
Torna, ciente ou néscio.
Pares, assim, do que não somos pares,
Da hora incerta a chama agasalhemos
Com côncavas mãos frias.
883
Fernando Pessoa
Neera, passeemos juntos
Neera, passeemos juntos
Só para nos lembrarmos disto...
Depois quando envelhecermos
E nem os Deuses puderem
Dar cor às nossas faces
E mocidade aos nossos colos,
Lembremo-nos, à lareira,
Cheiinhos de pesar
O ter quebrado o fio,
Lembremo-nos, Neera,
De um dia ter passado
Sem nos termos amado…
Só para nos lembrarmos disto...
Depois quando envelhecermos
E nem os Deuses puderem
Dar cor às nossas faces
E mocidade aos nossos colos,
Lembremo-nos, à lareira,
Cheiinhos de pesar
O ter quebrado o fio,
Lembremo-nos, Neera,
De um dia ter passado
Sem nos termos amado…
1 034
Fernando Pessoa
Aquela senhora velha
Aquela senhora velha
Que fala com tão bom modo
Parece ser uma abelha
Que nos diz: «Não incomodo.»
Que fala com tão bom modo
Parece ser uma abelha
Que nos diz: «Não incomodo.»
1 335
Rui Knopfli
Maxilar triste
Suave curva dolorosa
atenuando o bordo rijo
desse rosto derradeiro
de brancura infinita.
Impugnando-lhe a doçura,
a antinomia do tempo
acentuará os duros ângulos
num mapa de tristeza
irreparável. O sorriso
vago nela projecta um
brilho fosco de loiça antiga:
espreitando na carne
os dentes anunciam o resto.
atenuando o bordo rijo
desse rosto derradeiro
de brancura infinita.
Impugnando-lhe a doçura,
a antinomia do tempo
acentuará os duros ângulos
num mapa de tristeza
irreparável. O sorriso
vago nela projecta um
brilho fosco de loiça antiga:
espreitando na carne
os dentes anunciam o resto.
1 196
Moacy Cirne
Poema final
o homem só,velho e cansado,olha para a frentee nada vê.olha para os ladose nada vê.olha para o fim do mundoe nada vê.entreo espanto dos suicidaseo silêncio dos desamados,o homem cansado,velho e só,olha para o poemae nada vê.seráque os sinosdobrarão por ele?
1 294
Luís Filipe Castro Mendes
Glosa a uns versos de Nemésio
Se com quase quarenta anos mal começa,
ovo de tanta coisa, o coração,
que direi hoje, com quase sessenta anos?
Que névoa fria cerca agora o coração
e que voz de dentro resiste a essa névoa,
pois o amor não pára enquanto continuar
o mundo?
Abre os olhos, meu amor:
o mundo é vasto e diverso e brilha
por entre a névoa mais densa.
1 498
Eunice Arruda
Sentença
Convém nos
iniciarmos
cedo
As coisas são demoradas
E não é bom
colher os frutos
quando a boca não
conseguir mais
saboreá-los
In: ARRUDA, Eunice. Invenções do desespero. São Paulo: Ed. da autora, 1973
iniciarmos
cedo
As coisas são demoradas
E não é bom
colher os frutos
quando a boca não
conseguir mais
saboreá-los
In: ARRUDA, Eunice. Invenções do desespero. São Paulo: Ed. da autora, 1973
923
Olga Savary
Sextilha Camoniana
Daqui dou o viver já por vivido.
Quero estar quieta, sozinha agora,
igual a uma cobra de cabeça chata,
ficar sentada sobre os meus joelhos
como alguém coagulado em outra margem.
Daqui dou o viver já por vivido.
Rio, 1973
In: SAVARY, Olga. Sumidouro. Pref. Nelly Novaes Coelho. Il. Aldemir Martins. São Paulo: Massao Ohno: J. Farkas, 1977
Quero estar quieta, sozinha agora,
igual a uma cobra de cabeça chata,
ficar sentada sobre os meus joelhos
como alguém coagulado em outra margem.
Daqui dou o viver já por vivido.
Rio, 1973
In: SAVARY, Olga. Sumidouro. Pref. Nelly Novaes Coelho. Il. Aldemir Martins. São Paulo: Massao Ohno: J. Farkas, 1977
1 822
Armindo Trevisan
Elegia 9
No enxame
dos dedos
a água cerze orifícios.
Noite fora a lua afia pastagens.
Molda-se a argila do corpo
com lágrimas.
Outra precisão,
outra imobilidade:
a do pião
na retina
de uma criança.
In: TREVISAN, Armindo. A mesa do silêncio. Porto Alegre: L± Brasília: INL, 1982. Poema integrante da série Os Velhos
dos dedos
a água cerze orifícios.
Noite fora a lua afia pastagens.
Molda-se a argila do corpo
com lágrimas.
Outra precisão,
outra imobilidade:
a do pião
na retina
de uma criança.
In: TREVISAN, Armindo. A mesa do silêncio. Porto Alegre: L± Brasília: INL, 1982. Poema integrante da série Os Velhos
1 054
Silvestre Péricles de Góis Monteiro
A que deixa posteridade
Quando contemplo as rugas do teu rosto,
fico-me triste e evoco os tempos ídos:
fico-me triste e evoco os tempos ídos:
843
Delores Pires
Inverno
Tremendo de frio
o cãozinho enovelado
espia a paisagem.
Avançada em anos
a cabeça do velhinho
contando geadas.
o cãozinho enovelado
espia a paisagem.
Avançada em anos
a cabeça do velhinho
contando geadas.
988
Neusa Peçanha
Haicai
Começa a ventar:
o velho apanha o casaco,
o menino, a pipa.
O bonde da praça,
entre balanços vadios,
é brinquedo triste.
o velho apanha o casaco,
o menino, a pipa.
O bonde da praça,
entre balanços vadios,
é brinquedo triste.
661
Sonia Mori
Inverno
Esposa idosa
recebe rosas vermelhas:
dia dos namorados.
recebe rosas vermelhas:
dia dos namorados.
788
Marta Gonçalves
O Vento no Rosto
Descalços, andávamos no campo,
molhávamos os pés na relva verde.
Íamos atrás do vento.
Sentávamos, todas as tardes, no alpendre,
a olhar os passarinhos
apanhando migalhas.
- Esperando encontrar o que nos resta
do corpo.
molhávamos os pés na relva verde.
Íamos atrás do vento.
Sentávamos, todas as tardes, no alpendre,
a olhar os passarinhos
apanhando migalhas.
- Esperando encontrar o que nos resta
do corpo.
985
Machado de Assis
A uma Senhora que me Pediu Versos
Pensa em ti mesma, acharás
Melhor poesia,
Viveza, graça, alegria,
Doçura e paz.
Se já dei flores um dia,
Quando rapaz,
As que ora dou têm assaz
Melancolia.
Uma só das horas tuas
Valem um mês
Das almas já ressequidas.
Os sóis e as luas
Creio bem que Deus os fez
Para outras vidas.
Melhor poesia,
Viveza, graça, alegria,
Doçura e paz.
Se já dei flores um dia,
Quando rapaz,
As que ora dou têm assaz
Melancolia.
Uma só das horas tuas
Valem um mês
Das almas já ressequidas.
Os sóis e as luas
Creio bem que Deus os fez
Para outras vidas.
2 241
Luiz de Aquino
Precognição
Precognição
Gosto da vida e deixo
que a noite me vista
de escuro.
Nem sempre é de justo
mostrar-se às claras:
hoje sou como era
quando ainda sonhava
com o futuro.
Pode ser que ainda cresça,
mas é bom ser criança
de gris e de rugas.
Gosto da vida e deixo
que a noite me vista
de escuro.
Nem sempre é de justo
mostrar-se às claras:
hoje sou como era
quando ainda sonhava
com o futuro.
Pode ser que ainda cresça,
mas é bom ser criança
de gris e de rugas.
876
J. B. Sayeg
O Velho
O velho disse vamos
vamos voltar para casa
mas você já está em casa
lhe disse a mulher, gentilmente,
vamos voltar para casa
falou o velho de novo
e entrou com lucidez
no mundo de sua velhice.
( de Os Comedores do Museu, 1979)
vamos voltar para casa
mas você já está em casa
lhe disse a mulher, gentilmente,
vamos voltar para casa
falou o velho de novo
e entrou com lucidez
no mundo de sua velhice.
( de Os Comedores do Museu, 1979)
858
H. Masuda Goga
Inverno
Na Praça da Sé,
tomando sol os idosos
sem falar nem ler.
Cipós-de-são-joão
rebentados pelas rodas
dum carro de boi...
tomando sol os idosos
sem falar nem ler.
Cipós-de-são-joão
rebentados pelas rodas
dum carro de boi...
843
Francisco Carvalho
Lavoura
As minhas mãos
já foram robustas
já plantaram
sementes de milho
nas terras dos filisteus
hoje só semeiam
as lavouras do adeus.
já foram robustas
já plantaram
sementes de milho
nas terras dos filisteus
hoje só semeiam
as lavouras do adeus.
2 194
Eunice Arruda
Aspecto
A maturidade
chega
com a maturidade
chega
com a maturidade
925
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