Raiva e Indignação

Poemas neste tema

Carlos Drummond de Andrade

Carlos Drummond de Andrade

Campeonato de Pião

Bota parafuso no bico do pião.
Bota prego limado, bota tudo
pra rachar o pião competidor.
Roda, pião!
Racha, pião!
Se você não pode rachar este colégio,
nem o mundo nem a vida,
racha pelo menos o pião!
(Mas eu não sei, nunca aprendi
rachar pião. Imobilizo-me.)
1 172
António Ramos Rosa

António Ramos Rosa

A Face Ergueu-Se Contra a Face

A face ergueu-se contra a face

quase

a palavra

dos dentes
1 035
António Ramos Rosa

António Ramos Rosa

Primavera

Falo por palavras
duras rasas
Uma raiva tranquila
habita-me

O meu dia existe
neste punho de pedra
nesta serra verde
nesta casa fria

Uma folha canta
É um lábio livre
Uma folha olha
tranquilamente

Olho é bom olhar
ver o tronco
as ramagens finas
a boca que espera
no murmúrio das folhas

Estou só e o sol sobe
num céu que desconheço
976
António Ramos Rosa

António Ramos Rosa

Velocidade

a manhã     a moeda crespa
o princípio duma torre     o peito rude
um boi na estrada
os pés     as mãos     um tronco     a ponte
o corpo     a terra
a mulher atravessada     a raiva
a parede     a sombra     o peito
o corpo
1 123
António Ramos Rosa

António Ramos Rosa

Esta Luz Súbita

Esta luz súbita
que nasce das raízes
onde o implacável vive

Homens
tímidos passageiros
eu rangerei os dentes
até à violência extrema
em que a paz me aniquilará
568
Francisco Mallmann

Francisco Mallmann

III

não te esquece hora alguma
fernando que estamos
em terra invadida
pisas em ossos e sangue
de gente minha fernando
não te esquece hora
alguma que foram os
teus quem te trouxeram
aqui eu nada tenho a
ver com isso só estou
fernando pegando o
que é meu e o desejo
de te ver morto
fernando é só
o início de uma
nova ordem
da visão
630
Susana Thénon

Susana Thénon

Aqui

Crava-te, desejo
em meu lado raivoso
e molha suas pupilas
por minha última morte.
Aqui o sangue,
aqui o beijo dissoluto,
aqui a torpe fúria de deus
florescendo em meus ossos.
910
Fernando Pessoa

Fernando Pessoa

N'um mar de mijo havia um penico sem tampa

N'um mar de mijo havia um penico sem tampa
Mesmo tapado tinha o que contém: só trampa.
D'um malídoro vento ele boia ao sabor
Que em si tem incerteza;
Eis o símbolo (deixo o detalhe ao leitor)
Da monarquia portuguesa.
1 164
Fernando Pessoa

Fernando Pessoa

EPITÁFIO A JOÃO FRANCO

(...)na tua campa
O epitáfio solene que mereces

«Foi melhorando, desde a vida à morte.
Pois será pó, é podridão, foi trampa.[»]
1 408
Fernando Pessoa

Fernando Pessoa

EPIGRAMS- VI

Pius, of pious anger full,
In's bull makes priests and men of bias
Spy us. Although Pius is pious,
His bull (if that's a bull) 's a bull.
1 167
Fernando Pessoa

Fernando Pessoa

Puseste a chaleira ao lume

Puseste a chaleira ao lume
Com um jeito de desdém.
Suma-te o diabo que sume
Primeiro quem te quer bem!
1 364
Fernando Pessoa

Fernando Pessoa

Nas minhas veias, por onde corre, numa lava de asco,

Nas minhas veias, por onde corre, numa lava de asco
A fúria do horror da vida!
1 446
Fernando Pessoa

Fernando Pessoa

Arre, que tanto é muito pouco!

Arre, que tanto é muito pouco!
Arre, que tanta besta é muito pouca gente!
Arre, que o Portugal que se vê é só isto!
Deixem ver o Portugal que não deixam ver!
Deixem que se veja, que esse é que é Portugal!
Ponto.

Agora começa o Manifesto:
Arre!
Arre!
Oiçam bem:
ARRRRRE!
1 282
Fernando Pessoa

Fernando Pessoa

Ora porra!

Ora porra!
Então a imprensa portuguesa é
que é a imprensa portuguesa?
Então é esta merda que temos
que beber com os olhos?
Filhos da puta! Não, que nem
há puta que os parisse.
2 601
Fernando Pessoa

Fernando Pessoa

Fiz estoirar um cartucho

Fiz estoirar um cartucho
Contra a parede do lado.
Assim farei eu à vida,
Que o sonhar fez-me assoprado.
1 379
Fernando Pessoa

Fernando Pessoa

Água que não vem na bilha

Água que não vem na bilha
É como se não viesse.
Como a mãe, assim a filha...
Antes Deus as não fizesse.
1 264
Fernando Pessoa

Fernando Pessoa

Trazes uma cruz no peito.

Trazes uma cruz no peito.
Não sei se é por devoção.
Antes tivesse o jeito
De ter lá um coração.
916
Fernando Pessoa

Fernando Pessoa

Tocam sinos a rebate

Tocam sinos a rebate
E levantaste-te logo.
Teu coração só não bate
Por a quem puseste fogo.
1 388
Fernando Pessoa

Fernando Pessoa

MANIFESTO DE ÁLVARO DE CAMPOS

MANIFESTO DE ÁLVARO DE CAMPOS

Ora porra!
Nem o rei chegou, nem o Afonso Costa morreu quando caiu do
carro abaixo!
E ficou tudo na mesma, tendo a mais só os alemães a menos...
E para isto se fundou Portugal!
1 739
Fernando Pessoa

Fernando Pessoa

Porque o olhar de quem não merece

Porque o olhar de quem não merece
O meu amor para outro olhou,
Uma dor fria me enfurece,
Decido odiar quem me insultou.

Vil dor, vil causa e vil remédio!
Quanto melhor não fora achar-se
No antigo sem-amor, com tédio,
Mas sem dor de que envergonhar-se!
1 458
Paulo Leminski

Paulo Leminski

o paulo leminski

o paulo leminski
é um cachorro louco
que deve ser morto
a pau a pedra
a fogo a pique
senão é bem capaz
o filho da puta
de fazer chover
em nosso piquenique
2 296
Paulo Leminski

Paulo Leminski

Círculo

cansei da frase polida
por anjos da cara pálida
palmeiras batendo palmas
ao passarem paradas
agora eu quero a pedrada
chuva de pedras palavras
distribuindo pauladas

1 306
José Craveirinha

José Craveirinha

Menus

Uivam
as suas maldições
as insidiosas hienas
própria sanha.

Rituais
de tão escabrosa gulodice
que até nos esfomeados
aldeões da tragédia
a gula das quizumbas
se baba nas beiças
das catanas,
dos machados.
3 570
Paulo Leminski

Paulo Leminski

cansei da frase polida

cansei da frase polida
por anjos da cara pálida
palmeiras batendo palmas
ao passarem paradas
agora eu quero a pedrada
chuva de pedras palavras
distribuindo pauladas

3 661