Medo e Ansiedade

Poemas neste tema

Pablo Neruda

Pablo Neruda

O Anjo Solitário

Ia defendendo-se então
do ar indomável, do rio,
das pedras em furacão
e da aspereza espinhosa.
Ia defendendo-me o anjo,
da matilha que me odiava,
dos que ululando aguardavam
meu sangue nas ruas do crime.
 
946
Pablo Neruda

Pablo Neruda

LII

Quanto media o polvo negro
que obscureceu a paz do dia?

Eram de ferro seus ramais
e de fogo morto seus olhos?

E a baleia tricolor
por que me atalhou no caminho?
508
Pablo Neruda

Pablo Neruda

XXXIX

Não sentes também o perigo
na gargalhada do mar?

Não vês na seda sangrenta
da papoula uma ameaça?

Não vês que floresce a macieira
para morrer na maçã?

Não choras rodeado de riso
com as garrafas do olvido?
993
José Saramago

José Saramago

Sancho

Capaz de medos, sim, mas não de assombros.
Para assombros outra alma se precisa
Mais nua e desarmada.
Mas dessa bruta mão cai a semente
Que a teu amo sustenta, e sem o pão,
Até assombro é nada.
926
Vinicius de Moraes

Vinicius de Moraes

Imitação de Rilke

Alguém que me espia do fundo da noite
Com olhos imóveís brilhando na noite
Me quer.

Alguém que me espia do fundo da noite
(Mulher que me ama, perdida na noite?)
Me chama.

Alguém que me espia do fundo da noite
(És tu, Poesia, velando na noite?)
Me quer.

Alguém que me espia do fundo da noite
(Também chega a Morte dos ermos da noite…)
Quem é?
1 219
Martha Medeiros

Martha Medeiros

o que era uma folha caindo

o que era uma folha caindo
parece uma porta batendo
e só o elevador subindo
e ainda assim me surpreendo


os estalos da madeira
viram tiros no escuro
são só os pingos da torneira
e ainda assim me torturo


gritos, sirenes, gemidos
dão à noite outro rumo
são só os barulhos da insônia
e ainda assim não acostumo
1 092
Martha Medeiros

Martha Medeiros

sou uma mulher esguia

sou uma mulher esguia
pareço chinesa dobrando as esquinas
quando seguida
sumo na multidão


às vezes um pouco nervosa
não sei o que fazer com as mãos


levanto suspeitas no ar
carrego um revólver na bolsa
e um disparo no coração
1 116
Martha Medeiros

Martha Medeiros

não devia te contar

não devia te contar
mas se você guardar segredo
eu revelo este meu medo
de não saber amar


não devia te amar
mas se você guardar meu medo
eu revelo este segredo
que não sei contar
1 006
Martha Medeiros

Martha Medeiros

taça de champanhe

taça de champanhe
um disco rodando sempre o mesmo lado
crise
um telefone ao alcance da mão
um número decorado na cabeça
e uma aflição no coração


é aí que mora o perigo
1 009
Martha Medeiros

Martha Medeiros

aquele monstro que você pensou que era

aquele monstro que você pensou que era
é um bobo covarde que só fala besteiras
vive dizendo que mata, estrangula, devora
mas quando muito enforca umas
segundas-feiras
530
Sophia de Mello Breyner Andresen

Sophia de Mello Breyner Andresen

X. Sombrios Deuses

Sombrios deuses
Senhores do medo antigo
O sopro como estátuas suspendendo
Na movediça luz das lamparinas
1982
1 291
Sophia de Mello Breyner Andresen

Sophia de Mello Breyner Andresen

Néon

Luz descerrada e crua
Que não rodeia as coisas
Mas as desventra
De fora para dentro

Espaço de uma insónia sem refúgio

Tudo é como um interior violado
Como um quarto saqueado

Luz de máquina e fantasma
1 408
Sophia de Mello Breyner Andresen

Sophia de Mello Breyner Andresen

Quadro

Indeciso ressurge do poente
Aureolado de espanto e de desastres
Em busca do seu corpo dividido

Todas as sombras se erguem das esquinas
E o seguem devagar nas ruas verdes
São como cães no rastro dos seus passos

Aberta a porta o quarto grave surge
E os espaços oscilam nas janelas.
1 192
Sophia de Mello Breyner Andresen

Sophia de Mello Breyner Andresen

Cidade

As ameaças quase visíveis surgem
Nascem
Do exausto horizonte mortas luas
E estrangulada sou por grandes polvos
Na tristeza das ruas
1 449
Sophia de Mello Breyner Andresen

Sophia de Mello Breyner Andresen

Senti Que Estava Às Portas do Meu Reino

Entre as sombras brilhavam as paisagens
Que os meus sonhos antigos desejavam.
Mas o terror expulsou-me das imagens
Onde já os meus membros penetravam.
1 042
Adélia Prado

Adélia Prado

Rapto

À hora em que nada parece estar errado,
nem os monturos com seus sacos plásticos,
o invisível te arrepia os pelos.
Uma vez, num bando de passarinhos
disputando sementes.
Hoje, na grama baixa onde cabras pastavam.
Quando a máxima atenção te deixa distraído,
o sequestrador te pega
e diferente daqui
conhecerás o lugar
onde quem desperta repousa.
935
Sophia de Mello Breyner Andresen

Sophia de Mello Breyner Andresen

Iii. As Paredes São Brancas E Suam de Terror

As paredes são brancas e suam de terror
A sombra devagar suga o meu sangue
Tudo é como eu fechado e interior
Não sei por onde o vento possa entrar

Toda esta verdura é um segredo
Um murmúrio em voz baixa para os mortos
A lamentação húmida da terra
Numa sombra sem dias e sem noites
1 304
Adélia Prado

Adélia Prado

Deve Ser Amor

É preciso fé para cortar as unhas,
cuidar dos dentes como bens de empréstimo.
O cobrador invisível bate à porta.
Não durmo, ele também não.
Deve ser amor o que nos deixa unidos
neste avesso de mística.
Por orgulho de pobre
dou por bastante a pouca claridade
e prefiro a vigília
antes que ter repouso.
1 160
Adélia Prado

Adélia Prado

Nossa Senhora Das Flores

Acostuma teus olhos ao negrume do pátio
e olha na direção onde ao meio-dia
cintilava o jardim.
A rosa miúda em pencas
destila inquietações,
peleja por abortar teu passeio noturno.
Há mais que um cheiro de rosas,
o movimento das palmas não será o réptil?
Ó Mãe da Divina Graça,
vem com tua mão poderosa,
mata este medo pra mim.
1 295
Adélia Prado

Adélia Prado

Estreito

Agosto, agosto,
os torrões estão leves,
ao menor toque se desmancham em pó.
Estrela de agosto,
baça.
Céu que se adensa,
vento.
Papéis no redemoinho levantados,
esta sede excessiva
e ciscos.
Um homem cava um fosso no quintal,
uma ideia má estremece as paredes.
1 260
Adélia Prado

Adélia Prado

Insônia

O homem vigia.
Dentro dele, estumados,
uivam os cães da memória.
Aquela noite, o luar
e o vento no cipó-prata e ele,
o medo a cavalo nele,
ele a cavalo em fuga
das folhas do cipó-prata.
A mãe no fogão cantando,
os zangões, a poeira, o ar anímico.
Ladra seu sonho insone,
em saudade, vinagre e doçura.
1 435
Adélia Prado

Adélia Prado

De Profundis

Quando a noite vier e minh’alma ciclotímica
afundar nos desvãos da água sem porto,
salva-me.
Quando a morte vier, salva-me do meu medo,
do meu frio, salva-me,
ó dura mão de Deus com seu chicote,
ó palavra de tábua me ferindo no rosto.
1 211
António Ramos Rosa

António Ramos Rosa

Acende-Se Algo Na Garganta

Acende-se algo na garganta
A língua distensa ainda verde
dirá talvez o odor da tempestade
e o silvo terrífico nas chaminés

Mas o que está a arder tão baixo
é quase imperceptível
quase nulo
como este voo raso sobre o vazio
927
António Ramos Rosa

António Ramos Rosa

Entre Dois Espaços Entre Duas Sombras

Entre dois espaços     entre duas sombras

as pálpebras abriram-se no caminho

entre dois espaços     entre duas sombras?

no vento     oscila        uma lâmpada vazia
1 049