Humanidade e Solidariedade

Poemas neste tema

Sophia de Mello Breyner Andresen

Sophia de Mello Breyner Andresen

A Casa de Deus

A casa de Deus está assente no chão
Os seus alicerces mergulham na terra
A casa de Deus está na terra onde os homens estão
Sujeita como os homens à lei da gravidade
Porém como a alma dos homens trespassada
Pelo mistério e a palavra da leveza
Os homens a constroem com materiais
Que vão buscar à terra
Pedra vidro metal madeira cimento cal
Com suas mãos e pensamento a constroem
Mãos certeiras do pedreiro
Mãos hábeis do carpinteiro
Mão exacta do pintor
Cálculo do engenheiro
Desenho e cálculo do arquitecto
Com matéria e luz e espaço a constroem
Com atenção e engenho e esforço e paixão a constroem
Esta casa é feita de matéria para habitação do espírito
Como o corpo do homem é feito de matéria e manifesta o espírito
A casa é construída no tempo
Mas aqui os homens se reúnem em nome do Eterno
Em nome da promessa antiquíssima feita por Deus a Abraão
A Moisés a David e a todos os profetas
Em nome da vida que dada por nós nos é dada
É uma casa que se situa na imanência
Atenta à beleza e à diversidade da imanência
Erguida no mundo que nos foi dado
Para nossa habitação nossa invenção nosso conhecimento
Os homens a constroem na terra
Situada no tempo
Para habitação da eternidade
Aqui procuramos pensar reconhecer
Sem máscara ilusão ou disfarce
E procuramos manter nosso espírito atento
Liso como a página em branco
Aqui para além da morte da lacuna da perca e do desastre
Celebramos a Páscoa
Aqui celebramos a claridade
Porque Deus nos criou para a alegria
Páscoa de 1990
2 110
Sophia de Mello Breyner Andresen

Sophia de Mello Breyner Andresen

V. Dos Homens Nus E Negros Contarei

Dos homens nus e negros contarei
E de como não havendo já connosco
Quem de seu falar algo entendesse
Juntos dançámos pra nos entendermos
1982
1 241
Sophia de Mello Breyner Andresen

Sophia de Mello Breyner Andresen

Salgueiro Maia

Aquele que na hora da vitória
Respeitou o vencido

Aquele que deu tudo e não pediu a paga

Aquele que na hora da ganância
Perdeu o apetite

Aquele que amou os outros e por isso
Não colaborou com sua ignorância ou vício

Aquele que foi «Fiel à palavra dada à ideia tida»
Como antes dele mas também por ele
Pessoa disse
1 629
Sophia de Mello Breyner Andresen

Sophia de Mello Breyner Andresen

Tripoli 76

I

Cruzam-se muitas e diversas gentes
Vindas de muitos e diversos mundos
Vestindo muitas e diversas roupas
Falando muitas e diversas línguas
Vêm de muitos e diversos ritos
E cultos e culturas e paragens
II

O recitador entoa a palavra modulada
Rouca de deserto e sol e imensidão
Entoa a veemência nua da palavra
Fronteira de puro Deus e puro nada
III

E Leptis Magna em sua pedra cor de trigo
E em seu chão de laje pelo sol varrido
Guarda o matinal no mais antigo
1 094
Adélia Prado

Adélia Prado

O Menino Jesus

Sofri sozinha este insuportável,
quando me trouxeram o menino
que parecia dizer
‘me pega, diz que não sou órfão,
que tenho pai e mãe,
me fala que não sou um usurpador’.
Atracou-se comigo até dormir.
Mesmo rígida,
fui sua cruz mais branda.
1 400
Adélia Prado

Adélia Prado

No Céu

Os militantes
os padecentes
os triunfantes
seremos só amantes.
1 590
Carlos Drummond de Andrade

Carlos Drummond de Andrade

Unidade

As plantas sofrem como nós sofremos.
Por que não sofreriam,
se esta é a chave da unidade do mundo?

A flor sofre, tocada
por mão inconsciente.
Há uma queixa abafada
em sua docilidade.

A pedra é sofrimento
paralítico, eterno.

Não temos nós, animais,
sequer o privilégio de sofrer.
885
Carlos Drummond de Andrade

Carlos Drummond de Andrade

Lembrança de Portinari

O universo de Portinari,
se às vezes dói, sempre fulgura:
entrelaça, como num verso,
o que é humano ao que é pintura.
1 157
António Ramos Rosa

António Ramos Rosa

Entre Hoje E Amanhã

Somos quantos? Uns e outros
construímos signos nos ventos
As nossas casas comunicam ao nível dos alicerces
A imaginação tem raízes nas mãos
A alegria que por vezes nasce como uma lufada
conhece todas as ranhuras do muro

Os nossos sonhos brilham nas valetas
900
António Ramos Rosa

António Ramos Rosa

Em Qualquer Parte Um Homem

Em qualquer parte um homem
discretamente morre

Ergueu uma flor
Levantou uma cidade

Enquanto o sol perdura
ou uma nuvem passa
surge uma nova imagem

Em qualquer parte um homem
abre o seu punho e ri
3 373
António Ramos Rosa

António Ramos Rosa

Da Inocência à Confiança

Da inocência à confiança
da claridade à fidelidade
do sonho à consciência
da beleza à bondade
da poesia ao amor
do amor à verdade
da solidão à harmonia
da angústia à liberdade
todas as cores uniste
num arco-íris fraternal
1 015
António Ramos Rosa

António Ramos Rosa

No Coração da Neve

No coração da neve
e no espaço
no silêncio e na infância
no amor na solidão na liberdade
na gentileza na fraternidade
o mesmo puro delírio
de iluminar as trevas
sem diminuir o sonho
e fazê-las cantar
à luz do dia
1 033
Nuno Júdice

Nuno Júdice

Abismo

Tenho o coração a cair sobre os cadáveres dos maus e dos vadios. O meu abismo ilumina uma explosão de trabalho humano.



Nuno Júdice | "Obra poética 1972 - 1985", pág. 347 (texto que encerra o livro) | Quetzal Editores, 1999

971
Fernando Pessoa

Fernando Pessoa

Não digas mal de ninguém,

Não digas mal de ninguém,
Que é de ti que dizes mal.
Quando dizes mal de alguém
Tudo no mundo é igual.
1 767
Fernando Pessoa

Fernando Pessoa

Nós ao igual destino

Nós ao igual destino
Iniguais pertencemos.
806
Fernando Pessoa

Fernando Pessoa

Que somos nós? Navios que passam um pelo outro na noite,

Que somos nós? Navios que passam um pelo outro na noite,
Cada um a vida das linhas das vigias iluminadas
E cada um sabendo do outro só que há vida lá dentro e mais nada.
Navios que se afastam ponteados de luz na treva,
Cada um indeciso diminuindo para cada lado do negro
Tudo mais é a noite calada e o frio que sobe do mar.
1 383
Fernando Pessoa

Fernando Pessoa

Toda a gente é interessante

Toda a gente é interessante se a gente souber ver toda a gente
Que obra-prima para um pintor possível em cada cara que existe!
Que expressões em todas, em tudo!
Que maravilhosos perfis todos os perfis!
Vista de frente, que cara qualquer cara!
Os gestos humanos de cada qual, que humanos os gestos!
1 191
Fernando Pessoa

Fernando Pessoa

O bêbado caía de bêbado

O bêbado caía de bêbado
        E eu, que passava,
Não o ajudei, pois caía de bêbado,
        E eu só passava.
O bêbado caiu de bêbado
        No meio da rua.
E eu não me voltei, mas ouvi. Eu bêbado
        E a sua queda na rua.
O bêbado caiu de bêbado
        Na rua da vida.
Meu Deus! Eu também caí de bêbado
        Deus (...)
1 779
Fernando Pessoa

Fernando Pessoa

O pensamento que a dor (...)

O pensamento que a dor (...)
E a aspiração que a sua essência ignora.

Se olho em torno de mim que longe eu vejo
A humanidade do meu pensamento,
Incompreendido eu sempre.

A envolver a humanidade inteira
Na inabjecção do meu desprezo frio.
796
Fernando Pessoa

Fernando Pessoa

O mistério ideal dum corpo humano,

O mistério ideal dum corpo humano,
O qual se as potestades e os seus seres
Intimamente vissem e soubessem
Nenhum homem em guerra ou dessidência
Cairia, tal o terror que inspira
E o respeito que nasce do terror!
O corpo humano o mistério inventa.
2 038
Fernando Pessoa

Fernando Pessoa

Mas eu não tenho problemas tenho só mistérios.

Mas eu não tenho problemas tenho só mistérios.

Todos choram as minhas lágrimas, porque as minhas lágrimas são todos.
Todos sofrem no meu coração, porque o meu coração é tudo.
1 429
Fernando Pessoa

Fernando Pessoa

JUSTICE

There was a land, which I suppose,
Where everyone had a crooked nose;

And the crooked nose that everyone had
In no manner did make him sad.

But in that land a man was born
Whose nose more straight and clean was worn;

And the men of that land with a public hate
Killed the man whose nose was straight.
1 690
Fernando Pessoa

Fernando Pessoa

Falaram-me os homens em humanidade,

Falaram-me os homens em humanidade,
Mas eu nunca vi homens nem vi humanidade.
Vi vários homens assombrosamente diferentes entre si.
Cada um separado do outro por um espaço sem homens.
1 244
Florbela Espanca

Florbela Espanca

A bondade

A bondade o som de Deus
A bondade a educação
A gente sempre ama os país
A estrela do coração.

A bondade ai a bondade
Aquele anjo de amor
Aquela santa feliz
E a bondade da flor

O anjo vem dar a bondade
A bondade do coração
A bondade para todos

E urna boa educação
feliz de quem tem bondade
E sempre sempre um bom irmão
1 885