Fé, Espiritualidade e Religião
Poemas neste tema
Sophia de Mello Breyner Andresen
O Anjo
E cruel me combate, nesse dia
Veio sentar-se ao lado do meu leito
E embalou-me, cantando, no seu peito.
Ele que indiferente olha e me escuta
Sofrer, ou que feroz comigo luta,
Ele que me entregara à solidão,
Poisava a sua mão na minha mão.
E foi como se tudo se extinguisse,
Como se o mundo inteiro se calasse,
E o meu ser liberto enfim florisse,
E um perfeito silêncio me embalasse.
Sophia de Mello Breyner Andresen
Gesto
Mas nenhuma presença Te cumpriu,
Só me ficou o gesto que subiu
Às mais longínquas fontes do meu ser.
Fernando Pessoa
Santo António de Lisboa
Era um grande pregador,
Mas é por ser Santo António
Que as moças lhe têm amor.
Fernando Pessoa
NADA
Mãe deste mundo
Segundo reza o profundo
Saber que a Bíblia impinge a este inferno
Que é a cabeça de quem quer achar
A verdade, sem nunca a encontrar.
Omnimaterno ventre (se é que mesmo
Em poesia se pode isto dizer)
(…)
Rabia de Basra
Se eu O louvo
queime-me no Inferno.
Se eu O louvo por querer o Paraíso,
sele-me do Paraíso.
Mas se O louvo tão-só pelo que É,
não me negue Sua Beleza Eterna.
Fernando Pessoa
Terceira: D. PEDRO, REGENTE DE PORTUGAL
É claro no querer;
Indiferente ao que há em conseguir
Que seja só obter;
Dúplice dono, sem me dividir,
De dever e de ser —
Não me podia a Sorte dar guarida
Por não ser eu dos seus.
Assim vivi, assim morri, a vida,
Calmo sob mudos céus,
Fiel à palavra dada e à idéia tida.
Tudo o mais é com Deus!
Roberval Pereyr
A Essência é Bá
Tuburundum ecoé.
Tivejo de túrbia
na
fecundidade à penumbra
comuno bá vusevi.
Mas nontitemo.
Tantra vetusta ursa branca
nos flancos divina solídez.
Pero que si
o que non
ao corazón nom basta dividir-se.
Mister ser mu
como no zen
Gantó gritando a morte em espiral,
axê!
Douglas Eden Brotto
Outono
pedia o padre, aos fiéis
na igreja apinhada...
Vale do Rio do Peixe:
confins do mês de março,
colheita de uvas...
Gilson Babilak
Filhos de Olorum
NEGROS
meigos...
Porém Quilombolas
Filhos de Olorum
De cabeça
- Ogum
Belos
Feito - Oxum
- somos filhos de OLORUM! João Pessoa, 1981
Clicie Pontes
Outono
Revelando na colina
A capela branca...
Castro Alves
Epitáfio
COMO O ORVALHO das ramas do salgueiro
Resvala sobre a lápide do trilho,
Assim gotejam lágrimas de filho,
O Minha Mãe! sobre o sepulcro teu.
Mas como o sol nascente a gota enxuga
Que a noite derramou sobre os escolhos...
O anjo da Crença nos enxuga os olhos
E faz do pranto uma oração... no céu!
Eugenio Montale
VENTO NO CRESCENTE
Procurar-te-ia mesmo navegando
pelos esgotos a uma ordem tua.
Mas com o sol nos vidros das varandas
a minha força declinava já.
Um homem que prègava no Crescente
pergunta: Sabe onde está Deus? Sabia,
logo lhe disse. Abanou a cabeça,
mas foi no turbilhão que homens e casas
levava e levantava no negrume.
Arlete Nogueira da Cruz
Oração
bem sabes como,
minhas misérias em formas de oferendas:
considera este arrependimento
e estas mãos vazias
que se estendem ansiosas de Teu bem.
Leva em conta a solidão deste corpo maltratado
que se oferece ao resgate.
Avalia a fraca força que passo
às vezes
contra meu mal.
Antero Coelho Neto
A Fantasia da Natureza
do despertar repetido
que se eterniza plena
no horizonte colorido.
Ora a chuva cai
molhando terra e corpos.
Ora o pássaro azul
voa em canto e vai
dizendo que existe Deus.
Ora o céu é seco
e os animais sedentos
vagam loucos pelos campos
rachados, ardentes e mortos
parecendo não existir Deus.
Murillo Mendes
A Tentação
Eu paro pálido tremendo:
"Já que és o verdadeiro filho de Deus
Desprega a humanidade desta cruz".
Daniel Faria
Cruz,rosa
Dos ventos sem direcção que não seja o centro.Coluna
Sustentada pelos braços como um amigo que chega.Rosa
De orvalho e sangue para o corpo trepassado de sede.Árvore
Que bebe do homem.Árvore
Em silêncio onde escutamos a palavra
Em carne viva.Verbo
Tão inteiro que se fez espelho
de Homens Que São Como Lugares Mal Situados(1998)
Fernando Pessoa
Segundo: O DAS QUINAS
Compra-se a glória com desgraça.
Ai dos felizes, porque são
Só o que passa!
Baste a quem baste o que lhe bsta
O bastante de lhe bastar!
A vida é breve, a alma é vasta:
Ter é tardar.
Foi com desgraça e com vileza
Que Deus ao Cristo definiu:
Assim o opôs à Natureza
E Filho o ungiu.
Carlos Saraiva Pinto
as coisas complexas
torna-me pois simples
como os bois e os cavalos
que no abandono da névoa
das montanhas são almas
que cumprem
dolorosas promessas a santuários
que estão para além do mundo.
de Escrever Foi um Engano(2000)
Fernando Pessoa
Se a cada coisa que há um deus compete,
Porque não haverá de mim um deus?
Porque o não serei eu?
É em mim que o Deus anima
Porque eu sinto.
O mundo externo claramente vejo –
Coisas, homens, sem alma.
Dezembro de 1931
Fernando Pessoa
Os deuses são felizes.
Vivem a vida calma das raízes.
Seus desejos o Fado não oprime,
Ou, oprimindo, redime
Com a vida imortal.
Não há
Sombras ou outros que os contristem.
E, além disto, não existem...
10/07/1920
Rui Costa
breve ensaio sobre a potência 19
Deus sempre feito à imagem do homem
que o cria. Fabricam-se punhais para matar
com menos requinte do que as mãos; e
o crime continua a ser a mais antiga forma
da pureza. O primeiro artista pintava o
animal que queria seduzir. Dava-lhe uma
luz imóvel e amava-o deitado no tempo.
Amália Bautista
Desconheço ainda que crime fiz
Desconheço ainda que crime fiz,
o que estou a pagar com este exílio.
Lembro-me apenas de tecer a teia
entre os ramos de uma frondosa árvore
que crescia no centro do jardim.
Estava cheia de frutos dourados
e pelo seu tronco andava uma serpente.
Herberto Helder
Poemas Arabico-Andaluzes - Os Jarros
tornaram-se leves, e quase levantaram voo com sua carga preciosa, do
mesmo modo que os corpos se aligeiram com os espíritos.
Herberto Helder
40
e com o barro e o ferro às escondidas reluzimos no escuro,
o Deus que há-de vir não veio ainda,
a água não sobe ao rosto,
não sobe com luz ao rosto como devia e não trabalhamos com
água coada e fogo,
quebrou-se a enxuta substância da terra,
e então o Deus que há-de vir não há-de vir nunca
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