Coragem e Força
Poemas neste tema
Affonso Romano de Sant'Anna
O Impossível Acontece
O Messias nasceu de uma Virgem.
O grande pensador grego nunca escreveu um livro.
A Nona Sinfonia é fruto de um homem surdo.
Na Biblioteca de Babel o leitor era um poeta cego.
E não tinha mãos, o homem que fez
as mais belas esculturas de meu país.
O grande pensador grego nunca escreveu um livro.
A Nona Sinfonia é fruto de um homem surdo.
Na Biblioteca de Babel o leitor era um poeta cego.
E não tinha mãos, o homem que fez
as mais belas esculturas de meu país.
1 120
Pablo Neruda
O Anjo Solitário
Ia defendendo-se então
do ar indomável, do rio,
das pedras em furacão
e da aspereza espinhosa.
Ia defendendo-me o anjo,
da matilha que me odiava,
dos que ululando aguardavam
meu sangue nas ruas do crime.
do ar indomável, do rio,
das pedras em furacão
e da aspereza espinhosa.
Ia defendendo-me o anjo,
da matilha que me odiava,
dos que ululando aguardavam
meu sangue nas ruas do crime.
945
Pablo Neruda
X. Proclama
Chilenos do mar! Ao assalto! Sou Cochrane. Eu venho de longe!
Já aprendestes as artes do fogo e o luxo da simetria!
O sangue de Arauco é honra de minhas tripulações!
Avante: A terra do Chile ganha-se ou perde-se na água!
A mim, marinheiros! Eu não garanto a vida de ninguém,
mas a vitória de todos! A mim, marinheiros do Chile!
Já aprendestes as artes do fogo e o luxo da simetria!
O sangue de Arauco é honra de minhas tripulações!
Avante: A terra do Chile ganha-se ou perde-se na água!
A mim, marinheiros! Eu não garanto a vida de ninguém,
mas a vitória de todos! A mim, marinheiros do Chile!
1 057
Pablo Neruda
V. O olhar
Contemplai o Falcão que prepara com olhos de fogo tranquilo
o voo violento que cruze como uma centelha a sombra!
o voo violento que cruze como uma centelha a sombra!
1 056
Murillo Mendes
Panfletos
Eu recebi o mal e a miséria
De meu pai que os recebeu de meu avô
Que os recebeu de seus avós
Que os receberam de Adão
Que os recebeu de Eva
Que os recebeu de Satã
Que foi criado por Deus.
Não me conformo e destruirei em mim a fome a peste a guerra e a morte
De meu pai que os recebeu de meu avô
Que os recebeu de seus avós
Que os receberam de Adão
Que os recebeu de Eva
Que os recebeu de Satã
Que foi criado por Deus.
Não me conformo e destruirei em mim a fome a peste a guerra e a morte
503
José Saramago
Fuzil E Pederneira
Na mineral frieza deste sílex,
Pederneira chamado porque duro,
A labareda oculta se recata
À espera do fuzil que a percuta.
Da lisa superfície onde estalam
Os golpes repetidos do meu aço,
Centelhas como gritos se libertam
E morrem sufocadas neste escuro.
Arde lá fora uma fogueira, à espera,
Enquanto eu bato o coração da pedra.
Pederneira chamado porque duro,
A labareda oculta se recata
À espera do fuzil que a percuta.
Da lisa superfície onde estalam
Os golpes repetidos do meu aço,
Centelhas como gritos se libertam
E morrem sufocadas neste escuro.
Arde lá fora uma fogueira, à espera,
Enquanto eu bato o coração da pedra.
982
José Saramago
Sarcasmo de D. João No Inferno
Contra mim, D. João, que pode o inferno,
Que pode o céu e todo o mais que houver?
Nem Deus nem o Diabo amaram nunca
Desse amor que junta homem a mulher:
De pura inveja premeiam ou castigam,
Acredite, no resto, quem quiser.
Que pode o céu e todo o mais que houver?
Nem Deus nem o Diabo amaram nunca
Desse amor que junta homem a mulher:
De pura inveja premeiam ou castigam,
Acredite, no resto, quem quiser.
740
José Saramago
Virgindade
Não essa que o pudor um dia larga,
Não essa que foi miragem e é negaça.
A porta derradeira é a que importa:
Caçador que porfia, mata caça.
Não essa que foi miragem e é negaça.
A porta derradeira é a que importa:
Caçador que porfia, mata caça.
1 147
José Saramago
Re-Iniciação
É porque tudo foge que não fujo
E começo, do princípio, a conjugar
O verbo já sabido e suspeitado.
Numa eira de brasas me sentaram,
Mas digo que são brumas. Negador,
O corpo me regressa, iniciado.
E começo, do princípio, a conjugar
O verbo já sabido e suspeitado.
Numa eira de brasas me sentaram,
Mas digo que são brumas. Negador,
O corpo me regressa, iniciado.
977
José Saramago
Tenho a Alma Queimada
Tenho a alma queimada
Por saliva de sapo
Fingindo que descubro
Tapo
A palavra me infecta
Sob a pele da aparência
Deito o certo remédio
Paciência
Neste mal não se vive
Mas também ninguém morre
Quando a ave não voa
Corre
Quem às estrelas não chega
Pode vê-las da terra
Quem não tem voz de cantar
Berra
Por saliva de sapo
Fingindo que descubro
Tapo
A palavra me infecta
Sob a pele da aparência
Deito o certo remédio
Paciência
Neste mal não se vive
Mas também ninguém morre
Quando a ave não voa
Corre
Quem às estrelas não chega
Pode vê-las da terra
Quem não tem voz de cantar
Berra
1 011
José Saramago
Flor de Cacto
Flor de cacto, flor que se arrancou
À secura do chão.
Era aí o deserto, a pedra dura,
A sede e a solidão.
Sobre a palma de espinhos, triunfante,
Flor, ou coração?
À secura do chão.
Era aí o deserto, a pedra dura,
A sede e a solidão.
Sobre a palma de espinhos, triunfante,
Flor, ou coração?
2 777
Martha Medeiros
me visto de vermelho
me visto de vermelho
a raiva tem essa cor
uma lança na mão
uma mancha no lençol
São Jorge
um dragão
um sonho solto
estou pronta para enfrentar
meu inferno zodiacal
a raiva tem essa cor
uma lança na mão
uma mancha no lençol
São Jorge
um dragão
um sonho solto
estou pronta para enfrentar
meu inferno zodiacal
1 047
Martha Medeiros
aquele monstro que você pensou que era
aquele monstro que você pensou que era
é um bobo covarde que só fala besteiras
vive dizendo que mata, estrangula, devora
mas quando muito enforca umas
segundas-feiras
é um bobo covarde que só fala besteiras
vive dizendo que mata, estrangula, devora
mas quando muito enforca umas
segundas-feiras
530
Sophia de Mello Breyner Andresen
As Minhas Mãos Mantêm As Estrelas
Seguro a minha alma para que se não quebre
A melodia que vai de flor em flor,
Arranco o mar do mar e ponho-o em mim
E o bater do meu coração sustenta o ritmo das coisas.
A melodia que vai de flor em flor,
Arranco o mar do mar e ponho-o em mim
E o bater do meu coração sustenta o ritmo das coisas.
1 783
Sophia de Mello Breyner Andresen
Tu Que Esculpes No Ar o Vento Musculado
Belo é o teu sorriso sem cabeça
A tua alegria lutadora e veemente
Que vai pesando uma por uma as proas dos navios
Belo é o teu passo impetuoso
Ó portadora sem braços nem oferenda
De ti só recebemos
O mundo onde moramos e o que somos
A tua alegria lutadora e veemente
Que vai pesando uma por uma as proas dos navios
Belo é o teu passo impetuoso
Ó portadora sem braços nem oferenda
De ti só recebemos
O mundo onde moramos e o que somos
1 089
Sophia de Mello Breyner Andresen
D. António Ferreira Gomes Bispo do Porto
Na cidade do Porto há muito granito
Entre névoas sombras e cintilações
A cidade parece firme e inexpugnável
E sólida — mas habitada
Por súbitos clarões de profecia
Junto ao rio em cujo verde se espelham as visões —
Assim quando eu entrava no paço do Bispo
E passava a mão sobre a pedra rugosa
O paço me parecia fortaleza
Porém a fortaleza não era
Os grossos muros de pedra caiada
Nem os lintéis de pedra nem a escada
De largos degraus rugosos de granito
Nem o peso frio que das coisas inertes emanava
Fortaleza era o homem — o Bispo —
Alto e direito firme como torre
Ao fundo da grande sala clara: fortaleza
De sabedoria e sapiência
De compaixão e justiça
De inteligência a tudo atenta
E na face austera por vezes ao de leve o sorriso
Inconsútil da antiga infância
1998
Entre névoas sombras e cintilações
A cidade parece firme e inexpugnável
E sólida — mas habitada
Por súbitos clarões de profecia
Junto ao rio em cujo verde se espelham as visões —
Assim quando eu entrava no paço do Bispo
E passava a mão sobre a pedra rugosa
O paço me parecia fortaleza
Porém a fortaleza não era
Os grossos muros de pedra caiada
Nem os lintéis de pedra nem a escada
De largos degraus rugosos de granito
Nem o peso frio que das coisas inertes emanava
Fortaleza era o homem — o Bispo —
Alto e direito firme como torre
Ao fundo da grande sala clara: fortaleza
De sabedoria e sapiência
De compaixão e justiça
De inteligência a tudo atenta
E na face austera por vezes ao de leve o sorriso
Inconsútil da antiga infância
1998
972
Sophia de Mello Breyner Andresen
Glosa de Um Texto de Plutarco
Nada mais assustador nada mais sublime
Do que ver os lacedemónios em ordem de combate
Quando avançam para a fúria da batalha
Ao som da flauta
Do que ver os lacedemónios em ordem de combate
Quando avançam para a fúria da batalha
Ao som da flauta
1 196
Sophia de Mello Breyner Andresen
Como Esquecida Voz de Um Amor Muito Antigo
Desgarram-se no ar as pancadas de um sino
A casa onde moro não fica rente às águas da laguna
Mas a parede é branca e vê-se o rio
E embora hydras e fúrias nos desfiem
A diversidade das coisas como Ponge diz
Nos constrói
A casa onde moro não fica rente às águas da laguna
Mas a parede é branca e vê-se o rio
E embora hydras e fúrias nos desfiem
A diversidade das coisas como Ponge diz
Nos constrói
1 130
Sophia de Mello Breyner Andresen
O Infante
Aos homens ordenou que navegassem
Sempre mais longe para ver o que havia
E sempre para o sul e que indagassem
O mar a terra o vento a calmaria
Os povos e os astros
E no desconhecido cada dia entrassem
Sempre mais longe para ver o que havia
E sempre para o sul e que indagassem
O mar a terra o vento a calmaria
Os povos e os astros
E no desconhecido cada dia entrassem
1 376
Sophia de Mello Breyner Andresen
Iii. À Luz do Aparecer a Madrugada
À luz do aparecer a madrugada
Iluminava o côncavo de ausentes
Velas a demandar estas paragens
Aqui desceram as âncoras escuras
Daqueles que vieram procurando
O rosto real de todas as figuras
E ousaram — aventura a mais incrível —
Viver a inteireza do possível
1977
Iluminava o côncavo de ausentes
Velas a demandar estas paragens
Aqui desceram as âncoras escuras
Daqueles que vieram procurando
O rosto real de todas as figuras
E ousaram — aventura a mais incrível —
Viver a inteireza do possível
1977
641
Sophia de Mello Breyner Andresen
No Deserto
Metade de mim cavalo de mim mesma eu te domino
Eu te debelo com espora e rédea
Para que não te percas nas cidades mortas
Para que não te percas
Nem nos comércios de Babilónia
Nem nos ritos sangrentos de Nínive
Eu aponto o teu nariz para o deserto limpo
Para o perfume limpo do deserto
Para a sua solidão de extremo a extremo
Por isso te debelo te combato te domino
E o freio te corta a espora te fere a rédea te retém
Para poder soltar-te livre no deserto
Onde não somos nós dois mas só um mesmo
No deserto limpo com seu perfume de astros
Na grande claridade limpa do deserto
No espaço interior de cada poema
Luz e fogo perdidos mas tão perto
Onde não somos nós dois mas só um mesmo
Eu te debelo com espora e rédea
Para que não te percas nas cidades mortas
Para que não te percas
Nem nos comércios de Babilónia
Nem nos ritos sangrentos de Nínive
Eu aponto o teu nariz para o deserto limpo
Para o perfume limpo do deserto
Para a sua solidão de extremo a extremo
Por isso te debelo te combato te domino
E o freio te corta a espora te fere a rédea te retém
Para poder soltar-te livre no deserto
Onde não somos nós dois mas só um mesmo
No deserto limpo com seu perfume de astros
Na grande claridade limpa do deserto
No espaço interior de cada poema
Luz e fogo perdidos mas tão perto
Onde não somos nós dois mas só um mesmo
1 471
Sophia de Mello Breyner Andresen
Procelária
É vista quando há vento e grande vaga
Ela faz o ninho no rolar da fúria
E voa firme e certa como bala
As suas asas empresta à tempestade
Quando os leões do mar rugem nas grutas
Sobre os abismos passa e vai em frente
Ela não busca a rocha o cabo o cais
Mas faz da insegurança sua força
E do risco de morrer seu alimento
Por isso me parece imagem justa
Para quem vive e canta no mau tempo
Ela faz o ninho no rolar da fúria
E voa firme e certa como bala
As suas asas empresta à tempestade
Quando os leões do mar rugem nas grutas
Sobre os abismos passa e vai em frente
Ela não busca a rocha o cabo o cais
Mas faz da insegurança sua força
E do risco de morrer seu alimento
Por isso me parece imagem justa
Para quem vive e canta no mau tempo
1 681
Sophia de Mello Breyner Andresen
Santa Clara de Assis
Eis aquela que parou em frente
Das altas noites puras e suspensas.
Eis aquela que soube na paisagem
Adivinhar a unidade prometida:
Coração atento ao rosto das imagens,
Face erguida,
Vontade transparente
Inteira onde os outros se dividem.
Das altas noites puras e suspensas.
Eis aquela que soube na paisagem
Adivinhar a unidade prometida:
Coração atento ao rosto das imagens,
Face erguida,
Vontade transparente
Inteira onde os outros se dividem.
1 444
Florbela Espanca
Há de ser luz do sol em tardes quentes
Há de ser luz do sol em tardes quentes,
Nos olhos de água clara há de trazer
As fúlgidas pupilas das videntes!
<Há de ser seiva no botão repleto
Voz no murmúrio do pequeno insecto,
Vento que enfuna as velas sobre os mastros!...
<Há de ser Outro e Outro num momento!
Força viva, brutal, em movimento,
Astro arrastando catadupas de astros!
Nos olhos de água clara há de trazer
As fúlgidas pupilas das videntes!
<Há de ser seiva no botão repleto
Voz no murmúrio do pequeno insecto,
Vento que enfuna as velas sobre os mastros!...
<Há de ser Outro e Outro num momento!
Força viva, brutal, em movimento,
Astro arrastando catadupas de astros!
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