Árvores florestas e montanhas
Poemas neste tema
Olavo Bilac
Pinta-me a curva
XXVIII
Pinta-me a curva destes céus ... Agora,
Erecta, ao fundo, a cordilheira apruma:
Pinta as nuvens de fogo de uma em uma,
E alto, entre as nuvens, o raiar da aurora.
Solta, ondulando, os véus de espessa bruma,
E o vale pinta, e, pelo vale em fora,
A correnteza túrbida e sonora
Do Paraíba, em torvelins de espuma.
Pinta; mas vê de que maneira pintas ...
Antes busques as cores da tristeza,
Poupando o escrínio das alegres tintas:
— Tristeza sir-gular, estranha mágoa
De que vejo coberta a natureza,
Porque a vejo com os olhos rasos dágua ...
Pinta-me a curva destes céus ... Agora,
Erecta, ao fundo, a cordilheira apruma:
Pinta as nuvens de fogo de uma em uma,
E alto, entre as nuvens, o raiar da aurora.
Solta, ondulando, os véus de espessa bruma,
E o vale pinta, e, pelo vale em fora,
A correnteza túrbida e sonora
Do Paraíba, em torvelins de espuma.
Pinta; mas vê de que maneira pintas ...
Antes busques as cores da tristeza,
Poupando o escrínio das alegres tintas:
— Tristeza sir-gular, estranha mágoa
De que vejo coberta a natureza,
Porque a vejo com os olhos rasos dágua ...
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6
Thiago de Mello
Faz Mormaço na Floresta
Não quero
que me cedas,
por dar amor.
nem me concedas nada
de teu, por dar amor.
De dá diva, já basta
tu inteira na luz que do teu corpo nasce
Quero só que tu queiras,
de coração cantando,
vir comigo acender
toda a paz das estrelas
que abraçados inventam
o teu corpo e o meu.
A cuia morna do ventre
da cunhatã estendida
tomo nas mãos e sorvo
sem sofreguidão a luz
que líquida se derrama
entre as vertentes da coxas.
Firme a forquilha das ancas
a coluna se recurva:
faz mormaço na floresta.
Um suor escorre da nuca
porejada de hortelã
e o chão se encharca de festa.
Calor molhado de seta
nos envolve sobre a areia
Crescem cantos na floresta
quando as asas quentes pousas
de tua boca em meu peito:
estirado me floresço.
Fogo ondulado, teu dorso
que me lentamente desce,
enquanto árvore cresço
Sombra ardente que me guia
tua cabeleira baila
na esparramada alegria
É quando mordo a luz
do teu peito que tenho
o que perdi sem ter.
Quando me vi foi quando
antes de te ver, abriste
o sol dos teus cabelos
nenhum espelho nunca
(nem o secreto lago)
em que o medo me espio)
me desvelou, relâmpago
quanto o tremor alçado
de teus joelhos chamando.
Nunca sei como sou
(sei só que sou contente)
quando contigo vou.
Amor me ensina a ser
a verdade que invento
para te merecer.
Só chegas quando estou:
as estrelas me trazes
para o céu que te dou.
Na glória de saber
que inteiro me recebes
desaprendo o que é ter.
que me cedas,
por dar amor.
nem me concedas nada
de teu, por dar amor.
De dá diva, já basta
tu inteira na luz que do teu corpo nasce
Quero só que tu queiras,
de coração cantando,
vir comigo acender
toda a paz das estrelas
que abraçados inventam
o teu corpo e o meu.
A cuia morna do ventre
da cunhatã estendida
tomo nas mãos e sorvo
sem sofreguidão a luz
que líquida se derrama
entre as vertentes da coxas.
Firme a forquilha das ancas
a coluna se recurva:
faz mormaço na floresta.
Um suor escorre da nuca
porejada de hortelã
e o chão se encharca de festa.
Calor molhado de seta
nos envolve sobre a areia
Crescem cantos na floresta
quando as asas quentes pousas
de tua boca em meu peito:
estirado me floresço.
Fogo ondulado, teu dorso
que me lentamente desce,
enquanto árvore cresço
Sombra ardente que me guia
tua cabeleira baila
na esparramada alegria
É quando mordo a luz
do teu peito que tenho
o que perdi sem ter.
Quando me vi foi quando
antes de te ver, abriste
o sol dos teus cabelos
nenhum espelho nunca
(nem o secreto lago)
em que o medo me espio)
me desvelou, relâmpago
quanto o tremor alçado
de teus joelhos chamando.
Nunca sei como sou
(sei só que sou contente)
quando contigo vou.
Amor me ensina a ser
a verdade que invento
para te merecer.
Só chegas quando estou:
as estrelas me trazes
para o céu que te dou.
Na glória de saber
que inteiro me recebes
desaprendo o que é ter.
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6
Juó Bananére
Migna Terra
Migna terra tê parmeras,
Che ganta ínzima o sabiá.
As aves che stó aqui,
Tambê tuttos sabi gorgeá.
A abobora celestia tambê,
Che tê lá na mia terra,
Tê moltos millió di strella
Che non tê na Ingraterra.
Os rios lá sô maise grandi
Dus rio di tuttas naçó;
I os matto si perdi di vista,
Nu meio da imensidó.
Na migna terra tê parmeras
Dove ganta a galligna dangola;
Na minha terra tê o Vap'relli,
Chi só anda di gartolla.
In: BANANÉRE, Juó. La divina increnca. 2.ed. Pref. Mário Leite. São Paulo: Folco Masucci, 1966
NOTA: Paródia da "Canção do Exílio", do livro PRIMEIROS CANTOS (1846), de Gonçalves Dia
Che ganta ínzima o sabiá.
As aves che stó aqui,
Tambê tuttos sabi gorgeá.
A abobora celestia tambê,
Che tê lá na mia terra,
Tê moltos millió di strella
Che non tê na Ingraterra.
Os rios lá sô maise grandi
Dus rio di tuttas naçó;
I os matto si perdi di vista,
Nu meio da imensidó.
Na migna terra tê parmeras
Dove ganta a galligna dangola;
Na minha terra tê o Vap'relli,
Chi só anda di gartolla.
In: BANANÉRE, Juó. La divina increnca. 2.ed. Pref. Mário Leite. São Paulo: Folco Masucci, 1966
NOTA: Paródia da "Canção do Exílio", do livro PRIMEIROS CANTOS (1846), de Gonçalves Dia
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5
Guilherme de Almeida
Canção do Expedicionário
Você sabe de onde eu venho?
Venho do morro, do engenho,
das selvas, dos cafezais,
da choupana onde um é pouco,
dois é bom, três é demais.
Venho das praias sedosas,
das montanhas alterosas,
do pampa, do seringal,
das margens crespas dos rios,
dos verdes mares bravios,
de minha terra natal.
Por mais terras que eu percorra,
não permita Deus que eu morra
sem que eu volte para lá
sem que leve por divisa
esse "V" que simboliza
a vitória que virá:
Nossa Vitória final,
que é a mira do meu fuzil,
a ração do meu bornal,
a água do meu cantil,
as asas do meu ideal,
a glória do meu Brasil!
Eu venho da minha terra,
da casa branca da serra
e do luar do sertão;
venho da minha Maria
cujo nome principia
na palma da minha mão.
Braços mornos de Moema,
lábios de mel de Iracema
estendidos para mim!
Ó minha terra querida
da Senhora Aparecida
e do Senhor do Bonfim!
Você sabe de onde eu venho?
É de uma pátria que eu tenho
no bojo do meu violão;
que de viver em meu peito
foi até tomando um jeito
de um enorme coração.
Deixei lá atrás meu terreiro
meu limão meu limoeiro,
meu pé de jacarandá,
minha casa pequenina
lá no alto da colina
onde canta o sabiá.
Venho de além desse monte
que ainda azula no horizonte,
onde o nosso amor nasceu;
do rancho que tinha ao lado
um coqueiro que, coitado,
de saudade já morreu.
Venho do verde mais belo,
do mais dourado amarelo,
do azul mais cheio de luz,
cheio de estrelas prateadas
que se ajoelham, deslumbradas,
(1890-1969)
Venho do morro, do engenho,
das selvas, dos cafezais,
da choupana onde um é pouco,
dois é bom, três é demais.
Venho das praias sedosas,
das montanhas alterosas,
do pampa, do seringal,
das margens crespas dos rios,
dos verdes mares bravios,
de minha terra natal.
Por mais terras que eu percorra,
não permita Deus que eu morra
sem que eu volte para lá
sem que leve por divisa
esse "V" que simboliza
a vitória que virá:
Nossa Vitória final,
que é a mira do meu fuzil,
a ração do meu bornal,
a água do meu cantil,
as asas do meu ideal,
a glória do meu Brasil!
Eu venho da minha terra,
da casa branca da serra
e do luar do sertão;
venho da minha Maria
cujo nome principia
na palma da minha mão.
Braços mornos de Moema,
lábios de mel de Iracema
estendidos para mim!
Ó minha terra querida
da Senhora Aparecida
e do Senhor do Bonfim!
Você sabe de onde eu venho?
É de uma pátria que eu tenho
no bojo do meu violão;
que de viver em meu peito
foi até tomando um jeito
de um enorme coração.
Deixei lá atrás meu terreiro
meu limão meu limoeiro,
meu pé de jacarandá,
minha casa pequenina
lá no alto da colina
onde canta o sabiá.
Venho de além desse monte
que ainda azula no horizonte,
onde o nosso amor nasceu;
do rancho que tinha ao lado
um coqueiro que, coitado,
de saudade já morreu.
Venho do verde mais belo,
do mais dourado amarelo,
do azul mais cheio de luz,
cheio de estrelas prateadas
que se ajoelham, deslumbradas,
(1890-1969)
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5
Daniel Faria
As mulheres aspiram a casa para dentro dos pulmões
As mulheres aspiram a casa para dentro dos pulmões
E muitas transformam-se em árvores cheias de ninhos - digo,
As mulheres - ainda que as casas apresentem os telhados inclinados
Ao peso dos pássaros que se abrigam.
É à janela dos filhos que as mulheres respiram
Sentadas nos degraus olhando para eles e muitas
Transformam-se em escadas
Muitas mulheres transformam-se em paisagens
Em árvores cheias de crianças trepando que se penduram
Nos ramos - no pescoço das mães - ainda que as árvores irradiem
Cheias de rebentos
As mulheres aspiram para dentro
E geram continuamente. Transformam-se em pomares.
Elas arrumam a casa
Elas põem a mesa
Ao redor do coração.
de Homens Que São Como Lugares Mal Situados(1998)
E muitas transformam-se em árvores cheias de ninhos - digo,
As mulheres - ainda que as casas apresentem os telhados inclinados
Ao peso dos pássaros que se abrigam.
É à janela dos filhos que as mulheres respiram
Sentadas nos degraus olhando para eles e muitas
Transformam-se em escadas
Muitas mulheres transformam-se em paisagens
Em árvores cheias de crianças trepando que se penduram
Nos ramos - no pescoço das mães - ainda que as árvores irradiem
Cheias de rebentos
As mulheres aspiram para dentro
E geram continuamente. Transformam-se em pomares.
Elas arrumam a casa
Elas põem a mesa
Ao redor do coração.
de Homens Que São Como Lugares Mal Situados(1998)
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5
Fernando Pessoa
Contemplo o que não vejo.
Contemplo o que não vejo.
É tarde, é quase escuro,
E quando em mim desejo
Está parado ante o muro.
Por cima o céu é grande;
Sinto árvores além;
Embora o vento abrande,
Há folhas em vaivém.
Tudo é do outro lado,
No que há e no que penso.
Nem há ramo agitado
Que o céu não seja imenso.
Confunde-se o que existe
Com o que durmo e sou.
Não sinto, não sou triste,
Mas triste é o que estou.
07/09/1933
É tarde, é quase escuro,
E quando em mim desejo
Está parado ante o muro.
Por cima o céu é grande;
Sinto árvores além;
Embora o vento abrande,
Há folhas em vaivém.
Tudo é do outro lado,
No que há e no que penso.
Nem há ramo agitado
Que o céu não seja imenso.
Confunde-se o que existe
Com o que durmo e sou.
Não sinto, não sou triste,
Mas triste é o que estou.
07/09/1933
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5
D. Dinis
Ai flores, ai flores do verde pino
Ai flores, ai flores do verde pino,
se sabedes novas do meu amigo!
Ai Deus, e u é?
Ai flores, ai flores do verde ramo,
se sabedes novas do meu amado!
Ai Deus, e u é?
Se sabedes novas do meu amigo,
aquel que mentiu do que pôs comigo!
Ai Deus, e u é?
Se sabedes novas do meu amado,
aquel que mentiu do que mh á jurado!
Ai Deus, e u é?
-Vós me preguntades polo vossamigo,
e eu ben vos digo que é san e vivo:
Ai Deus, e u é?
-Vós me preguntades polo vossamado,
e eu ben vos digo que é viv e sano:
Ai Deus, e u é?
E eu bem vos digo que é san e vivo
e seerá vosc ant o prazo saido:
Ai Deus, e u é?
E eu ben vos digo que é viv e sano
e seerá vosc ant o prazo passado:
Ai Deus, e u é?
se sabedes novas do meu amigo!
Ai Deus, e u é?
Ai flores, ai flores do verde ramo,
se sabedes novas do meu amado!
Ai Deus, e u é?
Se sabedes novas do meu amigo,
aquel que mentiu do que pôs comigo!
Ai Deus, e u é?
Se sabedes novas do meu amado,
aquel que mentiu do que mh á jurado!
Ai Deus, e u é?
-Vós me preguntades polo vossamigo,
e eu ben vos digo que é san e vivo:
Ai Deus, e u é?
-Vós me preguntades polo vossamado,
e eu ben vos digo que é viv e sano:
Ai Deus, e u é?
E eu bem vos digo que é san e vivo
e seerá vosc ant o prazo saido:
Ai Deus, e u é?
E eu ben vos digo que é viv e sano
e seerá vosc ant o prazo passado:
Ai Deus, e u é?
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5
Ruy Belo
A missão das folhas
Naquela tarde quebrada
contra o meu ouvido atento
eu soube que a missão das folhas
é definir o vento
Ruy Belo | "Obra Poética de Ruy Belo" - Vol. 1, pág. 50 | Editorial Presença Lda., 1984
contra o meu ouvido atento
eu soube que a missão das folhas
é definir o vento
Ruy Belo | "Obra Poética de Ruy Belo" - Vol. 1, pág. 50 | Editorial Presença Lda., 1984
3 770
4
Luiz de Miranda
Tonho Tropeiro
a Geraldo Vandré
I
Tonho tropeiro cavalga
entre lendas e o instante
burocrático (democrático)
Surgiu no morro morrente
do desmorre, onde dorme
o sol, e as tempestades recolhem
os braços sobre o baço
Suas esporas fizeram estrada
no campo de terra lavrada
seus pés cruzaram chão
que nem dá pra contar
Tonho tropeiro, fruto do campo
uma prece, um canto
a revolta da relva
explodiu verde no espaço
uma prece, um canto
a noite engoliu o dia
uma prece, um canto
um morria, outro nascia
uma prece, um canto
é hora de sombras e assombros
uma luta é uma luta
II
arado
arando
campo
mil discos arando a terra
mil valas abertas na noite
mil corpos cobrindo a terra
dorsalmente em decúbito.
um ruído escasso
um ruído distante
um som de silêncio
a tropa estende-se na estepe
a trova estendida esteve
a estrela, repórter da noite
estende um chamado estranho
a lua espia de longe
até parece um monge
o tropeiro estende o corpo
o silêncio profundo das horas
noturnas estende seu manto.
três berros
três velas
três sustos
um olho buscando luz
um pé buscando apoio
um corpo buscando ação
(...)
Publicado no livro Andança (1969). Poema integrante da série No Instante.
In: MIRANDA, Luiz de. Poesia reunida, 1967/1992. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira; Porto Alegre: IEL, 1992. p.452-453
NOTA: Poema composto de 3 parte
I
Tonho tropeiro cavalga
entre lendas e o instante
burocrático (democrático)
Surgiu no morro morrente
do desmorre, onde dorme
o sol, e as tempestades recolhem
os braços sobre o baço
Suas esporas fizeram estrada
no campo de terra lavrada
seus pés cruzaram chão
que nem dá pra contar
Tonho tropeiro, fruto do campo
uma prece, um canto
a revolta da relva
explodiu verde no espaço
uma prece, um canto
a noite engoliu o dia
uma prece, um canto
um morria, outro nascia
uma prece, um canto
é hora de sombras e assombros
uma luta é uma luta
II
arado
arando
campo
mil discos arando a terra
mil valas abertas na noite
mil corpos cobrindo a terra
dorsalmente em decúbito.
um ruído escasso
um ruído distante
um som de silêncio
a tropa estende-se na estepe
a trova estendida esteve
a estrela, repórter da noite
estende um chamado estranho
a lua espia de longe
até parece um monge
o tropeiro estende o corpo
o silêncio profundo das horas
noturnas estende seu manto.
três berros
três velas
três sustos
um olho buscando luz
um pé buscando apoio
um corpo buscando ação
(...)
Publicado no livro Andança (1969). Poema integrante da série No Instante.
In: MIRANDA, Luiz de. Poesia reunida, 1967/1992. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira; Porto Alegre: IEL, 1992. p.452-453
NOTA: Poema composto de 3 parte
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4
Juvenal Galeno
O Caipora
— No meio da mata, menino, não corras,
Que o vil caipora
Agora,
Nesta hora
Passeia montado no seu caititu;
E arteiro e malino
Se encontra o menino...
Ai dele! que o leva no seu grande uru!
Menino, não corras
Na mata a brincar,
Que o vil caipora
Te pode levar.
Seus olhos pequenos são negros, e feros,
Quais d'onça, luzentes,
Ardentes...
E os dentes
São como os do mero, ferinos, cruéis;
E o duro cabelo,
Assim, como o pêlo
Dos bravos queixadas, que são-lhe fiéis.
Menino, não corras
Na mata a brincar,
Que o vil caipora
Te pode levar.
Qu'ousado e valente o tal caboclinho,
De penas coberto,
Esperto...
Decerto
Se vê-te quer fumo, pedir-t'o lá vem;
Se acaso lh'o negas,
Se não lh'o entregas,
Quem é que te salva? Lá vais ao moquém!
Menino, não corras
Na mata a brincar,
Que o vil caipora
Te pode levar.
Se acaso te encontra... lá vais para a grota
Debalde lutando,
Gritando,
Chorando,
Na embira amarrado do seu grande uru!
Não corras menino,
Que o índio malino
Na mata passeia no seu caititu!
E o louco menino
Não quis escutar;
Fugindo de casa
Não pôde voltar.
In: GALENO, Juvenal. Lendas e canções populares, 1859/1865. Introd. F. Alves de Andrade. 4.ed. Fortaleza: Casa de Juvenal Galeno, 197
Que o vil caipora
Agora,
Nesta hora
Passeia montado no seu caititu;
E arteiro e malino
Se encontra o menino...
Ai dele! que o leva no seu grande uru!
Menino, não corras
Na mata a brincar,
Que o vil caipora
Te pode levar.
Seus olhos pequenos são negros, e feros,
Quais d'onça, luzentes,
Ardentes...
E os dentes
São como os do mero, ferinos, cruéis;
E o duro cabelo,
Assim, como o pêlo
Dos bravos queixadas, que são-lhe fiéis.
Menino, não corras
Na mata a brincar,
Que o vil caipora
Te pode levar.
Qu'ousado e valente o tal caboclinho,
De penas coberto,
Esperto...
Decerto
Se vê-te quer fumo, pedir-t'o lá vem;
Se acaso lh'o negas,
Se não lh'o entregas,
Quem é que te salva? Lá vais ao moquém!
Menino, não corras
Na mata a brincar,
Que o vil caipora
Te pode levar.
Se acaso te encontra... lá vais para a grota
Debalde lutando,
Gritando,
Chorando,
Na embira amarrado do seu grande uru!
Não corras menino,
Que o índio malino
Na mata passeia no seu caititu!
E o louco menino
Não quis escutar;
Fugindo de casa
Não pôde voltar.
In: GALENO, Juvenal. Lendas e canções populares, 1859/1865. Introd. F. Alves de Andrade. 4.ed. Fortaleza: Casa de Juvenal Galeno, 197
4 706
4
Tomaz Vieira da Cruz
Quissange - Saudade Negra
Não sei, por estas noites tropicais,
o que me encanta...
Se é o luar que canta
ou a floresta aos ais.
Não sei, não sei, aqui neste sertão
de musica dolorosa
qual é a voz que chora
e chega ao coração...
Qual o som que aflora
dos lábios da noite misteriosa!
Sei apenas, e isso é que importa,
que a tua voz, dolente e quase morta,
já mal a escuto, por andar ausente,
já mal escuto a tua voz dolente...
Dolente, a tua voz "luena",
lá do distante Moxico,
que disponho e crucifico
nesta amargura morena...
Que é o destino selvagem
duma canção em que tange,
por entre a floresta virgem
o meu saudoso "Quissange".
Quissange, fatalidade
deste meu triste destino...
Quissange, negra saudade
do teu olhar diamantino.
Quissange, lira gentia,
cantando o sol e o luar,
e chorando a nostalgia
do sertão, por sobre o mar.
Indo mares fora, mares bravos,
em noite primaveril
acompanhando os escravos
que morreram no Brasil.
Não sei, não sei,
neste verão infinito,
a razão de tanto grito...
-Se és tu, oh morte, morrei!
Mas deixa a vida que tange,
exaltando as amarguras,
e as mais tristes desventuras
do meu amado Quissange!
o que me encanta...
Se é o luar que canta
ou a floresta aos ais.
Não sei, não sei, aqui neste sertão
de musica dolorosa
qual é a voz que chora
e chega ao coração...
Qual o som que aflora
dos lábios da noite misteriosa!
Sei apenas, e isso é que importa,
que a tua voz, dolente e quase morta,
já mal a escuto, por andar ausente,
já mal escuto a tua voz dolente...
Dolente, a tua voz "luena",
lá do distante Moxico,
que disponho e crucifico
nesta amargura morena...
Que é o destino selvagem
duma canção em que tange,
por entre a floresta virgem
o meu saudoso "Quissange".
Quissange, fatalidade
deste meu triste destino...
Quissange, negra saudade
do teu olhar diamantino.
Quissange, lira gentia,
cantando o sol e o luar,
e chorando a nostalgia
do sertão, por sobre o mar.
Indo mares fora, mares bravos,
em noite primaveril
acompanhando os escravos
que morreram no Brasil.
Não sei, não sei,
neste verão infinito,
a razão de tanto grito...
-Se és tu, oh morte, morrei!
Mas deixa a vida que tange,
exaltando as amarguras,
e as mais tristes desventuras
do meu amado Quissange!
3 502
4
Felipe Vianna
BALNEÁRIO CAMBORIÚ
Em minha terra,
Onde as montanhas
Assentam-se ao mar,
Onde o mar aplaude a terra
Em borbulhantes festejos,
Quem somos nós
Se não
Meros personagens de uma saga.
Uma saga,
Admirada pela Ilha das Cabras
Postada
Em teu mar.
Alva areia
Que o véu da noiva alisa
Em ondas borbulejantes,
Sob a luz da lua
Tua vida vem cantar.
De xuá em xuá
Mostras tua força dura,
Suave como pluma,
Que em muitos vens à encantar.
Quem sois Vós,
Ó Deus magnífico,
Que criastes do Atlântico ao Pacífico
Belezas
Como o meu lar?
12/11/2000
Onde as montanhas
Assentam-se ao mar,
Onde o mar aplaude a terra
Em borbulhantes festejos,
Quem somos nós
Se não
Meros personagens de uma saga.
Uma saga,
Admirada pela Ilha das Cabras
Postada
Em teu mar.
Alva areia
Que o véu da noiva alisa
Em ondas borbulejantes,
Sob a luz da lua
Tua vida vem cantar.
De xuá em xuá
Mostras tua força dura,
Suave como pluma,
Que em muitos vens à encantar.
Quem sois Vós,
Ó Deus magnífico,
Que criastes do Atlântico ao Pacífico
Belezas
Como o meu lar?
12/11/2000
2 682
4
Junqueira Freire
Sonho
Era um bosque, um arvoredo,
Uma sagrada espessura,
— Mitológica pintura
Que o romantismo não faz.
Era um sítio tão formoso,
Que nem um pincel romano,
Nem Rubens, nem Ticiano
Copiariam assaz.
Ali pensei que sonhava
Com a donzela que me inspira,
Que põe-me nas mãos a lira,
Que põe-me o estro a ferver;
Que me acalenta em seu colo,
Que me beija a vasta crente,
Que me obriga a ser mais crente
No Deus que ela julga crer.
Sonhei com a visão dourada,
Que todo o poeta sonha,
— Idéia gentil, risonha,
Tão poucas vezes real!
Que só, com o peito abafado,
Se vai de noite em segredo
Contar no denso arvoredo
Ao cipreste sepulcral.
Mas, despertando do sonho,
Que aos homens não se revela,
Achei comigo a donzela,
Me apertando o coração,
E ainda presa a meus lábios,
Entre um riso, entre um gemido,
Murmurou-me ao pé do ouvido
— Que não era um sonho, não. —
E não mais, enquanto vivo,
Deixarei esta espessura,
— Mitológica pintura
Que o romantismo não faz.
Era um sítio tão formoso,
Que nem o pincel romano,
Nem Rubens, nem Ticiano
Copiariam assaz.
Publicado no livro Obras Póstumas (1868*). Poema integrante da série Contradições Poéticas.
In: GRANDES poetas românticos do Brasil. Pref. e notas biogr. Antônio Soares Amora. Introd. Frederico José da Silva Ramos. São Paulo: LEP, 1959. v.2, p.4
Uma sagrada espessura,
— Mitológica pintura
Que o romantismo não faz.
Era um sítio tão formoso,
Que nem um pincel romano,
Nem Rubens, nem Ticiano
Copiariam assaz.
Ali pensei que sonhava
Com a donzela que me inspira,
Que põe-me nas mãos a lira,
Que põe-me o estro a ferver;
Que me acalenta em seu colo,
Que me beija a vasta crente,
Que me obriga a ser mais crente
No Deus que ela julga crer.
Sonhei com a visão dourada,
Que todo o poeta sonha,
— Idéia gentil, risonha,
Tão poucas vezes real!
Que só, com o peito abafado,
Se vai de noite em segredo
Contar no denso arvoredo
Ao cipreste sepulcral.
Mas, despertando do sonho,
Que aos homens não se revela,
Achei comigo a donzela,
Me apertando o coração,
E ainda presa a meus lábios,
Entre um riso, entre um gemido,
Murmurou-me ao pé do ouvido
— Que não era um sonho, não. —
E não mais, enquanto vivo,
Deixarei esta espessura,
— Mitológica pintura
Que o romantismo não faz.
Era um sítio tão formoso,
Que nem o pincel romano,
Nem Rubens, nem Ticiano
Copiariam assaz.
Publicado no livro Obras Póstumas (1868*). Poema integrante da série Contradições Poéticas.
In: GRANDES poetas românticos do Brasil. Pref. e notas biogr. Antônio Soares Amora. Introd. Frederico José da Silva Ramos. São Paulo: LEP, 1959. v.2, p.4
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4
Pablo Neruda
Pedras Antárticas
Ali termina tudo
e não termina:
ali começa tudo
se despedem os rios no gelo,
o ar se há casado com a neve,
não há ruas nem cavalos
e o único edifício
o construiu a pedra.
Ninguém habita o castelo
nem as almas perdidas
que frio e vento frio
amedrontaram:
é sozinha ali a solidão do mundo,
e por isso a pedra
se fez música,
elevou suas delgadas estaturas,
se levantou para gritar ou cantar,
porém ficou muda.
Só o vento,
o açoite
do Pólo Sul que assobia,
só o vazio branco
e um som de pássaro de chuva
sobre o castelo da solidão.
e não termina:
ali começa tudo
se despedem os rios no gelo,
o ar se há casado com a neve,
não há ruas nem cavalos
e o único edifício
o construiu a pedra.
Ninguém habita o castelo
nem as almas perdidas
que frio e vento frio
amedrontaram:
é sozinha ali a solidão do mundo,
e por isso a pedra
se fez música,
elevou suas delgadas estaturas,
se levantou para gritar ou cantar,
porém ficou muda.
Só o vento,
o açoite
do Pólo Sul que assobia,
só o vazio branco
e um som de pássaro de chuva
sobre o castelo da solidão.
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Manuel Bandeira
A Mata
A mata agita-se, revoluteia, contorce-se toda e sacode-se!
A mata hoje tem alguma coisa para dizer.
E ulula, e contorce-se toda, como a atriz de uma pantomima trágica.
Cada galho rebelado
Inculca a mesma perdida ânsia.
Todos eles sabem o mesmo segredo pânico.
Ou então — é que pedem desesperadamente a mesma instante coisa.
Que saberá a mata? Que pedirá a mata?
Pedirá água?
Mas a água despenhou-se há pouco, fustigando-a, escorraçando-a, saciando-a como aos alarves.
Pedirá o fogo para a purificação das necroses milenárias?
Ou não pede nada, e quer falar e não pode?
Terá surpreendido o segredo da terra pelos ouvidos finíssimos das suas raízes?
A mata agita-se, revoluteia, contorce-se toda e sacode-se!
A mata está hoje como uma multidão em delírio coletivo.
Só uma touça de bambus, à parte,
Balouça... levemente... levemente... levemente...
E parece sorrir do delírio geral.
Petrópolis, 1921
A mata hoje tem alguma coisa para dizer.
E ulula, e contorce-se toda, como a atriz de uma pantomima trágica.
Cada galho rebelado
Inculca a mesma perdida ânsia.
Todos eles sabem o mesmo segredo pânico.
Ou então — é que pedem desesperadamente a mesma instante coisa.
Que saberá a mata? Que pedirá a mata?
Pedirá água?
Mas a água despenhou-se há pouco, fustigando-a, escorraçando-a, saciando-a como aos alarves.
Pedirá o fogo para a purificação das necroses milenárias?
Ou não pede nada, e quer falar e não pode?
Terá surpreendido o segredo da terra pelos ouvidos finíssimos das suas raízes?
A mata agita-se, revoluteia, contorce-se toda e sacode-se!
A mata está hoje como uma multidão em delírio coletivo.
Só uma touça de bambus, à parte,
Balouça... levemente... levemente... levemente...
E parece sorrir do delírio geral.
Petrópolis, 1921
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Gilson Nascimento
Maranguape
Maranguape, verde - serra
Com debruns névoa-algodão
És assim, oh minha terra
Aos olhos do coração
Quando chove aqui no Rio
E há vento solto soprando
Em mim uma saudade-frio
Vai de ti me aproximando
E o pensar, que é passarinho
Mais ligeiro que avião
Bate asas, toma o caminho
Que lhe indica o coração
Cidade tem vida, sim
Vida igualzinha à da gente
Nasce, morre, tem um fim
Tem até alma que sente
E por isso é relembrada
De maneira tão constante
E pode ser relembrada
Do bem perto ou do distante
Com debruns névoa-algodão
És assim, oh minha terra
Aos olhos do coração
Quando chove aqui no Rio
E há vento solto soprando
Em mim uma saudade-frio
Vai de ti me aproximando
E o pensar, que é passarinho
Mais ligeiro que avião
Bate asas, toma o caminho
Que lhe indica o coração
Cidade tem vida, sim
Vida igualzinha à da gente
Nasce, morre, tem um fim
Tem até alma que sente
E por isso é relembrada
De maneira tão constante
E pode ser relembrada
Do bem perto ou do distante
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Herberto Helder
Fonte - I
Ela é a fonte. Eu posso saber que é
a grande fonte
em que todos pensaram. Quando no campo
se procurava o trevo, ou em silêncio
se esperava a noite,
ou se ouvia algures na paz da terra
o urdir do tempo —
cada um pensava na fonte. Era um manar
secreto e pacífico.
Uma coisa milagrosa que acontecia
ocultamente.
Ninguém falava dela, porque
era imensa. Mas todos a sabiam
como a teta. Como o odre.
Algo sorria dentro de nós.
Minhas irmãs faziam-se mulheres
suavemente. Meu pai lia.
Sorria dentro de mim uma aceitação
do trevo, uma descoberta muito casta.
Era a fonte.
Eu amava-a dolorosa e tranquilamente.
A lua formava-se
com uma ponta subtil de ferocidade,
e a maçã tomava um princípio
de esplendor.
Hoje o sexo desenhou-se. O pensamento
perdeu-se e renasceu.
Hoje sei permanentemente que ela
é a fonte.
a grande fonte
em que todos pensaram. Quando no campo
se procurava o trevo, ou em silêncio
se esperava a noite,
ou se ouvia algures na paz da terra
o urdir do tempo —
cada um pensava na fonte. Era um manar
secreto e pacífico.
Uma coisa milagrosa que acontecia
ocultamente.
Ninguém falava dela, porque
era imensa. Mas todos a sabiam
como a teta. Como o odre.
Algo sorria dentro de nós.
Minhas irmãs faziam-se mulheres
suavemente. Meu pai lia.
Sorria dentro de mim uma aceitação
do trevo, uma descoberta muito casta.
Era a fonte.
Eu amava-a dolorosa e tranquilamente.
A lua formava-se
com uma ponta subtil de ferocidade,
e a maçã tomava um princípio
de esplendor.
Hoje o sexo desenhou-se. O pensamento
perdeu-se e renasceu.
Hoje sei permanentemente que ela
é a fonte.
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Luís de Camões
Onde acharei lugar tão apartado
Onde acharei lugar tão apartado
E tão isento em tudo da ventura,
Que, não digo eu de humana criatura,
Mas nem de feras seja frequentado?
Algum bosque medonho e carregado,
Ou selva solitária, triste e escura,
Sem fonte clara ou plácida verdura,
Enfim, lugar conforme a meu cuidado?
Porque ali, nas entranhas dos penedos,
Em vida morto, sepultado em vida,
Me queixe copiosa e livremente;
Que, pois a minha pena é sem medida,
Ali triste serei em dias ledos
E dias tristes me farão contente.
E tão isento em tudo da ventura,
Que, não digo eu de humana criatura,
Mas nem de feras seja frequentado?
Algum bosque medonho e carregado,
Ou selva solitária, triste e escura,
Sem fonte clara ou plácida verdura,
Enfim, lugar conforme a meu cuidado?
Porque ali, nas entranhas dos penedos,
Em vida morto, sepultado em vida,
Me queixe copiosa e livremente;
Que, pois a minha pena é sem medida,
Ali triste serei em dias ledos
E dias tristes me farão contente.
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4
Adélia Prado
Leitura
Era um quintal ensombrado, murado alto de pedras.
As macieiras tinham maçãs temporãs, a casca vermelha
de escuríssimo vinho, o gosto caprichado das coisas
fora do seu tempo desejadas.
Ao longo do muro eram talhas de barro.
Eu comia maçãs, bebia a melhor água, sabendo
que lá fora o mundo havia parado de calor.
Depois encontrei meu pai, que me fez festa
e não estava doente e nem tinha morrido, por isso ria,
os lábios de novo e a cara circulados de sangue,
caçava o que fazer pra gastar sua alegria:
onde está meu formão, minha vara de pescar,
cadê minha binga, meu vidro de café?
Eu sempre sonho que uma coisa gera,
nunca nada está morto.
O que não parece vivo, aduba.
O que parece estático, espera.
As macieiras tinham maçãs temporãs, a casca vermelha
de escuríssimo vinho, o gosto caprichado das coisas
fora do seu tempo desejadas.
Ao longo do muro eram talhas de barro.
Eu comia maçãs, bebia a melhor água, sabendo
que lá fora o mundo havia parado de calor.
Depois encontrei meu pai, que me fez festa
e não estava doente e nem tinha morrido, por isso ria,
os lábios de novo e a cara circulados de sangue,
caçava o que fazer pra gastar sua alegria:
onde está meu formão, minha vara de pescar,
cadê minha binga, meu vidro de café?
Eu sempre sonho que uma coisa gera,
nunca nada está morto.
O que não parece vivo, aduba.
O que parece estático, espera.
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Sophia de Mello Breyner Andresen
Novembro
A respiração de Novembro verde e fria
Incha os cedros azuis e as trepadeiras
E o vento inquieta com longínquos desastres
A folhagem cerrada das roseiras
Incha os cedros azuis e as trepadeiras
E o vento inquieta com longínquos desastres
A folhagem cerrada das roseiras
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3
Sophia de Mello Breyner Andresen
Árvores
Árvores negras que falais ao meu ouvido,
Folhas que não dormis, cheias de febre,
Que adeus é este adeus que me despede
E este pedido sem fim que o vento perde
E esta voz que implora, implora sempre
Sem que ninguém lhe tenha respondido?…
Folhas que não dormis, cheias de febre,
Que adeus é este adeus que me despede
E este pedido sem fim que o vento perde
E esta voz que implora, implora sempre
Sem que ninguém lhe tenha respondido?…
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Fernando Pessoa
01 - Eu nunca guardei rebanhos,
O GUARDADOR DE REBANHOS
I
Eu nunca guardei rebanhos,
Mas é como se os guardasse.
Minha alma é como um pastor,
Conhece o vento e o sol
E anda pela mão das Estações
A seguir e a olhar.
Toda a paz da Natureza sem gente
Vem sentar-se a meu lado.
Mas eu fico triste como um pôr-do-sol
Para a nossa imaginação,
Quando esfria no fundo da planície
E se sente a noite entrada
Como uma borboleta pela janela.
Mas a minha tristeza é sossego
Porque é natural e justa
E é o que deve estar na alma
Quando já pensa que existe
E as mãos colhem flores sem ela dar por isso.
Como um ruído de chocalhos
Para além da curva da estrada,
Os meus pensamentos são contentes.
Só tenho pena de saber que eles são contentes,
Porque, se o não soubesse,
Em vez de serem contentes e tristes,
Seriam alegres e contentes.
Pensar incomoda como andar à chuva
Quando o vento cresce e parece que chove mais.
Não tenho ambições nem desejos.
Ser poeta não é uma ambição minha,
É a minha maneira de estar sozinho.
E se desejo às vezes,
Por imaginar, ser cordeirinho
(Ou ser o rebanho todo
Para andar espalhado por toda a encosta
A ser muita coisa feliz ao mesmo tempo),
É só porque sinto o que escrevo ao pôr-do-sol,
Ou quando uma nuvem passa a mão por cima da luz
E corre um silêncio pela erva fora.
Quando me sento a escrever versos
Ou passeando pelos caminhos ou pelos atalhos,
Escrevo versos num papel que está no meu pensamento,
Sinto um cajado nas mãos
E vejo um recorte de mim
No cimo dum outeiro,
Olhando para o meu rebanho e vendo as minhas ideias,
Ou olhando para as minhas ideias e vendo o meu rebanho,
E sorrindo vagamente como quem não compreende o que se diz
E quer fingir que compreende.
Saúdo todos os que me lerem,
Tirando-lhes o chapéu largo
Quando me vêem à minha porta
Mal a diligência levanta no cimo do outeiro.
Saúdo-os e desejo-lhes sol,
E chuva, quando a chuva é precisa,
E que as suas casas tenham
Ao pé duma janela aberta
Uma cadeira predilecta
Onde se sentem, lendo os meus versos.
E ao lerem os meus versos pensem
Que sou qualquer coisa natural –
Por exemplo, a árvore antiga
À sombra da qual quando crianças
Se sentavam com um baque, cansados de brincar,
E limpavam o suor da testa quente
Com a manga do bibe riscado.
08/03/1914 (Athena, nº 4, Janeiro de 1925)
I
Eu nunca guardei rebanhos,
Mas é como se os guardasse.
Minha alma é como um pastor,
Conhece o vento e o sol
E anda pela mão das Estações
A seguir e a olhar.
Toda a paz da Natureza sem gente
Vem sentar-se a meu lado.
Mas eu fico triste como um pôr-do-sol
Para a nossa imaginação,
Quando esfria no fundo da planície
E se sente a noite entrada
Como uma borboleta pela janela.
Mas a minha tristeza é sossego
Porque é natural e justa
E é o que deve estar na alma
Quando já pensa que existe
E as mãos colhem flores sem ela dar por isso.
Como um ruído de chocalhos
Para além da curva da estrada,
Os meus pensamentos são contentes.
Só tenho pena de saber que eles são contentes,
Porque, se o não soubesse,
Em vez de serem contentes e tristes,
Seriam alegres e contentes.
Pensar incomoda como andar à chuva
Quando o vento cresce e parece que chove mais.
Não tenho ambições nem desejos.
Ser poeta não é uma ambição minha,
É a minha maneira de estar sozinho.
E se desejo às vezes,
Por imaginar, ser cordeirinho
(Ou ser o rebanho todo
Para andar espalhado por toda a encosta
A ser muita coisa feliz ao mesmo tempo),
É só porque sinto o que escrevo ao pôr-do-sol,
Ou quando uma nuvem passa a mão por cima da luz
E corre um silêncio pela erva fora.
Quando me sento a escrever versos
Ou passeando pelos caminhos ou pelos atalhos,
Escrevo versos num papel que está no meu pensamento,
Sinto um cajado nas mãos
E vejo um recorte de mim
No cimo dum outeiro,
Olhando para o meu rebanho e vendo as minhas ideias,
Ou olhando para as minhas ideias e vendo o meu rebanho,
E sorrindo vagamente como quem não compreende o que se diz
E quer fingir que compreende.
Saúdo todos os que me lerem,
Tirando-lhes o chapéu largo
Quando me vêem à minha porta
Mal a diligência levanta no cimo do outeiro.
Saúdo-os e desejo-lhes sol,
E chuva, quando a chuva é precisa,
E que as suas casas tenham
Ao pé duma janela aberta
Uma cadeira predilecta
Onde se sentem, lendo os meus versos.
E ao lerem os meus versos pensem
Que sou qualquer coisa natural –
Por exemplo, a árvore antiga
À sombra da qual quando crianças
Se sentavam com um baque, cansados de brincar,
E limpavam o suor da testa quente
Com a manga do bibe riscado.
08/03/1914 (Athena, nº 4, Janeiro de 1925)
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Joseph Brodsky
A Urânia
para I.K.
Tudo tem limite, inclusive a mágoa.
O olhar esbarra na vidraça como a folha na grade.
Podes engolir em seco. Agitar tuas chaves.
A solidão é o homem ao quadrado.
O dromedário franze o cenho ao farejar os trilhos.
O vazio se estende como uma perspectiva infinita.
E afinal o que é o espaço, senão
a ausência de um corpo a cada ponto dado?
Por isso é que Urânia é mais velha que Clio.
De dia, ou à luz de sebosos candeeiros,
veja: ela nada oculta
e, se olhares fixo para o globo, é a sua nuca que verás.
Ei-los, os bosques carregados de mirtilos,
os rios, onde se pode pescar esturjões com a mão,
e as cidades cujos catálogos telefônicos
já não te incluem. Mais para o sul,
melhor dizendo, para sudeste, erguem-se as escuras montanhas,
éguas selvagens correm entre as bétulas
e os rostos amarelecem. Mais adiante, singram os cruzadores
e a amplidão fica azul clarinho como roupa de baixo rendada.
Tradução de Lauro Machado Coelho.Poesia Soviética (São Paulo: Algol Editora, 2007)
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Nuno Júdice
Hoje
Hoje, prefiro cantar as coisas simples, as que
crescem depressa, como os ciprestes, ou as
que se enrolam a tudo o que aparece nos muros
como as buganvílias. Através delas, vejo o céu
que me traz outras coisas, mais complicadas
dos que estas da terra; e também no céu
escolho, hoje, o que não é difícil, a nuvem
que há pouco parecia eterna e desapareceu;
ou um branco sujo que apagou o horizonte,
por algum tempo, e fez com que todo o
universo ficasse ao meu alcance para nada.
Mas o que é simples também pode ser o
seu contrário. Há uma lógica no interior
deste movimento que faz crescer o cipreste,
ou empurra a buganvilia para o fundo do muro;
e também as nuvens seguem uma direcção
precisa, mudando a sua forma à medida que
se afastam dos meus olhos. A verdade deste
mundo encontra-se no próprio acaso que
a determina; e sou eu que tenho de encontrar
as razões para o que não precisa delas,
porque a sua existência se limita a este
perfume de fim de verão, ou à queda
das folhas que se confundem com nuvens.
O mundo é imprevisível como a vida
da borboleta que nasceu de dentro da
buganvilia; mas o vento que há pouco soprava,
não me disse nada sobre isso, nem o seu
sopro vago me libertou de folhas e de
nuvens, para que o chão e céu ficassem
limpos. Só a borboleta, no instante do voo,
trouxe a sua luz dissonante para dentro
da natureza; e foi ao encontrá-la,
no meio da terra e das pedras do jardim,
que me apercebi de que nem tudo é simples,
quando a morte se cruza com a beleza.
crescem depressa, como os ciprestes, ou as
que se enrolam a tudo o que aparece nos muros
como as buganvílias. Através delas, vejo o céu
que me traz outras coisas, mais complicadas
dos que estas da terra; e também no céu
escolho, hoje, o que não é difícil, a nuvem
que há pouco parecia eterna e desapareceu;
ou um branco sujo que apagou o horizonte,
por algum tempo, e fez com que todo o
universo ficasse ao meu alcance para nada.
Mas o que é simples também pode ser o
seu contrário. Há uma lógica no interior
deste movimento que faz crescer o cipreste,
ou empurra a buganvilia para o fundo do muro;
e também as nuvens seguem uma direcção
precisa, mudando a sua forma à medida que
se afastam dos meus olhos. A verdade deste
mundo encontra-se no próprio acaso que
a determina; e sou eu que tenho de encontrar
as razões para o que não precisa delas,
porque a sua existência se limita a este
perfume de fim de verão, ou à queda
das folhas que se confundem com nuvens.
O mundo é imprevisível como a vida
da borboleta que nasceu de dentro da
buganvilia; mas o vento que há pouco soprava,
não me disse nada sobre isso, nem o seu
sopro vago me libertou de folhas e de
nuvens, para que o chão e céu ficassem
limpos. Só a borboleta, no instante do voo,
trouxe a sua luz dissonante para dentro
da natureza; e foi ao encontrá-la,
no meio da terra e das pedras do jardim,
que me apercebi de que nem tudo é simples,
quando a morte se cruza com a beleza.
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