Angústia

Poemas neste tema

Vinicius de Moraes

Vinicius de Moraes

Tarde

Na hora dolorosa e roxa das emoções silenciosas
Meu espírito te sentiu.
Ele te sentiu imensamente triste
Imensamente sem Deus
Na tragédia da carne desfeita.

Ele te quis, hora sem tempo
Porque tu eras a sua imagem, sem Deus e sem tempo.
Ele te amou
E te plasmou na visão da manhã e do dia
Na visão de todas as horas
Ó hora dolorosa e roxa das emoções silenciosas.
1 047
Martha Medeiros

Martha Medeiros

o que era uma folha caindo

o que era uma folha caindo
parece uma porta batendo
e só o elevador subindo
e ainda assim me surpreendo


os estalos da madeira
viram tiros no escuro
são só os pingos da torneira
e ainda assim me torturo


gritos, sirenes, gemidos
dão à noite outro rumo
são só os barulhos da insônia
e ainda assim não acostumo
1 100
Martha Medeiros

Martha Medeiros

abro a lata, como

abro a lata, como
como um doce, engordo
engordo a conta, gasto
gasto o tempo, sobra
sobra o rango, guardo
guardo a chave, perco
perco o sono, saio
saio à noite, chove
chove à beça, encolhe
encolhe a grana, peço
peço o nome, anoto
anoto a placa, esqueço
esqueço a fome, fumo
fumo o troço, apanho
apanho a gata, sumo
1 076
Vinicius de Moraes

Vinicius de Moraes

Os Inconsoláveis

Desesperados vamos pelos caminhos desertos
Sem lágrimas nos olhos
Desesperados buscamos constelações no céu enorme
E em tudo, a escuridão.
Quem nos levará à claridade
Quem nos arrancará da visão a treva imóvel
E falará da aurora prometida?
Procuramos em vão na multidão que segue
Um olhar que encoraje nosso olhar
Mas todos procuramos olhos esperançosos
E ninguém os encontra.
Aos que vêm a nós cheios de angústia
Mostramos a chaga interior sangrando angústias
E eles lá se vão sofrendo mais.
Aos que vamos em busca de alegria
Mostramos a tristeza de nós mesmos
E eles sofrem, que eles são os infelizes
Que eles são os sem-consolo...

Quando virá o fim da noite
Para as almas que sofrem no silêncio?
Por que roubar assim a claridade
Aos pássaros da luz?
Por que fechar assim o espaço eterno
Às águias gigantescas?
Por que encadear assim à terra
Espíritos que são do imensamente alto?

Ei-la que vai, a procissão das almas
Sem gritos, sem prantos, cheia do silêncio do sofrimento

Andando pela infinita planície que leva ao desconhecido
As bocas dolorosas não cantam
Porque os olhos parados não veem.
Tudo neles é a paralisação da dor no paroxismo
Tudo neles é a negação do anjo...
...são os Inconsoláveis.

— Águias acorrentadas pelos pés.
1 073
Vinicius de Moraes

Vinicius de Moraes

Minha Mãe

Minha mãe, minha mãe, eu tenho medo
Tenho medo da vida, minha mãe.
Canta a doce cantiga que cantavas
Quando eu corria doido ao teu regaço
Com medo dos fantasmas do telhado.
Nina o meu sono cheio de inquietude
Batendo de levinho no meu braço
Que estou com muito medo, minha mãe.
Repousa a luz amiga dos teus olhos
Nos meus olhos sem luz e sem repouso
Dize à dor que me espera eternamente
Para ir embora. Expulsa a angústia imensa
Do meu ser que não quer e que não pode
Dá-me um beijo na fronte dolorida
Que ela arde de febre, minha mãe.

Aninha-me em teu colo como outrora
Dize-me bem baixo assim: — Filho, não temas
Dorme em sossego, que tua mãe não dorme.
Dorme. Os que de há muito te esperavam
Cansados já se foram para longe.
Perto de ti está tua mãezinha
Teu irmão, que o estudo adormeceu
Tuas irmãs pisando de levinho
Para não despertar o sono teu.
Dorme, meu filho, dorme no meu peito
Sonha a felicidade. Velo eu.

Minha mãe, minha mãe, eu tenho medo
Me apavora a renúncia. Dize que eu fique

Dize que eu parta, ó mãe, para a saudade.
Afugenta este espaço que me prende
Afugenta o infinito que me chama
Que eu estou com muito medo, minha mãe.

1 446
Martha Medeiros

Martha Medeiros

ainda que eu não tenha idade

ainda que eu não tenha idade
para sofrer por filhos que se foram
por doenças que vieram
por perdas e danos que sofremos
ainda que eu não precise
temer a morte que me espreita
os amigos que ficaram para trás
os desejos reprimidos para sempre
ainda que eu tenha tempo de sobra
não me resta mais sombra de dúvida
1 120
Martha Medeiros

Martha Medeiros

foram exatos treze segundos

foram exatos treze segundos
mais do que dura um orgasmo
menos que um comercial de tevê
“não posso mais viver com você
me apaixonei por outra mulher”
você disse pausado, com a voz embargada
e levou treze segundos
para dizer duas frases
tivesse mais pressa ou menos remorso
teria sido mais rápido
mas você estava angustiado
e levou treze segundos
pra desocupar meu lugar
como quem desfaz um negócio
tivesse escrito uma carta
haveria de ser mais sutil
tivesse telefonado
seria obrigado a um olá e a um adeus
mas olhando nos olhos
e sem divórcio ou fiasco
mudaste em treze segundos meu estado civil
desarrumando a vida
que eu havia inventado
976
Martha Medeiros

Martha Medeiros

você faz tudo para que os outros percebam

você faz tudo para que os outros percebam
que você gosta de mim


e agora que estamos sós
você não tem dó e me deixa assim


por que você não me agarra
e dá um fim no que me atormenta


por que você não se senta
e me explica o que é isso enfim?
943
Martha Medeiros

Martha Medeiros

foram tantas noites de insônia

foram tantas noites de insônia
roubando os poucos anos que tinha
perdi a conta dos prantos
contei carneiros e os dias
e os dias nunca passavam
ou passavam e eu não via
ficava um aperto no peito
nem tudo entendia como era
mas que era bonito eu sabia
980
Martha Medeiros

Martha Medeiros

se eu pudesse te amar de dia

se eu pudesse te amar de dia
diria que você é meu sol
mas te amo tarde da noite
e não como eu queria
você é meu farol
e já não sei quem me guia
960
Martha Medeiros

Martha Medeiros

o que faço de bom faço malfeito

o que faço de bom faço malfeito
pareço artificial quando sincera
mera falta de jeito pra viver
sou a filha predileta do defeito
1 066
Martha Medeiros

Martha Medeiros

feroz

feroz
minha voz te perturbou
dentro de ti ecoou
um aninal acuado
a angústia de um longo
ramal ocupado
1 042
Martha Medeiros

Martha Medeiros

taça de champanhe

taça de champanhe
um disco rodando sempre o mesmo lado
crise
um telefone ao alcance da mão
um número decorado na cabeça
e uma aflição no coração


é aí que mora o perigo
1 013
Martha Medeiros

Martha Medeiros

para encontrar as origens do meu rosto

para encontrar as origens do meu rosto
muçulmano
revistei-me em aeroportos nebulosos
rasguei o véu que me encobria
descobri bombas e granadas no meu peito
tentei lentes azuis e corante no cabelo
nada feito explodi no bar da esquina
1 084
Martha Medeiros

Martha Medeiros

na vertical

na vertical
sou uma mulher de classe
na horizontal
a mulher de alguém
palavra cruzada
sem resposta na última página
898
Martha Medeiros

Martha Medeiros

sou uma mulher esguia

sou uma mulher esguia
pareço chinesa dobrando as esquinas
quando seguida
sumo na multidão


às vezes um pouco nervosa
não sei o que fazer com as mãos


levanto suspeitas no ar
carrego um revólver na bolsa
e um disparo no coração
1 124
Martha Medeiros

Martha Medeiros

tenho urgência de tudo

tenho urgência de tudo
que deixei pra amanhã
1 108
Martha Medeiros

Martha Medeiros

não devia te contar

não devia te contar
mas se você guardar segredo
eu revelo este meu medo
de não saber amar


não devia te amar
mas se você guardar meu medo
eu revelo este segredo
que não sei contar
1 011
Martha Medeiros

Martha Medeiros

estou assim tão melada de coisas

estou assim tão melada de coisas
prontas
tudo começou a pouco
e já estou tão tonta.
.
.

1 175
Martha Medeiros

Martha Medeiros

quanto mais palavras saem de minha boca

quanto mais palavras saem de minha boca
mais me dou conta de que não sou eu que falo
pois o que penso não tem nada a ver
e o que faço já é outro papo
e o que pareço já nem sei contar
1 076
Sophia de Mello Breyner Andresen

Sophia de Mello Breyner Andresen

Assassinato de Simonetta Vespucci

Homens
No perfil agudo dos quartos
Nos ângulos mortais da sombra com a luz.

Vê como as espadas nascem evidentes
Sem que ninguém as erguesse — de repente.

Vê como os gestos se esculpem
Em geometrias exactas do destino.

Vê como os homens se tornam animais
E como os animais se tornam anjos
E um só irrompe e faz um lírio de si mesmo.

Vê como pairam longamente os olhos
Cheios de liquidez, cheios de mágoa
De uma mulher nos seus cabelos estrangulada.

E todo o quarto jaz abandonado
Cheio de horror e cheio de desordem.
E as portas ficam abertas,
Abertas para os caminhos
Por onde os homens fogem,
No silêncio agudo dos espaços,
Nos ângulos mortais da sombra com a luz.
1 603
Sophia de Mello Breyner Andresen

Sophia de Mello Breyner Andresen

A Cidade Dos Outros

Túnica de tortura era a cidade
Que tecida pelos outros nos vestia

Nem uma folha de tília ou de palmeira
Nos escondia

Caminhamos no chão azul das noites
E nas arenas brancas do meio dia

E a cidade como cães nos perseguia
1 183
Sophia de Mello Breyner Andresen

Sophia de Mello Breyner Andresen

A Manhã Estática Parada

Entre o Tejo azul e a Torre branca
Que branca e barroca sobe das águas

Manhã acesa de silêncio e louvor
Na breve primavera violenta
Assim a minha vida que era calma

De repente se tornou ânsia e saudade

Mas a brisa da varanda é doce e suave
Um pássaro canta porque alguém regou
Maio de 2000
1 223
Sophia de Mello Breyner Andresen

Sophia de Mello Breyner Andresen

Maria Helena Vieira da Silva Ou o Itinerário Inelutável

Minúcia é o labirinto: muro por muro
Pedra contra pedra livro sobre livro
Rua após rua escada após escada
Se faz e se desfaz o labirinto
Palácio é o labirinto e nele
Se multiplicam as salas e cintilam
Os quartos de Babel roucos e vermelhos
Passado é o labirinto: seus jardins afloram
E do fundo da memória sobem as escadas
Encruzilhada é o labirinto e antro e gruta
Biblioteca rede inventário colmeia —
Itinerário é o labirinto
Como o subir dum astro inelutável —
Mas aquele que o percorre não encontra
Toiro nenhum solar nem sol nem lua
Mas só o vidro sucessivo do vazio
E um brilho de azulejos íman frio
Onde os espelhos devoram as imagens

Exauridos pelo labirinto caminhamos
Na minúcia da busca na atenção da busca
Na luz mutável: de quadrado em quadrado
Encontramos desvios redes e castelos
Torres de vidro corredores de espanto

Mas um dia emergiremos e as cidades
Da equidade mostrarão seu branco
Sua cal sua aurora seu prodígio
1 290