Árvores florestas e montanhas
Poemas neste tema
Fernando Pessoa
Sim, talvez tenham razão.
Sim, talvez tenham razão.
Talvez em cada coisa uma coisa oculta more,
Mas essa coisa oculta é a mesma
Que a coisa sem ser oculta.
Na planta, na árvore, na flor
(Em tudo que vive sem fala
E é uma consciência e não o com que se faz uma consciência),
No bosque que não é árvores mas bosque,
Total das árvores sem soma,
Mora uma ninfa, a vida exterior por dentro
Que lhes dá a vida;
Que floresce com o florescer deles
E é verde no seu verdor.
No animal e no homem entra.
Vive por fora por dentro
É um já dentro por fora,
Dizem os filósofos que isto é a alma
Mas não é a alma: é o próprio animal ou homem
Da maneira como existe.
E penso que talvez haja entes
Em que as duas coisas coincidam
E tenham o mesmo tamanho.
E que estes entes serão os deuses,
Que existem porque assim é que completamente se existe,
Que não morrem porque são iguais a si mesmos,
Que podem mentir porque não têm divisão [?]
Entre quem são e quem são,
E talvez não nos amem, nem nos queiram, nem nos apareçam
Porque o que é perfeito não precisa de nada.
Talvez em cada coisa uma coisa oculta more,
Mas essa coisa oculta é a mesma
Que a coisa sem ser oculta.
Na planta, na árvore, na flor
(Em tudo que vive sem fala
E é uma consciência e não o com que se faz uma consciência),
No bosque que não é árvores mas bosque,
Total das árvores sem soma,
Mora uma ninfa, a vida exterior por dentro
Que lhes dá a vida;
Que floresce com o florescer deles
E é verde no seu verdor.
No animal e no homem entra.
Vive por fora por dentro
É um já dentro por fora,
Dizem os filósofos que isto é a alma
Mas não é a alma: é o próprio animal ou homem
Da maneira como existe.
E penso que talvez haja entes
Em que as duas coisas coincidam
E tenham o mesmo tamanho.
E que estes entes serão os deuses,
Que existem porque assim é que completamente se existe,
Que não morrem porque são iguais a si mesmos,
Que podem mentir porque não têm divisão [?]
Entre quem são e quem são,
E talvez não nos amem, nem nos queiram, nem nos apareçam
Porque o que é perfeito não precisa de nada.
1 555
Fernando Pessoa
Talvez quem vê bem não sirva para sentir
Talvez quem vê bem não sirva para sentir
E não agrada por estar muito antes das maneiras.
É preciso ter modos para todas as coisas,
E cada coisa tem o seu modo, e o amor também.
Quem tem o modo de ver os campos pelas ervas
Não deve ter a cegueira que faz fazer sentir.
Amei, e não fui amado, o que só vi no fim,
Porque não se é amado como se nasce mas como acontece.
Ela continua tão bonita de cabelo e boca como dantes,
E eu continuo como era dantes, sozinho no campo.
Como se tivesse estado de cabeça baixa,
Penso isto, e fico de cabeça alta
E o dourado sol seca a vontade de lágrimas que não posso deixar de ter.
Como o campo é vasto e o amor interior...!
Olho, e esqueço, como seca onde foi água e nas árvores desfolha.
Eu não sei falar porque estou a sentir.
Estou a escutar a minha voz como se fosse de outra pessoa,
E a minha voz fala dela como se ela é que falasse.
Tem o cabelo de um louro amarelo de trigo ao sol claro,
E a boca quando fala diz coisas que não só as palavras.
Sorri, e os dentes são limpos como pedras do rio.
E não agrada por estar muito antes das maneiras.
É preciso ter modos para todas as coisas,
E cada coisa tem o seu modo, e o amor também.
Quem tem o modo de ver os campos pelas ervas
Não deve ter a cegueira que faz fazer sentir.
Amei, e não fui amado, o que só vi no fim,
Porque não se é amado como se nasce mas como acontece.
Ela continua tão bonita de cabelo e boca como dantes,
E eu continuo como era dantes, sozinho no campo.
Como se tivesse estado de cabeça baixa,
Penso isto, e fico de cabeça alta
E o dourado sol seca a vontade de lágrimas que não posso deixar de ter.
Como o campo é vasto e o amor interior...!
Olho, e esqueço, como seca onde foi água e nas árvores desfolha.
Eu não sei falar porque estou a sentir.
Estou a escutar a minha voz como se fosse de outra pessoa,
E a minha voz fala dela como se ela é que falasse.
Tem o cabelo de um louro amarelo de trigo ao sol claro,
E a boca quando fala diz coisas que não só as palavras.
Sorri, e os dentes são limpos como pedras do rio.
1 564
Fernando Pessoa
Olho os campos, Neera, [3]
Olho os campos, Neera,
Verdes campos, e penso
Em que virá um dia
Em que não mais os olhe.
Isto se o meditar,
Me toldará os céus
E fará menos verdes
Os verdes campos reais.
Ah! Neera, o futuro
Ao futuro deixemos.
O que não está presente
Não existe pra nós.
Hoje não tenho nada
Senão os verdes campos
E o céu azul por cima.
Seja isto todo o mundo.
Verdes campos, e penso
Em que virá um dia
Em que não mais os olhe.
Isto se o meditar,
Me toldará os céus
E fará menos verdes
Os verdes campos reais.
Ah! Neera, o futuro
Ao futuro deixemos.
O que não está presente
Não existe pra nós.
Hoje não tenho nada
Senão os verdes campos
E o céu azul por cima.
Seja isto todo o mundo.
1 381
Fernando Pessoa
O que ouviu os meus versos disse-me: Que tem isso de novo?
O que ouviu os meus versos disse-me: Que tem isso de novo?
Todos sabem que uma flor é uma flor e uma árvore é uma árvore.
Mas eu respondi, nem todos, ninguém.
Porque todos amam as flores por serem belas, e eu sou diferente.
E todos amam as árvores por serem verdes e darem sombra, mas eu não.
Eu amo as flores por serem flores, directamente.
Eu amo as árvores por serem árvores, sem o meu pensamento.
Todos sabem que uma flor é uma flor e uma árvore é uma árvore.
Mas eu respondi, nem todos, ninguém.
Porque todos amam as flores por serem belas, e eu sou diferente.
E todos amam as árvores por serem verdes e darem sombra, mas eu não.
Eu amo as flores por serem flores, directamente.
Eu amo as árvores por serem árvores, sem o meu pensamento.
1 514
Fernando Pessoa
No momento em que vamos pelos prados
No momento em que vamos pelos prados
E o nosso amor é um terceiro ali,
Que usurpa que saibamos
Um ao certo do outro,
Nesse momento, em que o que vemos mesmo
Sem o vermos na própria essência entra
Da nossa alma comum —
Lídia, nesse momento
De tão sentir o amor não sei dizer-to,
Antes, se falo, só dos prados falo
E põe-se música ao meu
Eros connosco invisível.
E o nosso amor é um terceiro ali,
Que usurpa que saibamos
Um ao certo do outro,
Nesse momento, em que o que vemos mesmo
Sem o vermos na própria essência entra
Da nossa alma comum —
Lídia, nesse momento
De tão sentir o amor não sei dizer-to,
Antes, se falo, só dos prados falo
E põe-se música ao meu
Eros connosco invisível.
1 246
Fernando Pessoa
Sob estas árvores ou aquelas árvores
Sob estas árvores ou aquelas árvores
Conduzi a dança,
Conduzi a dança, ninfas singelas
Até ao amplo gozo
Que tomais da vida. Conduzi a dança
E sê quase humanas
Com o vosso gozo derramado em ritmos
Em ritmos solenes
Que a nossa alegria torna maliciosos
Para nossa triste
Vida que não sabe sob as mesmas árvores
Conduzir a dança...
Conduzi a dança,
Conduzi a dança, ninfas singelas
Até ao amplo gozo
Que tomais da vida. Conduzi a dança
E sê quase humanas
Com o vosso gozo derramado em ritmos
Em ritmos solenes
Que a nossa alegria torna maliciosos
Para nossa triste
Vida que não sabe sob as mesmas árvores
Conduzir a dança...
1 402
Fernando Pessoa
IV - Doura o dia. Silente, o vento dura.
........IV
Doura o dia. Silente, o vento dura.
Verde as árvores, mole a terra escura,
Onde flores, vazia a álea e os bancos.
No pinhal erva cresce nos barrancos.
Nuvens vagas no pérfido horizonte.
O moinho longínquo no ermo monte.
Eu alma, que contempla tudo isto,
Nada conhece e tudo reconhece.
Nestas sombras de me sentir existo,
E é falsa a teia que tecer me tece.
Doura o dia. Silente, o vento dura.
Verde as árvores, mole a terra escura,
Onde flores, vazia a álea e os bancos.
No pinhal erva cresce nos barrancos.
Nuvens vagas no pérfido horizonte.
O moinho longínquo no ermo monte.
Eu alma, que contempla tudo isto,
Nada conhece e tudo reconhece.
Nestas sombras de me sentir existo,
E é falsa a teia que tecer me tece.
1 238
Fernando Pessoa
Numa grande marche aux flambeaux-todas-as-cidades-da-Europa,
Numa grande marche aux flambeaux-todas-as-cidades-da-Europa,
Numa grande marcha guerreira a indústria e comércio e ócio,
Numa grande corrida, numa grande subida, numa grande descida
Estrondeando, pulando, e tudo pulando comigo,
Salto a saudar-te,
Berro a saudar-te,
Desencadeio-me a saudar-te, aos pinotes, aos pinos, aos guinchos!
Hé-lá
Ave, salve, viva!...
Arregimento!
Comigo, coisas!
Sigam-me, gentes!
Máquinas. artes, letras, [...] — comigo!
Vós, que ele tanto amou, coisas que são a terra:
Árvores sem sentido salvo verde,
Flores com a cor na alma,
(...)
Escura brancura das águas,
Rio fora dos rios,
Paz dos campos porque não são as cidades
Seiva lenta ao emergir da avareza das crostas
Numa grande marcha guerreira a indústria e comércio e ócio,
Numa grande corrida, numa grande subida, numa grande descida
Estrondeando, pulando, e tudo pulando comigo,
Salto a saudar-te,
Berro a saudar-te,
Desencadeio-me a saudar-te, aos pinotes, aos pinos, aos guinchos!
Hé-lá
Ave, salve, viva!...
Arregimento!
Comigo, coisas!
Sigam-me, gentes!
Máquinas. artes, letras, [...] — comigo!
Vós, que ele tanto amou, coisas que são a terra:
Árvores sem sentido salvo verde,
Flores com a cor na alma,
(...)
Escura brancura das águas,
Rio fora dos rios,
Paz dos campos porque não são as cidades
Seiva lenta ao emergir da avareza das crostas
1 192
Fernando Pessoa
Dos montes, dos vales,
Dos montes, dos vales,
Das luzes, das flores
O prazer vem;
Que importa, pois, Tempo, que te resvales?
Riamos, que amores pra outros amores,
São o Além!
Há risos e beijos
E olhares e abraços
De amor,
E risos e olhares acendem desejos,
E dizem matar-me em corpos e braços
Num estertor.
E como a verdade
E a existência
É o prazer nu,
Dancemos
Das luzes, das flores
O prazer vem;
Que importa, pois, Tempo, que te resvales?
Riamos, que amores pra outros amores,
São o Além!
Há risos e beijos
E olhares e abraços
De amor,
E risos e olhares acendem desejos,
E dizem matar-me em corpos e braços
Num estertor.
E como a verdade
E a existência
É o prazer nu,
Dancemos
1 406
Fernando Pessoa
SAUDAÇÃO A WALT WHITMAN [b]
SAUDAÇÃO A WALT WHITMAN
Portugal — Infinito, onze de Junho de 1915
Hé lá, á — á — á — á!
De aqui, de Portugal, de onde a Europa olha a América,
De onde tu teres existido é um efeito complexo,
Consciente de estar à vista, no palco para a plateia que é no auge.
Saúdo-te deliberadamente, saúdo-te
Desde o princípio de te saudar, como é próprio de ti.
Hé-lá Walt, old boy, meu velho arado das almas,
Hé-lá meu condottiere da sensualidade autêntica
Pirata do teu próprio génio,
Filho-pródigo da tua inspiração!
Ó sempre moderno e eterno; cantor dos concretos absolutos
Concubina fogosamente [...] do universo disperso,
Grande pederasta roçando-te pela diversidade das coisas,
Sexualidade... etc.
Tu, o homem-mulher-criança-natureza-máquinas!
Tu, o p'ra-dentro, tu o p'ra-fora, tu o ao-lado de tudo!
Fulcro-sensualidade ao serviço do infinito, escada
Até não haver fim a subir, — e subir!
Saúdo-te e chamo
A tomar parte em mim na saudação que te faço
Tudo quanto cantaste ou desejaste cantar.
Ervas, árvores, flores, a natureza dos campos...
Homens, lutas, tratados — a natureza das almas...
Os artifícios, que dão sabor ao que não é artifício
As coisas naturais que valem sem valor dado,
As profissões com que o homem se interessa por ter vontade
As grandes ambições, as grandes raivas, as pálpebras
Descidas sobre a inutilidade metafísica de viver...
Chamo a mim, para os levar até ti,
Como a mãe chama a criança para a sentir ser
A totalidade dispersa do que interessa ao mundo...
Ah, que nada me fique de fora das algibeiras
Quando vou procurar-te.
Que nada me esqueça, se te saúdo, que nada
Falte, nem o faltar esqueça,
Porque faltar é uma coisa — faltar.
Vá! Vá! Tudo! O natural e o humano!
Vá, o que parte! vá, o que fica! vá o que lembra e o que esquece!
Tu tens direito a ser saudado por tudo
E eu, porque o vejo,
Tenho o direito a encanar a voz em tudo saudar-te
Portugal — Infinito, onze de Junho de 1915
Hé lá, á — á — á — á!
De aqui, de Portugal, de onde a Europa olha a América,
De onde tu teres existido é um efeito complexo,
Consciente de estar à vista, no palco para a plateia que é no auge.
Saúdo-te deliberadamente, saúdo-te
Desde o princípio de te saudar, como é próprio de ti.
Hé-lá Walt, old boy, meu velho arado das almas,
Hé-lá meu condottiere da sensualidade autêntica
Pirata do teu próprio génio,
Filho-pródigo da tua inspiração!
Ó sempre moderno e eterno; cantor dos concretos absolutos
Concubina fogosamente [...] do universo disperso,
Grande pederasta roçando-te pela diversidade das coisas,
Sexualidade... etc.
Tu, o homem-mulher-criança-natureza-máquinas!
Tu, o p'ra-dentro, tu o p'ra-fora, tu o ao-lado de tudo!
Fulcro-sensualidade ao serviço do infinito, escada
Até não haver fim a subir, — e subir!
Saúdo-te e chamo
A tomar parte em mim na saudação que te faço
Tudo quanto cantaste ou desejaste cantar.
Ervas, árvores, flores, a natureza dos campos...
Homens, lutas, tratados — a natureza das almas...
Os artifícios, que dão sabor ao que não é artifício
As coisas naturais que valem sem valor dado,
As profissões com que o homem se interessa por ter vontade
As grandes ambições, as grandes raivas, as pálpebras
Descidas sobre a inutilidade metafísica de viver...
Chamo a mim, para os levar até ti,
Como a mãe chama a criança para a sentir ser
A totalidade dispersa do que interessa ao mundo...
Ah, que nada me fique de fora das algibeiras
Quando vou procurar-te.
Que nada me esqueça, se te saúdo, que nada
Falte, nem o faltar esqueça,
Porque faltar é uma coisa — faltar.
Vá! Vá! Tudo! O natural e o humano!
Vá, o que parte! vá, o que fica! vá o que lembra e o que esquece!
Tu tens direito a ser saudado por tudo
E eu, porque o vejo,
Tenho o direito a encanar a voz em tudo saudar-te
1 657
Fernando Pessoa
Ó mera brancura
Ó mera brancura
Do luar que se esfolha,
Ó rio da alvura
Do luar que te molha -
Montanhas que ao longe
Não têm um grito,
Todas um só monge
No claustro infinito -
Murmúrio das águas
Que ao luar que as não vê
É sombra, sem mágoas,
Macieza que é
A alma da noite,
A sombra do luar...
Ó nunca eu me afoite
Até não sonhar!...
Wardour + Pessoa
Do luar que se esfolha,
Ó rio da alvura
Do luar que te molha -
Montanhas que ao longe
Não têm um grito,
Todas um só monge
No claustro infinito -
Murmúrio das águas
Que ao luar que as não vê
É sombra, sem mágoas,
Macieza que é
A alma da noite,
A sombra do luar...
Ó nunca eu me afoite
Até não sonhar!...
Wardour + Pessoa
1 438
Fernando Pessoa
Não há abismos!
Da casa do monte, símbolo eterno e perfeito,
Vejo os campos, os campos todos,
E eu os saúdo por fim com a voz verdadeira,
Eu lhes dou vivas, chorando, com as lágrimas certas e os vivas exactos —
Eu os aperto a meu peito, como filho que encontrasse o pai perdido.
Vivam, vivam, vivam
Os montes, e a planície, e as ervas!
Vivam os rios, vivam as fontes!
Vivam as flores, e as árvores, e as pedras!
Vivam os entes vivos e os bichos pequenos,
Os bichos que correm, insectos e aves,
Os animais todos, tão reais sem mim,
Os homens, as mulheres, as crianças,
As famílias, e as não-famílias, igualmente!
Tudo quanto sente sem saber porquê!
Tudo quanto vive sem pensar que vive!
Tudo que acaba e nunca se aumenta com nada,
Sabendo, melhor que eu, que nada há que temer,
Que nada é fim, que nada é abismo, que nada é mistério,
E que tudo é Deus, e que tudo é Ser, e que tudo é Vida.
Ah, estou liberto!
Ah, quebrei todas
As algemas do pensamento.
Eu, o claustro e a cave voluntários de mim mesmo,
Eu o próprio abismo que sonhei,
Eu, que vi em tudo caminhos e atalhos de sombra
E a sombra e os caminhos e os atalhos eram eu!
Ah, estou liberto...
Mestre Caeiro, voltei à tua casa do monte
E vi o mesmo que vias, mas com meus olhos,
Verdadeiramente com meus olhos,
Verdadeiramente verdadeiros...
Ah vi que não há muitos abismos!
(...)
Não há abismos!
Nada é sinistro!
Não há mistério verdadeiro!
Não há mistério ou verdade!
Não há Deus, nem vida, nem alma distante da vida!
Tu, tu mestre Caeiro, tu é que tinhas razão!
Mas ainda não viste tudo; tudo é mais ainda!
Alegre cantaste a alegria de tudo,
Mas sem pensá-lo tu sentias
Que é porque a alegria de tudo é essencialmente inevitável.
Como cantaras alegre a morte futura
Se a puderas pensar como morte,
Se deveras sentiras a noite e o acabamento?
Não, não: tu sabias
Não com teu pensamento, mas com teu corpo inteiro,
Com todos os teus sentidos tão acordados ao mundo
Que não há nada que morra, que não há coisa que cesse,
Que cada momento não passa nunca,
Que a flor colhida fica sempre na haste,
Que o beijo dado é eterno,
Que na essência e universo das coisas
Tudo é alegria e sol
E só no erro e no olhar há dor e dúvida e sombra.
Embandeira em canto e rosas!
E da estação de província, do apeadeiro campestre,
— Lá vem o comboio!
Com lenços agitados, com olhos que brilham eternos
Saudemos em ouro e flores a morte que chega!
Não, não enganas!
Avó carinhosa de terra já grávida!
Madrinha disfarçada dos sentimentos expressos!
E o comboio entra na curva, mais lento, e vai parar...
E com grande explosão de todas as minhas esperanças
Meu coração universo
Inclui a ouro todos os sóis,
Borda-se a prata todas as estrelas,
Entumesce-se em flores e verduras,
E a morte que chega conclui que a já conhecem
E no seu rosto grave desabrocha
O sorriso humano de Deus!
Vejo os campos, os campos todos,
E eu os saúdo por fim com a voz verdadeira,
Eu lhes dou vivas, chorando, com as lágrimas certas e os vivas exactos —
Eu os aperto a meu peito, como filho que encontrasse o pai perdido.
Vivam, vivam, vivam
Os montes, e a planície, e as ervas!
Vivam os rios, vivam as fontes!
Vivam as flores, e as árvores, e as pedras!
Vivam os entes vivos e os bichos pequenos,
Os bichos que correm, insectos e aves,
Os animais todos, tão reais sem mim,
Os homens, as mulheres, as crianças,
As famílias, e as não-famílias, igualmente!
Tudo quanto sente sem saber porquê!
Tudo quanto vive sem pensar que vive!
Tudo que acaba e nunca se aumenta com nada,
Sabendo, melhor que eu, que nada há que temer,
Que nada é fim, que nada é abismo, que nada é mistério,
E que tudo é Deus, e que tudo é Ser, e que tudo é Vida.
Ah, estou liberto!
Ah, quebrei todas
As algemas do pensamento.
Eu, o claustro e a cave voluntários de mim mesmo,
Eu o próprio abismo que sonhei,
Eu, que vi em tudo caminhos e atalhos de sombra
E a sombra e os caminhos e os atalhos eram eu!
Ah, estou liberto...
Mestre Caeiro, voltei à tua casa do monte
E vi o mesmo que vias, mas com meus olhos,
Verdadeiramente com meus olhos,
Verdadeiramente verdadeiros...
Ah vi que não há muitos abismos!
(...)
Não há abismos!
Nada é sinistro!
Não há mistério verdadeiro!
Não há mistério ou verdade!
Não há Deus, nem vida, nem alma distante da vida!
Tu, tu mestre Caeiro, tu é que tinhas razão!
Mas ainda não viste tudo; tudo é mais ainda!
Alegre cantaste a alegria de tudo,
Mas sem pensá-lo tu sentias
Que é porque a alegria de tudo é essencialmente inevitável.
Como cantaras alegre a morte futura
Se a puderas pensar como morte,
Se deveras sentiras a noite e o acabamento?
Não, não: tu sabias
Não com teu pensamento, mas com teu corpo inteiro,
Com todos os teus sentidos tão acordados ao mundo
Que não há nada que morra, que não há coisa que cesse,
Que cada momento não passa nunca,
Que a flor colhida fica sempre na haste,
Que o beijo dado é eterno,
Que na essência e universo das coisas
Tudo é alegria e sol
E só no erro e no olhar há dor e dúvida e sombra.
Embandeira em canto e rosas!
E da estação de província, do apeadeiro campestre,
— Lá vem o comboio!
Com lenços agitados, com olhos que brilham eternos
Saudemos em ouro e flores a morte que chega!
Não, não enganas!
Avó carinhosa de terra já grávida!
Madrinha disfarçada dos sentimentos expressos!
E o comboio entra na curva, mais lento, e vai parar...
E com grande explosão de todas as minhas esperanças
Meu coração universo
Inclui a ouro todos os sóis,
Borda-se a prata todas as estrelas,
Entumesce-se em flores e verduras,
E a morte que chega conclui que a já conhecem
E no seu rosto grave desabrocha
O sorriso humano de Deus!
1 127
Fernando Pessoa
Senhor, meu passo está no Limiar
Senhor, meu passo está no Limiar
Da Tua Porta.
Faz-me humilde ante o que vou legar...
Meu mero ser que importa?
Sombra de Ti aos meus pés tens, desenho
De Ti em mim,
Faz que eu seja o claro e humilde engenho
Que revela o teu Fim.
Depois, ou morte ou sombra o que aconteça
Que fique, aqui,
Esta obra que é tua e em mim começa
E acaba em Ti.
Sinto que leva ao mar Teu Rio fundo
- Verdade e Lei -
O resto sou só eu e o ermo mundo...
E o que revelarei.
A névoa sobe do alto da montanha
E ergue-se à luz
O claro cimo que a Tua luz banha
Sereno e claro e a flux
Eu quero ser a névoa que se ergue
Para te ver
A humanidade sofredora é cega -
O resto é apenas ser...
Da Tua Porta.
Faz-me humilde ante o que vou legar...
Meu mero ser que importa?
Sombra de Ti aos meus pés tens, desenho
De Ti em mim,
Faz que eu seja o claro e humilde engenho
Que revela o teu Fim.
Depois, ou morte ou sombra o que aconteça
Que fique, aqui,
Esta obra que é tua e em mim começa
E acaba em Ti.
Sinto que leva ao mar Teu Rio fundo
- Verdade e Lei -
O resto sou só eu e o ermo mundo...
E o que revelarei.
A névoa sobe do alto da montanha
E ergue-se à luz
O claro cimo que a Tua luz banha
Sereno e claro e a flux
Eu quero ser a névoa que se ergue
Para te ver
A humanidade sofredora é cega -
O resto é apenas ser...
1 318
Thomas Brasch
Canção
Chuva e nuvens ontem
Ninguém que permaneça
Eu não sou contra
Canto e bebo cerveja
Chora hoje e canta
Árvores cobrem a lua
Onde ninguém mais janta
Eu sempre acabo na rua
Folhas amanhã e trovões
Você terá me deixado
Eu louvarei os troncos
Das árvores a seu lado
(tradução de Ricardo Domeneck)
Ninguém que permaneça
Eu não sou contra
Canto e bebo cerveja
Chora hoje e canta
Árvores cobrem a lua
Onde ninguém mais janta
Eu sempre acabo na rua
Folhas amanhã e trovões
Você terá me deixado
Eu louvarei os troncos
Das árvores a seu lado
(tradução de Ricardo Domeneck)
1 099
Orides Fontela
Clima
Neste lugar marcado: campo onde
uma árvore única
se alteia
e o alongado
gesto
absorvendo
todo o silêncio - ascende e
imobiliza-se
(som antes da voz
pré-vivo
ou além da voz
e vida)
neste lugar marcado: campo
imoto
segredo cio cisma
o ser
celebra-se
- mudo eucalipto
elástico
e elíptico.
do livro Alba (1983)
uma árvore única
se alteia
e o alongado
gesto
absorvendo
todo o silêncio - ascende e
imobiliza-se
(som antes da voz
pré-vivo
ou além da voz
e vida)
neste lugar marcado: campo
imoto
segredo cio cisma
o ser
celebra-se
- mudo eucalipto
elástico
e elíptico.
do livro Alba (1983)
1 645
Joaquim Cardozo
Imagens do Nordeste
Sobre o capim orvalhado
Por baixo das mangabeiras
Há rastros de luz macia:
Por aqui passaram luas,
Pousaram aves bravias.
Idílio de amor perdido,
Encanto de moça nua
Na água triste da camboa;
Em junhos do meu Nordeste
Fantasma que me povoa.
Asa e flor do azul profundo,
Primazia do mar alto,
Vela branca predileta;
Na transparência do dia
És a flâmula discreta.
És a lâmina ligeira
Cortando a lã dos cordeiros,
Ferindo os ramos dourados;
- Chama intrépida e minguante
nos ares maravilhados.
E enquanto o sol vai descendo
O vento recolhe as nuvens
E o vento desfaz a lã;
Vela branca desvairada,
Mariposa da manhã.
Velho calor de Dezembro,
Chuva das águas primeiras
Feliz batendo nas telhas;
Verão de frutas maduras,
Verão de mangas vermelhas.
A minha casa amarela
Tinha seis janelas verdes
Do lado do sol nascente;
Janelas sobre a esperança
Paisagem, profundamente.
Abri as leves comportas
E as águas duras fundiram;
Num sopro de maresia
Viveiros se derramaram
Em noites de pescaria.
Camarupim, Mamanguape,
Persinunga, Pirapama,
Serinhaém, Jaboatão;
Cruzando barras de rios
Me perdi na solidão.
Me afastei sobre a planície
Das várzeas crepusculares;
Vi nuvens em torvelinho,
Estrelas de encruzilhadas
Nos rumos do meu caminho.
Por baixo das mangabeiras
Há rastros de luz macia:
Por aqui passaram luas,
Pousaram aves bravias.
Idílio de amor perdido,
Encanto de moça nua
Na água triste da camboa;
Em junhos do meu Nordeste
Fantasma que me povoa.
Asa e flor do azul profundo,
Primazia do mar alto,
Vela branca predileta;
Na transparência do dia
És a flâmula discreta.
És a lâmina ligeira
Cortando a lã dos cordeiros,
Ferindo os ramos dourados;
- Chama intrépida e minguante
nos ares maravilhados.
E enquanto o sol vai descendo
O vento recolhe as nuvens
E o vento desfaz a lã;
Vela branca desvairada,
Mariposa da manhã.
Velho calor de Dezembro,
Chuva das águas primeiras
Feliz batendo nas telhas;
Verão de frutas maduras,
Verão de mangas vermelhas.
A minha casa amarela
Tinha seis janelas verdes
Do lado do sol nascente;
Janelas sobre a esperança
Paisagem, profundamente.
Abri as leves comportas
E as águas duras fundiram;
Num sopro de maresia
Viveiros se derramaram
Em noites de pescaria.
Camarupim, Mamanguape,
Persinunga, Pirapama,
Serinhaém, Jaboatão;
Cruzando barras de rios
Me perdi na solidão.
Me afastei sobre a planície
Das várzeas crepusculares;
Vi nuvens em torvelinho,
Estrelas de encruzilhadas
Nos rumos do meu caminho.
1 538
Yu Xuanji
Compartilhando um luto
Lembro a elegância como um jade, a pele em pêssego
salgueiros tímidos ao vento, as sobrancelhas
Encerra a gruta do dragão aquela pérola
À base em fênix, só, na alcova resta o espelho
a repetir o sonho à noite, em chuva e névoa
não mais que a dor insuportável, sem parelho
A leste e oeste, agudas, fecham-se montanhas
ao sol, à lua: nunca mais uma esperança
salgueiros tímidos ao vento, as sobrancelhas
Encerra a gruta do dragão aquela pérola
À base em fênix, só, na alcova resta o espelho
a repetir o sonho à noite, em chuva e névoa
não mais que a dor insuportável, sem parelho
A leste e oeste, agudas, fecham-se montanhas
ao sol, à lua: nunca mais uma esperança
979
Antidio Cabal
Epitáfio de Luis Puente, vulgo O Rato
Sepultado nessa terra atmosférica e produtiva, enfim dela desfruto,
enfiado num caixão feito de uma árvore dourada,
que é como uma biografia, pois eu a plantei,
recebo a chuva e os ingredientes do céu,
os conteúdos das quatro estações,
pela lápide infiltra-se o cheiro do antúrio,
escorre o orvalho até meu submundo,
o dom calefaciente do sol aquece meu substrato arenoso,
aqui tudo é suficiente.
enfiado num caixão feito de uma árvore dourada,
que é como uma biografia, pois eu a plantei,
recebo a chuva e os ingredientes do céu,
os conteúdos das quatro estações,
pela lápide infiltra-se o cheiro do antúrio,
escorre o orvalho até meu submundo,
o dom calefaciente do sol aquece meu substrato arenoso,
aqui tudo é suficiente.
532
Jean-Joseph Rabearivelo
Ler
Não faças ruído, não fales:
vão explorar uma floresta os olhos, o coração
o espírito, os sonhos...
Floresta secreta, porém palpável:
floresta.
Floresta de rumoroso silêncio,
floresta onde se refugiou o pássaro que se prende à laço,
o pássaro que se prende à laço, que faremos cantar
ou que faremos chorar.
Que faremos cantar, que faremos chorar
o lugar de seu nascimento.
Floresta. Pássaro.
Floresta secreta, pássaro oculto
em vossas mãos.
Lire
Ne faites pas de bruit, ne parlez pas:
vont explorer une forêt les yeux, le coeur,
l’espirit, les songes...
Forêt secrète bien que palpable:
forêt.
Forêt bruissant de silence,
forêt où s’est évadé l’oiseau à prendre au piège,
l’oiseau à prendre au piège qu’on fera chanter
ou qu’on fera pleurer.
A qui l’on fera chanter, à qui l’on fera pleurer
le lieu de son éclosion.
Forêt. Oiseau.
Forêt secrète, oiseau caché
dans vos mains.
tradução de Antônio Moura e originais em francês
(incluídos no volumeQuase Sonhos, publicado pela Lumme Editor)
1 181
Frank O'Hara
Três árias
para Norman Bluhm
1.
Tantas coisas no ar! fuligem,
bolas de elefante, uma nuvem chinesa
que já desabou por completo, um gato
girado pelo rabo
e as sensações
dos mortos que batem e se esbarram
dentro dos meus olhos cansados
2.
Lá nas profundezas vive um passarinho
que só cantarola, um canto de coragem
e temperança; administra uma fundição
e como é firme ao pegar as coisas! arranca-as
do limo e depois – oh! céus! – numa travessura
ele as joga no caldeirão da feiura
e já um pôr do sol vem nomeando
os álamos que, aguados, só veem a si mesmos
3.
Ah ser um anjo (se anjos houvesse!) e subir
direto ao céu e dar uma olhada e depois
descer
não estar coberto com aço e alumínio
fulgurantemente feio nas distâncias puras e estalando e
estourando, arfando
mas ser parte do topo das árvores e do azul, invisível,
na escuridão iridescente ao longe,
silencioso, ouvindo ao
ar tornar-se não ar tornar-se ar de novo
:
Three airs
to Normam Bluhm
1.
So many things in the air! soot,
elephant balls, a Chinese cloud
which is entirely collapsed, a cat
swung by its tail
and the senses
of the dead which are banging about
inside my tired red eyes
2.
In the deeps there is a little bird
and it only hums, it hums of fortitude
and temperance, it is managing a foundry
how firmly it must grasp things! tear them
out of the slime and then, alas! It mischievously
drops them into the cauldron of hideousness
there is already a sunset naming
the poplars which see only, watery, themselves
3.
Oh to be an angel (if there were any!), and go
straight up into the sky and look around and then
come down
not to be covered with steel and aluminum
glaringly ugly in the pure distances and clattering and
buckling, wheezing
but to be part of the treetops and the blueness, invisible,
the iridescent darkness beyond,
silent, listening to
the air becoming no air becoming air again
1 102
Vesna Parun
Oliveiras velhas como velhas mulheres
Oliveiras velhas como velhas mulheres
Sempre sempre expostas à seca e ao vento
Desde a era bíblica as velhas oliveiras
Já vêm embalando a paz mítica no ventre
Oliveiras filhas do mar atarracadas
Todo o sofrimento humano nelas está
Deitaram raízes no penhasco grávidas
Oliveiras berço do sol e leito do ar
Oliveiras minhas irmãs no oceano
Passam os seus dias vazios descontentes
Feito nossos avós túmidas de ruína
Escuras e negras com seus mementos tristes
Oliveiras vocês são empedrada gente
Nossas amarguras nossos duros pesares
Dos seus seios jorra um dourado azeite
E a vida transborda como nos velhos livros
(tradução de Aleksandr Jovanovic, in Céu Vazio: 63 poetas eslavos, São Paulo: Hucitec, 1996).
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806
Pedro Xisto
ao lado da lua
ao lado da lua
neste pinheiro vetusto
uma ave noturna
864
Ai Qing
Mensagem do Sol
Janelas, abri-vos!
Portas, abri-vos!
Deixai-me entrar, deixai-me entrar,
Deixai-me pôr os pés na vossa casa humilde.
Entro com ramos de flores douradas,
Entro com a fragrância fresca da floresta,
Entro com a luz e o calor,
Entro com o corpo molhado de orvalho.
Levantai-vos, depressa!
Erguei as cabeças da almofada,
Abri os olhos estremunhados,
Para presenciar a minha chegada.
Abre-me os corações, casa humilde, construída de tábuas.
Abre-me as janelas de há muito fechadas,
Deixa-me encher os teus corações de flores, fragrância, luz,
[calor e orvalho.
14 de Junho de 1942
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1 096
Juan L. Ortiz
Fui ao rio...
Fui ao rio e o sentia
próximo de mim, diante de mim.
Os ramos tinham vozes
que não chegavam a mim.
A corrente dizia
coisas que eu não entendia.
Quase me angustiava.
Queria compreendê-lo,
sentir o que nele o céu pálido e vago dizia
com suas primeiras sílabas alargadas,
mas não conseguia.
Retornava.
– Era eu o que retornava? –
na angústia vaga
de sentir-me só entre as coisas, últimas e secretas.
De repente senti o rio em mim,
corria em mim
com suas margens trêmulas de sinais,
com seus fundos reflexos apenas estrelados.
Corria em mim o rio com suas ramagens.
Eu era um rio ao anoitecer
e suspiravam em mim as árvores
e se apagavam em mim as veredas e o capim.
Me atravessava um rio, me atravessava um rio!
(tradução de Ricardo Domeneck)
:
Fui al río...
Juan L. Ortiz
Fui al río, y lo sentía
cerca de mí, enfrente de mí.
Las ramas tenían voces
que no llegaban hasta mí.
La corriente decía
cosas que no entendía.
Me angustiaba casi.
Quería comprenderlo,
sentir qué decía el cielo vago y pálido en él
con sus primeras sílabas alargadas,
pero no podía.
Regresaba
—¿Era yo el que regresaba?—
en la angustia vaga
de sentirme solo entre las cosas últimas y secretas.
De pronto sentí el río en mí,
corría en mí
con sus orillas trémulas de señas,
con sus hondos reflejos apenas estrellados.
Corría el río en mí con sus ramajes.
Era yo un río en el anochecer,
y suspiraban en mí los árboles,
y el sendero y las hierbas se apagaban en mí.
Me atravesaba un río, me atravesaba un río!
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682
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