Cidade
Poemas neste tema
Stella Leonardos
Serenata em Vila Rica
"Pisar com carinho as ruas/ que o Aleijadinho
pisou/ marcando-as com sua força/ como se
essas ruas fossem/ lotes de pedra-sabão."
Henriqueta Lisboa
Pisar com carinho as ruas
que o Aleijadinho pisou
e onde serestas flutuam.
Pisar com carinho as ruas
que o Aleijadinho pisou
marcando-as com sua força
à força de frustração.
Como se as ruas não fossem
de pedra e as pedras não fossem
pedaços de coração.
In: LEONARDOS, Stella. Romanceiro do Aleijadinho. Belo Horizonte: Itatiaia, 1984. (Poetas de sempre, 4)
pisou/ marcando-as com sua força/ como se
essas ruas fossem/ lotes de pedra-sabão."
Henriqueta Lisboa
Pisar com carinho as ruas
que o Aleijadinho pisou
e onde serestas flutuam.
Pisar com carinho as ruas
que o Aleijadinho pisou
marcando-as com sua força
à força de frustração.
Como se as ruas não fossem
de pedra e as pedras não fossem
pedaços de coração.
In: LEONARDOS, Stella. Romanceiro do Aleijadinho. Belo Horizonte: Itatiaia, 1984. (Poetas de sempre, 4)
1 047
Alberto da Costa e Silva
Aparição de Fortaleza, setembro de 1950
Ruas e sombras de Fortaleza, meninas doces,
árvores velhas onde esqueci a infância que foi
tão triste e tão pouca, cidade onde o amor
está tombado a teus pés,
frágil e puro
como uma flor.
Onde caminho cercado pelos meus fantasmas,
entregue aos meninos que são o que fui,
embalado pela pureza de minhas próprias palavras,
cansado, tão cansado, Fortaleza,
quase perdido por vos haver perdido.
Roteiros de bicicletas pela Praça do Carmo,
ganhando as distâncias das longas alamedas,
revendo as frágeis moças que passam
na doçura morna das tardes,
recompondo a imagem dos vendeiros encarapitados nos burricos
[mansos,
a suavidade dos contornos, a brisa envolvente, os oscilantes jardins,
os longos e inesperados encontros com o desconhecido,
os pressentimentos de inúteis e infindáveis viagens
do menino triste, sentado no muro, a mãozinha no queixo.
Cidade de meu pai enfermo. Minha cidade.
Cidade onde se pode chorar sobre os muros de saudade.
Cidade feita para as lágrimas e para adeuses,
para as súbitas e inexplicáveis alegrias.
Cidade onde o mar quebra
com o impulso de velhos marinheiros náufragos
que subitamente retornassem à pureza das praias.
Publicado no livro O parque e outros poemas (1953).
In: SILVA, Alberto da Costa e. As linhas da mão. Pref. Antônio Carlos Villaça. Rio de Janeiro: Difel; Brasília: INL, 1978. p.2
árvores velhas onde esqueci a infância que foi
tão triste e tão pouca, cidade onde o amor
está tombado a teus pés,
frágil e puro
como uma flor.
Onde caminho cercado pelos meus fantasmas,
entregue aos meninos que são o que fui,
embalado pela pureza de minhas próprias palavras,
cansado, tão cansado, Fortaleza,
quase perdido por vos haver perdido.
Roteiros de bicicletas pela Praça do Carmo,
ganhando as distâncias das longas alamedas,
revendo as frágeis moças que passam
na doçura morna das tardes,
recompondo a imagem dos vendeiros encarapitados nos burricos
[mansos,
a suavidade dos contornos, a brisa envolvente, os oscilantes jardins,
os longos e inesperados encontros com o desconhecido,
os pressentimentos de inúteis e infindáveis viagens
do menino triste, sentado no muro, a mãozinha no queixo.
Cidade de meu pai enfermo. Minha cidade.
Cidade onde se pode chorar sobre os muros de saudade.
Cidade feita para as lágrimas e para adeuses,
para as súbitas e inexplicáveis alegrias.
Cidade onde o mar quebra
com o impulso de velhos marinheiros náufragos
que subitamente retornassem à pureza das praias.
Publicado no livro O parque e outros poemas (1953).
In: SILVA, Alberto da Costa e. As linhas da mão. Pref. Antônio Carlos Villaça. Rio de Janeiro: Difel; Brasília: INL, 1978. p.2
1 421
Felipe d’Oliveira
Encruzamento de Linhas
Núcleo de convergência no bojo da noite oval.
Lanterna verde
(amêndoa fosforescente
dentro da casca carbonizada.)
Longitudinal, centrífugo,
o trem racha em duas metades
a espessura do escuro
e, cuspindo pela boca da chaminé
as estrelas inúteis à propulsão,
atira-se desenfreado
nos trilhos livres.
Mas se o maquinista fosse daltônico
a locomotiva teria parado.
Publicado no livro Lanterna verde (1926).
In: D'OLIVEIRA, Felippe. Obra completa. Atual. e org. Lígia Militz da Costa, Maria Eunice Moreira e Pedro Brum Santos. Porto Alegre: IEL; Santa Maria: UFSM, 1990. p.65
Lanterna verde
(amêndoa fosforescente
dentro da casca carbonizada.)
Longitudinal, centrífugo,
o trem racha em duas metades
a espessura do escuro
e, cuspindo pela boca da chaminé
as estrelas inúteis à propulsão,
atira-se desenfreado
nos trilhos livres.
Mas se o maquinista fosse daltônico
a locomotiva teria parado.
Publicado no livro Lanterna verde (1926).
In: D'OLIVEIRA, Felippe. Obra completa. Atual. e org. Lígia Militz da Costa, Maria Eunice Moreira e Pedro Brum Santos. Porto Alegre: IEL; Santa Maria: UFSM, 1990. p.65
1 591
Mafalda Veiga
Quando (já nada é intacto)
Quando já nada é intacto
Quando tudo na vida vem em pedaços
E por dentro me rebenta um mar
Quando a cidade alucina
Num luar de néon e de neblina
E me esqueço de sonhar
Quando há qualquer coisa que sufoca
E os dias são iguais a outros dias
E por dentro o tempo é tão voraz
Quando de repente num segundo
Qualquer coisa me vira do avesso
E desfaz cada certeza do meu mundo
Quando o sopro de uma jura
Faz balançar os dias
Quando os sonhos contaminam
Os medos e os cansaços
Quando ainda me desarma
A tua companhia
E tudo o que a vida faz
Em mim
Quando o dia recomeça
E a noite ainda te prende nos seus braços
E por dentro te rebenta um mar
Quando a cidade te esconde
E o silêncio é o fundo das palavras
Que te esqueces de gritar
Quando tudo na vida vem em pedaços
E por dentro me rebenta um mar
Quando a cidade alucina
Num luar de néon e de neblina
E me esqueço de sonhar
Quando há qualquer coisa que sufoca
E os dias são iguais a outros dias
E por dentro o tempo é tão voraz
Quando de repente num segundo
Qualquer coisa me vira do avesso
E desfaz cada certeza do meu mundo
Quando o sopro de uma jura
Faz balançar os dias
Quando os sonhos contaminam
Os medos e os cansaços
Quando ainda me desarma
A tua companhia
E tudo o que a vida faz
Em mim
Quando o dia recomeça
E a noite ainda te prende nos seus braços
E por dentro te rebenta um mar
Quando a cidade te esconde
E o silêncio é o fundo das palavras
Que te esqueces de gritar
1 051
Joaquim Cardozo
As Alvarengas
"Tous les chemins vont vers la ville"
(Verhaeren)
As Alvarengas!
Ei-las que vão e vêm; outras paradas,
Imóveis. O ar silêncio. Azul céu, suavemente.
Na tarde sombra o velho cais do Apolo.
O sol das cinco acende um farol no zimbório
Da Assembléia.
As alvarengas!
Madalena. Deus te guie. Flor de zongue.
Negros curvando os dorsos nus
Impelem-nas ligeiras.
Vêm de longe, dos campos saqueados
Onde é tenaz a luta entre o Homem e a Terra,
Trazendo, nos bojos negros,
Para a cidade,
A ignota riqueza que o solo vencido abandona,
O latente rumor das florestas despedaçadas.
A cidade voragem
É o Moloch, é o abismo, é a caldeira...
Além, pelo ar distante e sobre as casas,
As chaminés fumegam e o vento alonga
O passo de parafuso
Das hélices de fumo;
E lentas
Vão seguindo, negras, jogando, cansadas;
E seguindo-as também em curvas n'água propagadas,
A dor da Terra, o clamor das raízes.
1925
Publicado no livro Poemas (1947).
In: CARDOZO, Joaquim. Poesias completas. 2.ed. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira, 1979. p.3-4
(Verhaeren)
As Alvarengas!
Ei-las que vão e vêm; outras paradas,
Imóveis. O ar silêncio. Azul céu, suavemente.
Na tarde sombra o velho cais do Apolo.
O sol das cinco acende um farol no zimbório
Da Assembléia.
As alvarengas!
Madalena. Deus te guie. Flor de zongue.
Negros curvando os dorsos nus
Impelem-nas ligeiras.
Vêm de longe, dos campos saqueados
Onde é tenaz a luta entre o Homem e a Terra,
Trazendo, nos bojos negros,
Para a cidade,
A ignota riqueza que o solo vencido abandona,
O latente rumor das florestas despedaçadas.
A cidade voragem
É o Moloch, é o abismo, é a caldeira...
Além, pelo ar distante e sobre as casas,
As chaminés fumegam e o vento alonga
O passo de parafuso
Das hélices de fumo;
E lentas
Vão seguindo, negras, jogando, cansadas;
E seguindo-as também em curvas n'água propagadas,
A dor da Terra, o clamor das raízes.
1925
Publicado no livro Poemas (1947).
In: CARDOZO, Joaquim. Poesias completas. 2.ed. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira, 1979. p.3-4
1 482
Francisco Alvim
Rapto da Lua
Incorporo a lua
a este escritório
já que não a vejo
de casa ou da rua
Untei-a de graxa
ampliei a janela:
ei-la sobre o arquivo
pálida, vazada —
astro corroído
dos vermes da sala
Tento subtraí-la
ao ar empestado
Talvez um abraço
à guisa de abrigo
Inútil: corrompe-se
(Nenhuma alquimia
retém a luzerna
que calma se evola
da mesa, da máquina
das cartas)
Publicado no livro Sol dos cegos (1968).
In: ALVIM, Francisco. Poesias reunidas, 1968/1988. Il. Pedro A. Alvim. São Paulo: Duas Cidades, 1988. p. 261. (Claro enigma
a este escritório
já que não a vejo
de casa ou da rua
Untei-a de graxa
ampliei a janela:
ei-la sobre o arquivo
pálida, vazada —
astro corroído
dos vermes da sala
Tento subtraí-la
ao ar empestado
Talvez um abraço
à guisa de abrigo
Inútil: corrompe-se
(Nenhuma alquimia
retém a luzerna
que calma se evola
da mesa, da máquina
das cartas)
Publicado no livro Sol dos cegos (1968).
In: ALVIM, Francisco. Poesias reunidas, 1968/1988. Il. Pedro A. Alvim. São Paulo: Duas Cidades, 1988. p. 261. (Claro enigma
1 208
Mafalda Veiga
Por esta cidade fora
Nem sempre esta cidade
Anoitece assim
Perdida na maresia
E no nevoeiro
Nem sempre se sabe
Do fim do sonho
Que se guarda inteiro
Às vezes é preciso
Desfazer o nó
Desancorar por dentro
Quem se amou
Deixar seguir
Abrir os braços
E ver o que ficou
A cor da fogueira
É como um barco aceso ao largo
Sem fim nem fronteira sem correr
A companhia é o teu riso
É não deixar esta noite morrer
Há sempre nesta cidade
Um sabor a mar
O som de uma guitarra
E de um fado
Que se enleia no vento assim
Só isso quero
Guardar para mim
A cor da fogueira
É como um barco a ir embora
Sem fim nem fronteira
Quando a noite nos acolhe
À conversa sem ter pressa
Por esta cidade fora
Anoitece assim
Perdida na maresia
E no nevoeiro
Nem sempre se sabe
Do fim do sonho
Que se guarda inteiro
Às vezes é preciso
Desfazer o nó
Desancorar por dentro
Quem se amou
Deixar seguir
Abrir os braços
E ver o que ficou
A cor da fogueira
É como um barco aceso ao largo
Sem fim nem fronteira sem correr
A companhia é o teu riso
É não deixar esta noite morrer
Há sempre nesta cidade
Um sabor a mar
O som de uma guitarra
E de um fado
Que se enleia no vento assim
Só isso quero
Guardar para mim
A cor da fogueira
É como um barco a ir embora
Sem fim nem fronteira
Quando a noite nos acolhe
À conversa sem ter pressa
Por esta cidade fora
922
Mafalda Veiga
Lado (a lado)
Há gente que espera de olhar vazio
Na chuva, no frio, encostada ao mundo
A quem nada espanta
Nenhum gesto
Nem raiva ou protesto
Nem que o sol se vá perdendo lá ao fundo
Há restos de amor e de solidão
Na pele, no chão, na rua inquieta
Os dias são iguais já sem saudade
Nem vontade
Aprendendo a não querer mais do que o que resta
E a sonhar de olhos abertos
Nas paragens, nos desertos
A esperar de olhos fechados
Sem imahens de outros lados
A sonhar de olhos abertos
Sem viagens e regressos
Outro dia lado a lado
Há gente nas ruas que adormece
Que se esquece enquanto a noite vem
É gente que aprendeu que nada urge
Nada surge
Porque os dias são viagens de nínguém
A sonhar de olhos abertos
Nas paragens, nos desertos
A esperar de olhos fechados
Sem imagens de outros lados
A sonhar de olhos abertos
Sem viagens e regressos
A esperar de olhos fechados
Outro dia lado a lado
Aprende-se a calar a dor
A tremura, o rubor
O que sobra de paixão
Aprende-se a conter o gesto
A raiva, o protesto
E há um dia em que a alma
Nos rebenta nas mãos
Na chuva, no frio, encostada ao mundo
A quem nada espanta
Nenhum gesto
Nem raiva ou protesto
Nem que o sol se vá perdendo lá ao fundo
Há restos de amor e de solidão
Na pele, no chão, na rua inquieta
Os dias são iguais já sem saudade
Nem vontade
Aprendendo a não querer mais do que o que resta
E a sonhar de olhos abertos
Nas paragens, nos desertos
A esperar de olhos fechados
Sem imahens de outros lados
A sonhar de olhos abertos
Sem viagens e regressos
Outro dia lado a lado
Há gente nas ruas que adormece
Que se esquece enquanto a noite vem
É gente que aprendeu que nada urge
Nada surge
Porque os dias são viagens de nínguém
A sonhar de olhos abertos
Nas paragens, nos desertos
A esperar de olhos fechados
Sem imagens de outros lados
A sonhar de olhos abertos
Sem viagens e regressos
A esperar de olhos fechados
Outro dia lado a lado
Aprende-se a calar a dor
A tremura, o rubor
O que sobra de paixão
Aprende-se a conter o gesto
A raiva, o protesto
E há um dia em que a alma
Nos rebenta nas mãos
1 600
Mafalda Veiga
Cúmplices (para o clube de fãs)
A noite vem às vezes tão perdida
E quase nada parece bater certo
Há qualquer coisa em nós inquieta e ferida
E tudo o que era fundo fica perto
Nem sempre o chão da alma é seguro
Nem sempre o tempo cura qualquer dor
E o sabor a fim do mar que vem do escuro
E tantas vezes o que resta do calor
Se eu fosse a tua pele
Se tu fosses o meu caminho
Se nenhum de nós se sentisse nunca sozinho
Trocamos as palavras mais escondidas
Que só a noite arranca sem doer
Seremos cúmplices o resto da vida
Ou talvez só até amanhecer
Fica tão fácil entregar a alma
A quem nos traga um sopro do deserto
O olhar onde a distância nunca acalma
Esperando o que vier de peito aberto
Se eu fosse a tua pele
Se tu fosses o meu caminho
Se nenhum de nós se sentisse nunca sozinho
E quase nada parece bater certo
Há qualquer coisa em nós inquieta e ferida
E tudo o que era fundo fica perto
Nem sempre o chão da alma é seguro
Nem sempre o tempo cura qualquer dor
E o sabor a fim do mar que vem do escuro
E tantas vezes o que resta do calor
Se eu fosse a tua pele
Se tu fosses o meu caminho
Se nenhum de nós se sentisse nunca sozinho
Trocamos as palavras mais escondidas
Que só a noite arranca sem doer
Seremos cúmplices o resto da vida
Ou talvez só até amanhecer
Fica tão fácil entregar a alma
A quem nos traga um sopro do deserto
O olhar onde a distância nunca acalma
Esperando o que vier de peito aberto
Se eu fosse a tua pele
Se tu fosses o meu caminho
Se nenhum de nós se sentisse nunca sozinho
1 211
Mafalda Veiga
Por todo este mundo
Saiu à rua, indiferente
Seguiu pra longe
Longe do olhar de toda a gente
Na luz intacta da madrugada
Seguiu sem norte e sem estrada
Descalça na terra molhada
Despiu o corpo e o pensamento
Seguiu o vento
Esqueceu a mágoa de acabar
E o tempo perdeu-se do tempo
E o chão raso fez-se mar
No mundo que somos por dentro
Por todo este mundo
Enquanto o sonho existir
E nos levar até ao fim
De tudo o que há pra sentir
Tudo o que há pra sentir
Segui o rasto do calor
Na areia quente
O sol doía como o fogo
Incendiou a cor do dia
Levou no corpo a ventania
E um beijo roubado do amor
Por todo este mundo
Enquanto o sonho existir
E nos levar até ao fim
De tudo o que há pra sentir
Tudo o que há pra sentir.
Seguiu pra longe
Longe do olhar de toda a gente
Na luz intacta da madrugada
Seguiu sem norte e sem estrada
Descalça na terra molhada
Despiu o corpo e o pensamento
Seguiu o vento
Esqueceu a mágoa de acabar
E o tempo perdeu-se do tempo
E o chão raso fez-se mar
No mundo que somos por dentro
Por todo este mundo
Enquanto o sonho existir
E nos levar até ao fim
De tudo o que há pra sentir
Tudo o que há pra sentir
Segui o rasto do calor
Na areia quente
O sol doía como o fogo
Incendiou a cor do dia
Levou no corpo a ventania
E um beijo roubado do amor
Por todo este mundo
Enquanto o sonho existir
E nos levar até ao fim
De tudo o que há pra sentir
Tudo o que há pra sentir.
1 031
Mafalda Veiga
Por Te Rever
Quisera roubar-te essas palavras e morrer
Trazer-te assim até ao fim do que eu puder
E começar um dia mais eternamente
Por te rever, só
Pudesse eu guardar-te nos sentidos e na voz
E descobrir o que será de nós
E demorar um dia mais eternamente
Por te rever, só
Quisera a ternura, calmaria azul do mar
O riso o amor o gosto a sal o sol do olhar
E um lugar pra me espraiar eternamente
Por te rever, só
Pudesse eu ser tempo a respirar no teu abraço
Adormecer e abandonar-me de cansaço
Quisera assim perder-me em mim eternamente
Por te rever, só
Trazer-te assim até ao fim do que eu puder
E começar um dia mais eternamente
Por te rever, só
Pudesse eu guardar-te nos sentidos e na voz
E descobrir o que será de nós
E demorar um dia mais eternamente
Por te rever, só
Quisera a ternura, calmaria azul do mar
O riso o amor o gosto a sal o sol do olhar
E um lugar pra me espraiar eternamente
Por te rever, só
Pudesse eu ser tempo a respirar no teu abraço
Adormecer e abandonar-me de cansaço
Quisera assim perder-me em mim eternamente
Por te rever, só
1 201
Mafalda Veiga
Lisboa de mil amores
á um escuro vem no horizonte
Ou a luz se perde do olhar
São os campos perdidos e os montes
Que se estendem pela noite devagar
São tantos os caminhos e os dias
Tantos como a saudade que se tem
Talvez um sabor leve de maresia
Talvez lembrança do sabor de alguém
Ai Lisboa estendida sobre o rio
Ai Lisboa de mil amores perdidos
Só de quem puder sentir
Que há um mar em ti escondido
Será do luar o brilho intenso
Será do olhar de quem eu quero
Que faz ir-se perdendo ao longe o escuro
E faz ir-se calando o desespero
Enquanto o dia vai
Enquanto a noite vem
E um desassossego acorda alguém
Uma canção distante
Lembra o sonho e outro olhar
Ai se toda a saudade
Pudesse enfim acalmar
Ai Lisboa estendida sobre o rio
Ai Lisboa de mil amores perdidos
Só de quem puder sentir
Que há um mar em ti escondido
Ou a luz se perde do olhar
São os campos perdidos e os montes
Que se estendem pela noite devagar
São tantos os caminhos e os dias
Tantos como a saudade que se tem
Talvez um sabor leve de maresia
Talvez lembrança do sabor de alguém
Ai Lisboa estendida sobre o rio
Ai Lisboa de mil amores perdidos
Só de quem puder sentir
Que há um mar em ti escondido
Será do luar o brilho intenso
Será do olhar de quem eu quero
Que faz ir-se perdendo ao longe o escuro
E faz ir-se calando o desespero
Enquanto o dia vai
Enquanto a noite vem
E um desassossego acorda alguém
Uma canção distante
Lembra o sonho e outro olhar
Ai se toda a saudade
Pudesse enfim acalmar
Ai Lisboa estendida sobre o rio
Ai Lisboa de mil amores perdidos
Só de quem puder sentir
Que há um mar em ti escondido
1 005
Mafalda Veiga
O Bêbado Pintor
Encostado ao balcão da taberna
o bêbado pintor
espera a noite de sombras vazias
e quem vende o amor assim
Louco e ébrio num circo deserto
cambaleando e só
um palhaço triste
inventa um pouco de alegria
e dança num palco gasto
afastando o pó
Hoje eu sou rei do mundo
pintor de todo o lugar
um coração de vagabundo
sabe voar
Ela entra nas noites sem rumo
com o olhar vazio
e traz nos cabelos
a brisa leve do Outono
que ele quis pintar
e lhe fugiu
Só e ébrio num carrossel louco
sem mastro nem chão
diz-lhe: vem ver um palhaço triste
descobrir a poesia
em noites de amor
e solidão
Hoje eu sou o rei do mundo
pintor de todo o lugar
um coração de vagabundo
sabe voar
o bêbado pintor
espera a noite de sombras vazias
e quem vende o amor assim
Louco e ébrio num circo deserto
cambaleando e só
um palhaço triste
inventa um pouco de alegria
e dança num palco gasto
afastando o pó
Hoje eu sou rei do mundo
pintor de todo o lugar
um coração de vagabundo
sabe voar
Ela entra nas noites sem rumo
com o olhar vazio
e traz nos cabelos
a brisa leve do Outono
que ele quis pintar
e lhe fugiu
Só e ébrio num carrossel louco
sem mastro nem chão
diz-lhe: vem ver um palhaço triste
descobrir a poesia
em noites de amor
e solidão
Hoje eu sou o rei do mundo
pintor de todo o lugar
um coração de vagabundo
sabe voar
1 116
Mafalda Veiga
Soslaio
húmido canto da boca
húmido olhar de soslaio
fresco de verde molhado
gotas de verde luar
riso no canto da boca
tão descarado no olhar
da cor bonita de Maio
húmido olhar de soslaio
sol que amormece na pele
gato a dormir na janela
o meu amor enroscado
em linho, meiguice e mel
sonhos no rubro dos lábios
fresco de verde molhado
da côr intensa de Maio
húmido olhar de soslaio
faz-me comichão na alma
o azul do olhar roçando
o riso que põe bricando
no canto da minha boca
riso de luar molhado
seus olhos do azul de Maio
húmido canto da boca
húmido olhar de soslaio
húmido olhar de soslaio
fresco de verde molhado
gotas de verde luar
riso no canto da boca
tão descarado no olhar
da cor bonita de Maio
húmido olhar de soslaio
sol que amormece na pele
gato a dormir na janela
o meu amor enroscado
em linho, meiguice e mel
sonhos no rubro dos lábios
fresco de verde molhado
da côr intensa de Maio
húmido olhar de soslaio
faz-me comichão na alma
o azul do olhar roçando
o riso que põe bricando
no canto da minha boca
riso de luar molhado
seus olhos do azul de Maio
húmido canto da boca
húmido olhar de soslaio
1 323
Edgar Allan Poe
To F—s S O—d
Thou wouldst be loved?— then let thy heart
From its present pathway part not!
Being everything which now thou art,
Be nothing which thou art not.
So with the world thy gentle ways,
Thy grace, thy more than beauty,
Shall be an endless theme of praise,
And love- a simple duty.
1835
From its present pathway part not!
Being everything which now thou art,
Be nothing which thou art not.
So with the world thy gentle ways,
Thy grace, thy more than beauty,
Shall be an endless theme of praise,
And love- a simple duty.
1835
977
Edgar Allan Poe
To Elizabeth
Would'st thou be loved? — then let thy heart
From its present pathway part not —
Be every thing which now thou art
And nothing which thou art not:
So with the world thy gentle ways,
And unassuming beauty
Shall be a constant theme of praise,
And love — a duty.
From its present pathway part not —
Be every thing which now thou art
And nothing which thou art not:
So with the world thy gentle ways,
And unassuming beauty
Shall be a constant theme of praise,
And love — a duty.
1 135
Mafalda Veiga
Em toda a parte
A distância é um fogo
Onde vou chegar
Num abraço fechado
Para te levar
Por campos abertos
Por onde puder
Levar-te por dentro
Pra não te perder
Nem com mil tormentas
Que arrasem o mundo
Em qualquer lado
Onde quer que eu vá
Levo no corpo o desejo
De te abraçar
Em toda a parte
Onde quer que o sonho me leve
Hei-de lembrar-me de ti
Por outros caminhos
Hei-de vaguear
Num abraço fechado
Para te levar
E há uma canção
Que um dia aprendi
Eu hei-de cantá-la
A pensar em ti
Em qualquer lado
Onde quer que eu vá
Levo no corpo o desejo
De te abraçar
Em toda a parte
Onde quer que o sonho me leve
hei-de lembrar-me de ti
Onde vou chegar
Num abraço fechado
Para te levar
Por campos abertos
Por onde puder
Levar-te por dentro
Pra não te perder
Nem com mil tormentas
Que arrasem o mundo
Em qualquer lado
Onde quer que eu vá
Levo no corpo o desejo
De te abraçar
Em toda a parte
Onde quer que o sonho me leve
Hei-de lembrar-me de ti
Por outros caminhos
Hei-de vaguear
Num abraço fechado
Para te levar
E há uma canção
Que um dia aprendi
Eu hei-de cantá-la
A pensar em ti
Em qualquer lado
Onde quer que eu vá
Levo no corpo o desejo
De te abraçar
Em toda a parte
Onde quer que o sonho me leve
hei-de lembrar-me de ti
1 064
Vladimir Maiakovski
MINHA UNIVERSIDADE
Conheceis o francês sabeis dividir, multiplicar, declinar com perfeição.
Pois, declinai!
Mas sabeis por acasos cantar em dueto com os edifícios?
Entendeis por acaso a linguagem dos bondes?
O pintainho humano mal abandona a cascas atraca-se aos livro e as resmas de cadernos.
Eu aprendi o alfabeto nos letreiros folheando páginas de estanho e ferro.
Os professores tomam a terra e a descarnam e a descascam para afinal ensinar:
"Toda ela não passa dum globinho!"
Eu com os costados aprendi geografia.
Os historiadores levantam a angustiante questão:
- Era ou não roxa a barba de Barba Roxa?
Que me importa! Não costumo remexer o pó dessas velharias.
Mas das ruas de Moscou conheço todas as histórias.
Uma vez instruídos, há os que se propõem a agradar às damas, fazendo soar no crânio suas poucas idéias,como pobres moedas numa caixa de pau.
Eu, somente com os edifícios,conversava.
Somente os canos respondiam.
Os tetos como orelhas espichando suas lucarnas aguardavam as palavras que eu lhes deitaria.
Noite a dentro uns com os outros palravam girando suas línguas de catavento.
Pois, declinai!
Mas sabeis por acasos cantar em dueto com os edifícios?
Entendeis por acaso a linguagem dos bondes?
O pintainho humano mal abandona a cascas atraca-se aos livro e as resmas de cadernos.
Eu aprendi o alfabeto nos letreiros folheando páginas de estanho e ferro.
Os professores tomam a terra e a descarnam e a descascam para afinal ensinar:
"Toda ela não passa dum globinho!"
Eu com os costados aprendi geografia.
Os historiadores levantam a angustiante questão:
- Era ou não roxa a barba de Barba Roxa?
Que me importa! Não costumo remexer o pó dessas velharias.
Mas das ruas de Moscou conheço todas as histórias.
Uma vez instruídos, há os que se propõem a agradar às damas, fazendo soar no crânio suas poucas idéias,como pobres moedas numa caixa de pau.
Eu, somente com os edifícios,conversava.
Somente os canos respondiam.
Os tetos como orelhas espichando suas lucarnas aguardavam as palavras que eu lhes deitaria.
Noite a dentro uns com os outros palravam girando suas línguas de catavento.
2 370
Álvares de Azevedo
PÁLIDA IMAGEM
Lira dos Vinte Anos
Segunda Parte
- J'ai cru que j'oublierais; mais j'avais mal sondé
Les abîmes du coeur que remplit un seul rêve:
Le souvenir est là, le souvenir se lève
Flot toujours renaissant et toujours débordé.
TURQUÉTY
No delírio da ardente mocidade
Por tua imagem pálida vivi!
A flor do coração no amor dos anjos
Orvalhei-a por ti!
O expirar de teu canto lamentoso
Sobre teus lábios que o palor cobria,
Minhas noites de lágrimas ardentes
E de sonhos enchia!
Foi por ti que eu pensei que a vida inteira
Não valia uma lágrima... sequer,
Senão num beijo trêmulo de noite...
Num olhar de mulher!
Mesmo nas horas de um amor insano,
Quando em meus braços outro seio ardia,
A tua imagem pálida passando
A minh'alma perdia.
Sempre e sempre teu rosto! as negras tranças,
Tua alma nos teus olhos se expandindo!
E o colo de cetim que pulsa e geme
E teus lábios sorrindo!
Nas longas horas do sonhar da noite
No teu peito eu sonhava que dormia;
Pousa em meu coração a mão de neve......
Treme... como tremia.
Como palpita agora se afogando
Na morna languidez do teu olhar...
Assim viveu e morrerá sonhando
Em teus seios amar!
Se a vida é lírio que a paixão desflora,
Meu lírio virginal eu conservei...
Somente no passado tive sonhos
E outrora nunca amei!
Foi por ti que na ardente mocidade
Por uma imagem pálida vivi!
E a flor do coração no amor dos anjos
Orvalhei... só por ti!
Segunda Parte
- J'ai cru que j'oublierais; mais j'avais mal sondé
Les abîmes du coeur que remplit un seul rêve:
Le souvenir est là, le souvenir se lève
Flot toujours renaissant et toujours débordé.
TURQUÉTY
No delírio da ardente mocidade
Por tua imagem pálida vivi!
A flor do coração no amor dos anjos
Orvalhei-a por ti!
O expirar de teu canto lamentoso
Sobre teus lábios que o palor cobria,
Minhas noites de lágrimas ardentes
E de sonhos enchia!
Foi por ti que eu pensei que a vida inteira
Não valia uma lágrima... sequer,
Senão num beijo trêmulo de noite...
Num olhar de mulher!
Mesmo nas horas de um amor insano,
Quando em meus braços outro seio ardia,
A tua imagem pálida passando
A minh'alma perdia.
Sempre e sempre teu rosto! as negras tranças,
Tua alma nos teus olhos se expandindo!
E o colo de cetim que pulsa e geme
E teus lábios sorrindo!
Nas longas horas do sonhar da noite
No teu peito eu sonhava que dormia;
Pousa em meu coração a mão de neve......
Treme... como tremia.
Como palpita agora se afogando
Na morna languidez do teu olhar...
Assim viveu e morrerá sonhando
Em teus seios amar!
Se a vida é lírio que a paixão desflora,
Meu lírio virginal eu conservei...
Somente no passado tive sonhos
E outrora nunca amei!
Foi por ti que na ardente mocidade
Por uma imagem pálida vivi!
E a flor do coração no amor dos anjos
Orvalhei... só por ti!
2 044
Felipe Larson
IMPREVISÍVEIS
A verdade é tão ruim,
Mas sofrer pra que?
Se nascemos com o dom de mentir
E você sabe fazer muito bem
Mas quando descubro suas mentiras
Eu minto também
Pois nós temos os mesmos direitos
E criamos nossas próprias leis
Então meu bem
Nós somos imprevisíveis
Por alguns anos me perguntei
Mas agora entendi
Qual é à força do sentimento, tente descobrir?
Mas pense bem antes de responder
Pois não é bem assim
E sei que logo você descobrirá
E a todos contará
Então meu bem
Nós somos impossíveis
Mas sofrer pra que?
Se nascemos com o dom de mentir
E você sabe fazer muito bem
Mas quando descubro suas mentiras
Eu minto também
Pois nós temos os mesmos direitos
E criamos nossas próprias leis
Então meu bem
Nós somos imprevisíveis
Por alguns anos me perguntei
Mas agora entendi
Qual é à força do sentimento, tente descobrir?
Mas pense bem antes de responder
Pois não é bem assim
E sei que logo você descobrirá
E a todos contará
Então meu bem
Nós somos impossíveis
775
Jorge Luis Borges
Dulcia Linquimus Arva
Minha canção de crioulo final,
pela noite acrescida de relâmpagos
no expresso do Sul
que quebra o fundo e perde os campos.
Uma amizade fizeram meus avós
Com esta distância
E conquistaram a intimidade do Pampa
e ligaram a sua destreza
a terra, o fogo, o ar, a água.
Foram soldados e fazendeiros
e apascentaram o coração com manhãs
e o horizonte igual que um bordão
tocou na profundeza da sua austera jornada.
Sua jornada foi clara como um rio
E era fresca sua tarde como o poço de água do quintal
e em seu viver eram as quatro estações
Como os quatro versos de uma estrofe esperada.
Decifraram intratáveis poeiras
Em carretas ou em cavaladas
e os alegrou o resplendor
Com que aviva o sereno a luz da armadura.
Um batalhou contra os godos,
Outro no Paraguai cansou sua espada;
Todos souberam do abraço do mundo
e foi mulher submissa a seu querer a campanha.
Os outros corações foram serenos
Como janela que da ao campo;
Resplandecentes e altos eram seus dias
Feitos de céu e plano.
Sabedoria de terra adentro a sua,
Da laçada que é comida
E da estrela que é vereda
E do violão ascendido.
Sangue negro de estrofe brotou baixo suas mãos;
Sentiram-se confessos no canto de um pássaro.
Sou um caipira e já não sei dessas coisas,
Sou homem da cidade, do bairro, da rua;
Os bondes distantes me ajudam a tristeza
Com essa queixa longa que soltam na tarde.
Retirado do livro Luna de enfrente, 1925
pela noite acrescida de relâmpagos
no expresso do Sul
que quebra o fundo e perde os campos.
Uma amizade fizeram meus avós
Com esta distância
E conquistaram a intimidade do Pampa
e ligaram a sua destreza
a terra, o fogo, o ar, a água.
Foram soldados e fazendeiros
e apascentaram o coração com manhãs
e o horizonte igual que um bordão
tocou na profundeza da sua austera jornada.
Sua jornada foi clara como um rio
E era fresca sua tarde como o poço de água do quintal
e em seu viver eram as quatro estações
Como os quatro versos de uma estrofe esperada.
Decifraram intratáveis poeiras
Em carretas ou em cavaladas
e os alegrou o resplendor
Com que aviva o sereno a luz da armadura.
Um batalhou contra os godos,
Outro no Paraguai cansou sua espada;
Todos souberam do abraço do mundo
e foi mulher submissa a seu querer a campanha.
Os outros corações foram serenos
Como janela que da ao campo;
Resplandecentes e altos eram seus dias
Feitos de céu e plano.
Sabedoria de terra adentro a sua,
Da laçada que é comida
E da estrela que é vereda
E do violão ascendido.
Sangue negro de estrofe brotou baixo suas mãos;
Sentiram-se confessos no canto de um pássaro.
Sou um caipira e já não sei dessas coisas,
Sou homem da cidade, do bairro, da rua;
Os bondes distantes me ajudam a tristeza
Com essa queixa longa que soltam na tarde.
Retirado do livro Luna de enfrente, 1925
1 804
Felipe Vianna
POESIA À POESIA
Rosas, amor, morte, vida,
São as armas da poesia.
Poesia hoje não lida,
Poesia hoje esquecida.
Poesia é um discurso,
Um discurso com muito som.
Se seu ritmo é bonito
É de alguém com muito dom.
Poesia é cultura,
É beleza, é arte pura.
Canto dos pássaros,
Pérola dos poetas.
Na vida das poesias
Tantas vidas se passaram,
Estas vidas já se foram
Mas nas poesias ficaram.
Tão bela quanto a rosa
A poesia ainda é,
Mas hoje, totalmente esquecida
Na conquista da mulher.
Já vou aos poucos findando
Esta poesia de dor,
Dor da ausência da arte
Na presença de um amor.
13/04/1991
São as armas da poesia.
Poesia hoje não lida,
Poesia hoje esquecida.
Poesia é um discurso,
Um discurso com muito som.
Se seu ritmo é bonito
É de alguém com muito dom.
Poesia é cultura,
É beleza, é arte pura.
Canto dos pássaros,
Pérola dos poetas.
Na vida das poesias
Tantas vidas se passaram,
Estas vidas já se foram
Mas nas poesias ficaram.
Tão bela quanto a rosa
A poesia ainda é,
Mas hoje, totalmente esquecida
Na conquista da mulher.
Já vou aos poucos findando
Esta poesia de dor,
Dor da ausência da arte
Na presença de um amor.
13/04/1991
567
Rafael Alberti
O mar, o mar
O mar. O mar.
O mar. Só o mar!
Por que me trouxeste, pai
a cidade?
Em sonhos, a marejada
me tira do coração.
Se o quisesses levar.
Pai, por que me trouxeste
aqui?
O mar. Só o mar!
Por que me trouxeste, pai
a cidade?
Em sonhos, a marejada
me tira do coração.
Se o quisesses levar.
Pai, por que me trouxeste
aqui?
1 285
Maria Suely de Oliveira
São Paulo
São Paulo
Vista do chão
É a civilização
É chiclete
Espaguete
Gilete
Papelão
Página internética
Perdida no espaço
Máquina moderna
Fábrica de miséria
Memória de bagaço
De sangue, suor,
Poeira, aço
E pedaço de pão
É a civilização
Megalópole de vida mutante
Espremida no esperma
Do lixo de luxo
Do espigão
É a civilização
Mercadora de entulho
Mendiga de sonho
Caco de ilusão
É a civilização
De São Paulo
Vista do chão
Vista do chão
É a civilização
É chiclete
Espaguete
Gilete
Papelão
Página internética
Perdida no espaço
Máquina moderna
Fábrica de miséria
Memória de bagaço
De sangue, suor,
Poeira, aço
E pedaço de pão
É a civilização
Megalópole de vida mutante
Espremida no esperma
Do lixo de luxo
Do espigão
É a civilização
Mercadora de entulho
Mendiga de sonho
Caco de ilusão
É a civilização
De São Paulo
Vista do chão
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