Escritas

Morte

Poemas neste tema

José Miguel Silva

José Miguel Silva

Feios, porcos e maus - Ettore Scola (1976)

Compram aos catorze a primeira gravata
com as cores do partido que melhor os ilude.
Aos quinze fazem por dar nas vistas no congresso
da jota, seguem a caravana das bases, aclamam
ou apupam pelo cenho das chefias, experimentam
o bailinho das federações de estudantes.
Sempre voluntariosos, a postos sempre,
para as tarefas da limpeza após o combate.

São os chamados anos de formação. Aí aprendem
a compor o gesto, interpretar humores,
a mentir honestamente, aí aprendem a leveza
das palavras, a escolher o vinho, a espumar
de sorriso nos dentes, o sim e o não
mais oportunos. Aos vinte já conhecem pelo faro
o carisma de uns, a menos valia
de outros, enquanto prosseguem vagos estudos
de Direito ou de Economia. Começam, depois
disso, a fazer valer o cartão de sócio: estão à vista
os primeiros cargos, há trabalho de sapa pela frente,
é preciso minar, desminar, intrigar, reunir.
Só os piores conseguem ultrapassar esta fase.

Há então quem vá pelos municípios, quem prefira
os organismos públicos - tudo depende do golpe
de vista ou dos patrocínios que se tem ou não.
Aos trinta e dois é bem o momento de começar
a integrar as listas, de preferência em lugar
elegível, pondo sempre a baixeza acima de tudo.

A partir do Parlamento, tudo pode acontecer:
director de empresa municipal, coordenador de,
assessor de ministro, ministro, comissário ou
director executivo, embaixador na Provença,
presidente da Caixa, da PT, da PQP e, mais à frente
(jubileu e corolário de solvente carreira),
o golden-share de uma cadeira ao pôr-do-sol.
No final, para os mais obstinados, pode haver
nome de rua (com ou sem estátua) e flores
de panegírico, bombardas, fanfarras de formol.
1 297
José Miguel Silva

José Miguel Silva

O Grande Circo de Montekarl

Não gosto especialmente de circo, mas como não há
mais nada e uma pessoa tem de se entreter com alguma
coisa, cá vim. Confesso que me atraiu sobretudo o número
da Grande Conflagração do Capitalismo, anunciado
em letras vermelhas no cartaz. A questão que se põe é:
a que horas começa? Pergunto, ninguém sabe.

Francamente, isto nem parece uma produção americana.
Estamos aqui de pé há sei lá quantas horas e nada sai
do ramerrão: entram palhaços, saem palhaços, uns mais
ricos, outros menos, mas todos iguais, todos sem graça.
Já nem os posso ver. E domadores de caniches,
burricos, cantilenas de latão. Isto põe-me doente.

Agora são os comedores de fogo. Que seca do caralho.
Só nos falta um mágico - pronto, para que é que eu falei.
Mais valia ter ficado em casa. Mas a culpa é minha -
bilhetes tão baratos, devia ter desconfiado. Podia tentar sair,
mas como, se nem consigo ver a porta? E sair para onde?
Para o frio da noite? Estamos bem fodidos.
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José Miguel Silva

José Miguel Silva

Não é tarde

O amor é como o fogo, não se propaga
onde o ar escasseia. Mas não te preocupes,
eu fecho mais a porta.

Gestos e paveias, acendalhas, o isqueiro
funciona! Poderoso combustível
é o corpo. Acende deste lado.

Ainda não é tarde, foi agora anunciado
pela rádio, são dezoito e vinte e cinco.
Respira-nos, repara, a ilusão de que a vida

não se esgota, como os saldos de Verão.
E a morte, à medida que te despes,
vai perdendo o nosso número de telefone.
1 144
José Miguel Silva

José Miguel Silva

Onze

Alguém, por exemplo, descuidou a beleza,
cresceu demasiado, não atou as sapatilhas.
Assim se constitui o perfeito cenário
para uma infância de subtracções.
É fechado numa caixa, recebe a desfeita
do seu socorro, sofre as mais cruéis comparações.
Minado por peguilhas, volta-se para Jesus.
Jesus diz-lhe: não te fiques, fode-lhe as trombas.
Mas a vítima não sabe karaté, não sabe
onde lhe dói. Vai ter que ser diferente, que aprender,
de costas para a luz, a arte de fintar o agressor.
Pode ser que tenha sorte.
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Manuel António Pina

Manuel António Pina

Sob escombros

Um tempo houve em que,
de tão próximo, quase podias ouvir
o silêncio do mundo pulsando
onde também tu eras mundo, coisa pulsante.

Extinguiu-se esse canto
não na morte
mas na vida excluída
da clarividência da infância

e de tudo o que pulsa,
fins e começos,
e corrompida pela estridência
e pela heterogeneidade.

Agora respondes por nomes supostos,
habitante de países hábeis e reais,
e precisas de ajuda para as coisas mais simples,
o pensamento, o sofrimento, a solidão.

A música, só voltarás a escutá-la
numa noite lívida,
uma noite mais vulnerável do que todas
(o presente desvanecendo-se, o passado cada vez mais lento)
um pouco antes de adormece
sob escombros.

Manuel António Pina | "Todas as palavras - poesia reunida 1974-2011", pág. 360 | Assírio & Alvim, 2012

1 584
Nuno Júdice

Nuno Júdice

No barco

Sobre estas escuras águas pouso o corpo e flutuo.

Do mesmo modo flutua a memória sobre a minha obscura alma,

e o seu desenho reflecte-se na atmosfera sombria

do entardecer. "Ficarei?", pergunto,

e sem esperar resposta olho a outra margem e o cais

a aproximar-se. Por fim, não desembarco. À espera do regresso

seguro-te as mãos, embora ninguém esteja comigo. Em silêncio

respiro o cheiro das máquinas; "para onde me conduzes,

ó infindável morte, por entre os vivos e as suas sombras", ouço-me

dizer-te. Para que não me respondas, deixando-me preso

a um banco de barco, sacudido pelos temporais, vendo a chuva cair

por detrás dos vidros.



Nuno Júdice | "Obra Poética" (1972 - 1985), pág. 92 | Quetzal Editores, 1999







1 168
Nuno Júdice

Nuno Júdice

Subitamente surge. Tem o teu rosto

O paraíso é uma flor verde.

As árvores abrem-se ao meio.

O que é sucessivo perde-se.

Se o tempo modifica os seres e os objectos

eu sinto a diferença e gasto-me.

O sol é um erro de gramática, a luz da madrugada

uma folha branca à transparência da lâmpada.

Soam então os barulhos. Soam

de dentro das janelas,

de dentro das caixas fechadas há mais tempo,

de dentro das chávenas meias de café.

É tarde e és tu,

acima de tudo,

entre a manhã e as árvores,

à luz dos olhos,

à luz só do límpido olhar.


Nuno Júdice | "Obra poética:1972-1985", pág. 168 | Quetzal Editores, 1999

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Nuno Júdice

Nuno Júdice

Abismo

Tenho o coração a cair sobre os cadáveres dos maus e dos vadios. O meu abismo ilumina uma explosão de trabalho humano.



Nuno Júdice | "Obra poética 1972 - 1985", pág. 347 (texto que encerra o livro) | Quetzal Editores, 1999

961
Nuno Júdice

Nuno Júdice

Salmo

Há mulheres mortas nas árvores do cais. Ensinei-as a escrever poemas; e elas pendem dos ramos, a cabeça

para baixo, mudas e estagnadas. Meto-lhes os dedos nos orifícios do corpo - os ouvidos, o nariz, a boca, o sexo, - e tiro-os

cheios de pus, de sangue podre, de restos de algodão. Por dentro,

elas falam-me numa voz marítima, cujo sentido surge e desaparece

no ritmo das marés loucas de setembro. Digo para mim próprio

que já sabia tudo isto; que aqueles corpos estavam previstos

no curso de alguns astros de infância; que não perdi nada,

afinal, em ter esperado tanto tempo.


E o horizonte abre-se-me na continuação das conchas vermelhas

do crepúsculo. Deus é um coral queimado pelo rumor monótono

dos ventos. Entro no pórtico da morte - e encontro

navios ancorados, o poço seco das águas

letais, almas adormecidas pelo tédio da infinita espera. Sento-me

no banco, sob o relógio e o tejadilho da ponte, uma carruagem

vazia brota-me dos olhos num iluminismo final. Cuspi um êxtase celeste no tropel dos evangelhos.


"- Conhecíeis o fim da história? O alucinado

incêndio das vésperas? A corrupção dos sinos na memória?"

[nas nuvens

inabaláveis no céu da frase.]



Nuno Júdice | "Obra poética 1972 - 1985", pág. 313 | Quetzal Editores, 1999

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Fernando Pessoa

Fernando Pessoa

CANÇÃO À INGLESA

CANÇÃO À INGLESA

Cortei relações com o sol e as estrelas, pus ponto no mundo.
Levei a mochila das coisas que sei para o lado e p'ro fundo
Fiz a viagem, comprei o inútil, achei o incerto,
E o meu coração é o mesmo que fui, um céu e um deserto
Falhei no que fui, falhei no que quis, falhei no que soube.
Não tenho já alma que a luz me desperte ou a treva me roube,
Não sou senão náusea, não sou senão cisma, não sou senão ânsia
Sou uma coisa que fica a uma grande distância
E vou, só porque o meu ser é cómodo e profundo,
Colado como um escarro a uma das rodas do mundo.
1 314
Fernando Pessoa

Fernando Pessoa

Não tenho sinceridade nenhuma que te dar.

Não tenho sinceridade nenhuma que te dar.
Se te falo, adapto instintivamente frases
A um sentido que me esqueço de ter.
1 003
Manuel António Pina

Manuel António Pina

Algumas coisas

A morte e a vida morrem
e sob a sua eternidade fica
só a memória do esquecimento de tudo;
também o silêncio de aquele que fala se calará.

Quem fala de estas
coisas e de falar de elas
foge para o puro esquecimento
fora da cabeça e de si.

O que existe falta
sob a eternidade;
saber é esquecer, e
esta é a sabedoria e o esquecimento.

Manuel António Pina | "Todas as palavras" | Poesia reunida; Ed. Assírio & Alvim, 2012
1 510
Manuel António Pina

Manuel António Pina

Aos filhos

Já nada nos pertence,
nem a nossa miséria.
O que vos deixaremos
a vós o roubaremos.

Toda a vida estivemos
sentados sobre a morte,
sobre a nossa própria morte!
Agora como morreremos?

Estes são tempos de
que não ficará memória,
alguma glória teríamos
fôssemos ao menos infames.

Comprámos e não pagámos,
faltámos a encontros:
nem sequer quando errámos
fizemos grande coisa!
1 337
Fernando Pessoa

Fernando Pessoa

Não a ti, mas aos teus, odeio, Cristo.

Não a ti, mas aos teus, odeio, Cristo.
Tu não és mais que um deus a mais no eterno
        Pantéon que preside
        À nossa vida incerta.

Nem maior nem menor que os novos deuses,
Tua sombria forma dolorida
        Trouxe algo que faltava
        Ao número dos divos.

Por isso reina a par de outros no Olimpo,
Ou pela triste terra se quiseres
        Vai enxugar o pranto
        Dos humanos que sofrem.

Não venham, porém, estultos teus cultores
Em teu nome vedar o eterno culto
        Das presenças maiores
        E parceiras da tua.

A esses, sim, do âmago eu odeio
Do crente peito, e a esses eu não sigo,
        Supersticiosos leigos
        Na ciência dos deuses.

Ah, aumentai, não combatendo nunca.
Enriquecei o Olimpo, aos deuses dando
        Cada vez maior força
        Plo número maior.

Basta os males que o Fado as Parcas fez
Por seu intuito natural fazerem.
        Nós homens nos façamos
        Unidos pelos deuses.
1 184
Fernando Pessoa

Fernando Pessoa

Aqui, sem outro Apolo do que Apolo,

Aqui, sem outro Apolo do que Apolo,
Sem um suspiro abandonemos Cristo
        E a febre de buscarmos
        Um deus dos dualismos.

E longe da cristã sensualidade
Que a casta calma da beleza antiga
        Nos restitua o antigo
        Sentimento da vida.
1 384
Manuel António Pina

Manuel António Pina

Chico

Talvez não fosses forte
para a felicidade,
nem para o medo.

Olha as pessoas felizes:
ocultam-se na felicidade
como em casa, erguem

muros, fecham as janelas,
o medo
é a sua fortaleza.

O que disputam à morte
é maior que elas,
a morte não lhes basta.
1 472
Fernando Pessoa

Fernando Pessoa

UMA VOZ: Eu sou o Espírito de Alegria,

Eu sou o Espírito de Alegria,
Minha mortalha minha mão fia,
Fia-a contente de ter que fiar.
Por isso a fia sem a acabar,
Fia de noite, fia de dia,
Fia, fia, fia, fia,
Fia de noite e de dia fia.

Bem sei que a obra é para tristeza,
Mas há o fazê-la que a faz beleza,
Bem sei que a morte é seu fio e a dor
Constante no fiar. Mas fia com amor.
E por isso cumpre-me a minha alegria
Minha mão (...) que fia e fia,
Fia de noite, fia de dia,
Fia, fia, fia, fia
Fia de dia e de noite fia.
1 421
Fernando Pessoa

Fernando Pessoa

Saudades, só portugueses

Saudades, só portugueses
Conseguem senti-las bem,
Porque têm essa palavra
Para dizer que as têm.
3 405
Fernando Pessoa

Fernando Pessoa

O CARRO DE PAU

O carro de pau
Que bebé deixou...
Bebé já morreu
O carro ficou...

O carro de pau
Tombado de lado...
Depois do enterro
Foi ali achado...

Guardaram o carro
Guardaram bebé.
A vida e os brinquedos
Cada um é o que é.

Está o carro guardado.
Bebé vai esquecendo.
A vida é p'ra quem
Continua vivendo...

E o carro de pau
É um carro que está
Guardado num sótão
Onde nada há...
2 330
Fernando Pessoa

Fernando Pessoa

A vida é um hospital

A vida é um hospital
Onde quase tudo falta.
Por isso ninguém se cura
E morrer é que é ter alta.
2 461
Fernando Pessoa

Fernando Pessoa

Não torna atrás a negregada prole

Não torna atrás a negregada prole
        Regular de Saturno,
Nem magnos deuses implorados volvem
        Quem foi à luz que vemos.
Moramos, hóspedes na vida, e usamos
        Um tempo do discurso,
Um breve amor, um sorriso breve, e um dia
        Saudoso de todos.
1 040
Fernando Pessoa

Fernando Pessoa

De uma só vez recolhe

De uma só vez recolhe
        Quantas flores puderes.
Não dura mais que até à morte o dia.
        Colhe de que recordes.

        A vida é pouco e cerca-a
        A sombra e o sem remédio.
Não temos regras que compreendamos,
        Súbditos sem governo.

        Goza este dia como
        Se a Vida fosse nele.
Homens nem deuses fadam, nem destinam
        Senão o que ignoramos.
1 611
Fernando Pessoa

Fernando Pessoa

V - Braços cruzados, sem pensar nem crer.

V

Braços cruzados, sem pensar nem crer,
Fiquemos pois sem mágoas nem desejos.
Deixemos beijos, pois o que são beijos ?
A vida é só o esperar morrer.

Longe da dor e longe do prazer,
Conheçamos no sono os benfazejos
Poderes únicos; sem urzes, brejos,
A sua estrada sabe apetecer.

Coroado de papoilas e trazendo
Artes porque com sono tira sonhos,
Venha Morfeu, que as almas envolvendo,

Faça a felicidade ao mundo vir
Num nada onde sentimo-nos risonhos
Só de sentirmos nada já sentir.
1 276
Fernando Pessoa

Fernando Pessoa

O sino dobra a finados.

O sino dobra a finados.
Faz tanta pena a dobrar!
Não é pelos teus pecados
Que estão vivos a saltar.
1 504