Consciência e autoconhecimento

Poemas neste tema

Paulo Augusto Rodrigues

Paulo Augusto Rodrigues

Diamante

Me assustam as crenças.

O sentimento da certeza
Espanta e
Esconde
Sementes idéias.

Muito me assustam as crenças.

As facetas,
Íntimas,
Se perdem
Ante a grandeza da pedra.

Difícil,
Ver por tantos ângulos,
Quando a gema por si
Ofusca minúcias,
Oculta detalhes,

E esmaga,
Tamanha beleza,
Pequenas verdades.

854
Rodrigo L. A. Santos

Rodrigo L. A. Santos

Quem entende

Quem entende
A vida?

Quando
Vivia na luz
Minha alma
Penava sozinha
No escuro

Quando
Estou no escuro
Minha alma
Dança alegre
Sob uma facho de luz

RLAS

980
Paulo Augusto Rodrigues

Paulo Augusto Rodrigues

Será

Será que não se vêem,
Não se olham ou não se contemplam,
Não são eus,
Não se admiram ou se ressentem?

Será que não se ouvem,
Não se falam ou se tocam,
Não são outros?

Será que não se amam,
Aos outros nem tanto,
Mas um pouco a si próprios?

Será que vivem...

Será que inventaram Deus?

947
Paulo Augusto Rodrigues

Paulo Augusto Rodrigues

Secos

Sentimentos secos.

Áridos,
Nevrálgicos,
Rachados.
Torretes óbvios de terra bruta,
Endurecida.

E freáticos,
São os desejos passando imunes ao fundo.
Onde a umidade e o frescor,
Não afloram.

Às vezes,
O impermeável senso desvia lençóis.

E em crus colchões
Expõe.

A água da fonte.

885
Rodrigo Guidi Peplau

Rodrigo Guidi Peplau

Poêmio

Poêmio
sou eu
um poêmio
que foge se o sol nasceu

que tem várias paixões
mas nenhuma namorada
que é amigo das ilusões
e dorme com a tristeza
agarrada.

Poêmio
e toda sua papelada
o poêmio
que sem ela não é nada

que trata cada emoção
como sua afilhada
e cria seu coração
com as dores que tomou
das pancadas

1 087
Roberval Pereyr

Roberval Pereyr

Prelúdio

O teu segredo é o meu
percurso no eu
nascido de lado.
Naquela curva perdi o tino
e o nome
e fui o corvo ferido no imo
e fui o deserto sobrevoado.

O deus que dormia atrás do meu embigo
sumiu. No oco
deixado ecoa o sem-sentido
e danço esta sina com eus indomáveis.

942
Paulo F. Cunha

Paulo F. Cunha

Espelho

Neste espelho que se ( e me ) parte
e me divide em pedaços holográficos
888
Orlando Neves

Orlando Neves

1935

Vou alimentar-te à mão, ternura,
até que morras negada
pelos fantasmas que são, vivas,
as pessoas. Vou alimentar-te
como a um animal feroz
que guardo, amo e temo.
Vou alimentar-te de mim,
ternura.

1 020
Paulo F. Cunha

Paulo F. Cunha

Transparência

Por que , quando estás perto ,
sou transparente à ti ?
Por que , quando estás longe
sou transparente ao mundo ?

Por que não sou sólido , opaco
como os outros ?
Ou será que não vejo os outros ,
preocupado com minha transparência . ,

901
Ona Gaia

Ona Gaia

Cacófato Mental

Não importa a marca
semente com mente
não mente
semente sem mente
demente
semente demente
somente.

982
Joaquim Namorado

Joaquim Namorado

Legenda

Façam ruínas
do que me afirmo,
espalhem ao vento as cinzas
do que sou:
na parcela mais remota do que fui
estou.

1 849
Marly de Oliveira

Marly de Oliveira

Não conheci o desterro

Não conheci o desterro,
mas sei a quanto obriga.
Vivo na minha terra,
embora desencontrada. Quem sabe
de mim, quem me ouve
o que não digo, quem segura
a rédea de meu sonho, permitindo
o risco da vertigem, o perigo
de conhecer o abismo?

1 137
Maria de Lourdes Hortas

Maria de Lourdes Hortas

Recado

Mas quanto mais me alongo mais me achego

Camões/Sonetos

Nenhuma carta
porém ressoam versos:
sabor de mel lavando o sal do pranto
vale de léguas, fronteira inconsistente
pois tantas milhas de mim jamais se apartam.
Que longe ou perto refaço a mesma rota
ao cais seguro, definitivo porto
onde me espero
e sempre me encontro.

870
Maria Lucia Miranda Afonso

Maria Lucia Miranda Afonso

Delicadeza

Delicadeza

Uma pessoa tão delicada...
como uma chuva de cristal caindo nas rochas:
inútil tentar segurá-la com as mãos,
inevitável que algumas gotas se despedacem...

Tenho compaixão por ela,
é tão delicado ser delicado!
É tão duro ser delicada consigo mesma
quando se é tão delicada...

É tão duro, e tão delicado!

908
Millôr Fernandes

Millôr Fernandes

Reflexão Sobre a Reflexão

Terrível é o pensar.
Eu penso tanto
E me canso tanto com meu pensamento
Que às vezes penso em não pensar jamais.
Mas isto requer ser bem pensado
Pois se penso demais
Acabo despensando tudo que pensava antes
E se não penso
Fico pensando nisso o tempo todo.

1 482
Mário Donizete Massari

Mário Donizete Massari

Velório

Sinto-me só neste velório
As pessoas estão distantes, alheias
o que farão aqui?

Sussurram problemas diários
preço do arroz, sindicato
sucessão presidencial, sucessos do
[rádio . . .

Estou só, na minha lucidez
E embora seja o morto
Me sinto vivo mais do que nunca.

906
Marta Gonçalves

Marta Gonçalves

Lições de Vida

Nos lábios, secura de fome espera
o rio manso das palavras. Ando
soltando pássaros verdes e descubro
nos ninhos lições de vida. O galho
do salgueiro conversa com o vento.
No corpo, marcas de ferro. Nas cavernas,
lembranças embalsamadas.

Tudo o que escrevo está em mim.

966
Marta Gonçalves

Marta Gonçalves

Simples Cerejas

Eram apenas cerejas na cesta

ao sorvê-las senti

algo dentro de mim.

Um sino libertando os olhos

do velho telhado.

986
Maria Aparecida Reis Araújo

Maria Aparecida Reis Araújo

Chuva de Outono

Olhos centrados na tarde
reponho crenças
perdidas na multidão.

Vigília que se parte e se fragmenta
ostentando espelhos onde me guardo
entre rosários e perdas
entre salmos e buscas.

O que importa no momento
é sustentar o ouro da fantasia
e escutar o canto leve da chuva.

Do outono que lava a alma e eterniza.

1 024
Manuel Lima

Manuel Lima

São Meus Estes Rios

São meus estes rios
que buscam caminho
rastejando entre luar e silêncio,
sombra e madrugada,
até ao seu fim marítimo.

A minha alma está neles,
líquida e sonora
como a água entre o quissange das pedras,
o anoitecer nas fontes.

Tenho rios vermelhos e quentes
na minha dimensão física,
rios remotos, remotos como eu.

1 584
Marcelo Almeida de Oliveira

Marcelo Almeida de Oliveira

Física insana

Verdade ou mentira,
dualidade onda-partícula;
cruel realidade,
relatividade da felicidade.
Se Erwin soubesse
que quando anoitece
seu gato zumbi anda
pra debaixo de minha cama...
Incertezas quânticas
em minhalma sub-atômica.

805
Maria do Carmo Verza Sartori

Maria do Carmo Verza Sartori

O Íntimo da Rosa

O íntimo da rosa busca reentrâncias
retorna a si
despetálam-se uma a uma
as camadas que nos protegem

Somos sãos
círculos...
Somos sons, cores, bichos...

Somos a rosa!
perfume, mistério, juventude
fugaz beleza
essência divina que sempre retorna.

854
Maria do Carmo Verza Sartori

Maria do Carmo Verza Sartori

Céu

Tenho a
impressão

que o céu
fica aqui
perto

o caminho
é interior

a paz é o
indicador

do
encontro

783
Luiz Pimenta

Luiz Pimenta

Safira

Safira

Saiu
Safira
em busca de
pedras semi-preciosas.

Passou a vida,
nada encontrou.

Provavelmente,
esqueceu de se olhar.

Rio, fevereiro de 91

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