Escritas

Conflito

Poemas neste tema

Jorge Melícias

Jorge Melícias

A mulher borda

violentamente

o ventre contra o chão.

É este o centro do círculo da loucura,

e a luz está toda nos dedos.

O crime tem a idade do mundo,diz,

e recomeça a coser os pulsos

filho a filho.

A loucura é agora uma mão

cheia de sal

voltada para dentro.

Nenhum vaso se entorna

já em seu nome,

e sobre a mesa

os frutos estão fechados como pedras.

de Iniciação ao Remorso(1998)

779
Ingeborg Bachmann

Ingeborg Bachmann

Manobras de Outono

Manobras de Outono
Não digo: isso foi ontem. Com insignificantes
trocos de Verão nos bolsos, estamos de novo deitados
sobre o joio do sarcasmo, nas manobras de Outono do tempo.
E a nós não nos é dada, como aos pássaros,
a retirada para o sul. À noite passam por nós
traineiras e gondolas, e por vezes
atinge-me um estilhaço de mármore impregnado de sonho,
onde a beleza me torna vulnerável, nos olhos.

Leio nos jornais muitas notícias - do frio
e suas consequências, de imprudentes e mortos,
de exilados, assassinos e meríades
de blocos de gelo, mas pouca coisa que me dê prazer.
E porque havia de dar? Ao pedinte que vem ao meio-dia
fecho-lhe a porta na cara, porque há paz
e podemos evitar essas cenas, mas não
o triste cair das folhas à chuva.

Vamos viajar! Debaixo dos ciprestes
ou de palmeiras ou nos laranjais, vamos
contemplar a preços reduzidos
inigualáveis pôr-do-sol! Vamos esquecer
as cartas ao dia de ontem, não respondidas!
O tempo faz milagres. Mas se chegar quando não nos convém,
com o bater da culpa - não estamos em casa.
Na cave do coração, desperto, encontro-me de novo
sobre o joio do sarcasmo, nas manobras de Outono do tempo.

1 215
João Maimona

João Maimona

Memória

Baloiçando nos escombros de teu itinerário
saberás que os gados constroem estradas.
E quando a mão deslizar pela margem
das cicatrizes que se afundam na noite
saberás que a tua mão viaja para a
colina dos dias sem escombros
e saberás que no berço da noite jaz a luz
drogada e ouvida pela cruz sobre quem viajaste.
1 207
Carlos Falck

Carlos Falck

Primeira Tentativa para a Busca da Infância Perdida

Quanto tempo se esvai pela vidraça
agora que a manhã se determina
em pássaro e mentira e vai em vôo
pra nunca mais sequer imaginar,
a branquidão dos muros da infância;
quanto tempo depõe-se nesse olhar
oceano em vazante,
lua em minguante,
peixe em quadrante;
musa aérea passa em seu navio de vidro
e inventa horizontes,
e cria rios,
e deixa do manto azul as lantejoulas frias
que vão boiando em ar e claridade.
Quanto tempo...
quanto vento desfazendo traços
desfazendo braços
que retêm rosas;
quanto tempo nascendo para ser esquecido,
confundido com as nuances sem vida do inverno.
Vem primeiro o cavalo de brinquedo e relincha no quintal;
tem brida e estribos,
tem nos olhos as histórias ouvidas, repetidas;
mas se dissolve logo: resta um templo,
flor entendida como adeus,
rios sob pontes
e um trem cheio de ninguém
atravessando a solidão de um vale
aprendido na Bíblia,
cheio de pastores e flautistas,
cheio de estampas amarelas
dos primeiros livros da escola.
E nada sobrevive.
E nada pode manter a vida em si
como uma pedra olhada num momento de tristeza.
O mundo é a cidade da infância:
se anda pelas ruas na esperança
de ver o mais famoso dos gigantes,
ou mesmo o alado alazão que seria
mais veloz que o próprio vento
e mais constante no rosto,
ou no retângulo breve da janela.
Eis a cidade: festa, bandeirinhas de papel,
o coração se abriga nos ruídos
e se perde um pouco
nas cores pobres das barracas.
Quer-se uma andorinha pousada,
um caramujo lento,
uma menina de tranças,
uma violeta na relva,
uma borboleta na brisa;
quer-se o mundo inteiro em suas coisas puras,
mas apenas instalam o telefone;
e nada sabem do pranto se em vez de lágrimas se deixa de falar:
as mãos puxando a gola de um marinheiro sem mar,
sem navio, e sem espada,
e mesmo sem um mapa de tesouro;
dói sempre ter as coisas mutiladas:
ser criança é assim.
Primeiro vem o cavalo da infância
e a lembrança de todas as batalhas
havia um corta-vento silencioso
que me lembrava os moinhos de Don Quixote;
havia, tudo e tudo se perdia
na alma do menino que crescia,
do menino zangado com os padres, zangado com o rádio,
zangado com a escola cheia de castigos.
Quanto tempo se esvai entre um menino e um homem.
Há entre os dois apenas a lembrança de uma incineração:
a dos sonhos.
Alertas, as mãos se estendem
para sentir no rosto o que se teve
como prêmio do tempo...
Tudo é chorar, é sentir que se dissolvem as nuvens
onde se descobria
ilustrações de histórias de Perrault.
Um sopro estranho faz rugir as telhas.
É a hora branca da manhã que vem.
olhos sem destino espiam da escuridão:
descobrem um homem triste, um homem em riste
um homem que não grita mas se sente tão louco,
tão ainda a nascer neste morrer sem trégua
do mundo da razão .

692
Carlos Felipe Moisés

Carlos Felipe Moisés

Fausto

O dedo em riste
aponta o horizonte
e o ódio persiste
no rosto bifronte.

Morde e remorde
a própria língua,
mal ouve o acorde
esvaído à míngua.

A sanha incontida
arde e devora,
em dura lida,
o peito que chora.

O próprio sangue
escorre, incapaz
de aplacar, exangue,
a sede voraz.

O acorde a cantar.
O corpo é uma chama
e espalha no ar
o ódio que ama.

(Subsolo, São Paulo, Massao Ohno, 1989)

887
Gomes de Sousa

Gomes de Sousa

Henrique Dias

Do Norte a gentil sultana
Cedeu, pela prima vez,
Sua cerviz soberana
Ao férreo jugo holandês.
Ai! pobre da malfadada,
Tão cruamente algemada,
Ao cepo do servilismo
Que triste que foi-lhe a sinal
Nem uma luz a ilumina
Nas profundezas do abismos

Seus lindos rios saudosos
Seus frescos, flóreos palmares,
Seus passarinhos formosos
De harmonia enchendo os ares,
Suas campinas de flores,
Seus matizes, seus verdores
Vão ser bens dum outro dono!
E tu, sultana do Norte,
Pelos caprichos da sorte,
Vais dormir de escrava o sono!

Nem mais a lua te banha
Com seus arroios de prata,
Quando da etérea montanha
Nos lagos teus se retrata;
Que se expira a liberdade
No seio de uma cidade
Tu aí também expira,
Como da moça, os encantos
Vão morrer nos frios prantos,
Nos tristes ais que suspira.

Porém não! Ao longe soa
O grito horrendo da guerra,
E ao som, que ao longe reboa,
O fero holandês se aterra!
Erguem-se as vastas bandeiras,
Marcham avante as fileiras,
Que em seu socorro Já vêm;
Pois que do Norte a sultana
Sua cerviz soberana
Nunca curvou a ninguém.

Ao retroar das metralhas,
Da guerra ao tufão que soa,
Como o gênio das batalhas,
Henrique Dias lá voa!
Da larga mão bronzeada
Vai pendente a nua espada,
— Raio que os mandões fulmina!
E cada golpe que vibra
Faz quebrar fibra por fibra
Dos mandões a raça indiana.

Preto, mais nobre que um nobre,
Ou nobre como um Bragança,
Sob a epiderme de cobre
Uma alma de ouro descansa
E, se as coroas coubessem
Àqueles que se expusessem
Da sua pátria em defesa,
Seria o rei mais perfeito...
Se é que a púrpura — do peito
Não faz murchar a nobreza ...

Matando a todos de inveja
Com sua nobre altivez,
Temeu-o então na peleja
O fero povo holandês.
E tu, valente soldado,
Corajoso e denodado
Despedes golpes de morte;
Por teu denodo guerreiro
Livraste do cativeiro
A linda filha do Norte.

Então a gentil cativa
Sua beleza assumiu,
E erguendo a cerviz altiva
Ao seu guerreiro sorriu:
Assim a virgem formosa
Expõe as faces de rosa
Aos beijos do amante seu,
Tão satisfeita e contente
Do rico e lindo presente
Que pela festa lhe deu.

Feliz quem leva da espada
Em prol de sua nação!
Ou quem, vendo-a escravizada,
Expira, como Catão!
Catão! Ainda parece
Que o Capitólio estremece
À voz do grande Romano!
Catão! Com quanta saudade
Viu calcada a liberdade,
Aos pés do César tirano!

Foi assim Henrique Dias,
Valente como ninguém!
De sua nobre ousadia
Deu-lhe o Brasil parabém.
Oh! Bayard da liberdade,
Teu nome famoso há de
Afrontar do tempo a ação;
E a par dos nobres guerreiros
E dos heróis brasileiros
Terás a tua oblação.

908
Carlos Figueiredo

Carlos Figueiredo

Pode-se bater

Pode-se bater
em uma criança
sem acordar os vizinhos.
Comparada a uma criatura
de médio porte
a criança é a vítima ideal.
É fácil sufocar
o seu pequeno grito.

867
Angélica Torres Lima

Angélica Torres Lima

Dias contados

O poema da morte
é apenas um trovão
assustando a vida:
olhos se arregalando
estampidos nos ouvidos.
Melhor, talvez, chamar o medo
de expectativa
já que nessa estrada
não há outro desvio.

Dias contados.
Descontados os feriados
e dias profanos,
resta-me o dom de fabricar
o meu destino,
refazendo os planos
perdoando os erros
e os danos,
dando remo e rumo
às mãos
e ao pleno.

Contados os dias
em letras,
os números letais
se abrem
ao infinito.
Disfarço
a farsa, pondo fé
e desfaço, acho,
o carma da morte
no imposto da vida.

778
Nuno Guimarães

Nuno Guimarães

Palavras que Rebentam

Palavras
que rebentam. Aflorando
A pedra, a solidão, deslizam, vagas,
Gramaticais, roendo inconformadas
As arestas, o atrito, puras. Quando

Nos líquidos, no éter, na distancia,
Diluem-se e morrem acabadas.
Não nos corpos, nas rugas, nas arcadas:
Combatem, rumorosas, cal e cântico.

É dificil atarem corpo e vida
Aos que vivem e morrem subjacentes
Subjazendo, talhados para mina.

Mas despertadas, bem ou mal medidas,
Rebentam em ogiva, funcionais
Chamas supostamente adormecidas.

1 248
Luís Amaro

Luís Amaro

Bairro

Em teu corpo enfim repousarei
Das pedras ásperas
Que mal sei pisar?

Das guerras, dos cilícios,
Dos ecos a doerem nos ouvidos
Como pedradas.
E dos tédios que sangram?

Ah, finalmente
Ao desfolhar teu corpo desfolhado
— Mas inda fresco e belo —
A vida será minha?

857
Raimundo Bento Sotero

Raimundo Bento Sotero

Além do mal

Não levo em conta o mal que me fizeste,
Que o ódio é um sentimento tão mesquinho;
Como a vingança, um vegetal daninho
Que viça na aridez de um peito agreste.

Por isso, cada mágoa que me deste,
Uma a uma, fui largando no caminho,
Como a flor que se livra do espinho
Que rebenta do tronco mais silvestre.

A despeito do mal que me causaste,
Já não guardo rancor de minha parte
E em troca dos espinhos te dou flores

E te perdôo os males cometidos,
Que o perdão reconforta os oprimidos
E mata de remorso os opressores.

1 014
Juscelino Vieira Mendes

Juscelino Vieira Mendes

Morreu Sem Constrangimento

(Tragédia em três atos)

"Eu pensei que ciúme era uma idéia. Não é. É uma dor.
Mas eu não me senti, como eles se sentem, num melodrama
da Broadway. Eu não queria matar ninguém. Eu só queria morrer."
Floyd Dell

Houve quem dissesse
que matou e morreu
por amor, como se se pudesse
matar e morrer, aniquilando o eu

Ódio o tornou cego
Impulso do Id é o que restou
Não aceitou o controle do ego
Matou - Não amou!...

Estreitamento da consciência
sobrou apenas sentimento
Agiu sem Providência
e viveu tão pouco tempo

Martirizou-se; tornou-se pura violência
em tórrida manhã de dezembro:
Matou, Morreu, Morremos - Sem Constrangimento...

11 de dezembro de 1995

NOTA:
Morte prematura
No dia 11 de dezembro, Christian Hartmann, 21, matou com seis tiros a ex-namorada Renata Cristina Francisco Alves, 20, e feriu gravemente Winston Goldoni, 23, com quem Renata estava namorando. Depois, se matou com um tiro na boca. Tudo numa sala de computadores da Escola Politécnica da USP. Eles cursavam engenharia macatrônica. Christian e Renata tiveram um relacionamento em 94, e ele já a havia ameaçado de morte.
Folha de São Paulo, página 18, 11/12/95.

3 148
Cirstina Areias

Cirstina Areias

O Mapa de coxilha do fogo

Na luta pela minha terra,
Deitei nela suor, e sangue,
E todos os músculos meus retesados...

Reconheço, agora,
Em suas verdes coxilhas,
Meus nervos, antes em afã de fogo de batalha,
Agora, lassos...
No vento doce da acácia-negra,
Meu hálito, antes bafejando gládio

Verti a mim mesmo, nesta terra...
Seu grão percorre minhas veias
Num raizame de abraço estreito
Meu sangue encharca seu leito em arroios tortuosos e soberbos
E, o do inimigo de antes, cala nos olhos do povo um pavor de fogo-fátuo,
De mula-sem-cabeça...
Ouço canções e falas que plagiam seus sons...
E, hoje, nem sei se sou Barro ou Homem,
Tamanha a fraternidade que viceja em nós dois...
Ou então...

Suponho que a terra é fêmea...
E andei defendendo princesas!
Sento à noite, na campanha,
E, num misto de Guerra e Paz,
Eu e ela olhamos para a Lua
Com desejos obscenos de conquista!
E assim, traçamos, cúmplices os dois,
Um curioso mapa
Que vai do grão ao coração,
E do coração ao Universo...

795
Bocage

Bocage

Visão Realizada

Sonhei que a mim correndo o gnídeo nume
Vinha coa Morte, co Ciúme ao lado,
E me bradava: < Queres a Morte, ou queres o Ciúme?

>>Não é pior daquela fouce o gume
Que a ponta dos farpões que tens provado;
Mas o monstro voraz, por mim criado,
Quanto horror há no Inferno em si resume.>>

Disse; e eu dando um suspiro: < Coa a vista dessa fúria!... Amor, clemência!
Antes mil mortes, mil infernos antes!>>

Nisto acordei com dor, com impaciência;
E não vos encontrando, olhos brilhantes,
Vi que era a minha morte a vossa ausência!

1 854
Fernando Pessoa

Fernando Pessoa

MANIA OF DOUBT

MANIA OF DOUBT

All things unto me are queries
That from normalness depart,
And their ceaseless asking wearies
My heart.
Things are and seem, and nothing bears
The secret of the life it wears.
All thing’s presence e’er is asking
Questions of disturbing pain
With dreadful hesitation tasking
My brain
How false is truth? How much doth seem
Since dreams are all and all’s a dream.
Before mystery my will faileth
Torn with war within the mind,
.............

Alexander Search
4 549
Fernando Pessoa

Fernando Pessoa

Mother of things impossible,

Mother of things impossible,
Sister of what can never be,
Thou whose closed lips will never tell
The words whose lack is misery
Sit by my side while I ignore.
Smile by my ignorance of thee,
And my lost solitude restore.

O life is sad as things unwilled,
Love is the day that never comes
To those blind as my soul, and filled
With that presade of coming drums
When the city shall fall, that haunts
The inner vision whose night hums
In us while death startingly chaunts.

O interpret my soul to me!
Give me no truth, no sight, no road,
But take from me the misery
Of conciousness and the unseen goal
Of seeking ever what doth seem.
Lighten with being-near my load!
O let me hold thy hand and dream!


22/07/1916
4 348
Fernando Pessoa

Fernando Pessoa

IX - Oh to be idle loving idleness!

Oh to be idle loving idleness!
But I am idle all in hate of me;
Ever in action's dream, in the false stress
Of purposed action never act to be.
Like a fierce beast self-penned in a bait-lair,
My will to act binds with excess my action,
Not-acting coils the thought with raged despair,
And acting rage doth paint despair distraction.
Like someone sinking in a treacherous sand,
Each gesture to deliver sinks the more;
The struggle avails not, and to raise no hand,
Though but more slowly useless, we've no power.
Hence live I the dead life each day doth bring,
Repurposed for next day's repurposing.
4 050
Fernando Pessoa

Fernando Pessoa

XVIII - Io! Io! There runs a juice of pleasure's rage

Io! Io! There runs a juice of pleasure's rage
Through these frames' mesh,
That now do really ache to strip and wage
Upon each others' flesh
The war that fills the womb and puts milk in
The teats a man did win,
The battle fought with rage to join and fit
And not to hurt or hit!
Io! Io! Be drunken like the day and hour!
Shout, laugh and overpower
With clamour your own thoughts, lest they a breath
Utter of age or death!
Now is all absolute youth, and the small pains
That thrill the filled veins
Themselves are edged in a great tickling joy
That halts ever ere it cloy.
Put out of mind all things save flesh and giving
The male milk that makes living!
Rake out great peals of joy like grass from ground
In your o'ergrown soul found!
Make your great rut dispersedly rejoice
With laugh or voice,
As if all earth, hot sky and tremulous air
A mighty cymbal were!
4 549
Fernando Pessoa

Fernando Pessoa

SÃO PEDRO

S. PEDRO

Tu, que Diabo?, és velho.
És o único dos três que traz velhice
Às festas. Tuas barbas brancas
Têm contudo um ar terno
A que o teu duro olhar não dá razão.
Parece que com essas barbas brancas
Por um fenómeno de imitação
Pretendes ter um ar de Padre Eterno.

Carcereiro do céu, isso é o que és.
Basta ver o tamanho dessas chaves –
As que Roma cruzou no seu brasão.
Segundo aquele passo do Evangelho
Do «Tu és Pedro» etcetera (tu sabes),
Que é, afinal uma fraude
Meu velho, uma interpolação.

Carcereiro do céu, que chaves essas!
Nem dão vontade de ser bom na terra,
Se, segundo evangélicas promessas
Vamos parar, ao fim, a um céu claustral.
Isso – fecharem-me – não quero eu,
Nem com Deus e o que é seu
Que o estar fechado faz-me mal
Até na beatitude do teu céu,
Entre os santos do paraíso,
(A liberdade – Deus dá a Deus –
Um Deus que não sei se é o teu),
O estar fechado, aqui ou ali, dizia eu
Faz-me terríveis cócegas no juízo.

Enfim, que direi eu de ti, amigo,
Que não seja uma coisa morta,
Anti-popular, gongórica,
Por fruste deselegante,
Como de quem, sem saber nada, exausto,
Começo por duvidar bastante,
Desculpa-me chaveiro antigo,
De que tivesses existência histórica.

Mas isso, é claro, não importa
Se nos trazes
A alegria da singeleza
Ou a bondade que não sabe ter tristeza.
O pior é que nada disso fazes.
O teu semblante é duro e cru
E as barbas que roubaste ao Deus que tens
Só arrancam aos dandies teus loquazes
Ditos de dandies cínicos desdéns.
Que diabo, és uma série de ninguéns.
O Santo são as chaves, e não tu.

Para uns és S. Pedro, o grão porteiro,
Para outros as barbas já citadas,
Para uns o tal fatídico chaveiro
Que fecha à chave as almas sublimadas.
Para uns tu fundaste a Roma do Papado
(Andavas bêbado ou enganado
Ou esqueceste
O teu posto quando o fizeste)
E para outros enfim, como é o povo
E segundo as ideias que ele faz,
És quem lhe não vem dar nada de novo –
Umas barbas com S. Pedro lá por trás.

É difícil tratar-te em verso ou prosa,
Tudo em ti, salvo as barbas, é incerto,
Tudo teu, salvo as chaves, não tem ser
E a alma mais humilde é clamorosa
De qualquer coisa que se possa ver,
Em sonho até, qual se estivesse perto.

Olha, eu confesso
Que nunca escreveria
Este vago poema, em que me apresso
Só para me ver livre do teu nada,
Se não fosse para dar um cunho
A este livro da trilogia
(Santo António, S. João, S. Pedro –
De popular, que bem que soa!)

Mas porque diabo de intuição errada
É que vieste parar a Junho
E a Lisboa?

Isto aqui ainda tem
Um sorriso que lhe fica bem,
Que até, até
No teu dia,
(Ó estupor velho
Como um chavelho,)

Nas ruas
O povo anda com alegria,
É fé,
Não em ti nem nas barbas tuas
Mas no que a alegria é.

Olha, acabei.
Que mais dizer-te, não sei.
Espera lá, olha
Roma, fingindo que viceja,
Lentamente se desfolha.
Teu último gesto seja,
Um gesto volvente e mudo.
Se tens poder milagroso,
Se essas chaves abrem tudo
Deixa esse céu lastimoso.
Deixa de vez esse céu,
Desce até à humanidade
E abre-lhe, enfim no mudo gesto teu,
As portas do Inferno, e da Verdade.


9.6.1935.


(Esp. 63-17/63-17-27)
5 766
Fernando Pessoa

Fernando Pessoa

O céu de todos os Invernos

O céu de todos os Invernos
Cobre em meu ser todo o Verão...
Vai p'rás profundas dos infernos
E deixa em paz meu coração!

Por ti meu pensamento é triste,
Meu sentimento anda estrangeiro;
A tua ideia em mim insiste
Como uma falta de dinheiro.

Não posso dominar meu sonho.
Não te posso obrigar a amar.
Que hei-de fazer? Fico tristonho.
Mas a tristeza há-de acabar.

Bem sei, bem sei... A dor de corno...
Mas não fui eu que lho chamei.
Amar-te causa-me transtorno,
Lá que transtorno é que não sei...

Ridículo? É claro. E todos?
Mas a consciência de o ser, fi-la bas-
tante clara deitando-a a rodos
Em cinco quadras de oito sílabas.


03/04/1929
3 885
Fernando Pessoa

Fernando Pessoa

ODE MARCIAL

ODE MARCIAL

Inúmero rio sem água – só gente e coisas,
Pavorosamente sem água!

Soam tambores longínquos no meu ouvido,
E eu não sei se vejo o rio se ouço os tambores,
Como se não pudesse ouvir e ver ao mesmo tempo!

Helahoho! helahoho!

A máquina de costura da pobre viúva morta à baioneta...
Ela cosia à tarde indeterminadamente...
A mesa onde jogavam os velhos,

Tudo misturado, tudo misturado com corpos, com sangues,
Tudo um só rio, uma só onda, um só arrastado horror.

Helahoho! Helahoho!

Desenterrei o comboio de lata da criança calcado no meio da estrada,
E chorei como todas as mães do mundo sobre o horror da vida.
Os meus pés panteístas tropeçaram na máquina de costura da viúva que mataram à baioneta
E esse pobre instrumento de paz meteu uma lança no meu coração.

Sim, fui eu o culpado de tudo, fui eu o soldado todos eles
Que matou, violou, queimou e quebrou.
Fui eu e a minha vergonha e o meu remorso com uma sombra disforme
Passeiam por todo o mundo como Ashavero,
Mas atrás dos meus passos soam passos do tamanho do infinito.

E um pavor físico de encontrar Deus faz-me fechar os olhos de repente.

Cristo absurdo da expiação de todos os crimes e de todas as violências,
A minha cruz está dentro de mim, hirta, a escaldar, a quebrar,
E tudo dói na minha alma extensa como um Universo.

Arranquei o pobre brinquedo das mãos da criança e bati-lhe.
Os seus olhos assustados do meu filho que talvez terei e que matarão também
Pediram-me sem saber como toda a piedade por todos.

Do quarto da velha arranquei o retrato do filho e rasguei-o,
Ela, cheia de medo, chorou e não fez nada...
Senti de repente que ela era minha mãe e pela espinha abaixo passou-me o sopro de Deus.

Quebrei a máquina de costura da viúva pobre.
Ela chorava a um canto sem pensar na máquina de costura.
Haverá outro mundo onde eu tenha que ter uma filha que enviúve e a quem aconteça isto?

Mandei, capitão, fuzilar os camponeses trémulos,
Deixei violar as filhas de todos os pais atados a árvores,
Agora vi que foi dentro de meu coração que tudo isso se passou,
E tudo escalda e sufoca e eu não me posso mexer sem que tudo seja o mesmo.
Deus tenha piedade de mim que a não tive de ninguém!
2 270
Fernando Pessoa

Fernando Pessoa

Ouvi contar que outrora, quando a Pérsia

Ouvi contar que outrora, quando a Pérsia
Tinha não sei qual guerra,
Quando a invasão ardia na Cidade
E as mulheres gritavam,
Dois jogadores de xadrez jogavam
O seu jogo contínuo.

À sombra de ampla árvore fitavam
O tabuleiro antigo,
E, ao lado de cada um, esperando os seus
Momentos mais folgados,
Quando havia movido a pedra, e agora
Esperava o adversário,
Um púcaro com vinho refrescava
Sobriamente a sua sede.

Ardiam casas, saqueadas eram
As arcas e as paredes,
Violadas, as mulheres eram postas
Contra os muros caídos,
Traspassadas de lanças, as crianças
Eram sangue nas ruas...
Mas onde estavam, perto da cidade,
E longe do seu ruído,
Os jogadores de xadrez jogavam
O jogo do xadrez.

Inda que nas mensagens do ermo vento
Lhes viessem os gritos,
E, ao reflectir, soubessem desde a alma
Que por certo as mulheres
E as tenras filhas violadas eram
Nessa distância próxima,
Inda que, no momento que o pensavam,
Uma sombra ligeira
Lhes passasse na fronte alheada e vaga,
Breve seus olhos calmos
Volviam sua atenta confiança
Ao tabuleiro velho.

Quando o rei de marfim está em perigo,
Que importa a carne e o osso
Das irmãs e das mães e das crianças?
Quando a torre não cobre
A retirada da rainha branca,
O saque pouco importa.
E quando a mão confiada leva o xeque
Ao rei do adversário,
Pouco pesa na alma que lá longe
Estejam morrendo filhos.

Mesmo que, de repente, sobre o muro
Surja a sanhuda face
Dum guerreiro invasor, e breve deva
Em sangue ali cair
O jogador solene de xadrez,
O momento antes desse
(É ainda dado ao cálculo dum lance
Pra a efeito horas depois)
É ainda entregue ao jogo predilecto
Dos grandes indif'rentes.

Caiam cidades, sofram povos, cesse
A liberdade e a vida,
Os haveres tranquilos e avitos
Ardem e que se arranquem,
Mas quando a guerra os jogos interrompa,
Esteja o rei sem xeque,
E o de marfim peão mais avançado
Pronto a comprar a torre.

Meus irmãos em amarmos Epicuro
E o entendermos mais
De acordo com nós-próprios que com ele,
Aprendamos na história
Dos calmos jogadores de xadrez
Como passar a vida.

Tudo o que é sério pouco nos importe,
O grave pouco pese,
O natural impulso dos instintos
Que ceda ao inútil gozo
(Sob a sombra tranquila do arvoredo)
De jogar um bom jogo.

O que levamos desta vida inútil
Tanto vale se é
A glória, a fama, o amor, a ciência, a vida,
Como se fosse apenas
A memória de um jogo bem jogado
E uma partida ganha
A um jogador melhor.

A glória pesa como um fardo rico,
A fama como a febre,
O amor cansa, porque é a sério e busca,
A ciência nunca encontra,
E a vida passa e dói porque o conhece...
O jogo do xadrez
Prende a alma toda, mas, perdido, pouco
Pesa, pois não é nada.

Ah! sob as sombras que sem qu'rer nos amam,
Com um púcaro de vinho
Ao lado, e atentos só à inútil faina
Do jogo do xadrez,
Mesmo que o jogo seja apenas sonho
E não haja parceiro,
Imitemos os persas desta história,
E, enquanto lá por fora,
Ou perto ou longe, a guerra e a pátria e a vida
Chamam por nós, deixemos
Que em vão nos chamem, cada um de nós
Sob as sombras amigas
Sonhando, ele os parceiros, e o xadrez
A sua indiferença.


01/06/1916
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Fernando Pessoa

Fernando Pessoa

A guerra que aflige com os seus esquadrões o Mundo,

A guerra, que aflige com os seus esquadrões o mundo,
É o tipo perfeito do erro da filosofia.

A guerra, como tudo humano, quer alterar.
Mas a guerra, mais do que tudo, quer alterar e alterar muito
E alterar depressa.

Mas a guerra inflige a morte.
E a morte é o desprezo do Universo por nós.
Tendo por consequência a morte, a guerra prova que é falsa.
Sendo falsa, prova que é falso todo o querer-alterar.

Deixemos o universo exterior e os outros homens onde a Natureza os pôs.
Tudo é orgulho e inconsciência.
Tudo é querer mexer-se, fazer coisas, deixar rasto.
Para o coração e o comandante dos esquadrões
Regressa aos bocados o universo exterior.

A química directa da Natureza
Não deixa lugar vago para o pensamento.

A humanidade é uma revolta de escravos.
A humanidade é um governo usurpado pelo povo.
Existe porque usurpou, mas erra porque usurpar é não ter direito.

Deixai existir o mundo exterior e a humanidade natural!
Paz a todas as coisas pré-humanas, mesmo no homem,
Paz à essência inteiramente exterior do Universo!


24/10/1917
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