Angústia

Poemas neste tema

Luís Quintais

Luís Quintais

Ave

Uma ave agonizante
entrou-te no quarto,

apenas uma sombra
que se enlaça
noutra:

assim definiste
a memória,

a cidade
que se mineraliza
quando
rodeias
essa sombra-ave

com os dedos
apavorados.
775
Luís Quintais

Luís Quintais

Homenagem à adjectivação

Turbulento e caótico é o mundo, dear.
Meteorologias são bichos
de irrmediável fulgurante rápida incivilidade.
662
Golgona Anghel

Golgona Anghel

Devia escrever coisas mais divertidas

Devia escrever coisas mais divertidas,
entreter as massas. 
Evitar, ao menos, cenas tristes, 
mudar de roupa uma vez por mês. 
Podia, decerto, afastar-me, sair do corpo, 
dos seus humores. 
Entrar na biopolítica usar os seus métodos.
Engravidar uma ideia alegre. 
Enfim, nada contra os suicidas de carreira
e os demais performers do além. 
Não é que não me apeteça largar-te
num eléctrico sem travões. 
Deixar-te num país estrangeiro, 
sem dinheiro e sem memória.
Não se iludam, ainda sei baixar as calças. 
Fazer o truque. 
Mas se o meu psiquiatra ler este livro, 
vai achar que o tratamento
já não funciona.
1 001
Tomas Tranströmer

Tomas Tranströmer

VIAGEM NOCTURNA

Fervilha sob os nossos pés. Os comboios partem.
O hotel “ Astoria “estremece.
Um copo de água ao lado da cama
brilha nos Túneis.

Ele sonhou que estava preso em Salvbard.
O planeta girou com rancor.
Olhos brilhantes caminhavam sobre o gelo.
A beleza da ferida estava ali.
322
Nelly Sachs

Nelly Sachs

ESTOU NO ESTRANGEIRO

Estou no estrangeiro
que é protegido pelo 8
o santo anjo do laço
Que está sempre a caminho
através de nossa carne
semeando a inquietude
e deixando o pó maduro para voar –
535
Nelly Sachs

Nelly Sachs

QUEM CHAMA?

Quem chama?
A própria voz!
Quem responde?
Morte!
A amizade naufraga
no bivaque do sono?
Sim!
Por que um galo não canta?
Ele espera até que o beijo do alecrim
flutue sobre as águas!

O que é isto?

O instante de desolação
do qual se desprendeu o tempo
morto de eternidade!

O que é isto?

Sono e morte não têm características
641
Nelly Sachs

Nelly Sachs

É UM ESCURO COMO

É um escuro como
caos antes do verbo
Leonardo procurou esse escuro
por detrás do escuro
Jó estava envolto
no corpo materno dos astros
Alguém sacode a escuridão
até que a maçã Terra caia
madura no fim
Um suspiro
será isso a alma – ?
708
Nelly Sachs

Nelly Sachs

É UM ESCURO COMO

É um escuro como
caos antes do verbo
Leonardo procurou esse escuro
por detrás do escuro
Jó estava envolto
no corpo materno dos astros
Alguém sacode a escuridão
até que a maçã Terra caia
madura no fim
Um suspiro
será isso a alma – ?
676
Nelly Sachs

Nelly Sachs

QUEM CHAMA?

Quem chama?
A própria voz!
Quem responde?
Morte!
A amizade naufraga
no bivaque do sono?
Sim!
Por que um galo não canta?
Ele espera até que o beijo do alecrim
flutue sobre as águas!

O que é isto?

O instante de desolação
do qual se desprendeu o tempo
morto de eternidade!

O que é isto?

Sono e morte não têm características
649
Mário Chamie

Mário Chamie

A língua

Os lábios se gastam.
O escuro os prende
enquanto a língua
revira a esponja
do verbo prenhe
que diz a longa
missão de légua
por entre a vária
paixão sem leme.
 
A língua espanta.
Contém saliva
hidrato e fera.
Contém a festa
do bicho em viva
espécie de meta
que se diz salva
na hora avessa.
Vão susto rude
que nos desperta
da baba espessa
de sermos queda.

A língua queima.
A língua enxuga.
Mário a externa
na risca e ruga
do rosto, emblema
lançado à área
da só angústia,
já quente areia
que a chuva mansa
caída amena
amaina e suja.

Sempre a temos.
Cio depois véu
excita os remos
das vozes naves.

Em vão, Orfeu,
na voz dos ventos
(a nau das bodas)
soprou na lira
as águas leves
do mar Egeu,
falando a língua
das noves penas
do seu inferno,
das nove cordas
do seu mistério
que excita as aves.

O escuro a chama.
A língua despe.
A língua lambe
pelos morenos,
monte de vênus.
A língua fere
no som, na carne
que me reflete
homem sem norte.
Pois uso o termo
que já expresso,
rasgada a veste
que fecha o corpo
que fecha a fonte,
fechado esquema
da podre frase
que nos condena.

Língua, vírus, légua
esponja e régua.
Eu Mário, a fala.
Ela, a nossa carta
com o jogo inverso
de me ser forte
se me dispersa,
se me concentra
se me constata
a força exata
de não ser trôpego
nesta palavra
de fogo e fôlego
sem breu nem treva.

Acesa flecha,
liberta fera.
743
Armando Cortes-Rodrigues

Armando Cortes-Rodrigues

Ergo Meus Olhos

Ergo meus olhos vagos, na distância
      Da sombra do meu Ser...
Pairam de mim além, e a minha Ânsia
      Cansa de me viver.

Meus olhos espectrais de comoção,
Olhos da alma, olhando-se a si,
Nimbam de luz a longa escuridão
      Da vida que vivi.

Auréola de Dor, que finaliza
Na noite do abismo do meu nada;
Silêncio, prece, comunhão sagrada,
Sombra de luz que em Ti me diviniza,
      Tortura do meu fim,
            Alma ungida
                  E perdida
Na grandeza de Si. E já sem ver-me,
Maceração crepuscular de Mim,
      Agonizo de Ser-me.
846
Eucanaã Ferraz

Eucanaã Ferraz

O SÓ

Na longa alameda a luz aos pedaços cai
mole do alto dos postes. Ele olha.

Para que não doa, apenas olha.
E não dói.
716
Joaquim Manuel Magalhães

Joaquim Manuel Magalhães

Sirene

Sirene, bigorna deficiente,
o cansaço do poente tritura.
Um neutro fulminante.

O ramal do comboio.
Um acorde agita-se.
Modela uma caldeira
o agulheiro, no sapal.

A manivela desafia
a planície.
Flutua na semelhança
o apuro do semeador.

Equimose de demolição.
Alguém, nu.
1 163
Carlito Azevedo

Carlito Azevedo

RÓI

Rói qualquer possibilidade de sono
essa minimalíssima música
de cupins esboroando
tacos sob a cama

imagino a rede de canais
que a perquirição predatória
possa ter riscado
pelo madeirame apodrecido

se aguço o ouvido
capto súbito
o mundo dos vermes
685
Joaquim Manuel Magalhães

Joaquim Manuel Magalhães

O balneário

O balneário,
toalha revolta.
Tensa na súplica.

Eco, fivela, gume.
1 097
Manuel de Freitas

Manuel de Freitas

5 602543 0300515

Por mim, pagava-lhe a água
e a sandes (duvidosa, como
tudo o que aqui se faz). Mas não
posso ser despedida agora.
Ao dar-me o dinheiro, quase
pede desculpa dessa vida também
em forma de navalha romba.
até, de certeza, amanhã – pois
nem a morte quer ir com a nossa cara
965
Ademir Assunção

Ademir Assunção

MONTANHAS SÃO FRIAS QUANTO A NOITE CAI

numa noite sem nome
a severa senhora de olhos escuros
toca-nos a face
com seus dedos de pelica
e vai arrancando, uma a uma,
todas as máscaras
que vestimos

e nessa hora sem hora
até o mais valente dos valentes
sente um tremor,
ainda que leve,
na mão que empunha o revólver
1 215
Ademir Assunção

Ademir Assunção

O GRITO

sob impacto da pintura de Edvard Munch
 

céu sangue, azuis de gases, instável
gravura – terror
que se grafa na íris: uma alma
em pânico:

motivo algum – nenhum desastre
asteroide em rota
de colisão, explosão de bombas,
escombro, crime ou espasmo:

maconha demais – diriam
os bolhas, nódoas
de noia, bolores de centeio:

mal sabem (o fiorde arde
em lilás) – a bomba explode
nas entranhas:

e é isso que faz
a paisagem trêmula
969
Manuel de Freitas

Manuel de Freitas

MERDAFÍSICA

A poesia não é um tema importante (há quinze dias
que o mundo deixou de ter sentido).
O que interessa afinal são os breves modos
da morte, a mosca que teimosamente
caiu no rude prato da nossa sopa.

Porque é sobre nós que deixa de haver mundo
para podermos celebrar o vazio
– ou outra coisa qualquer
1 045
Ademir Assunção

Ademir Assunção

BILLIE HOLIDAY NA PORTA DOS FUNDOS

quanto abismo cabe
na palavra abismo,

quantos passos até a borda
da estrela-pantera-negra,

quantas brumas brancas,
quantos acordes de blues,

quantas noites sem sono
quantos abalos sísmicos

para sossegar o dragão
que cospe esse fogo azul

chamado névoa, vulcão,
solitude?
1 037
Ademir Assunção

Ademir Assunção

Sol Negro

tenho gritado raios elétricos, chuvas
que não passam, maremotos, tremores e ruínas

grito: e meu grito ilumina
toda a cidade de campinas

grito: e meu grito desespera
todos os torcedores da ponte preta

grito: e o sol rola em slow motion
como uma cabeça tarahumara, em direção ao gol,

deixando um rastro de incêndio no gramado
718
Manuel de Freitas

Manuel de Freitas

CENTRO COMERCIAL I

Agora a morte é diferente,
facilitaram-nos o desespero, a angústia
tem já ar condicionado. Em vez
dos bancos de jardim, por certo demasiado
rudes, temos enfim lugares amplos
onde apodrecer a miséria simples do corpo.
Que incalculável felicidade a de percorrer
galerias de nada tresandando a limpeza
e segurança. Aí se abandonam jovens
rebanhos sentados sorrindo ao
vazio palpável, ou ferozmente no meio
dele. Revezam-se - mas quase diríamos
que são os mesmos ainda, exaustos
de contentamento. Dêmos pois as boas-vindas a esses
heróis do betão consagrado. Só eles nos fazem
acreditar no advento do romantismo cibernético.
É doce a merda que nos sepulta
e o cancro que um dia destes nos matará
há-de ser muito limpo, quase ecológico.
1 107
Everardo Norões

Everardo Norões

SONETO I

Agonizavam os rastros de novembro.
E os meus ossos, cansados das neblinas,
doíam, no concerto das esquinas
da cidade, onde um dia, ainda me lembro,

penetrou-se de escuro a minha alma,
quando um cão, a ladrar contra o sol-posto,
mordeu o lado oculto do meu rosto
e deixou seus sinais à minha palma.

Lembro-me que era de tarde. Ainda chovia.
O eco dos espelhos conduzia
meus passos que jaziam pelas ruas.

Havia o som da água que caía.
E no horizonte, além da agonia,
um cemitério de meninas nuas.
687
Everardo Norões

Everardo Norões

pampas

Para Hildebrando Pérez Grande

São sempre linhas
as paisagens,
a cortarem geometricamente
nossas rotinas.
As curvas senoidais
das serras,
as retas dormentes
das planícies.
E nós:
pequenos pontos
num papel rasgado.
670