Desejo

Poemas neste tema

Angela Santos

Angela Santos

Mordaça

Quanto
grito amordaçado
à garganta preso trago …
quanto desejo amortalhado
sem razão
quanto de mim renegado
à força de um qualquer não.

Força em tumulto
que me traz inquieta
e a ânsia em sinais que não decifro,
grades douradas que não quis
e contudo vivo.

1 157
Angela Santos

Angela Santos

Vidraça

A
menina olhava a vida
por detrás da vidraça
e estremecia a um bater de asa
suspirando pelo beijo que à noite
trocam os namorados

A menina guardava-se
religiosamente
vaidosa do seu sexo sacralizado
e venerava a pureza
do nada.

A menina ardia no incêndio
que a noite
insuspeitadamente
acende na memória adormecida.

1 122
Angela Santos

Angela Santos

Reconstrução

Prende-me
ao tempo
despido de história,
à memória branca,
à leveza de ser…

Prende-me a ti
desassossego, caos
viagem, maré ……

E desfaz-me, depois
para que me despoje e faça
à imagem do eu
que tiver que ser.

1 114
Almandrade

Almandrade

IV

O umbigo transborda
o éter
alva, lisa
sem marca
de cansaço
epiderme de mulher
o mar do nome
doce, leve
peixe
a dança refresca
o belo namora
a boca e as pernas.

915
Regina Souza Vieira

Regina Souza Vieira

A Abóbora Menina

Tão gentil
de distante, tão macia aos olhos
vacuda, gordinha,
de segredos bem escondidos
estende-se à distância
procurando ser terra
quem sabe possa

acontecer o milagre:
folhinhas verdes
flor amarela
ventre redondo
depois é só esperar
nela desaguam todos os rapazes.

1 038
Agostina Akemi Sasaoka

Agostina Akemi Sasaoka

Gênese

O
sol caiu
umbigo adentro.
Sob a teia partida,
a mosca pendente.
Do outro lado do espelho
corpos,
suor,
lágrimas...
Ante a bactéria faminta,
um trilho de sêmen seco.
Havia um sono
que boiava entre a poeira,
entre as estrelas,
entre pernas de gesso.
Na garganta da noite:
cama desfeita,
perfeita,
silêncio fetal.

839
Jazzim

Jazzim

Poema I

Surge
de dentro teu perfume

aninha-se em minhas veias
nadando até tornar-se coração,
rim, aorta, fígado, pulmão

Todo o oxigênio tem fórmula
de teu corpo colado ao meu

química instantânea do desejo

753
Reinaldo Ferreira

Reinaldo Ferreira

Porque a não tenho? Tão doce

Porque a não tenho? Tão doce
E tão ao pé de acabar!
Largando, como se fosse
Um barco novo a chegar!

Quisera-a, para brinquedo
Da minha vã meninice.
Nem brincaria, com medo
Que ela, de frágil, partisse.

Bastava só que ficasse
Mito a roçar-se no Fim
E o seu sorriso acalmasse
A angústia dentro de mim.

1 966
Reinaldo Ferreira

Reinaldo Ferreira

Rosa, a mulata, desperta

Rosa, a mulata, desperta
Com os morcegos, à hora
Em que a Lua, nódoa, incerta
E sem vulto, no céu aflora.

E Vénus, mito propício
Que em seu destino decide,
Convoca as filhas do Vício
Ao culto a que ela preside.

1 984
Reinaldo Ferreira

Reinaldo Ferreira

Onde, aguardando, esperasse

Onde, aguardando, esperasse,
Onde, cantando, me ouvisse,
Onde, podendo, bastasse,
Onde, vivendo, existisse.

Onde o intuito trouxesse
O corpo de se cumprir
E eu todo sempre me desse,

Aí seria também
De exílio a minha atitude.
O que é longe é sempre o Bem,
Por mais que a alma se mude.

1 712
Madi

Madi

Se eu pudesse

Se eu pudesse

Ah! se eu pudesse...
Se eu pudesse,
eu faria das nossas vidas uma festa

Arrumaria um tempo para cuidar de flores
As flores eu mesma colhia
só para te presentear todo dia

Se eu pudesse,
eu seria a primeira a abrir a porta

Só para te ver chegar,
entrar,
sentar,
me olhar
e sorrir

982
Madi

Madi

Vitrines

Vitrines

Tudo que vejo nas vitrines
se parece com você

Prendas simples ou sofisticadas
ambas têm a sua cara

Tudo é mais do que perfeito
e sob medida parece que foi feito

Namoro as vitrines,
mas não encontro nelas o que mais quero
Você e o seu amor não estão à venda

672
Madi

Madi

Louca

Louca

Se abro a porta da minha casa
e o convido a deitar em minha cama
não é que eu seja louca
É porque não é de hoje
que nela eu durmo com você todas as noites

1 062
Madi

Madi

Querer

Querer

Dê-me uma pista,
dê-me um sinal,
aponte-me o caminho
ou então me ensine
o que devo fazer
pra você me querer

607
Vitor Casimiro

Vitor Casimiro

Se Antes Fosse, Aonde Iria?

Janela aberta
Brisa a dentro
Cortina, dança
feito um lamento

Antes fosse
Um barco a vela.
Aonde vais brisa?
Iria com ela

1 020
Eduardo Dominguez Trindade

Eduardo Dominguez Trindade

Declaração

Quando vejo o teu rosto,
O meu pobre coração
Bate louco de paixão,
Bate somente por ti…
E quando sinto o gosto
Do sol que bate na face
Bem como quando te vi,
Pode ouvir quem quer que passe:
"Quero amar-te sem demora,
"Cândida flor da aurora!"

P. Alegre, 29 de março de 1996.

867
José Carlos Souza Santos

José Carlos Souza Santos

Poemeto I

Jamais eu ficaria quieto
exercendo o direito
de te olhar

a não ser
que aprisionássemos
o tempo

998
José Carlos Souza Santos

José Carlos Souza Santos

A Visão

Mirei-me na profundeza
dos teus olhos
negros
e desejei-me Senhor
do tempo

Vi-me alado nas tuas crinas
e o mar de desejos
por onde cavalgávamos
transformava cúmplice a branca espuma
em dossel carmin

841
Tatiana Ramminger

Tatiana Ramminger

Espera

Espera

Aqui estou
de corpo e asas feridas
pernas e alma abertas
para você

1 371
Elíude Viana

Elíude Viana

Imigrante

Dos teus pés
a areia e o sal
misturam-se à água doce
em que me banho.
Chegas,
pedes paragem:
- Entra,
minha casa
não tem portas.
Atravessas-me as fronteiras...
Somes
por dentro de mim
rompendo-me a calma
e a disciplina.

1 010
Elíude Viana

Elíude Viana

Definição de Infinito:

O que dois pontos humanos

podem ser no universo dos Desejos?

Podem ser estrelas...

Podem ser bichos...

Podem ser areia...

Ou podem ser nada

- o que pode ser tudo.

803
Elíude Viana

Elíude Viana

Duas Velas

Levo o infortúnio de não ter
- como os relógios -
horas eternas...
Nem a felicidade
que têm os faróis
de ficar à deriva, indefinidamente...
Sou uma Embarcação
- atracada -
querendo voar com as gaivotas.

978
Rogério F. P.

Rogério F. P.

Gulletos, oh amante irremediável

Gulletos, oh amante irremediável.
Inescrupulosa masoquista.
Arrancarei de ti os mais loucos
gritos, tendo sua fronte como alvo!

No seu rosto jas estampado o esboço da
satisfação, enquanto morres em vão,
entrelaçada em meus braços.
Rainha dos escárnios !

744
Paulo Augusto Rodrigues

Paulo Augusto Rodrigues

Secos

Sentimentos secos.

Áridos,
Nevrálgicos,
Rachados.
Torretes óbvios de terra bruta,
Endurecida.

E freáticos,
São os desejos passando imunes ao fundo.
Onde a umidade e o frescor,
Não afloram.

Às vezes,
O impermeável senso desvia lençóis.

E em crus colchões
Expõe.

A água da fonte.

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