Tempo e Passagem

Poemas neste tema

Albano Dias Martins

Albano Dias Martins

As palavras

em trânsito
Resvalas neste sopro.
Sabes
que tens o olhar ferido
desde sempre, que o incêndio
das palavras em trânsito celebra
prescritas sílabas, ancorados
ritos, desprevenidos
equinócios.
Dantes,
havia um mar crispado
na fissura dos lábios. Hoje, apenas
algumas gotas de sal.

in:O Mesmo
Nome(1996)

1 204
Fernando Pessoa

Fernando Pessoa

XII - Life lived us, not we life. We, as bees sip,

Life lived us, not we life. We, as bees sip,
Looked, talked and had. Trees grow as we did last.
We loved the gods but as we see a ship.
Never aware of being aware, we passed.
4 064
Fernando Pessoa

Fernando Pessoa

XIII - The work is done. The hammer is laid down.

The work is done. The hammer is laid down.
The artisans, that built the slow-grown town,
Have been succeeded by those who still built.
All this is something lack-of-something screening.
The thought whole has no meaning
But lies by Time's wall like a pitcher spilt.
4 281
Fernando Pessoa

Fernando Pessoa

IV - Not Cecrops kept my bees. My olives bore

Not Cecrops kept my bees. My olives bore
Oil like the sun. My several herd lowed far.
The breathing traveller rested by my door.
The wet earth smells still; dead my nostrils are.
3 905
Fernando Pessoa

Fernando Pessoa

IX - There is a silence where the town was old.

There is a silence where the town was old.
Grass grows where not a memory lies below.
We that dined loud are sand. The tale is told.
The far hoofs hush. The inn's last light doth go.
3 969
Fernando Pessoa

Fernando Pessoa

Começa, no ar da antemanhã,

Começa, no ar da antemanhã,
A haver o que vai ser o dia.
É uma sombra entre as sombras vã.
Mais tarde, quanto é a manhã
Agora é nada, noite fria.

É nada, mas é diferente
Da sombra em que a noite está;
E há nela já a nostalgia
Não do passado, mas do dia
Que é afinal o que será.


12/09/1934
3 664
Fernando Pessoa

Fernando Pessoa

Sabes quem sou? Eu não sei.

Sabes quem sou? Eu não sei.
Outrora, onde o nada foi,
Fui o vassalo e o rei.
É dupla a dor que me dói.
Duas dores eu passei.

Fui tudo que pode haver.
Ninguém me quis esmolar;
E entre o pensar e o ser
Senti a vida passar
Como um rio sem correr.


12/04/1934
5 442
Fernando Pessoa

Fernando Pessoa

Pálida, a Lua permanece

Pálida, a Lua permanece
No céu que o Sol vai invadir.
Ah, nada interessante esquece.
Saber, pensar – tudo é existir.

Mas pudesse o meu coração
Saber à tona do que eu sou
Que existe sempre a sensação
Ainda quando ela acabou...


04/03/1934
5 484
Fernando Pessoa

Fernando Pessoa

O ponteiro dos segundos

O ponteiro dos segundos
É o exterior de um coração.
Conta a minutos os mundos,
Que os mundos são sensação.

Vejo, como quem não vê
Seu curso em círculo dar
Um sentido aqui ao pé
Do universo todo no ar.

(...)

29/08/1932
4 502
Fernando Pessoa

Fernando Pessoa

Verdadeiramente

Verdadeiramente
Nada em mim sinto.
Há uma desolação
Em quanto eu sinto.
Se vivo, parece que minto.
Não sei do coração.

Outrora, outrora
Fui feliz, embora
Só hoje saiba que o fui.
E este que fui e sou,
Margens, tudo passou
Porque flui.


06/04/1934
4 487
Fernando Pessoa

Fernando Pessoa

Vão breves passando

Vão breves passando
Os dias que tenho.
Depois de passarem
Já não os apanho.

De aqui a tão pouco
Ainda acabou.
Vou ser um cadáver
Por quem se rezou.

E entre hoje e esse dia
Farei o que fiz:
Ser qual quero eu ser,
Feliz ou infeliz.


28/03/1931
4 075
Fernando Pessoa

Fernando Pessoa

Já ouvi doze vezes dar a hora

Já ouvi doze vezes dar a hora
No relógio que diz que é meio-dia
A toda a gente que aqui perto mora.
(O comentário é do Camões agora:)
«Tanto que espera! Tanto que confia!»
Como o nosso Camões, qualquer podia
Ter dito aquilo, até outrora.

E ainda é uma grande coisa a ironia.


08/03/1931
4 164
Fernando Pessoa

Fernando Pessoa

Porque esqueci quem fui quando criança?

Porque esqueci quem fui quando criança?
Porque deslembro quem então era eu?
Porque não há nenhuma semelhança
Entre quem sou e fui?
A criança que fui vive ou morreu?
Sou outro? Veio um outro em mim viver?
A vida, que em mim flui, em que é que flui?
Houve em mim várias almas sucessivas
Ou sou um só inconsciente ser?


1932
5 224
Fernando Pessoa

Fernando Pessoa

No chão do céu o Sol que acaba arde.

No chão do céu o Sol que acaba arde.
Durmo. Haja a vida com ou sem alarde,
Será já tarde quando eu despertar?
Mas que me importa que já seja tarde?


12/02/1931
4 333
Fernando Pessoa

Fernando Pessoa

Flor que não dura

Flor que não dura
Mais do que a sombra dum momento
Tua frescura
Persiste no meu pensamento.

Não te perdi
No que sou eu,
Só nunca mais, ó flor, te vi
Onde não sou senão a terra e o céu.


1924
3 874
Fernando Pessoa

Fernando Pessoa

Vai leve a sombra

Vai leve a sombra
Por sobre a água.
Assim meu sonho
Na minha mágoa.

Como quem dorme
Esqueço a viver.
Despertarei
Ao sol volver.

Nuvem ou brisa,
Sonho ou (...) dada
Faz sentir; passa,
E não foi nada.


03/08/1930
4 039
Fernando Pessoa

Fernando Pessoa

Relógio, morre —

Relógio, morre –
Momentos vão...
Nada já ocorre
Ao coração
Senão, senão...

Bem que perdi,
Mal que deixei,
Nada aqui
Montes sem lei
Onde estarei...

Ninguém comigo!
Desejo ou tenho?
Sou o inimigo –
De onde é que venho?
O que é que estranho?


01/03/1930
4 056
Fernando Pessoa

Fernando Pessoa

Meus dias passam, minha fé também.

Meus dias passam, minha fé também.
Já tive céus e estrelas em meu manto.
As grandes horas, se as viveu alguém,
Quando as viver, perderam já o encanto.


1924
4 263
Fernando Pessoa

Fernando Pessoa

DOLORA

POEMAS DISPERSOS


DOLORA

Dantes quão ledo afectava
Uma atroz melancolia!
Poeta triste ser queria
E por não chorar chorava.

Depois, tive que encontrar
A vida rígida e má.
Triste então chorava já
Porque tinha que chorar.

Num desolado alvoroço
Mais que triste não me ignoro.
Hoje em dia apenas choro
Porque já chorar não posso.


19/11/1908
4 325
Fernando Pessoa

Fernando Pessoa

Ninguém, na vasta selva virgem

Ninguém, na vasta selva virgem
Do mundo inumerável, finalmente
Vê o Deus que conhece.
Só o que a brisa traz se ouve na brisa
O que pensamos, seja amor ou deuses,
Passa, porque passamos.


10/12/1931
2 255
Fernando Pessoa

Fernando Pessoa

Não sei de quem recordo meu passado

Não sei de quem recordo meu passado
Que outrem fui quando o fui, nem me conheço
Como sentindo com minha alma aquela
Alma que a sentir lembro.
De dia a outro nos desamparamos.
Nada de verdadeiro a nós nos une –
Somos quem somos, e quem fomos foi
Coisa vista por dentro.


02/07/1930
1 562
Fernando Pessoa

Fernando Pessoa

XVII - Não queiras, Lídia, edificar no espaço [1]

Não queiras, Lídia, edificar no espaço
Que figuras futuro, ou prometer-te
Amanhã. Cumpre-te hoje, não esperando.
Tu mesma és tua vida.
Não te destines, que não és futura.
Quem sabe se, entre a taça que esvazias,
E ela de novo enchida, não te a sorte
Interpõe o abismo?


(Athena, nº 1, Outubro de 1924)
1 750
Fernando Pessoa

Fernando Pessoa

Atrás não torna, nem, como Orfeu, volve

Atrás não torna, nem, como Orfeu, volve
Sua face, Saturno.
Sua severa fronte reconhece
Só o lugar do futuro.
Não temos mais decerto que o instante
Em que o pensamos certo.
Não o pensemos, pois, mas o façamos
Certo sem pensamento.


31/05/1927
2 253
Fernando Pessoa

Fernando Pessoa

Breve o dia, breve o ano, breve tudo.

Breve o dia, breve o ano, breve tudo.
Não tarda nada sermos.
Isto, pensando, me de a mente absorve
Todos mais pensamentos.
O mesmo breve ser da mágoa pesa-me,
Que, inda que mágoa, é vida.


27/09/1931
2 461