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Poemas neste tema

Renato Castelo Branco

Renato Castelo Branco

Retorno

Um dia voltarei a ser terra
e de meu seio brotarão
flores agrestes.

Um dia voltarei a ser húmus
e nutrirei velhas árvores
de rubros frutos.

Um dia voltarei a ser pó
e água
e seiva.
E viverei em rochas,
raízes vegetais,
vagas do oceano.

Um dia eu serei
o que já fui.

1 627
Rogério Bessa

Rogério Bessa

Praxiscópio

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698
João Quental

João Quental

Cartas

Para Alejandra Pizarnick

1.
Tua rosa é rosa.
A nossa, quem poderá dizer?
Não é o problema: são as palavras.

2.
Algumas palavras são tão preciosas
como distinguir nosso nome
entre duas pessoas que murmuram.

3.
Frio é o lugar onde se forma o pensamento.
Entre gestos elementares, um jardim inacessível.
Frias eram as horas.

4.
É triste possuir um corpo e não possuí-lo.
Nevoada, triste quando você sorri.
E quando não.

5.
quando a noite estiver em minha memória
minha memória será noite]

6.
Uma mulher de noites.
Flutuar e escolher. Exí1io estranho.

7.
Golpeando à esmo - inadequada enquanto música.

(1987)

699
Jonas da Silva

Jonas da Silva

Anátema

Pois que o Mal te fascina e os céus insultas
E não vês nas estrelas fulgurantes
Mais que rochas perdidas, que diamantes
Atirados da terra em catapultas;

Pregarás entre as gentes mais incultas
O teu Verbo de púrpuras flamantes
E em torno a Paz e o Caos, como era dantes,
E o silêncio das cousas já sepultas.

Falarás a linguagem dos videntes
E ninguém nunca há de prestar ouvido
a essas trostes parábolas gementes.

Baterás aos palácios de cem portas
Dos corações e encontrarás, vencido,
Os corações como cidades mortas.

987
Bocage

Bocage

Aos mesmos

De insípida sessão no inútil dia
Juntou-se do Parnaso a galegage;
Em frase hirsuta, em gótica linguage,
Belmiro um ditirambo principia.

Taful que o português não lhe entendia,
Nem ao resto da cômica salsage,
Saca o soneto que lhe fez Bocage,
E conheceu-se nele a Academia.

Dos sócios o pior silvou qual cobra,
Desatou-se em trovões, desfez-se em raios,
Dando ao triste Bocage o que lhe sobra.

Fez na calúnia vil cruéis ensaios,
E jaz com grandes créditos a obra
Entre mãos de marujos e lacaios.

1 355
Ymah Théres

Ymah Théres

Fugazes

Sobre a alvura e o vazio da página
voejam idéias e anjos.

Há que puxá-los pelas asas rápidas,
que não se rompa o fio da candura.
Cuidado com o cetim da vestimenta
e o arisco vagalume das espáduas.

E há que entretê-los - que não se extraviem
ou se desfaçam a algum ledo engano.
Há que agarrá-los pelas mãos de nuvens,
aprisioná-los nesse escasso armário.

Asas abertas sobre brancas folhas,
voam anjos de túnicas fugazes
trançando em dedos frágeis alguns fios
da vasta cabeleira das palavras.

903
Viviane Gehlen

Viviane Gehlen

Amor

Amor

No vazio da solidão,
a busca de uma palavra,
qualquer palavra....

No meio de tantas palavras
uma soa mais forte....

No meio de tantas vozes
uma ressoa no coração....

palavras que descrevem sentimentos
emoções
sonhos

Palavras, tantas
se cruzando
se encontrando
se confundindo

Depois uma voz
dizendo palavras
doces
suaves
amargas
tristes
sentimentais
emocionais

Sonhos compartilhados
dores divididas
solidão preenchida

Depois um corpo
olhos
boca
mãos

O toque
o beijo
a sensação
o sabor
o cheiro
a realização

Planos para o futuro
o futuro ao alcance da mão

Felicidade....

722
Vitor Casimiro

Vitor Casimiro

Problema de Pontuação

Será Ponto-e-vígula
Diferente
De ponto ou
Vírgula,
Somente?

Que nada!
São esses dois pontos,
Reticentes
Que muito dizem
Entre parênteses!

638
Vitor Casimiro

Vitor Casimiro

Quem Mais Poderia Ser?

Lembro-me bem
Das primeiras palavras
Que sussurraste junto a mim:
"Acorda, abre bem os olhos,
E grita, o mais alto...
Não resta dúvidas: É você!"
Lembro-me, foste tu,
Poesia.

949
Carlos Augusto Viana

Carlos Augusto Viana

Os Corredores da Memória - I

1
quantos roçados de pranto
regados

prosseguem
no rosto
sobreviventes raizes

soturnos
percorremos
os silentes corredores da memória

2
cal e sofrimento
recompõem
o território em ruinas

no tecido da linguagem
estampam-se
palavras e paisagens

3
serpenteia-se
a procissão
dos mortos

não trazem
chamas
cânticos ou incensos:

apenas
anunciação
770
Valeria Braga

Valeria Braga

Poema

Poema

Imprimo no poema as minhas letras tatuadas,
letras vadias,
andarilhas,
ciganas sem baralhos.
Imprimo a letra da poesia por dentro do ventre
e dentro das gavetas, à chave.
Do poema, apenas imploro um olhar cheio de desejo,
que já sou lua
ou nem sei quem sou.
Pássaro colorido o poema que voa
por sobre os céus da minha cabeça,
por sobre o céu da minha boca.
E lá vou eu, mastigando as letras,
mastigando a palavra que nunca te disse,
passando a língua molhada em cada verso
de amor ou tristeza,
engolindo cada sílaba
como se sorve bebida, homem,
flor ou criança.
Bandida, a poesia
que dorme e acorda morta de sono
e não me deixa dormir
e não me deixa viver
e não me deixa.
Vem o poema e aperta o gatilho
e me fere no peito e me mata,
e me deixa mais tonta,
mais louca que sou.
E te aceito assim, te quero assim,
poema de todas as formas
como bicho, vida, sol e chão.

930
Gilberto Mendonça Teles

Gilberto Mendonça Teles

No Foz do Tejo

E todavia a trave na garganta
e a grossa mão medrosa sem poder
interpretar sequer o que repete,
o que soletra, o que rumina há séculos,
nós, gagos de Babel, babamos versos.
Jorge de Lima

1 622
Maria Thereza Noronha

Maria Thereza Noronha

Palavras

O poeta nas montanhas arma a tenda. Estende os olhos sobre o abismo, apruma as asas, espera. O peito entoca o inquieto pássaro. O vento breve traz as palavras. Espalhadas na relva, ele as recolhe, ajunta, separa: cada uma com seu sol interior, sua recôndita lenda, os matizes à espreita de propícia luz onde se apurem. O poeta desentoca o pássaro e vai bicando as letras, alinhando-as, brunindo-as, tecendo ali um colar de sílabas, aqui um diadema de signos, uma tiara de imagens - um poema.
O pássaro sobrevoa as montanhas, ultrapassando-as. Tem nas vértebras a vertigem do verso, e vai levando-o para outras paragens: praias, planícies, planaltos, vales.

924
Scarlett Maciel

Scarlett Maciel

Variações

De novo,
Me vem à alma essa fome de palavras
Que não existe em mim.
Essa busca envolvida na tão companheira insônia.
Vazio repleto de ânsia.
Pelo quê?
Mundo?
Vida?
E é sempre o amor que vem de mim.
Por mim,
Pela minha alma.
Não existe outra base.
Acabo de ver Rimbaud.
Todos os escritores deveriam nascer mortos!
Será a felicidade,
Exatamente escondida,
À espera do bote,
Atrás da loucura, insanidade d’alma?
Me vejo em tantas coisas, lugares.
Principalmente palavras e sentimentos alheios.
Dentro de loucura, depressão, tristeza...
Sempre isso.
Não muda.
E é sempre a mesma fome por o desconhecido.
Vontade de falar o que não sinto.
Mostrar e fazer brilhar no coração do mundo
A minha ever confusa pessoa.
Tão cheia de teorias
Que nunca acham o caminho da prática.
E o desespero não vem!
Será você o meu anjo,
que dorme agora?
Essa fúria de pensar...
Mas não me sai nada
E o coração já não agüenta.
Precisa de ar.
O frio lá de fora não me atinge a alma nesse segundo.
Parado no tempo
Sei que não resiste.
É muito!
E com toda esta fome o medo não vem.
Estou só (sem ele)
Pela mesma sentença de sempre.
Carregar a fome das palavras nas costas
E devorá-las sem tomar.
Nem eu vejo.
É ato superior.

783
Ruy Ventura

Ruy Ventura

Chuvas no Alentejo

chuva no poema
noite ardida a flutuar na rua
— o espaço do último sangue

estranha geometria
pontuação que se fecha sobre o tempo
como quem colhe na tarde
o fermentou que restou
de uma vírgula ou insecto

vírgula no poema aguaceiro
forte acolhendo a sombra
que do retrato o rosto faz
cair

pouco importa o vento
que vem das velhas fotografias
ou nas cartas que se não abriram
só importa a chuva
aceite entre duas sílabas

como um pássaro ou um livro

401
Sá Júnior

Sá Júnior

Momento Inefável

Leio numa biblioteca pública.
Pessoas riem alegres.
Um mapa do mundo
geografiza-me no presente da vida.
(Distantes de nós mesmos!)
O momento é mágico
e as horas indecisas.

Imerso em palavras,
meu corpo evapora vontades nas sílabas,
meus olhos enfurecem-se nos sons dos vocábulos.

Leio.
Amo em demasia
essa ação descontínua.
A corda rompe do lado forte.
A bomba por mais que se queira jamais explode!

Leio.
A vida prolonga-se em cenas suaves.
Palavras constroem ações.
Sóis rompem regras e regulamentos
e outros tantos astros danificam irremediavelmente todas as leis.

Leio.
As sugestões das palavras
não me enganam pantomimicamente.
Insuflam em mim a mais natural e poderosa emoção.

Leio,
bebendo soluços e lágrimas.
A luz entra nitidamente pelas janelas...
As pessoas pensam, falam e ouvem com atenção.

1 412
Renato Russo

Renato Russo

1965 (Duas Tribos)

Vou passar
Quero ver
Volta aqui
Vem você
Como foi
Nem sentiu
Se era falso
Ou fevereiro
Temos paz
Temos tempo
Chegou a hora
E agora é aqui
Cortaram meus braços
Cortaram minhas mãos
Cortaram minhas pernas
Num dia de verão
Num dia de verão
Num dia de verão
Podia ser meu pai
Podia ser meu irmão
Não se esqueça
Temos sorte
E agora é aqui
Quando querem transformar
Dignidade em doença
Quando querem transformar
Inteligência em traição
Quando querem transformar
Estupidez em recompensa
Quando querem transformar
Esperança em maldição:
É o bem que contra o mal
E você de que lado está ?
Estou do lado do bem
Com a luz e com os anjos
Mataram um menino
Tinha arma de verdade
Tinha arma nenhuma
Tinha arma de brinquedo
Eu tenho autorama
Eu tenho Hanna-Barbera
Eu tenho pêra, uva e maçã
Eu tenho Guanabara
E modelos Revell
O Brasil é o país do futuro
O Brasil é o país do futuro
O Brasil é o país do futuro
Em toda e qualquer situação
Eu quero tudo prá cima
Prá cima
Prá cima

1 284
Renato Russo

Renato Russo

Os Barcos

Você diz que tudo terminou
Você não quer mais o meu querer
Estamos medindo forças desiguais
Qualquer um pode ver
Que só terminou prá você

São só palavras: teço ensaio e cena
A cada ato enceno a diferença
Do que é amor ficou o seu retrato
A peça que interpreto
Um improviso insensato
Essa saudade eu sei de cor
Sei o caminho dos barcos

E há muito estou alheio e que me entende
Recebe o resto exato e tão pequeno:
É dor, se há - tentativa. Já não tento

E ao transformar em dor o que é vaidade
E ao ter amor se este é só orgulho
Eu faço da mentira, liberdade
E de qualquer quintal faço cidade
E insisto que é virtude o que é entulho:
Baldio é o meu terreno e meu alarde

Eu vejo você se apaixonando outra vez
Eu fico com a saudade
Você com outro alguém
E você diz que tudo terminou
Mas qualquer um pode ver:
Só terminou prá você

1 369
Rodrigo Guidi Peplau

Rodrigo Guidi Peplau

Insano

Quero que saiam palavras de minha boca,
e que essas palavras reflitam em todos os cantos desse papel,
quero servir como um escravo de carne,
para expressar as palavras livres,
que flutuam pelos ares.
Use-me,
Aproveite de mim a matéria,
utilize de tudo, me roube as palavras, a caneta,
aproveite de mim a destreza,
minha mão ágil e minha cabeça,
tornam fácil fazer versos.
Furte de mim a paciência,
e toda a minha certeza,
me roube o conforto,
não deixe comodidade,
traga emoção, risco, entraves,
nada que me trave a mobilidade.

857
Rodrigo Guidi Peplau

Rodrigo Guidi Peplau

Conflito Noturnal

Meu peito cora
diz que agora vai explodir.
O telefone toca — coração aos pulos
quem irá me acudir?
Tudo se acalma,
faz parte do enredo
tenho que então decidir.
E decido cruzar os braços
pois se é para te ter em pedaços
prefiro vê-la partir

742
Rosani Abou Adal

Rosani Abou Adal

Semifusa de Pétalas

Se as rosas expressassem meus sentimentos,
o roseiral seria uma orquestra
de melodias divinas,
os botões não murchariam,
brotariam a cada amanhecer
como um acorde harmônico.
Os espinhos, uma canção serena.
Pausa. Uma semibreve,
uma semifusa de pétalas.
Silêncio. As flores vibram acordes.
Uma melodia nasce em minhalma.
Não sei mais quem sou.
Pétala,
rosa,
acorde?

848
Antero de Quental

Antero de Quental

Beatrice

Nem visao, nem real: amor! amor somente!...
Pois quem sabe o que diz esta palavra - amor - ?
Quando deixa cair no peito esta semente,
Diz o que ha-de brotar, acaso, o Deus-Senhor

Somente amor... Somente?! e pouco esta palavra? Duas silabas
so - em pouco um mundo esta -
Loucos! mas, quando o amor se expande, e cresce, e lavra,
Bem como incendio a arder, tao pouco inda sera?

Gota, que alaga o mundo! atomo, e apos, colosso!
Mas este nada ou mundo, a mim quem mo aqui pos!
Foi Deus! de Deus me vem... e a Deus medir nao posso:
E imenso o que vem dele... os nadas somos nos.

E o nada, que me abriu no peito e, feito imenso,
O encheu, bem como um vaso, abrindo, encheu a flor,
Ha-de alagar teu peito e ser do templo incenso...
Mulher! has-de escutar, que eu vou falar damor!

Falar damor?!... se ele e como uma essencia,
Que nos perfuma, sem se ver de donde...
Se ele e como o sorriso da inocencia,
Que inda se ignora e, pra sorrir, se esconde...

Se e o sonho das noites vaporoso,
Que anda no ar, sem que possamos ve-lo...
Se e a concha no oceano caprichoso,
Se e das ondas do mar ligeiro velo...

Se e suspiro, que oculto se descerra,
Se escuta, mas se ignora de que banda...
Se e estrela, que manda a luz a terra,
Sem se ver de que paramos a manda...

Se e sonho, que sonhamos acordado...
Suspiro, que soltamos sem senti-lo...
Sopro que vai dum lado a outro lado...
Sopro ou sonho, quem pode repeti-lo?

Falar do amor... do amor! o sempre-mudo!
Se e segredo entre dois, como dize-lo,
Sem divulga-lo, sem que o ouca tudo?
Se e misterio encoberto, como ve-lo?...

3 423
Raniere Rodrigues dos Santos

Raniere Rodrigues dos Santos

Sou Poeta

Para provar que sou poeta
Tenho que poetizar.
Para poetizar,
Tenho que inspirar-me.
Para inspirar-me,
Tenho que amar,
Para amar,
Tenho que sentir.
Para sentir,
Tenho que ver.
Para ver,
Tenho que crer.
Para crer,
Tenho que viver
Para viver,
Tenho que ser.
Ser Poeta.

779
Paulo Silva Ribeiro

Paulo Silva Ribeiro

O Poema Não é Único

O Poema Não é Único

Os poemas são como cartas
Soltas ao vento,
Se tocam alguém, é porque o sentimento
Existe dentro da alma...
O poema não é único,
É loucura,
É doçura,
É até mesmo inocência, sempre dentro
Do espírito do homem...
Saber encontar nas palavras
A verdadeira linguagem
Do Inexplicavel sentido da alma,
É o eterno buscar dos poemas,
Sejam eles tortos, ou mesmo tolos,
Não importa, Saudemos a todos que neles
Encontram sua maneira de saudar
A vida, amores,
E porque não suas dores...

769