Conflito
Poemas neste tema
Francisco Bernardino Ribeiro
Ode
(Ao Algoz de 24 de maio de 1833 - S. Paulo)
Eu vi um homem?... ou me ilude a mente!
Que horror que eu sinto!... Homem! não, não eras,
Tranqüilo fratricida.
Como pudeste, ó monstro,
Áridos olhos atentar na vítima
Desfalecida, exangue?
Como pudeste impávido roubar-lhe
Miseranda existência com os redobres
De angústias repetidas,
Sem o brado ouvires,
Que dentro da alma rompe, e clama: "É homem,
E homem desgraçado?!"
Como o pudeste sem arrepiar-te
As carnes frio horror? Sem ver diante
Esquálido fantasma
Habitador dos túmulos,
Com a mirrada mão prender-te os braços,
"É teu irmão!" — chamar-te?
Que é desse coração, que o ser te alenta?
Ainda palpita? Não. Quente de crimes
O sangue infeccionado
Dispara só arrancos.
E cada arranco ordena um atentado.
Deixaste de ser homem!
És aborto do inferno, ente perverso,
Nasceste apenas para ser vergonha,
Opróbrio da existência.
É mais que tu ditoso
Aquele que arrojaste à sepultura
Que tuas mãos cavaram.
Esse ostentou furores desastrosos;
Mas não mostrou à face do Universo,
Que surdo à natureza,
Já saciado tigre,
Em paz — com as garras meneava a morte
Para extinguir humanos!
Eu vi um homem?... ou me ilude a mente!
Que horror que eu sinto!... Homem! não, não eras,
Tranqüilo fratricida.
Como pudeste, ó monstro,
Áridos olhos atentar na vítima
Desfalecida, exangue?
Como pudeste impávido roubar-lhe
Miseranda existência com os redobres
De angústias repetidas,
Sem o brado ouvires,
Que dentro da alma rompe, e clama: "É homem,
E homem desgraçado?!"
Como o pudeste sem arrepiar-te
As carnes frio horror? Sem ver diante
Esquálido fantasma
Habitador dos túmulos,
Com a mirrada mão prender-te os braços,
"É teu irmão!" — chamar-te?
Que é desse coração, que o ser te alenta?
Ainda palpita? Não. Quente de crimes
O sangue infeccionado
Dispara só arrancos.
E cada arranco ordena um atentado.
Deixaste de ser homem!
És aborto do inferno, ente perverso,
Nasceste apenas para ser vergonha,
Opróbrio da existência.
É mais que tu ditoso
Aquele que arrojaste à sepultura
Que tuas mãos cavaram.
Esse ostentou furores desastrosos;
Mas não mostrou à face do Universo,
Que surdo à natureza,
Já saciado tigre,
Em paz — com as garras meneava a morte
Para extinguir humanos!
582
Félix Aires
Porto de São Luís
De momento a momento, amuado, o mar esmurra,
bruto, esbaqueia, esbate, esbraveja, esbarronda!
Os mais fortes murais o seu chicote surra
e atrevido intromete, estruge, atroa, estronda!
Enche, transborda e vaza, encharca, estoira, esturra,
inquieto, a retesar seus pulsos de onda em onda!
Hércules que protesta e incrivelmente empurra
enormes vagalhões, sem ter quem lhe responda!
Gigante intempestivo, intrépido, arruaceiro,
que de rosto fechado ameaça o mundo inteiro,
espragueja a cuspir os portos das cidades!
— Mar que amedronta a terra em doudos temporais
o ódio, pior que tu, de arremessos fatais,
incha, resmunga e explode em negras tempestades!
bruto, esbaqueia, esbate, esbraveja, esbarronda!
Os mais fortes murais o seu chicote surra
e atrevido intromete, estruge, atroa, estronda!
Enche, transborda e vaza, encharca, estoira, esturra,
inquieto, a retesar seus pulsos de onda em onda!
Hércules que protesta e incrivelmente empurra
enormes vagalhões, sem ter quem lhe responda!
Gigante intempestivo, intrépido, arruaceiro,
que de rosto fechado ameaça o mundo inteiro,
espragueja a cuspir os portos das cidades!
— Mar que amedronta a terra em doudos temporais
o ódio, pior que tu, de arremessos fatais,
incha, resmunga e explode em negras tempestades!
812
Epitácio Mendes Silva
Santa Bomba
Nas novas gerações impera o medo
E há indicações atônitas no mundo !
Hiroshima, o que foi:
Um mal, um necssário bem,
um bem, um necessário mal ?
Quem sabe, ao certo,
Se até homens que nas Nações
e gerações mandam e governam,
nas suas loucuras e nas suas guerras
não o sabem responder !...
Que rersponda pois a humanidade
que viu a negra chuva de Hiroshima
e os seus semelhantes projetados
como sombras nas pedras calcinadas
ante o horror do fogo apocalíptico.
Não mais a bomba. Não mais a bomba:
eis a respota ! Sábia resposta:
que a bomba de perversas dimensões
foi o próprio apocalípse, e dele
já nos sentimos livres para o dia
do sonhado paraíso sobre a terra.
E da bomba o que dizer senão
que a bomba foi uma santa,
uma santa bomba...
E há indicações atônitas no mundo !
Hiroshima, o que foi:
Um mal, um necssário bem,
um bem, um necessário mal ?
Quem sabe, ao certo,
Se até homens que nas Nações
e gerações mandam e governam,
nas suas loucuras e nas suas guerras
não o sabem responder !...
Que rersponda pois a humanidade
que viu a negra chuva de Hiroshima
e os seus semelhantes projetados
como sombras nas pedras calcinadas
ante o horror do fogo apocalíptico.
Não mais a bomba. Não mais a bomba:
eis a respota ! Sábia resposta:
que a bomba de perversas dimensões
foi o próprio apocalípse, e dele
já nos sentimos livres para o dia
do sonhado paraíso sobre a terra.
E da bomba o que dizer senão
que a bomba foi uma santa,
uma santa bomba...
907
Estrigas
Nossa Grande Civilização
As folhas das bananeiras movem-se
ao ritmo da ventania
um louco passa jogando pedra
na compulsão da sua fantasia.
O mundo é um imenso manicômio
loucos violentos que agridem, matam, torturam
loucos poderosos que dominam os outros
na ilusão dos seus interesses
na manutenção dos seus poderes
loucos inteligentes
que mandam os outros ao espaço
que tiram e salvam vidas
que divertem e instruem
loucos que matam e dão vida
loucos que destroem e constroem
a si e ao meio
O mundo é uma grande múltipla e diversificada loucura
há pessoas loucamente apaixonadas por ele
há pessoas loucamente revoltadas contra ele
há os que se apegam a ele
há os loucamente mansos e pacíficos
que buscam uma solução
porque suas loucuras
já não suportam mais tanta loucura
e são estes
a única luz no fim do túnel
sujeita ao ritmo da ventania
como as folhas da bananeira
ao ritmo da ventania
um louco passa jogando pedra
na compulsão da sua fantasia.
O mundo é um imenso manicômio
loucos violentos que agridem, matam, torturam
loucos poderosos que dominam os outros
na ilusão dos seus interesses
na manutenção dos seus poderes
loucos inteligentes
que mandam os outros ao espaço
que tiram e salvam vidas
que divertem e instruem
loucos que matam e dão vida
loucos que destroem e constroem
a si e ao meio
O mundo é uma grande múltipla e diversificada loucura
há pessoas loucamente apaixonadas por ele
há pessoas loucamente revoltadas contra ele
há os que se apegam a ele
há os loucamente mansos e pacíficos
que buscam uma solução
porque suas loucuras
já não suportam mais tanta loucura
e são estes
a única luz no fim do túnel
sujeita ao ritmo da ventania
como as folhas da bananeira
738
Elielson Rodrigues
A Volta
Hoje estás de volta,
amanhã estarás morta,
ainda és a mesma menina inerme,
desgrenhada, cefalia de verme.
Pensamentos infantis,
Homicídio impune,
o universo te maldiz,
mas te torna imune.
Não tentes me enganar,
tua sedução pra mim é monturo,
Impetuosamente quero te matar,
falta-me eloqüência no que juro.
O que outrora me iludia,
agora é esterco, rio.
te quero no inferno sua vadia,
esse prazer não renuncio.
amanhã estarás morta,
ainda és a mesma menina inerme,
desgrenhada, cefalia de verme.
Pensamentos infantis,
Homicídio impune,
o universo te maldiz,
mas te torna imune.
Não tentes me enganar,
tua sedução pra mim é monturo,
Impetuosamente quero te matar,
falta-me eloqüência no que juro.
O que outrora me iludia,
agora é esterco, rio.
te quero no inferno sua vadia,
esse prazer não renuncio.
957
Elisa Lucinda
Para um Amor na Rua
Meu amor,
vem pra casa que ouvi dizer
que vai estourar a guerra
Nostradamus previu
Raimunda, nega Raimunda confirmou
Por favor, ponha os pés na terra
Chão firme cama da gente
ouvi dizer que vai estourar a guerra.
Você que é mundano convicto
você que erra
vai argumentar que não há perigo e o escambou
que é apenas o "bicho" internacional.
Vai confundir tudo com show
vai dizer que tem Prince, Rock nroll
Guns NRoses e talvez Gal;
É mau, meu bem
tem também Sadam, Bushes e mesquinharias
Vem pra casa guardar num cofre sua ingenuidade
vem proteger da maldade sua fotografia.
Aqui fiz cuscuz farofa e feijão fraldinho
aqui pintei filosofia, comigo-ninguém-pode
espada de São Jorge, jasmim, arruda, carinho.
Tudo anti-míssil
tudo bruxaria anti-crueldade bélica
Lá fora alguns meninos
querem experimentar a potência
de seus terríveis brinquedos.
Não tenha medo
vem pra casa sem nem telefonar
aqui tem ar, poesia, fé
e tudo que a alegria da alma encerra.
Vem, meu amor
que ouvi dizer que vai estourar a guerra.
(verão de 1991)
vem pra casa que ouvi dizer
que vai estourar a guerra
Nostradamus previu
Raimunda, nega Raimunda confirmou
Por favor, ponha os pés na terra
Chão firme cama da gente
ouvi dizer que vai estourar a guerra.
Você que é mundano convicto
você que erra
vai argumentar que não há perigo e o escambou
que é apenas o "bicho" internacional.
Vai confundir tudo com show
vai dizer que tem Prince, Rock nroll
Guns NRoses e talvez Gal;
É mau, meu bem
tem também Sadam, Bushes e mesquinharias
Vem pra casa guardar num cofre sua ingenuidade
vem proteger da maldade sua fotografia.
Aqui fiz cuscuz farofa e feijão fraldinho
aqui pintei filosofia, comigo-ninguém-pode
espada de São Jorge, jasmim, arruda, carinho.
Tudo anti-míssil
tudo bruxaria anti-crueldade bélica
Lá fora alguns meninos
querem experimentar a potência
de seus terríveis brinquedos.
Não tenha medo
vem pra casa sem nem telefonar
aqui tem ar, poesia, fé
e tudo que a alegria da alma encerra.
Vem, meu amor
que ouvi dizer que vai estourar a guerra.
(verão de 1991)
1 720
Elisa Lucinda
Au Gratin
Fumo um cigarro fino
Como um palito
O calor do Rio é ridículo
Calor de chuva enrustida
Calor do céu oprimido
De inferno mar resolvido
Que não sabe se queima esse cara
Ou o assa ao ponto
Um calor filho da puta
Um calor de estufa
E eu sem nem ser judia
Sofro aos pouquinhos
Sofro esse zé pagodinho
Ardo nesse pecado que não cometi
Nesse forno onde me meti
Por uma apimentada dica
De um nordestino
Que me mostrou uma placa citada, tinhosa:
"CIDADE MARAVILHOSA"
Eu vim.
Como um palito
O calor do Rio é ridículo
Calor de chuva enrustida
Calor do céu oprimido
De inferno mar resolvido
Que não sabe se queima esse cara
Ou o assa ao ponto
Um calor filho da puta
Um calor de estufa
E eu sem nem ser judia
Sofro aos pouquinhos
Sofro esse zé pagodinho
Ardo nesse pecado que não cometi
Nesse forno onde me meti
Por uma apimentada dica
De um nordestino
Que me mostrou uma placa citada, tinhosa:
"CIDADE MARAVILHOSA"
Eu vim.
1 943
Eliane Pantoja Vaidya
Não, sobretudo
Homenagem a Camille Paglia
Não, sobretudo
não digas
que a natureza é bela.
O que chamas natureza
é apenas
a casca do planeta
Arranhada esta casca
ela nos remete
a um mundo ignoto
colossal
estupendo
bárbaro
A natureza é leão
que rasga a presa.
Não, sobretudo
não digas
que a natureza é bela.
O que chamas natureza
é apenas
a casca do planeta
Arranhada esta casca
ela nos remete
a um mundo ignoto
colossal
estupendo
bárbaro
A natureza é leão
que rasga a presa.
844
Egito Gonçalves
Sitiados
Esta cidade é a última cidade...
Os muros derruídos estão cercados:
Os canhões troam através dos mapas.
Nossa imagem, revelada pelas montras,
Passeia pelas ruas de mãos dadas...
Somos a última trincheira valiosa.
Unidos, trituramos os assaltos
E renovamos o cristal da esperança.
Os ruídos emolduram-te o sorriso,
Pura mensagem, prenhe de um futuro
Isolado de poeiras e de lágrimas.
Os muros derruídos estão cercados:
Os canhões troam através dos mapas.
Nossa imagem, revelada pelas montras,
Passeia pelas ruas de mãos dadas...
Somos a última trincheira valiosa.
Unidos, trituramos os assaltos
E renovamos o cristal da esperança.
Os ruídos emolduram-te o sorriso,
Pura mensagem, prenhe de um futuro
Isolado de poeiras e de lágrimas.
1 641
Dieter Roos
Talvez
talvez
não exista o amor
talvez
exista somente
o ódio
e aquilo
que chamamos de amor
é somente odiar
não exista o amor
talvez
exista somente
o ódio
e aquilo
que chamamos de amor
é somente odiar
812
Chico Buarque
O que será
(À flor da terra)
Chico Buarque e Milton Nascimento 1976
O que será que será
Que andam suspirando pelas alcovas
Que andam sussurando em versos e trovas
Que andam combinando no breu das tocas
Que anda nas cabeças, anda nas bocas
Que andam acendendo velas nos becos
Que estão falando alto pelos botecos
Que gritam nos mercados, que com certeza
Está na natureza, será que será
O que não tem certeza, nem nunca terá
O que não tem conserto, nem nunca terá
O que não tem tamanho
O que será que será
Que vive nas idéias desses amantes
Que cantam os poetas mais delirantes
Que juram os profetas embriagados
Que está na romaria dos mutilados
Que está na fantasia dos infelizes
Que está no dia-a-dia das meretrizes
No plano dos bandidos, dos desvalidos
Em todos os sentidos, será que será
O que não tem decéncia, nem nunca terá
O que não tem censura, nem nunca terá
O que não faz sentido
O que será que será
Que todos os avisos não vão evitar
Porque todos os risos vão desafiar
Porque todos os sinos irão repicar
Porque todos os hinos irão consagrar
E todos os meninos vão desembestar
E todos os destinos irão se encontrar
E o mesmo Padre Eterno que nunca foi lá
Olhando aquele inferno, vai abbençoar
O que não tem governo, nem nunca terá
O que não tem vergonha nem nunca terá
O que não tem juízo
Chico Buarque e Milton Nascimento 1976
O que será que será
Que andam suspirando pelas alcovas
Que andam sussurando em versos e trovas
Que andam combinando no breu das tocas
Que anda nas cabeças, anda nas bocas
Que andam acendendo velas nos becos
Que estão falando alto pelos botecos
Que gritam nos mercados, que com certeza
Está na natureza, será que será
O que não tem certeza, nem nunca terá
O que não tem conserto, nem nunca terá
O que não tem tamanho
O que será que será
Que vive nas idéias desses amantes
Que cantam os poetas mais delirantes
Que juram os profetas embriagados
Que está na romaria dos mutilados
Que está na fantasia dos infelizes
Que está no dia-a-dia das meretrizes
No plano dos bandidos, dos desvalidos
Em todos os sentidos, será que será
O que não tem decéncia, nem nunca terá
O que não tem censura, nem nunca terá
O que não faz sentido
O que será que será
Que todos os avisos não vão evitar
Porque todos os risos vão desafiar
Porque todos os sinos irão repicar
Porque todos os hinos irão consagrar
E todos os meninos vão desembestar
E todos os destinos irão se encontrar
E o mesmo Padre Eterno que nunca foi lá
Olhando aquele inferno, vai abbençoar
O que não tem governo, nem nunca terá
O que não tem vergonha nem nunca terá
O que não tem juízo
1 782
Chico Buarque
O meu guri
Chico Buarque 1981
Quando, seu moço, nasceu meu rebento
Não era o momento dele rebentar
Já foi nascendo com cara de fome
E eu não tinha nem nome pra lhe dar
Como fui levando, não sei explicar
Fui assim levando ele a me levar
E na sua meninice ele um dia me disse
Que chegava lá
Olha aí
Olha aí
Olha aí, ai o meu guri, olha aí
Olha aí, é o meu guri
E ele chega
Chega suado e veloz do batente
E traz sempre um presente pra me encabular
Tanta conrrente de ouro, seu moço
Que haja pescoço pra enfiar
Me trouxe uma bolsa já com tudo dentro
Chave, caderneta, terço e patuá
Um lenço e uma penca de documentos
Pra finalmente eu me identificar, olha aí
Olha aí, ai o meu guri, olha aí
Olha aí, é o meu guri
E ele chega
Chega no morro ocom o carregamento
Pulseira, cimento, relógio, pneu, gravador
Rezo até ele chegar cá no alto
Essa onda de assaltos tá um horror
Eu consolo ele, ele me consola
Boto ele no colo pra ele me ninar
De repente acordo, olho pro lado
E o danado já foi trabalhar, olha aí
Olha aí, ai o meu guri, olha aí
Olha aí, é o meu guri
E ele chega
Chega estampado, manchete, retrato
Com venda nos olhos, legenda e as iniciais
Eu não entendo essa gente, seu moço
Fazendo alvoroço de mais
O guri no mato, acho que tá rindo
Acho que tá lindo, de papo pro ar
Desde o começo, eu não disse, seu moço
Ele disse que chegava lá
Olha aí, olha aí
Olha aí, ai o meu guri, olha aí
Olha aí, é o meu guri
Quando, seu moço, nasceu meu rebento
Não era o momento dele rebentar
Já foi nascendo com cara de fome
E eu não tinha nem nome pra lhe dar
Como fui levando, não sei explicar
Fui assim levando ele a me levar
E na sua meninice ele um dia me disse
Que chegava lá
Olha aí
Olha aí
Olha aí, ai o meu guri, olha aí
Olha aí, é o meu guri
E ele chega
Chega suado e veloz do batente
E traz sempre um presente pra me encabular
Tanta conrrente de ouro, seu moço
Que haja pescoço pra enfiar
Me trouxe uma bolsa já com tudo dentro
Chave, caderneta, terço e patuá
Um lenço e uma penca de documentos
Pra finalmente eu me identificar, olha aí
Olha aí, ai o meu guri, olha aí
Olha aí, é o meu guri
E ele chega
Chega no morro ocom o carregamento
Pulseira, cimento, relógio, pneu, gravador
Rezo até ele chegar cá no alto
Essa onda de assaltos tá um horror
Eu consolo ele, ele me consola
Boto ele no colo pra ele me ninar
De repente acordo, olho pro lado
E o danado já foi trabalhar, olha aí
Olha aí, ai o meu guri, olha aí
Olha aí, é o meu guri
E ele chega
Chega estampado, manchete, retrato
Com venda nos olhos, legenda e as iniciais
Eu não entendo essa gente, seu moço
Fazendo alvoroço de mais
O guri no mato, acho que tá rindo
Acho que tá lindo, de papo pro ar
Desde o começo, eu não disse, seu moço
Ele disse que chegava lá
Olha aí, olha aí
Olha aí, ai o meu guri, olha aí
Olha aí, é o meu guri
3 030
Dílson Catarino
Poemas Menores
Meus óculos quebrados
Me olham com saudades
Do passado que também se quebrou
-o-
Sujo é o beco de sua boca
quando fala.
Sujo é o beco - boca é suja
Pois as árvores poda
Até que a morte vem
Aos pássaros também
-o-
Sempre é o nunca
à podridão dos homens
que matam de penúria
ou de violência
que ferem a alma
de um povo já enfermo
E querem carnaval.
-o-
Cultivar plantas em xaxim
é como cultivar a paz
Os homens cultivam o fim
-o-
O verde desta planta
no meio de minha sala
O cinza desta fumaça
em todo meu caminho
-o-
Vivaldi vagueia
vadiamente
em meus ouvidos
-o-
Se não fosse a chuva
batendo em minha janela
Pensaria serem lágrimas felizes
de minha boca em seu corpo.
-o-
O meu copo de aço
escorregou-me da mão
Os estilhaços de vidro
cortaram-me o pé
Escorreu uma gota de sangue
manchando o tapete.
-o-
Saia do escuro e acenda uma vela
Fique na sua
tomando chuva na calçada
beijando a boca da namorada
sentindo a nuca se arrepiar.
-o-
Há olhos lindos e tentadores
meigos, tímidos, de muitas cores
sensuais, chocantes, libidinosos
lagos serenos, maravilhosos
cristais brilhantes, cheios de fé
mas nada como os olhos de Teté.
-o-
E lá estão os elefantes,
ciscando em volta do lago,
enquanto as pedras rolam
misturando-se com as cuspidas do tuberculoso.
Cânticos frêmitos entoados por pianos destruídos
entusiasmam os leprosos para uma valsa.
Vamos beber uma cerveja?
Então, bebamos oito.
-o-
Me olham com saudades
Do passado que também se quebrou
-o-
Sujo é o beco de sua boca
quando fala.
Sujo é o beco - boca é suja
Pois as árvores poda
Até que a morte vem
Aos pássaros também
-o-
Sempre é o nunca
à podridão dos homens
que matam de penúria
ou de violência
que ferem a alma
de um povo já enfermo
E querem carnaval.
-o-
Cultivar plantas em xaxim
é como cultivar a paz
Os homens cultivam o fim
-o-
O verde desta planta
no meio de minha sala
O cinza desta fumaça
em todo meu caminho
-o-
Vivaldi vagueia
vadiamente
em meus ouvidos
-o-
Se não fosse a chuva
batendo em minha janela
Pensaria serem lágrimas felizes
de minha boca em seu corpo.
-o-
O meu copo de aço
escorregou-me da mão
Os estilhaços de vidro
cortaram-me o pé
Escorreu uma gota de sangue
manchando o tapete.
-o-
Saia do escuro e acenda uma vela
Fique na sua
tomando chuva na calçada
beijando a boca da namorada
sentindo a nuca se arrepiar.
-o-
Há olhos lindos e tentadores
meigos, tímidos, de muitas cores
sensuais, chocantes, libidinosos
lagos serenos, maravilhosos
cristais brilhantes, cheios de fé
mas nada como os olhos de Teté.
-o-
E lá estão os elefantes,
ciscando em volta do lago,
enquanto as pedras rolam
misturando-se com as cuspidas do tuberculoso.
Cânticos frêmitos entoados por pianos destruídos
entusiasmam os leprosos para uma valsa.
Vamos beber uma cerveja?
Então, bebamos oito.
-o-
872
Dílson Catarino
Poema do Final do Mundo
Toda alma humana anda perdida
desnorteada, sem achar vida
O fim do século provoca angústia
Dúvida atroz, desesperança.
Tormento vil, tal sofrimento
nunca existiu, nem por momentos
O ser humano é o responsável
por esta sina irreversível.
A morte certa, a guerra atômica
O fim de tudo, nosso destino
A carne podre se decompondo
Pó nuclear tudo infestando.
Bolhas na pele, câncer no corpo
Terras estéreis, o verde morto.
Não há mais ar, não há mais mundo
Não há mais nada, nem mesmo Deus.
desnorteada, sem achar vida
O fim do século provoca angústia
Dúvida atroz, desesperança.
Tormento vil, tal sofrimento
nunca existiu, nem por momentos
O ser humano é o responsável
por esta sina irreversível.
A morte certa, a guerra atômica
O fim de tudo, nosso destino
A carne podre se decompondo
Pó nuclear tudo infestando.
Bolhas na pele, câncer no corpo
Terras estéreis, o verde morto.
Não há mais ar, não há mais mundo
Não há mais nada, nem mesmo Deus.
860
Carla Bianca
Lembrança
Guardo a saudade no fundo da goela. Lá coloco sentimentos como se fossem drágeas a serem engolidas. Procuro um copo d’água para desentalar a saudade.
Molhada a goela, sinto a saudade transformar-se em lembrança. O peito descansa de esperar por alguém que não tem paradeiro.
As lembranças são preciosidades que não fazem sofrer. Lindas molduras, de momentos vividos.
Agora viajo no tempo repassando as venturas que tive com o amor. Os rostos parecem sorrir, transcendendo as dúvidas que antes marcavam suas testas e expressões. Eles são lembranças, deixaram de ser saudades.
Observo mais atentamente e avisto o teu rosto na galeria das emoções. Ele tem agora um sorriso plácido, tranqüilo, de pessoa em paz, com a vida, este pedaço de energia que não possui tempo certo e viaja na memória dos contemporâneos de sua passagem.
Tua lembrança pertence à nobre seção do afeto e apraz contemplar figura que tanto ensinou e agora diz que devo procurar outro mestre.
Molhada a goela, sinto a saudade transformar-se em lembrança. O peito descansa de esperar por alguém que não tem paradeiro.
As lembranças são preciosidades que não fazem sofrer. Lindas molduras, de momentos vividos.
Agora viajo no tempo repassando as venturas que tive com o amor. Os rostos parecem sorrir, transcendendo as dúvidas que antes marcavam suas testas e expressões. Eles são lembranças, deixaram de ser saudades.
Observo mais atentamente e avisto o teu rosto na galeria das emoções. Ele tem agora um sorriso plácido, tranqüilo, de pessoa em paz, com a vida, este pedaço de energia que não possui tempo certo e viaja na memória dos contemporâneos de sua passagem.
Tua lembrança pertence à nobre seção do afeto e apraz contemplar figura que tanto ensinou e agora diz que devo procurar outro mestre.
880
Castro Alves
Pesadelo de Humaitá
Poesia recitada no Rio de Janeiro.
I
Ao som dos rinchos dos cavalos bravos,
Que soltos passam nos sertões remotos,
Ao múrmur triste do cativo rio
Que solta gritos sepulcrais, ignotos;
Acorda um dia Humaitá sentindo
Que a morte vibra-lhe o pesado arnês.
Treme-lhe o manto dos gerais extensos,
E o vil tirano se lhe agarra aos pés.
II
"Quem é que acorda a cidadela enorme
Que a testa cinge de fatais ameias?"
Brada arrogante do deserto a esposa,
Sentindo o sangue lhe correr nas veias.
"Dizei, condores, que voais do norte!
Dizei, ó ventos, que do céu rompeis!
Por que é que a brisa em seu broquei soluça
E o vil tirano se me agarra aos pés?"
III
"Silêncio! Escuta! lhe responde trêmulo.
Silêncio! diz-lhe do deserto a voz.
Silêncio! É ele. . . — o Brasileiro Atlante,
De um grande povo a legião feroz.
Desceu dos Andes... da Bahia altiva...
De Guanabara — esta mansão de reis...
Treme, ó cidade!... Se o Brasil caminha
O vil tirano se lhe agarra aos pés...
IV
Como o viajante da legenda Hebraica,
Na terra imprime o gigantesco passo
DÁtila monta no ginete fero...
São-lhe as batalhas do caminho o traço
Se pisa o Prata - Riachuelo brilha,
Se estende o braço - Uruguaiana fez
Oh! vibre o pulso o derradeiro golpe,
E o vil tirano se lhe agarra aos pés".
V
Eis já no fumo os batalhões sentestam,
Solto o estandarte no combate novo...
Trincheiras, fortes, baluartes quebram-se,
Ao férreo embate de um potente povo
É um raio — a esquadra... As legiões retumbam,
Ruge a refrega com seus mil tropéis...
... Bravo!... Vitória!... Viva o povo imenso,
O vil tirano há de beijar-lhe os pés!
VI
Fere estes ares, estandarte invicto!
Povo, abre o peito para nova vida!
Talvez agora o pavilhão da pátria
Açoite altivo Humaitá rendida.
Sim! pela campa dos soldados mortos;
Sim! pelo trono dos heróis, dos reis;
Sim! peio berço dos futuros bravos,
O vil tirano há de beijar-lhes os pés.
I
Ao som dos rinchos dos cavalos bravos,
Que soltos passam nos sertões remotos,
Ao múrmur triste do cativo rio
Que solta gritos sepulcrais, ignotos;
Acorda um dia Humaitá sentindo
Que a morte vibra-lhe o pesado arnês.
Treme-lhe o manto dos gerais extensos,
E o vil tirano se lhe agarra aos pés.
II
"Quem é que acorda a cidadela enorme
Que a testa cinge de fatais ameias?"
Brada arrogante do deserto a esposa,
Sentindo o sangue lhe correr nas veias.
"Dizei, condores, que voais do norte!
Dizei, ó ventos, que do céu rompeis!
Por que é que a brisa em seu broquei soluça
E o vil tirano se me agarra aos pés?"
III
"Silêncio! Escuta! lhe responde trêmulo.
Silêncio! diz-lhe do deserto a voz.
Silêncio! É ele. . . — o Brasileiro Atlante,
De um grande povo a legião feroz.
Desceu dos Andes... da Bahia altiva...
De Guanabara — esta mansão de reis...
Treme, ó cidade!... Se o Brasil caminha
O vil tirano se lhe agarra aos pés...
IV
Como o viajante da legenda Hebraica,
Na terra imprime o gigantesco passo
DÁtila monta no ginete fero...
São-lhe as batalhas do caminho o traço
Se pisa o Prata - Riachuelo brilha,
Se estende o braço - Uruguaiana fez
Oh! vibre o pulso o derradeiro golpe,
E o vil tirano se lhe agarra aos pés".
V
Eis já no fumo os batalhões sentestam,
Solto o estandarte no combate novo...
Trincheiras, fortes, baluartes quebram-se,
Ao férreo embate de um potente povo
É um raio — a esquadra... As legiões retumbam,
Ruge a refrega com seus mil tropéis...
... Bravo!... Vitória!... Viva o povo imenso,
O vil tirano há de beijar-lhe os pés!
VI
Fere estes ares, estandarte invicto!
Povo, abre o peito para nova vida!
Talvez agora o pavilhão da pátria
Açoite altivo Humaitá rendida.
Sim! pela campa dos soldados mortos;
Sim! pelo trono dos heróis, dos reis;
Sim! peio berço dos futuros bravos,
O vil tirano há de beijar-lhes os pés.
2 087
Castro Alves
Nos Campos
"FUGI desvairada!
Na moita intrincada,
Rasgando uma estrada,
Fugaz me embrenhei.
Apenas vestindo
Meus negros cabelos,
E os seios cobrindo
Com os trêmulos dedos,
Ligeira voei!
"Saltei as torrentes.
Trepei dos rochedos
Aos cimos ardentes,
Nos ínvios caminhos,
Cobertos de espinhos,
Meus passos mesquinhos
Com sangue marquei!
..........................
"Avante! corrarnos!
Corramos ainda!...
Da selva nos ramos
A sombra é infinda.
A mata possante
Ao filho arquejante
Não nega um abrigo...
Corramos ainda!
Corramos! avante!
"Debalde! A floresta
— Madrasta impiedosa —
A pobre chorosa
Não quis abrigar!
"Pois bem! Ao deserto!
"De novo, é loucura!
Seguindo meus traços
Escuto seus passos
Mais perto! mais perto!
Já queima-me os ombros
Seu hálito ardente.
Já vejo-lhe a sombra
Na úmida alfombra...
Qual negra serpente,
Que vai de repente
Na presa saltar! ...
......................................
Na douda
Corrida,
Vencida,
Perdida,
Quem me há de salvar?"
Na moita intrincada,
Rasgando uma estrada,
Fugaz me embrenhei.
Apenas vestindo
Meus negros cabelos,
E os seios cobrindo
Com os trêmulos dedos,
Ligeira voei!
"Saltei as torrentes.
Trepei dos rochedos
Aos cimos ardentes,
Nos ínvios caminhos,
Cobertos de espinhos,
Meus passos mesquinhos
Com sangue marquei!
..........................
"Avante! corrarnos!
Corramos ainda!...
Da selva nos ramos
A sombra é infinda.
A mata possante
Ao filho arquejante
Não nega um abrigo...
Corramos ainda!
Corramos! avante!
"Debalde! A floresta
— Madrasta impiedosa —
A pobre chorosa
Não quis abrigar!
"Pois bem! Ao deserto!
"De novo, é loucura!
Seguindo meus traços
Escuto seus passos
Mais perto! mais perto!
Já queima-me os ombros
Seu hálito ardente.
Já vejo-lhe a sombra
Na úmida alfombra...
Qual negra serpente,
Que vai de repente
Na presa saltar! ...
......................................
Na douda
Corrida,
Vencida,
Perdida,
Quem me há de salvar?"
1 301
Castro Alves
Pesadelo
(POEMETO)
I
O RENDEZ-VOUS
ERA UMA NOITE perfumada e lânguida.
Contava a brisa amores à folhagem.
Da lua num olhar voluptuoso
Envolvia-se cândida paisagem.
Quais lágrimas do céu, brancos orvalhos
Trementes penduravam-se dos galhos.
E as flores suspiravam molemente
Da brisa ao receber os doces beijos.
E o mar batia túmido nas praias
Qual seio de donzela a arfar desejos.
E nuvens lá no céu brancas passavam,
Como garças formosas que adejavam.
Quebrando a solidão longínquo canto
Trouxe a brisa de terno bandolim,
Voluptuoso, ardente e delicado,
Como dharpa de etéreo serafim.
E o canto — todo amores — todo gozo —
Ia ecoando belo e languoroso.
Era Joseph — o trovador ardente,
Que o silêncio da noite perturbava.
Era o bardo formoso, apaixonado
Que a Andaluza fogosa fascinava.
Pálido o rosto, negro o seu cabelo,
Olhar cheio de luz... Ele era belo.
Depois calou-se a voz... Como essas fadas
Que à noite, quando voa a fantasia,
Vemos, sentimos belas, vaporosas,
— Anjos que o ideal somente cria; —
Tal ou mais linda, abrindo uma janela,
Surge uma virgem fascinante e bela.
Era um rosto formoso de madona,
Voava-lhe a madeixa destrançada.
E o seio que tremia, — pelas rendas
A lua olhava louca, apaixonada.
Tinha um pé que invejara uma criança.
Bem feliz quem ao peito lhe descansa!...
Depois uns lábios férvidos se uniram
Entre beijos dois nomes se escutaram...
Dois nomes e mil beijos amorosos
Nos lábios as palavras encerraram...
Dois nomes em que a vida toda sia...
Dois poemas de santa poesia...
E a porta após rodou por sobre os quícios,
E a murmurar deixou passar o amante...
Somente um temo e lânguido suspiro
Ouvi trazer a brisa sussurrante...
E a lua então num lânguido desmaio
Ciumenta lançou o último raio...
II
O ASSASSINO
Uma noite era negro firmamento,
Monótona caía fria chuva,
E a terra envolta em véu de densas trevas
Parecia chorosa uma viúva;
Só as aves da noite regeladas
Gritando se escondiam nas moradas.
Trazia o vento o silvo da rajada
Que lúgubre zunia nos pinheiros,
Trazia gritos pávidos, medrosos,
Talvez dalguns perdidos caminheiros,
E no embate co’a branca penedia,
O mar sinistro e tétrico rugia.
De um lampião à luz incerta e vaga
Um vulto negro e triste senxergava;
Coberto do capote e do sombrero,
O rosto macilento só mostrava...
Mas dalgum raio ao brilho repentino
Conhecereis — Jorge — o libertino —
Que fazes, Jorge, a estas horas mortas?
A noite está tristonha e friorenta;
Vai aquecer da prostituta ao colo
De libertino a fronte macilenta.
Vai escaldar esta alma morta e fria
Aos beijos do cognac quincendia.
Vai... Quando a alma senjoa deste mundo
Sempre descrente, acerbo dironia,
O cognac nos dá formosos mundos,
Castelos encantados de poesia.
E entre um gol de cognac e uma fumaça
Em ditoso delírio a vida passa.
Mas Jorge está mais lúgubre e sombrio
Que o mármore dum túmlo mais calado,
Parece o seu olhar mais turvo e frio,
O sulco do sobrolho mais cavado...
Ai! Jorge... Vais unir ao libertino
A covardia infame do assassino...
E ele pouco esperou. Saudoso canto,
Que suspirava ao longe, aproximou-se,
E o canto era mais terno e mais sentido
Quo último som do cisne que finou-se;
Era um canto em que atroz pressentimento
Segredava ao mancebo o passamento.
Um momento depois um grito agudo
Triste uniu-se da noite à voz sombria...
Foi um grito somente e após ouviu-se
O convulso estertor de umagonia...
A noite se estendeu como um sudário
Do cantor sobre o leito funerário.
Somente após à fulva luz de um raio
Veríeis uma virgem linda e nua...
Tremia de terror, ouvira o grito...
Stava pálida e branca como a lua,
E quando viu o amante — de amargura
Tornou-se a estátua pasma da loucura.
III
A LOUCA
Laura, onde vais? Sozinha a tais desoras
O vento há de gelar-te a branca pele.
Como tremes convulsa, e que sorriso!
Que chamas teu olhar ardente expele!
Laura, onde vais! Os pés nus, delicados,
Não maltrates nos seixos orvalhados.
Mulher, a quem procuras a estas horas?
Donzela, porque sais tão alta noite?
Não vês como aparecem mil fantasmas?
Não sentes da geada o frio açoite?
E das aves da noite o triste pio
Não faz por ti correr um calafrio? ...
E ela seguia muda e taciturna,
Nas rochas machucando o pé divino.
Parecia sonâmbula perdida,
Autômato a seguir o seu destino.
Arfava o peito em ânsias ofegante,
Seu olhar era fixo e fascinante.
E seguia... e seguia... e nem ao menos
Parava um só momento no caminho;
Não sentia rasgarem-se-lhe as vestes
De incultos ervaçais no duro espinho.
O gênio da vingança é que a impelia...
Como o Judeu errante ela seguia...
............................................
IV
A ENTREVISTA NO TÚMULO
Era um triste lugar. Entre ciprestes,
Que a custo balançavam a ramagem,
Onde só pra gemer tristes endechas
Passava regelada e fria a aragem,
Num esquife entreaberto está deitado
Um cadáver de moço abandonado.
E entregue às intempéries... sem amigos
Sem ter quem vá ali chorar um pranto.
Tu, que cantaste os sentimentos puros,
Quencontraste no mundo um doce encanto,
Tu dormes, sonhador, já macilento,
Entregue aos vermes vis, posto ao relento.
E esta fronte onde o gênio se inflamava,
Donde brotava ardente a poesia,
E os lábios que disseram sons cadentes,
Que ensinava-te alegre a fantasia,
São hoje como a lâmpada sem lume, —
Harpa sem cordas, — flores sem perfume.
Ninguém vem te chorar. Não, dentre as sombras
Uma sombra passou branca e ligeira,
Os ramos do arvoredo estremeceram,
Espantada voou a ave agoureira...
Quem perturba esta lúgubre morada?
Uma mulher... É Laura, a apaixonada.
E ela chegou-se rindo e soluçando
Cum rir entre medonho e entre formoso,
Seus lábios tressuavam de ironia
Ao mesmo tempo de inocente gozo.
Junto ao verde cadáver ajoelhou
E com os lábios ardentes o beijou.
Depois sentou-se triste junto ao esquife
E as passadas cantigas recordando,
Nos dedos frios, trêmulos, nervosos,
Cos cabelos do amante ia brincando;
Coa outra mão sobre o morto regelado
Pôs um longo punhal ensangüentado.
"Durmamos, disse ela, é meu amante!
Não vês? Eu tenho as mãos ensangüentadas.
Este sangue é de Jorge, é do assassino,
Durmamos: tuas cinzas stão vingadas".
... Então beijou-o louca em devaneio
E recostou-lhe a fronte no seu seio...
............................................
V
OS DOIS CADÁVERES
E depois quando a aurora ergueu-se linda,
Viu a louca a embalar no seio o amante,
Cantando mil cantigas e o beijando
Sempre amorosa, triste e delirante...
Mas a lua coos raios desmaiados
Viu dois mortos unidos, abraçados ...
I
O RENDEZ-VOUS
ERA UMA NOITE perfumada e lânguida.
Contava a brisa amores à folhagem.
Da lua num olhar voluptuoso
Envolvia-se cândida paisagem.
Quais lágrimas do céu, brancos orvalhos
Trementes penduravam-se dos galhos.
E as flores suspiravam molemente
Da brisa ao receber os doces beijos.
E o mar batia túmido nas praias
Qual seio de donzela a arfar desejos.
E nuvens lá no céu brancas passavam,
Como garças formosas que adejavam.
Quebrando a solidão longínquo canto
Trouxe a brisa de terno bandolim,
Voluptuoso, ardente e delicado,
Como dharpa de etéreo serafim.
E o canto — todo amores — todo gozo —
Ia ecoando belo e languoroso.
Era Joseph — o trovador ardente,
Que o silêncio da noite perturbava.
Era o bardo formoso, apaixonado
Que a Andaluza fogosa fascinava.
Pálido o rosto, negro o seu cabelo,
Olhar cheio de luz... Ele era belo.
Depois calou-se a voz... Como essas fadas
Que à noite, quando voa a fantasia,
Vemos, sentimos belas, vaporosas,
— Anjos que o ideal somente cria; —
Tal ou mais linda, abrindo uma janela,
Surge uma virgem fascinante e bela.
Era um rosto formoso de madona,
Voava-lhe a madeixa destrançada.
E o seio que tremia, — pelas rendas
A lua olhava louca, apaixonada.
Tinha um pé que invejara uma criança.
Bem feliz quem ao peito lhe descansa!...
Depois uns lábios férvidos se uniram
Entre beijos dois nomes se escutaram...
Dois nomes e mil beijos amorosos
Nos lábios as palavras encerraram...
Dois nomes em que a vida toda sia...
Dois poemas de santa poesia...
E a porta após rodou por sobre os quícios,
E a murmurar deixou passar o amante...
Somente um temo e lânguido suspiro
Ouvi trazer a brisa sussurrante...
E a lua então num lânguido desmaio
Ciumenta lançou o último raio...
II
O ASSASSINO
Uma noite era negro firmamento,
Monótona caía fria chuva,
E a terra envolta em véu de densas trevas
Parecia chorosa uma viúva;
Só as aves da noite regeladas
Gritando se escondiam nas moradas.
Trazia o vento o silvo da rajada
Que lúgubre zunia nos pinheiros,
Trazia gritos pávidos, medrosos,
Talvez dalguns perdidos caminheiros,
E no embate co’a branca penedia,
O mar sinistro e tétrico rugia.
De um lampião à luz incerta e vaga
Um vulto negro e triste senxergava;
Coberto do capote e do sombrero,
O rosto macilento só mostrava...
Mas dalgum raio ao brilho repentino
Conhecereis — Jorge — o libertino —
Que fazes, Jorge, a estas horas mortas?
A noite está tristonha e friorenta;
Vai aquecer da prostituta ao colo
De libertino a fronte macilenta.
Vai escaldar esta alma morta e fria
Aos beijos do cognac quincendia.
Vai... Quando a alma senjoa deste mundo
Sempre descrente, acerbo dironia,
O cognac nos dá formosos mundos,
Castelos encantados de poesia.
E entre um gol de cognac e uma fumaça
Em ditoso delírio a vida passa.
Mas Jorge está mais lúgubre e sombrio
Que o mármore dum túmlo mais calado,
Parece o seu olhar mais turvo e frio,
O sulco do sobrolho mais cavado...
Ai! Jorge... Vais unir ao libertino
A covardia infame do assassino...
E ele pouco esperou. Saudoso canto,
Que suspirava ao longe, aproximou-se,
E o canto era mais terno e mais sentido
Quo último som do cisne que finou-se;
Era um canto em que atroz pressentimento
Segredava ao mancebo o passamento.
Um momento depois um grito agudo
Triste uniu-se da noite à voz sombria...
Foi um grito somente e após ouviu-se
O convulso estertor de umagonia...
A noite se estendeu como um sudário
Do cantor sobre o leito funerário.
Somente após à fulva luz de um raio
Veríeis uma virgem linda e nua...
Tremia de terror, ouvira o grito...
Stava pálida e branca como a lua,
E quando viu o amante — de amargura
Tornou-se a estátua pasma da loucura.
III
A LOUCA
Laura, onde vais? Sozinha a tais desoras
O vento há de gelar-te a branca pele.
Como tremes convulsa, e que sorriso!
Que chamas teu olhar ardente expele!
Laura, onde vais! Os pés nus, delicados,
Não maltrates nos seixos orvalhados.
Mulher, a quem procuras a estas horas?
Donzela, porque sais tão alta noite?
Não vês como aparecem mil fantasmas?
Não sentes da geada o frio açoite?
E das aves da noite o triste pio
Não faz por ti correr um calafrio? ...
E ela seguia muda e taciturna,
Nas rochas machucando o pé divino.
Parecia sonâmbula perdida,
Autômato a seguir o seu destino.
Arfava o peito em ânsias ofegante,
Seu olhar era fixo e fascinante.
E seguia... e seguia... e nem ao menos
Parava um só momento no caminho;
Não sentia rasgarem-se-lhe as vestes
De incultos ervaçais no duro espinho.
O gênio da vingança é que a impelia...
Como o Judeu errante ela seguia...
............................................
IV
A ENTREVISTA NO TÚMULO
Era um triste lugar. Entre ciprestes,
Que a custo balançavam a ramagem,
Onde só pra gemer tristes endechas
Passava regelada e fria a aragem,
Num esquife entreaberto está deitado
Um cadáver de moço abandonado.
E entregue às intempéries... sem amigos
Sem ter quem vá ali chorar um pranto.
Tu, que cantaste os sentimentos puros,
Quencontraste no mundo um doce encanto,
Tu dormes, sonhador, já macilento,
Entregue aos vermes vis, posto ao relento.
E esta fronte onde o gênio se inflamava,
Donde brotava ardente a poesia,
E os lábios que disseram sons cadentes,
Que ensinava-te alegre a fantasia,
São hoje como a lâmpada sem lume, —
Harpa sem cordas, — flores sem perfume.
Ninguém vem te chorar. Não, dentre as sombras
Uma sombra passou branca e ligeira,
Os ramos do arvoredo estremeceram,
Espantada voou a ave agoureira...
Quem perturba esta lúgubre morada?
Uma mulher... É Laura, a apaixonada.
E ela chegou-se rindo e soluçando
Cum rir entre medonho e entre formoso,
Seus lábios tressuavam de ironia
Ao mesmo tempo de inocente gozo.
Junto ao verde cadáver ajoelhou
E com os lábios ardentes o beijou.
Depois sentou-se triste junto ao esquife
E as passadas cantigas recordando,
Nos dedos frios, trêmulos, nervosos,
Cos cabelos do amante ia brincando;
Coa outra mão sobre o morto regelado
Pôs um longo punhal ensangüentado.
"Durmamos, disse ela, é meu amante!
Não vês? Eu tenho as mãos ensangüentadas.
Este sangue é de Jorge, é do assassino,
Durmamos: tuas cinzas stão vingadas".
... Então beijou-o louca em devaneio
E recostou-lhe a fronte no seu seio...
............................................
V
OS DOIS CADÁVERES
E depois quando a aurora ergueu-se linda,
Viu a louca a embalar no seio o amante,
Cantando mil cantigas e o beijando
Sempre amorosa, triste e delirante...
Mas a lua coos raios desmaiados
Viu dois mortos unidos, abraçados ...
3 147
Clodoveu A. de Almeida
Vênus
Tu já enlouqueceste
Santo Antão e Pasteur.
Foi apenas com
teu corpo de mulher.
és o inferno e o céu também
Num conjunto escultural.
és a pureza, é o bem, junto ao vício universal!
Tu tens harmonia
e sonância e cadência
tens tantas coleações
de um piton oriental
Que és o ponto nau da grande intercedência
das estéticas leis diabólicas do mal!
és o incógnito Avatar,
a crispação da fera,
a luz do rosicler.
E gritam gênios ao pálido luar,
mulher! mulher! mulher1
Um dia cairás sob o meu braço ileso
qual Nero, eu tornarei o mundo inteiro aceso,
com um lança-chamas abrasado, em riste,
para mostrar ao universo em pêso,
que a felicidade sôbre a terra existe!
E na piramidal orgia desvairada
bradará comigo o cosmos a "una voce"
que tão somente a cinza universal do nada
suporta ser a glória eterna desta posse!
Santo Antão e Pasteur.
Foi apenas com
teu corpo de mulher.
és o inferno e o céu também
Num conjunto escultural.
és a pureza, é o bem, junto ao vício universal!
Tu tens harmonia
e sonância e cadência
tens tantas coleações
de um piton oriental
Que és o ponto nau da grande intercedência
das estéticas leis diabólicas do mal!
és o incógnito Avatar,
a crispação da fera,
a luz do rosicler.
E gritam gênios ao pálido luar,
mulher! mulher! mulher1
Um dia cairás sob o meu braço ileso
qual Nero, eu tornarei o mundo inteiro aceso,
com um lança-chamas abrasado, em riste,
para mostrar ao universo em pêso,
que a felicidade sôbre a terra existe!
E na piramidal orgia desvairada
bradará comigo o cosmos a "una voce"
que tão somente a cinza universal do nada
suporta ser a glória eterna desta posse!
835
Casimiro de Brito
46
A guerra dos homens não inibiu
As cores do arco-íris: O mundo está pois
No seu caminho, no campo raso onde respiram
Os insetos silenciosos da morte. Os homens
Deslizam insaciáveis com o desejo
Virado para o céu. O corpo está pois
No bom caminho: A boca na terra
De quem vive apenas
Este momento.
As cores do arco-íris: O mundo está pois
No seu caminho, no campo raso onde respiram
Os insetos silenciosos da morte. Os homens
Deslizam insaciáveis com o desejo
Virado para o céu. O corpo está pois
No bom caminho: A boca na terra
De quem vive apenas
Este momento.
1 624
Bastos Portela
Do Nosso Livro
I
Quando acaso, divina, se levanta
Para mim, teu olhar meio e profundo,
Eu penso que outro olhar que tenha tanta
Beleza assim, não haja neste mundo!
Outras vezes com as santas te confundo...
E juro que esse olhar que me quebranta,
Foi, por capricho, feito assim segundo
O modelo do olhar de alguma santa!
Ai! nem sei te dizer como é divino
Esse olhar de celeste e doce encanto
Em que vejo luzir o meu destino...
- Esse olhar ideal de ardentes lumes,
Que eu odeio, maldigo, e adoro tanto
Na confusão do amor e dos ciúmes!
II
Vês?... eu não posso te fitar!... Entanto,
Muitas vezes nos teus meus olhos fito;
Pois nunca vi olhar assim maldito
Que me encantasse e me atraísse tanto!
Fujo-te, as vezes, com rancor; e, enquanto
De ti me esquivo e o teu olhar evito,
Blasfemo, e choro, e me lastimo, aflito,
Por te não ver, ó meu divino encanto...
E volto, enfim! Mas, se outra vez consigo
Fugir ao fogo desse olhar malvado,
Torno a chorar por te não ver comigo!
E vivo assim nesse penas eterno,
- Desse modo vencido e dominado
Por esse amor que mais parece um inferno!
Quando acaso, divina, se levanta
Para mim, teu olhar meio e profundo,
Eu penso que outro olhar que tenha tanta
Beleza assim, não haja neste mundo!
Outras vezes com as santas te confundo...
E juro que esse olhar que me quebranta,
Foi, por capricho, feito assim segundo
O modelo do olhar de alguma santa!
Ai! nem sei te dizer como é divino
Esse olhar de celeste e doce encanto
Em que vejo luzir o meu destino...
- Esse olhar ideal de ardentes lumes,
Que eu odeio, maldigo, e adoro tanto
Na confusão do amor e dos ciúmes!
II
Vês?... eu não posso te fitar!... Entanto,
Muitas vezes nos teus meus olhos fito;
Pois nunca vi olhar assim maldito
Que me encantasse e me atraísse tanto!
Fujo-te, as vezes, com rancor; e, enquanto
De ti me esquivo e o teu olhar evito,
Blasfemo, e choro, e me lastimo, aflito,
Por te não ver, ó meu divino encanto...
E volto, enfim! Mas, se outra vez consigo
Fugir ao fogo desse olhar malvado,
Torno a chorar por te não ver comigo!
E vivo assim nesse penas eterno,
- Desse modo vencido e dominado
Por esse amor que mais parece um inferno!
864
Birão Santana
Medidas Oficiais
As Medidas Oficiais
para debelar:
fome,
desemprego,
violência,
esbarraram
nas Medidas Oficiais
para gerar:
fome
desemprego
violência.
para debelar:
fome,
desemprego,
violência,
esbarraram
nas Medidas Oficiais
para gerar:
fome
desemprego
violência.
879
Tamara Baroni
Cobiça
O ventre morbido
frémito na garganta
nos olhos em relampagos
fogos cintilam as facas e
eu, confundida de medo, alegria,
ainda de vida..., conheço a cobiça
entendo o aperto do corpo meu
cumplice, amigo. Não posso.
Em lava de ardente flash back
me abro a torrentes celestes:
te quero.Não devo. Me tenta mais
o desejo que o fato. O sexo
que me queima: te quero. Te agarro. Não
posso... que absurdo! Jogamos entre
nós un jogo de olhos. Tua pele
me tenta. Me tenta
o respiro. Me dobro ao desejo
ao violento sabor meu novo
mestre de amor mais novo
meu cúmplice amigo.
frémito na garganta
nos olhos em relampagos
fogos cintilam as facas e
eu, confundida de medo, alegria,
ainda de vida..., conheço a cobiça
entendo o aperto do corpo meu
cumplice, amigo. Não posso.
Em lava de ardente flash back
me abro a torrentes celestes:
te quero.Não devo. Me tenta mais
o desejo que o fato. O sexo
que me queima: te quero. Te agarro. Não
posso... que absurdo! Jogamos entre
nós un jogo de olhos. Tua pele
me tenta. Me tenta
o respiro. Me dobro ao desejo
ao violento sabor meu novo
mestre de amor mais novo
meu cúmplice amigo.
683
Anderson Braga Horta
Fragmentos da Paixão
I
Certo dia, no meio do caminho
que me arrastava os pés no Templo alado,
deparei junto a mim o burburinho
de um turbilhão de seres extasiado
ante a férrea, magnética presença
de alta torre de vidro. Fascinado
pelo esplendor da aparição imensa
— sombrio resplandor de negra opala —
também eu, que ao cantochão da descrença
me embalava, já cansado, já farto
de
de arrastar pelo Planeta os andrajos
de minha solidão, entrei cantando
no torvelim das almas que em ciranda,
ébrias, descendo, trêmulas, em bando,
iam o adro da Torre demandando.
Ali paramos ante os negros vidros.
Abriram-se-nos portas densamente aliciantes.
Envolvia-nos algo como um olhar pegajoso
de hipnose. Dançando ainda, entramos
nos amplos elevadores. Apertamos
os botões para o último andar. E lentamente
fomos descendo.
II
Apagaram-se os sóis. Ficamos sabendo,
sem que voz o dissesse, que a alegria
era infração à Norma. Mas autônoma,
senhora de nossos corpos, prosseguia-se a dança,
e era música o contínuo terror, o temor expectante em
que nos fizéramos,
regente atra Presença,
opressão de pressentida Espreita rapinante no escuro,
surda Vibração de ala implume.
Lá fora o claro dia era um sonho remoto.
Nas trevas, no pavor, Suas invisíveis milícias,
Seus ocultos exércitos
espancavam a multidão em fuga para Nenhures.
Esquecidos na entrada os amuletos!
Total desamparo! Começava
o sem-sentido, o sem-nexo,
o mergulho real.
Eu me apagava.
III
E de repente estava só de novo,
e descia. Meus andrajos de púrpura cintilavam
torvamente. E descia.
Entre seis paredes de ar pesado,
corte vertical na rocha,
solitário descia.
Os muros me estreitavam. Eu me espessava.
E descia.
IV
Oh solidão da vida!
Oh solidão da morte!
Oh solidão amarga!
Nas paredes da rocha em descendente fuga,
vou escandindo
às pedrarias abissais, de faiscações inversas
— invertida luz, caliginosa
luz, antiluz
que só o negror desvela —,
as sílabas terríveis
do terrível grafito.
Oh! Que esperança para a humana raça
não é por estes subterrâneos astros!
V
Na Planície sinistra
cuja monotonia apenas quebra
um torvo rio, de mim mesmo apeio-me.
A atra, oculta Presença
comigo se confunde.
E solene olho em torno os meus domínios.
Glebas de solidão.
Províncias de ódio.
Sesmarias de escuro.
Céus tombados.
Sombra. Medo. Pavor. Angústia. Inferno.
E em meu Domínio eis-me senhor escravo.
Aniquila-me, ó Deus! Antes o Nada
que a privação do Sonho e da Esperança!
VI
E as falsas ascensões!... Elevadores que parecem subir
mas não chegam, não se abrem, ou sobem no vazio,
ou param ameaçadores, ou se escancaram sobre estruturas
instáveis, e despencam para um poço que tarda,
para um fim que não vem, que não vem, que não vem!
VII
Mas num relâmpago,
fugitiva fração do escoar da areia,
descuido do Diabo, após milênios,
de milênios de abismo,
de um infinito negar do clarão, da centelha,
eis que, de abscônditas
nebulosas em flor desabrochada estrela,
estrela de beleza, do mistério
de ser o homem uma luz que tenta brilhar,
a Tua Face, ó Deus, lúcida Se revela!
Já não me desespera,
vislumbrado o Teu sol, Senhor, se agora,
em vez da redenção, ainda me espera
o surdo recomeça
da negra eternidade.
Daqui, do mais profundo deste inferno,
fadado ao Teu Amor,
sonho-te, ó Deus, essência cristalina.
E sei que alfim, ao fim da Eternidade,
ascendo a Ti, ascendo a Ti, Senhor!
Certo dia, no meio do caminho
que me arrastava os pés no Templo alado,
deparei junto a mim o burburinho
de um turbilhão de seres extasiado
ante a férrea, magnética presença
de alta torre de vidro. Fascinado
pelo esplendor da aparição imensa
— sombrio resplandor de negra opala —
também eu, que ao cantochão da descrença
me embalava, já cansado, já farto
de
de arrastar pelo Planeta os andrajos
de minha solidão, entrei cantando
no torvelim das almas que em ciranda,
ébrias, descendo, trêmulas, em bando,
iam o adro da Torre demandando.
Ali paramos ante os negros vidros.
Abriram-se-nos portas densamente aliciantes.
Envolvia-nos algo como um olhar pegajoso
de hipnose. Dançando ainda, entramos
nos amplos elevadores. Apertamos
os botões para o último andar. E lentamente
fomos descendo.
II
Apagaram-se os sóis. Ficamos sabendo,
sem que voz o dissesse, que a alegria
era infração à Norma. Mas autônoma,
senhora de nossos corpos, prosseguia-se a dança,
e era música o contínuo terror, o temor expectante em
que nos fizéramos,
regente atra Presença,
opressão de pressentida Espreita rapinante no escuro,
surda Vibração de ala implume.
Lá fora o claro dia era um sonho remoto.
Nas trevas, no pavor, Suas invisíveis milícias,
Seus ocultos exércitos
espancavam a multidão em fuga para Nenhures.
Esquecidos na entrada os amuletos!
Total desamparo! Começava
o sem-sentido, o sem-nexo,
o mergulho real.
Eu me apagava.
III
E de repente estava só de novo,
e descia. Meus andrajos de púrpura cintilavam
torvamente. E descia.
Entre seis paredes de ar pesado,
corte vertical na rocha,
solitário descia.
Os muros me estreitavam. Eu me espessava.
E descia.
IV
Oh solidão da vida!
Oh solidão da morte!
Oh solidão amarga!
Nas paredes da rocha em descendente fuga,
vou escandindo
às pedrarias abissais, de faiscações inversas
— invertida luz, caliginosa
luz, antiluz
que só o negror desvela —,
as sílabas terríveis
do terrível grafito.
Oh! Que esperança para a humana raça
não é por estes subterrâneos astros!
V
Na Planície sinistra
cuja monotonia apenas quebra
um torvo rio, de mim mesmo apeio-me.
A atra, oculta Presença
comigo se confunde.
E solene olho em torno os meus domínios.
Glebas de solidão.
Províncias de ódio.
Sesmarias de escuro.
Céus tombados.
Sombra. Medo. Pavor. Angústia. Inferno.
E em meu Domínio eis-me senhor escravo.
Aniquila-me, ó Deus! Antes o Nada
que a privação do Sonho e da Esperança!
VI
E as falsas ascensões!... Elevadores que parecem subir
mas não chegam, não se abrem, ou sobem no vazio,
ou param ameaçadores, ou se escancaram sobre estruturas
instáveis, e despencam para um poço que tarda,
para um fim que não vem, que não vem, que não vem!
VII
Mas num relâmpago,
fugitiva fração do escoar da areia,
descuido do Diabo, após milênios,
de milênios de abismo,
de um infinito negar do clarão, da centelha,
eis que, de abscônditas
nebulosas em flor desabrochada estrela,
estrela de beleza, do mistério
de ser o homem uma luz que tenta brilhar,
a Tua Face, ó Deus, lúcida Se revela!
Já não me desespera,
vislumbrado o Teu sol, Senhor, se agora,
em vez da redenção, ainda me espera
o surdo recomeça
da negra eternidade.
Daqui, do mais profundo deste inferno,
fadado ao Teu Amor,
sonho-te, ó Deus, essência cristalina.
E sei que alfim, ao fim da Eternidade,
ascendo a Ti, ascendo a Ti, Senhor!
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